Enciclopédia do desenvolvimento sustentá ?· Enciclopédia do desenvolvimento ... onde a biodiversidade…

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  • Enciclopdia do desenvolvimento sustentvel

    Contribuio ao debate sobre o papel da inovao em medicamentos a partir da biodiversidade.

    Autores

    Glauco de Kruse Villas Bas - Doutor em Cincias da Sade Pblica. Coordenador do Ncleo de Gesto da Biodiversidade e Sade/NGBS, de Farmanguinhos/Fundao Oswaldo Cruz/FIOCRUZ, Rio de Janeiro. Principal articulador da Fundao Oswaldo Cruz/Ministrio da Sade. Membro do Grupo de pesquisa sobre polticas e gesto do desenvolvimento de fitomedicamentos do Conselho Nacional de Pesquisa do Brasil/CNPq.

    Christiane Gilon - Doutora em Sociologia. Socianalista do Centro de Anlise das Prticas Profissionais/CAPP. Especialista em Pesquisa-ao e em redes de inovao. Professora pesquisadora do Laboratrio Experice - Educao ao longo da vida/ETLV do Departamento de Cincia da Educao, Universidade Paris8, Saint Denis, Frana.

    Resumo No momento em que todos os pases comprometem-se com os acordos internacionais como uma forma de controlar as alteraes climticas, espera-se que as polticas de cincia, tecnologia e inovao sejam na verdade a ponta do desenvolvimento sustentvel. Apresentamos aqui uma breve contribuio da rede de inovao em medicamentos da biodiversidade. As inovaes da RedesFito nascem nos espaos dos Arranjos Eco-produtivos locais que se situam nos principais biomas brasileiros reunindo a cadeia de produo, organizada em rede visando discutir com os atores e colocar em prtica seus projetos situados na perspectiva agroecolgica.

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  • Introduo Neste contexto complexo de sucessivas crises econmicas e diante do agravamento da crise climtica e, considerando a inovao como a chave do desenvolvimento, algumas questes nos so colocadas: Que tipo de inovao poderia hoje induzir s mudanas, luz do novo paradigma verde? Quais so as cincias, tecnologias, inovaes e prxis so necessrias para defender uma economia sustentvel neste novo paradigma? Em resposta a essas questes apresentamos uma contribuio da rede de produo de medicamentos base de plantas da biodiversidade brasileira/- RedesFito. Todavia, antes de apresentar a RedesFito, preciso descrever todo o movimento das redes num percurso histrico do desenvolvimento sustentvel. Quarenta e trs anos aps a Conferncia das Naes Unidas em Estocolmo e vinte e trs anos aps o Eco-1992, no Rio de Janeiro, gostaria de situar os atores desta pesquisa-ao nesse contexto. O documento final da Conferncia da Rio+20 descreve uma viso comum do futuro que queremos. Tem por objetivo estabelecer as diretrizes para as polticas de desenvolvimento sustentvel, a partir do direito internacional que destaca: a soberania nacional dos recursos naturais e o meio ambiente favorvel entre as instituies governamentais e a sociedade civil; o crescimento econmico sustentvel; o encorajamento da inovao reduzindo a dependncia tecnolgica nos pases em desenvolvimento; a garantia da sade e das melhores condies de vida; a luta contra as desigualdades sociais; a proteo do conhecimento tradicional e cultural; o investimento na capacitao de grupos pobres e vulnerveis; a incluso social, a promoo do consumo e a produo sustentvel. Ao mesmo tempo, a perspectiva de uma economia verde surge no novo panorama desenhado pela globalizao.

    Desde a introduo da noo de sustentabilidade ocorrida no debate internacional, as discusses semnticas sobre o uso de termos como desenvolvimento, crescimento e progresso revelam uma tenso entre os diferentes grupos de interesse (Villas Bas, 2013). Essa tenso aumenta medida que o conhecimento - considerado como um bem comum e a informao so utilizados para fins privados. Para muitos, o crescimento, e no o progresso ou evoluo essencial para uma economia mundial. Mas para outros, seria possvel alcanar um equilbrio e bem-estar geral, sem um movimento permanente de crescimento gerador de uma poluio continua (Daly, 1997). As solues tecnolgicas para os problemas dos meios ambientes devem resolver esta equao diante das ameaas climticas desordenadas que figuram no quarto relatrio de mudanas climticas (GIEC, 2007). Em 2012, aps a Conferncia das Naes Unidas Rio + 20, e hoje, aps a COP 21, a evidncia da acelerao da mudana climtica impe aos governos a questo do desenvolvimento sustentvel, criando uma enorme expectativa de adoo de medidas concretas nos programas das naes, em favor do futuro que queremos.

    Neste momento atual de mudanas vertiginosas, a elaborao das polticas de cincia, tecnologia e inovao requer um alargamento de seu alcance, em particular, onde a biodiversidade est em jogo e como ela vista como um desafio central...O desafio da ONU sobre a economia verde coloca na realidade o desafio da transio para a economia baseada no desenvolvimento sustentvel. Esta transio pode ser analisada sob diferentes abordagens da economia.

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  • A primeira a liberal (neoclssica) hegemnica com o mercado em perfeito equilbrio para encontrar as solues.

    A segunda, neoclssica, mais sensvel s questes ambientais, apoiada sob um sistema de taxas, impostos para compensar a externalidade negativa, a poluio. De acordo com Ignacy Sachs (2012), uma economia verde somente tem sentido se ela for ligada ao bem estar do conjunto da sociedade. O autor no acredita na mo invisvel de Adam Smith; na realidade, o livre jogo das foras do mercado invisvel aos problemas sociais. Diante da urgncia de mudar as estratgias gerais de desenvolvimento, Sachs prope um novo contrato social entre as naes e, dentro das naes, um dilogo entre planejadores, empresrios, trabalhadores e sociedade civil, com base no respeito ao meio ambiente, a economia, a segurana alimentar e energtica, a cooperao internacional. Um terceiro prisma, a partir da economia evolucionria (Nelson, Winter, 1982), ope-se viso neoclssica e baseado na teoria da tecno-economia (Dosi, 1982). Estes autores reconhecem um novo paradigma "tcnico-econmico verde" ou "teoria da aprendizagem verde", onde a indstria teria o potencial de substituir o papel do empresrio fazendo eco-inovaes em relao ao comportamento do poluidor (Andersen, 2008 2008b, 2010). Um quarto prisma, tambm evolutivo, trata a economia ecolgica com base na viso entrpica dos recursos naturais e a inexorabilidade da finitude da biosfera. Aqui, crescimento e desenvolvimento so diferenciados. A importncia de um novo tipo de inovao (Georgescu-Reagan, 1976), um novo modo de produo e consumo baseam-se na ruptura paradigmtica coprnica. (Chesnais 2015).

    Histria das RedesFito.

    Esta a histria de um pequeno grupo de pesquisadores brasileiros do Ncleo de Gesto da Biodiversidade e Sade (NGBS), fundado em 2006 para encontrar, atravs da abordagem de R&D, as bases conceituais e os modos de funcionamento de uma nova maneira de inovar na investigao farmacutica no Brasil. As premissas estratgicas (economia verde, teorias de aprendizagem, economia ecolgica) apropriadas pelo NGBS, opem-se s teorias econmicas neoclssicas, incluindo a proposta da economia verde da ONU, considerado-as como insuficientes e ineficientes ou obsoletas porque elas no compreendem a relao entre poltica, desenvolvimento, inovao, tecnologia, informao, conhecimento e meio ambiente.

    A situao inicial

    As diretrizes propostas em 2012 na Rio+20 para formular novas polticas pblicas no contexto do desenvolvimento sustentvel; reforar a soberania nacional dos recursos naturais num quadro favorvel entre governo, instituies e sociedade civil; promover a inovao e reduo da dependncia tecnolgica em pases em desenvolvimento, so todas ambies, absolutamente, comprometidas se a situao da indstria farmacutica no fosse alterada radicalmente. Uma auditoria conduzida por uma empresa especializada revelou que o mercado farmacutico mundial em 2015 ficou em torno de 1.1 bilhes de dlares. Ora, desde o incio do sculo passado at os dias atuais, o desenvolvimento de medicamentos obedeceu lgica da acumulao de lucro, utilizando as inovaes, que tm um impacto positivo sobre

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  • a sade, para o lucro. Os pases que possuem uma grande biodiversidade e os pases em desenvolvimento tm muitas dificuldades para reduzir seus nveis de dependncia tecnolgica na indstria farmacutica e no se lanam em programas de R&D impostos pelo modelo hegemnico.

    No caso particular do Brasil, com a industrializao tardia, marcada pela venda sistemtica dos laboratrios nacionais indstria transnacional nos anos cinqenta e sessenta, a indstria farmacutica foi marginalizada e marcada pelo fosso tecnolgico crnico. Apesar de sua posio no ranque (na sexto lugar atualmente) no consumo mundial de medicamentos (IMS Health). O Brasil dependente de insumos agrcolas, matrias-primas e tecnologias necessrias porque sua indstria farmacutica est consideravelmente atrasada e se encontra desprovida de polticas pblicas que possam favorecer seu crescimento, inclusive em R&D. Somente duas iniciativas antes dos anos noventa: a criao da Central de Medicamentos (CEME) e a Companhia de Desenvolvimento Tecnolgico. A primeira visava o desenvolvimento de medicamentos de origem vegetal e a segunda o desenvolvimento de matrias primas para a indstria farmacutica nacional. As duas foram eliminadas pelo neo-liberalismo que mudou a economia brasileira nos anos noventa.

    A inovao em medicamentos da biodiversidade

    A partir dos anos 2000 foi anunciada uma mudana nas polticas pblicas de estimulo inovao na indstria farmacutica brasileira. O caminho traado pela Redesfito iniciou com a elaborao do conceito de inovao em medicamentos da biodiversidade para traar uma nova vertente de desenvolvimento. A ampliao dos saberes sobre a biodiversidade acompanha at hoje a histria da medicina, da farmcia e da indstria farmacutica. Historicamente, temos vrios exemplos de medicamentos retirados da diversidade das espcies. Podemos citar aqueles retirados de plantas superiores como a morfina, um derivado da p