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1011Residncia na ateno bsica sadeem tempos lquidos

| 1 Elo Rossoni |

1 Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Faculdade de Educao, Faculdade de Odontologia, Departamento de Odontologia Preventiva e Social. Porto Alegre-RS, Brasil. Endereo eletrnico: rossonieloa@gmail.com

Recebido em: 29/04/2014Aprovado em: 23/04/2015

Resumo: A residncia multiprofissional na ateno bsica sade faz parte de uma rede de formao na rea da educao e sade no Brasil que tem sido ampliada na ltima dcada. A formao dentro de servios de sade tem como objetivo preparar profissionais para atuao no Sistema nico de Sade. Este artigo analisa como trabalhadores/as e residentes vivenciavam os processos educativos no Programa de Residncia Integrada em Sade: Ateno Bsica em Sade Coletiva, desenvolvido em unidades bsicas de sade pertencentes, at 2009, ao Centro de Sade-Escola Murialdo e vinculado Escola de Sade Pblica do Rio Grande do Sul. Trata-se de uma investigao qualitativa com aporte nos estudos culturais em aproximao com a etnografia ps-moderna. O trabalho de campo foi desenvolvido de maro de 2007 a abril de 2008, e o material emprico incluiu documentos pedaggicos e administrativos institucionais, legislao dos programas de residncia, relatrios de residentes, observao das equipes e entrevistas com trabalhadores de sade. Para refletir sobre as limitaes e as possibilidades desta formao, foram utilizados, especialmente, os escritos de Bauman acerca das caractersticas culturais da modernidade lquida, pois o contexto era marcado pela provisoriedade e pela incerteza, o que produzia potencialidades e vulnerabilidades no programa de residncia.

Palavras-chave: ateno primria sade; residncia; trabalho em equipe; modernidade lquida; Estudos Culturais.

DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S0103-73312015000300017

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Como tudo comeouO processo investigativo que originou este artigo resultou de algumas inquietaes

pedaggicas e polticas em relao ao Programa de Residncia Integrada em

Sade: Ateno Bsica em Sade Coletiva, desenvolvido no Centro de Sade-

Escola Murialdo e vinculado Escola de Sade Pblica do Rio Grande do

Sul (ESP-RS). Inclua-se nessas inquietaes se a maneira como as condies

pedaggicas oferecidas nos servios, onde a formao multiprofissional ocorria,

estavam dando conta de cumprir o compromisso poltico de preparar profissionais

para atuarem em nosso sistema de sade.

Aproximar-se do cotidiano das equipes das unidades bsicas de sade (UBS)

poderia ser uma forma de resolver essas inquietaes, at porque o Centro de

Sade-Escola Murialdo vivia situaes conflitantes no cenrio poltico que

implicavam a organizao das equipes e repercutiam no programa de residncia.

Como prope Michel Foucault (1998, p. 13): existem momentos na vida onde

a questo de saber se podemos pensar diferentemente do que se pensa, e perceber

diferentemente do que se v indispensvel para continuar a olhar ou a refletir.

O objetivo do programa de residncia formar profissionais de sade para

o planejamento, a gesto e a clnica da ateno bsica, atravs do trabalho

em equipe multiprofissional com vistas integralidade da ateno em sade,

conforme explicitado no planejamento pedaggico elaborado em 2000, quando

foi retomada a formao multiprofissional vinculada ESP-RS (ROSSONI et

al., 1999; ROSSONI; FARIAS, 2002).

A histria do Murialdo como centro formador data dos anos 1970.

O pioneirismo na implantao do Sistema de Sade Comunitria e dos

programas de residncia mdica e multiprofissional distinguiu a instituio no

cenrio nacional, como rgo formador na rea de ateno primria sade

(BUSNELLO, 1976; FALK, 1999; SILVA, 2002). A formao multiprofissional

ps-graduada iniciou-se em 1978 portanto, uma dcada antes da promulgao

da Constituio Federal de 1988, que instituiu o Sistema nico de Sade (SUS).

Em 1976 era desenvolvido, no local, o Programa de Residncia em Medicina

Geral Comunitria, denominado atualmente Programa de Residncia em

Medicina de Famlia e Comunidade (BRASIL, 2002a). Estes acontecimentos

coincidem internacionalmente com a Conferncia de Alma-Ata, que discutiu os

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princpios da Ateno Primria Sade (APS). Alguns desses princpios foram

incorporados na assistncia e na formao em sade naquela poca. No pas,

tambm se iniciava o Movimento pela Reforma Sanitria, que redundou na

criao do SUS na dcada de 80. Esses acontecimentos nacionais e internacionais

articulavam-se em torno de objetivos comuns, que eram ampliar o acesso sade

e modificar o modelo de ateno, num contexto em que as agncias internacionais

impunham racionalizao do financiamento atravs de proposta de APS seletiva.

Na dcada de 90, para a implementao da descentralizao da sade um

dos princpios do SUS ocorreram redirecionamentos nas formas de atuao

das diversas esferas de gesto do sistema de sade, cabendo ao gestor municipal

a assistncia sade local. Em 1996, quando ocorreu a municipalizao da

sade em Porto Alegre, as UBS de responsabilidade da Secretaria Estadual da

Sade do Rio Grande do Sul (SES-RS) passaram para a Secretaria Municipal

de Sade (SMS), com exceo da Unidade Sanitria So Jos do Murialdo. A

instituio reconhecida como importante local de ensino deixou de pertencer

1 Coordenadoria de Sade e reforou seu vnculo com a ESP-RS, permanecendo

sob a administrao estadual, a fim de qualificar os processos de formao em

servio que desenvolvia (SILVA, 2002).

Desde ento e at 2009, a municipalizao das UBS pertencentes ao Murialdo

foi assunto recorrente nas pautas do Conselho Distrital do Partenon e do Conselho

Municipal de Sade de Porto Alegre, bem como na agenda de diferentes gestes

partidrias. O fato de as UBS estarem vinculadas gesto estadual passou a ser

uma das justificativas do gestor municipal para a no ampliao de servios de

sade na regio. Como a gesto estadual investiu precariamente nas estruturas

fsicas das UBS, tornou-se difcil a manuteno da qualidade dos servios

oferecidos frente demanda da populao e necessidade de ampliao da rede

de ateno bsica.

Em 2007, o Murialdo prestava assistncia a uma populao geograficamente

adstrita de cerca de 50 mil habitantes, na zona leste de Porto Alegre. Possua

uma unidade central e sete UBS que estavam distribudas nas vilas Campo da

Tuca, Vargas, So Judas Tadeu, So Miguel, Joo Pessoa e duas no Morro da

Cruz, localizadas na gerncia distrital de sade Partenon-Lomba do Pinheiro.

As equipes multiprofissionais das UBS desenvolviam trabalho de assistncia

populao e ensino de residentes e estagirios de graduao.

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Ao longo dos anos, diversos conflitos de interesse e a presso de vrias foras

polticas, corporativas e culturais determinaram diversas conformaes no

ensino da residncia. Entre elas, destacam-se: o tempo de durao da formao

multiprofissional, que variou de um a trs anos; as alteraes na denominao

do programa (estgio, treinamento ou aperfeioamento especializado) e a

interrupo da formao multiprofissional. Cabe ressaltar que a Residncia

em Medicina de Famlia e Comunidade no foi afetada de igual modo e teve

continuidade durante o mesmo perodo.

A residncia multiprofissional sofreu interrupo nos perodos de 1986-

1987, em 1989-1990 e em 1996-1999, em funo de diferentes conjunturas

da gesto estadual de sade. Essa suspenso ocorreu tanto devido ausncia

de reconhecimento e valorizao das profisses, quanto em decorrncia da

diminuio do valor da bolsa de residentes das diversas profisses em relao

bolsa de residentes da Medicina, como em 1991, quando foi assinado o Decreto

n 34.143 pelo governador da poca (RIO GRANDE DO SUL, 1991). Esse

fato s foi contornado em 2002, quando foi institudo o programa de bolsas

de estudo para o Programa da Residncia Integrada em Sade (RIS) com

valor igualitrio para todas as profisses, atravs da Lei n 11.789/2002 (RIO

GRANDE DO SUL, 2002a).

De 2000 a 2011, o Murialdo foi local credenciado junto ESP-RS para o

desenvolvimento do Programa de Residncia Integrada em Sade: Ateno

Bsica em Sade Coletiva, e era campo de estgio para as outras trs nfases do

Programa da RIS: Sade Mental Coletiva, Dermatologia Sanitria e Pneumologia

Sanitria (CECCIM; ARMANI, 2001).

Alm disso, a finalidade dessa formao atender s necessidades de

preparo de profissionais para atuao no SUS e, portanto, seus princpios

devem ser contemplados. Devido a essas indagaes, o percurso escolhido foi o

acompanhamento da formao e do trabalho das equipes das unidades bsicas de

sade que eram cenrios de ensino da residncia. Algumas questes mobilizaram

este percurso, entre elas: como preceptores e residentes vivenciam esses processos

de formao no cotidiano das Unidades Bsicas de Sade e que desafios se