Educação e Formação Cooperativa: a práxis da cooperativa ...  · identidade cooperativa,

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  • Captulo XIII - Educao e Formao Cooperativa: a prxis da cooperativa mista dos pequenos agricultores da Regio Sul (COOPAR)

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    Educao e Formao Cooperativa: a prxis da cooperativa mista dos

    pequenos agricultores da Regio Sul (COOPAR)

    PEGLOW, Karin42

    RESUMO

    Estudo de caso que sistematiza e analisa as aes e metodologia dos processos de educao e formao cooperativa, desenvolvidas pela Cooperativa Mista dos Pequenos Agricultores da Regio Sul (COOPAR), no mbito de municpios do Territrio Zona Sul. A prxis da cooperativa nos processos educativos apresentada a partir da caracterizao de trs perodos. O primeiro refere-se a etapa pr constituio da cooperativa, caracterizado por atividades de formao junto a grupos informais e associaes, formao de lideranas abordando aspectos e princpios de cooperao, bem como aes de cooperao experienciadas por estas organizaes no mbito da comercializao direta de seus produtos. O segundo perodo, do momento da fundao, em 1992 at 2000, onde ocorre a estruturao da cooperativa, nas primeiras trs gestes, com diferentes atividades de formao e educao cooperativa, voltada para associados e no associados, jovens, conselho administrativo e direo. O terceiro perodo, de 2000 at 2013, corresponde ao perodo de expanso da cooperativa, tanto do ponto de vista das suas atividades e estrutura, como do seu quadro de associados, que passa de 510 para 3008, com aes de educao cooperativa que vo se modificando medida que o quadro de associados aumenta. O artigo analisa os processos educativos caracterizados pela ao e reflexo, constituindo a prxis da COOPAR, ao longo da sua trajetria de vinte e um anos, evidenciando a importncia deste tema para sustentabilidade da cultura da cooperao. Palavras-chave: Educao e formao cooperativa. Processos educativos. Cultura da cooperao. Cooperativismo.

    ABSTRACT

    Case study that systematizes and analyzes the actions of the methodology and processes of education and training measures developed by the Cooperative of Small Farmers in the South (COOPAR) within the counties of the Territory South Zone Praxis cooperative educational processes is presented from the characterization of three periods. The first refers to the pre establishment of the cooperative, characterized by formation activities along with informal groups and associations, leadership training addressing aspects and principles of cooperation as well as cooperation actions "experienced" by these organizations within the direct marketing of its products. The second period, from the time of foundation in 1992 until 2000, which is the structure of the cooperative, the first three terms, with different training activities and cooperative education, focused on associated and non-associated youth board and direction. The third period, from 2000 to 2013 corresponds to the period of expansion of the cooperative, both from the point of 42 Enfermeira, Extensionista Rural Social da EMATER/RS-ASCAR, Especialista em Sade Mental

    Coletiva, e-mail: kpeglow@emater.tche.br.

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    view of its activities and structure, as its membership, going from 510 to 3008, with shares of cooperative education that will changing as the associated frame increases. The article analyzes the educational processes characterized by action and reflection, constituting the practice of COOPAR along the trajectory of twenty-one years old, highlighting the importance of this issue for sustainability culture of cooperation. Keywords: Education and training measures. Educational processes. Culture of cooperation. Cooperatives.

    1 INTRODUO

    A educao, informao e formao, representam o quinto princpio do

    cooperativismo e constituem um dos mecanismos fundamentais para atingir o

    desenvolvimento econmico e social das cooperativas. Desde o incio da

    constituio da primeira cooperativa, a Sociedade dos Probos Pioneiros de

    Rochdale, a prtica da educao cooperativa j existia e era tida como elemento

    fundamental para a mesma. Tinha a ideia de que a educao deveria ser parte

    integrante da cooperativa, e os associados deveriam crescer tambm no mbito do

    conhecimento. (SCHNEIDER, 2010).

    A Aliana Cooperativista Internacional define que o fomento da educao

    cooperativa torna possvel a observncia e a aplicao dos demais princpios

    cooperativistas. Por isto, a verdadeira educao cooperativista deve conter tanto a

    capacitao doutrinria quanto a prtica da cooperao. A promoo da educao

    cooperativa norma fundamental para a organizao e o funcionamento das

    organizaes cooperativas. (PASSOS, 2008).

    Para a efetivao deste princpio, a legislao43 determina a constituio do

    Fundo de Assistncia Tcnica Educacional e Social (FATES), que se destina

    prestao de assistncia aos associados, seus familiares e, quando previsto nos

    estatutos, aos empregados da cooperativa. constitudo de no mnimo 5% (cinco

    por cento) das sobras lquidas apuradas no exerccio, resultante do ato cooperativo.

    A educao cooperativista deve propor-se a construir e vivenciar atitudes e

    valores de cooperao e cidadania, por meio de prticas de educao cooperativa.

    43 Lei 5.764/71. Lei Federal que Define a Poltica Nacional de Cooperativismo, institui o regime

    jurdico das sociedades cooperativas, e d outras providncias. Em seu art. 28, inciso II trata do Fundo de Assistncia Tcnica, Educacional e Social, destinado a prestao de assistncia aos associados, seus familiares e, quando previsto nos estatutos, aos empregados da cooperativa, constitudo de 5% (cinco por cento), pelo menos, das sobras lquidas apuradas no exerccio.

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    Segundo Schneider (2010), a educao cooperativa voltada para aprofundar a

    identidade cooperativa, seu projeto de sociedade e economia e constitui sua viso

    sobre a dignidade da pessoa humana, seus valores, princpios e normas, seu estilo

    de vida e de trabalho que pretende construir, contribuindo para a elaborao de uma

    identidade comum entre os associados.

    Conforme o mesmo autor, os processos educacionais so formas diferentes

    de os seres humanos partirem do que so para aquilo que querem ser. Segundo ele,

    na viso freireana h duas modalidades de educao: a bancria, que torna as

    pessoas menos humanas, dominadas, onde algum depositrio do saber e outro

    recebe passivamente o saber, transmitido de cima para baixo. A outra modalidade,

    a libertadora, que leva o educador a estimular os educandos a serem

    protagonistas, sujeitos ativos e autnomos, solidrios, fazendo com que as pessoas

    deixem de ser o que so para serem conscientes mais livres e humanas.

    (SCHNEIDER, 2010, p. 29). Para o autor, a educao a compreenso ampliada de

    formao, envolvendo a cultura, os valores, as ideias, crenas e representaes

    coletivas. Conceitua educao cooperativa como um conjunto de ensinamentos que

    proporcionam no s um aporte cultural aos envolvidos, mas trabalham valores,

    princpios e normas, neste caso do cooperativismo, caracterizado por uma educao

    voltada ao desenvolvimento da pessoa humana, plenamente consciente do seu

    papel e de sua responsabilidade na cooperativa e consequentemente na sociedade.

    J a formao caracterizada por Schneider (2010), como um processo que

    engloba o desenvolvimento pessoal e o desempenho profissional das pessoas

    envolvidas, compreendendo um processo formativo como um sistema organizado

    no qual esto envolvidos tanto os sujeitos que se preparam para ser profissionais,

    quanto aqueles que j esto engajados na atividade profissional, envolvendo

    processos colaborativos constitudos por estratgias que facilitem a compreenso, o

    planejamento, a ao e reflexo conjunta acerca do que se pretende fazer e de que

    caminhos percorrer para alcanar os objetivos pretendidos, tendo como princpio a

    possibilidade de aperfeioamento das capacidades do indivduo.

    A relevncia do tema da educao e formao cooperativa est relacionada

    ao desafio da manuteno da identidade cooperativa, tendo em vista as complexas

    e rpidas mudanas scio culturais e econmicas advindas do processo de

    globalizao. Alm disso, o cooperativismo ainda visto por muitos como algo

    mascarado, relacionado a envolvimento poltico, sendo que os prprios associados

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    no conseguem conceituar o que uma cooperativa. (SCHNEIDER, 2010, p. 27).

    Na regio sul, Wojahn (1990) analisou diversas experincias de cooperativas que

    influenciaram negativamente a viso dos agricultores pela forma como foram

    constitudas e atuaram.

    O presente estudo pretendeu sistematizar e analisar o processo de educao

    e formao cooperativa, desenvolvido pela Cooperativa Mista dos Pequenos

    Agricultores da Regio Sul (COOPAR), desde o perodo que antecedeu e deu

    origem cooperativa, at o momento atual. Nesse sentido, pretendeu-se

    sistematizar as aes e metodologia utilizadas pela cooperativa, na formao do seu

    quadro de associados, nas diferentes etapas da sua trajetria, bem como identificar

    a percepo de dirigentes verificando quais os processos de formao existiram,

    como se modificaram e se persistiram ao longo dos 21 anos da cooperativa.

    A partir da