Ensinar filosofia a

  • View
    222

  • Download
    0

Embed Size (px)

Text of Ensinar filosofia a

  • Esta obra no pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer processo exceo de excertos para divulgao.

    Reservados todos os direitos. de acordo com a legislao em vigor.

    Ficha Tcnica:

    Titulo: Ens inar e aprender fi losofia num mundo em rede

    Coordenao: Mari a Lusa Ribeiro Ferreira

    Reviso: Joana Pereira Ma rques

    Editor: Centro de Filosofta da Universidade de Lisboa

    Este livro ou partes dele no podero ser reproduzidos de qualquer forma, mesmo eletrnica, sem explicita autorizao do Editor e do Autor.

    Designe Paginao: Arco da Velha

    Impresso e acabamento: Guide- Artes Grficas, Lda.

    Obra publicada pelo Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, no mbito do projeto PTDC/FIL-FIU102893/2008 Ensino/Aprendizagem da Filosofia.

    Apoios:

    FCT Fundao par.1 a Cincia e a Tecnologia

    Depsito legal: 346148/12

    ISBN: 978989855311-9

    ENSINAR. E APR.ENDER FILOSOFIA NUM MUNDO EM R.EDE

    /

    INDICE

    Introduo Maria Lusa Ribeiro Ferreira

    0 ENSINO DA FILOSOFIA COMO PROBLEMA FILOSFICO

    A didtica da filosofia como problema filosfico Alejandro Cerletti

    Didtica da filosofia ou didtica filosfica? Da Teoria Prxis Armando Girotti

    iJEM ENSINA FILOSOFIA?

    o. professor de filosofia na nova sociedade. Os dilemas da identidade profissional do professor de filosofa Luis Mara Cifuentes.

    Ensinar e investigar Maria Lusa Ribeiro Ferreira

    Hegel e o ensino da filosofia nos liceus Jos Barata Moura

    iJEM APRENDE FILOSOFIA?

    Ensinar filosofia a crianas Gabriela Castro

    Da ensinabilidade da filosofia no ensino secundrio: um ato comunicativo Helena Lebre

    O ensino universitrio da filosofia Manuel}. do Carmo Ferreira

    5

    feribRealce

  • ENSI'- \R ( '\I'Rf"DER AI.O~lFI\ Ml\1 \IU, CX) E.\1 Rf.nE

    Cabriela Castro em Eusinar Filosofia a Crinnfrts aborda este tema bast:nndo-se numa experincia em curso rut Universidade dos Aores. Em sintonia com o encorajamento prestado pela UNES CO a iniciativas que prommm implementar n educabilidade Jifo-sdfira dm crianas, Gabrieltt Castro e a sua equipa de investigao inidaram um projeto inovador- CRIA - em que pela primeira vez umrt experincia deste tipo I realizmltt num contato universitrio. Umrt dllS originalidades dme empreendimento consiste no relrvo dado dimmso ert-tica, promrando atmvls da prtica jilosfim com crianas fomentar competbtCIIS neste domlnio, ao qual se acrescenta uma dimenso prtica ligada aprcndizngmt de uma 71IIhlcitt em sociedade. O ensaio debrurt-se sobre os programas de Mathew Lipman analisando algum dos seus temas fundadores tais como a comunidade de investigao, a prtica dia lgica e argu-melllativa, a ateno ao outro, a capacidade dt: partilhar idt:illS. A transposio para um contato europeu dtu uses lipmanianas kva rtforncia a outros invt:stigadores, com ztm partiettlar destaqm: para Oscar Brtnifier. Os beneficios da introduo da filosofia num currfcu/o escolar e pr-escolllr so-nos apre-st:ntados quer na sua vcrtmte social- prt:parar fitturos cidados- quer no regi.sto cognitivo poi.s ajt~dam as crifln(as e os pr-adolescentes a articular o seu pensamento e o sl!ll discurso de mn modo "rigoroso, coerente, crtico, criativo e atemo."

    ENSINAR FILOSOFIA A CRIANAS

    Gabriela Castro Universidade dos Aores

    Tendo por princpio que o progresso de uma sociedade resulta do de-senvolvimento da capacidade de reAexo dos seus membros, imporra asse-gurar o fururo educando para o Pensar. Porm, este Pensar no abstracto, no se perde nas teias contemplativas do pensamento puro, implicando pensar bem para bem fazer, bem dizer e bem agir.

    Ora, pensar exige esforo e uma metodologia adequada. Pensar exige uma dimenso racional, imagtica, volitiva e emocional. Pensar exige ain-da uma capacidade analtica, crtica, questionante e criativa que se educa desde a mais tenra idade.

    Assim, a Filosofia para Crianas (FpC), na Universidade dos Aores, nasce da constamo de que, na maioria dos casos, o nosso sistema edu-calivo descura o Pensar em benefcio da "era da imagem", e da "era da informao" instaladas na nossa sociedade, oferecendo, sem qualquer preo-cupao reAexiva, aqui lo que no ser humano deve ser conquistado: o saber e o prazer de o alcanar.

    Sem escamotear a controvrsia, a discusso e algumas reservas levantadas pela comunidade acadmica, a propsito da solidez terica e da pertinncia ela implementao prtica da Filosofia para CrianllS, que de ceno modo f.1-

    104

    l~ll\1 A1'R.El>.DE Fll.!)~lfl\ >

    zem eco das clebres palavras ele Plato quando considera a pr:.ric:1 da dialc-rica imprpria para crianas, os responsveis da UNESCO consideram que:

    "Postular, quer dizer admitir partida sem prova, a educabilidade filosfica das crianas, e regisrar o que se passa quando se promovem condies para a rdlexividade, uma atitude experimental interessante e eticamente profcua, porque d criana confiana na sua potencialidade reflexiva ( ... )."1

    Assim, salientamos o encorajamento decisivo da UNESCO a iniciativas e a experincias cientifico-pedaggicas institucionais, entre as quais se pode inserir o nosso projecro. Tanto mais que esta organizao internacional inrergovernamen tal rem sublinhado, desde a sua cria5o at rempos mais recenres, a importncia decisiva da Filosofia na formao do ser humano. Refiramos, a este propsiro, a Estratgia lntersectorial da Organizao, com os seus rrs pilares, ou ainda mais recentemente a publicao do documen-co programtico Filosofia. Urna Escola de Liberdade, de 2007.

    Apesar de no se referi r exclusivamenre verrenre da Filosofia para Crian-as, Koichiro Marsuura (Director Geral da UNESCO) d o mote para a reAex:o em rorno da importncia da Filosofia no mundo contemporneo:

    O que o ensino da filosofia, se no o da liberdade e da razo crtica? A filosofia remete necessariamente para o exerccio da liberdade na e pela reAexo. Porque se trata de julgar com razo c no de exprimir simples opi-nies, porque se trata no somente de saber, mas de compreender o sentido e os princpios do saber, porqlle se trata de desenvolver o esprito crtico, contrapeso por excelncia de todas as formas de paixo doutrinria. "l

    O Captulo I do referido documento dedicado Filosofia para Crian-IIS. Sob o drulo "Ensino da Filosofia e aprendizagem do filosofar nos n-veis pr-escolar e primrio", o texro comea por fazer um diagnstico da situao con tempornea, em termos imernacionas, destacando quer a premncia da reAexo sobre csre nvel de formao filosfica, quer o papel pionei ro de Matrhew Lipman neste conrexro, quer ainda a necessria arti-culao deste ho rizonte formativo com outras valncias, nomeadamente a interven.'io da Organizao das Naes Unidas em matria de promoo e defesa dos Direitos da C riana.

    "Mesmo estando ainda no comeo, a pdtica de Filosofia para CrianllS permite perceber como as solues que traz para o problema da educao enrronc:un no que de fundamental caracteriza o ser humano: a capacidade de se construir."1

    I GOUCIIA. Mouritla (Crd). Ln plrilmoplrit. um r

  • '?~"'~"I'~:"~~~1;1it~~j@... ; -.>;; ....

    ENSINi\R E 1\PR-EN DER. FI LOSOFI!I NUNI Mll '' DO E.\ I R-EDE

    Esta atitude experimental acaba por ser fundamental no fomento de uma cultura do questionamento, que no da resposta feita, bem como na valo-rizao Ja correlao saber-fitzer-ttprender. Da a denotao pragmtica do discurso que encerra o referido caprulo dedicado Filosofia pam Crianras.

    A partir do lema programtico "Do desejvel ao possvel", a aprendi-zagem do filosofar, desde a 'mais tenra idade', considerada fundamental, por razes filosficas, polticas, ticas e educativas. Sem que a preocupao sobre a definio de um modelo nico de implementao da Filosofia para Crianas, um "modelo universal exportvel"4, se sobreponha necessidade de incrementar e de alargar o campo de interveno deste novo horizonte filosfico, considera-se que:

    "A pluralidade de prticas e a diversidade de pistas pedaggicas e didc-ticas so vivamente desejveis porque os caminhos da filosofia so tambm mltiplos. As estratgias avanadas so diversas e as que devem ser opti-mizadas so precisamente aquelas que acolhem a riqueza da alteridade."5

    Conscientes dessa realidade props-se, ao governo dos Aores a con-cretizao de um projecro de investigao, com a durao de 3 anos, sobre esse novo campo filosfico. O projecro, com o ttulo Criatividade e Refle-xo para a Infncia Aoriana, cujo acrnimo CRIA reflectia, em si mesmo, a essncia do que se pretendia realizar, dedicou o 1 ano formao filo-sfica, nessa rea, das 3 investigadoras que o integraram: Gabriela Castro, Berta Pimentel Mido e Magda Costa Carvalho. O 2 ano foi dedicado prtica em 5 ilhas do arquiplago: Flores, Faia! e Graciosa, Sta Maria e So Miguel. Convm realar que este o primeiro projecto do gnero, neste domnio cientfico e pedaggico, concebido e realizado numa universidade pblica, a nvel nacional.

    A fundamentao filosfica do projecro assentou, essencialmente, na dimenso Esttica. Esta a sua caracterstica, a sua especificidade e a sua diferena em relao a outros projectos existentes. A rea das emoes, dos afectos, dos sentimentos e das sensaes, onde as categorias estticas esto presentes e onde o sujeito entendido no sentido em que Kant o entendeu na Crtica da Faculdade do juzo, a via utilizada para se alcanar a inteli-gibilidade filosfica nas idades para que o programa foi delineado, entre os 7 e os I O anos. Implementar a educao pela e com a Filosofia o objectivo primordial que subjaz a rodo o projecto.

    Em paralelo com os contedos filosficos implcitos em cada sesso, o Projecto CRIA teve como pilar fundamental a certeza de que o exerccio do filosofar passa tambm por uma prtica de cidadania pois, apenas atra-vs da promoo de uma atitude esclarecida e enriquecida pelo di logo e por um agtr que, no dizer de autores