ENSINO DE BIOLOGIA E O COMBATE AO RACISMO: ??da democracia racial a principal sustentao do racismo, que no Brasil tenta ser omitido. O mesmo documento define o racismo como “uma

  • View
    217

  • Download
    1

Embed Size (px)

Text of ENSINO DE BIOLOGIA E O COMBATE AO RACISMO: ??da democracia racial a principal sustentao do racismo,...

  • ENSINO DE BIOLOGIA E O COMBATE AO RACISMO: UMA

    EXPERINCIA DE IMPLEMENTAO DA LEI N 10.639/2003

    Felipe Baunilha Tom de Lima (1); Suzany Ludimila Gadelha e Silva (1);

    Escola Estadual de Ensino Mdio Integrado Presidente Joo Goulart felipebaunilha@yahoo.com.br;

    Universidade Federal da Paraba suzanyludimila@gmail.com

    RESUMO

    Em 2003 foi aprovada no Brasil a Lei Federal n 10.639 que altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educao

    Nacional, para incluir no currculo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temtica "Histria e

    Cultura Afro-Brasileira". Este artigo relata a experincia do projeto ESCOLA CONTRA O RACISMO: Uma

    experincia de aplicao da Lei n 10.639/2003 a partir das aulas de gentica desenvolvido em uma escola

    da rede pblica do estado da Paraba, Brasil. O projeto buscou atravs do ensino de biologia debater o

    racismo em parceria com ativistas do movimento negro da Paraba e com a Universidade Federal da Paraba.

    O projeto foi implementado em 4 etapas: levantamento de referncias bibliogrficas, aulas sobre interao

    gnica e determinao da cor da pele; oficina sobre identidade negra e racismo; construo de materiais

    pedaggicos de combate ao racismo para exposio na escola. A construo do projeto visou romper com a

    barreira construda historicamente entre as disciplinas das cincias da natureza e os temas transversais de

    temtica tnico racial alm de reconhecer e valorizar os movimentos sociais como parte da comunidade

    escolar e como espao de produo de conhecimento. Ao final do projeto foi possvel perceber a

    identificao dos estudantes com a cultura afro brasileira, com suas caractersticas fsicas e um

    empoderamento com relao ao combate ao racismo. Estes so elementos fundamentais para a construo de

    uma identidade negra a partir das vivncias escolares.

    Palavras-chave: Ensino de Biologia, Ensino Mdio, Racismo, Gentica.

    INTRODUO

    Por reconhecer que a escola um espao privilegiado e necessrio para a discusso desses e de

    outros temas diversos Movimentos Negros pressionaram o Congresso Nacional para aprovar a Lei n

    10.639/2003 que institui a obrigatoriedade para todas as redes de ensino da temtica Histria e Cultura

    Afro-Brasileira. Segundo o documento Adolescente e jovens para a educao entre pares: raas e etnias

    (Brasil, 2011) a escola um espao onde os adolescentes e jovens negros defrontam-se mais violentamente

    com o racismo e discriminao racial. Mesmo com mecanismos de aes afirmativas determinados

    legalmente pelo Estado brasileiro para o espao escolar necessrio refor-los para que sejam realmente

    efetivados, como a prpria Lei n 10.639, a Lei n 12.711/2012 (lei de Cotas no ensino superior), a Lei

    mailto:felipebaunilha@yahoo.com.brmailto:suzanyludimila@gmail.com

  • n 7.719 /1989 (lei de criminalizao do racismo) e os Parmetros Curriculares Nacionais (PCN) para o

    ensino mdio.

    Este artigo relata o desenvolvimento do projeto ESCOLA CONTRA O RACISMO: Uma

    experincia de implementao da Lei n 10.639/2003 a partir das aulas de gentica que buscou implementar

    os pressupostos desta Lei a partir do componente disciplinar das cincias biolgicas no qual poucas

    experincias foram desenvolvidas. A escola em que o referido projeto foi implementado, Escola Estadual de

    Ensino Fundamental e Mdio Enas Carvalho, situa-se em Santa Rita e faz parte da rede pblica estadual de

    ensino. Nesta cidade dos aproximadamente 120 mil habitantes (IBGE1) apenas 5,4% concluiu algum curso

    superior e mais da metade da populao (62 mil habitantes) no terminaram o ensino fundamental ou so

    considerados sem instruo alguma. A maioria da populao negra e boa parte dela passou ou passar ao

    menos 10 anos na escola. Por isso a necessidade de debater o racismo a partir do ambiente escolar de modo a

    desconstruir o conceito biolgico de raas humanas a partir do estudo da gentica, fortalecer a auto estima

    dos educandos negros e negras para a construo de suas identidades estticas, sociais e culturais, apresentar

    para o conjunto da comunidade escolar a problemtica do racismo e fortalecer a relao entre escola,

    universidade e movimentos sociais para uma educao significativa estimulando assim o protagonismo

    estudantil.

    Neste projeto a temtica das relaes tnico-raciais abordada diretamente para desconstruir o

    racismo, expresso social da tentativa de subjugar a populao afrodescendente ocultando seu papel na

    construo da nao brasileira e excluindo suas caractersticas genticas e estticas de um suposto padro

    esttico nacional.

    REFERENCIAL TERICO

    Na cidade de Santa Rita, assim com em todo o Brasil, a escola pblica frequentada em sua maioria

    pela populao negra. Segundo dados do IBGE em 20102 na cidade apenas 18 mil habitantes tinham

    completado o ensino mdio, sendo 11 mil estudantes negros. Desse total de habitantes apenas 2,2 mil haviam

    concludo o ensino superior e mais da metade da populao, aproximadamente 62 mil, no tinham instruo

    ou no concluram o ensino fundamental, sendo destes aproximadamente 43 mil negros. Esses dados nos

    ajudam a refletir sobre as dificuldades da populao negra para manter-se estudando. Boa parte dessa

    1 Dados referentes ao ano de 2012 obtidos no site do prprio Instituto. Disponvel em:

    http://cidades.ibge.gov.br/painel/painel.php?codmun=251370. Acesso em 18/10/2014 2 Dados referentes ao ano de 2010 obtidos no site do prprio Instituto. Disponvel em:

    http://cidades.ibge.gov.br/painel/painel.php?codmun=251370. Acesso em 18/10/2014

  • populao formada por jovens de 15 a 29 anos representando um total de aproximadamente 32 mil homens

    e mulheres.

    As estatsticas ficam ainda mais estarrecedoras quando comparamos estes dados com os dados

    obtidos pelo Mapa da Violncia (2012)3 que apontam que 89% dos homicdios ocorridos na cidade so

    acometidos contra jovens negros. Somando-se aos ndices de outras grandes cidades paraibanas esses

    nmeros levam a Paraba ao 3 lugar no ranking de estados onde mais se matam jovens negros. Para

    educadores importante se questionar qual seu papel, e consequentemente o da escola pblica, na

    mudana desse cenrio? Como contribuir para que os jovens estudantes possam se perceber,

    conscientemente, nessa realidade?

    De acordo com Santos (2008) a populao negra teve sua identidade, sua herana tnica, destruda

    desde o perodo da escravido. Com o fim legal do processo de escravizao das populaes negras era

    necessrio repensar a organizao do pas para inseri-lo no mercado capitalista internacional e uma das

    vertentes desta reorganizao nacional foi o surgimento da ideologia do branqueamento. As elites brasileiras,

    que acabavam de perder sua mo de obra escrava, construram um discurso identitrio nacional que suprimia

    as populaes negras, as contribuies das diversas etnias negras e indgenas para a formao social,

    econmica e cultural do pas.

    Mais tarde estudiosos do tema afirmaram que essa ideologia criou o mito da democracia racial. O

    documento do Ministrio da Sade (Brasil, 2011) ao tratar desse mito o define como a ideia que no haveria

    no Brasil discriminao com base na raa/cor visto que este um pas essencialmente mestio. Esse discurso

    da democracia racial a principal sustentao do racismo, que no Brasil tenta ser omitido. O mesmo

    documento define o racismo como

    uma ideologia que justifica a organizao desigual da sociedade ao afirmar que grupos

    raciais ou tnicos so inferiores ou superiores, em vez de considera-los simplesmente

    diferentes. Ele opera pela atribuio de sentidos pejorativos a caractersticas peculiares de

    determinados padres da diversidade humana e de significados sociais negativos aos grupos

    que os detm. No se trata de uma opinio pessoal, por que as ideias preconceituosas e

    atitudes racistas e discriminatrias so mantidas por geraes e, em cada tempo e lugar, elas

    se manifestam de maneira diferente, por meio de piadas, da apresentao de personagens

    negros e ndios nos filmes, novelas, desenhos, propagandas, etc. Para Gomes (2002) No entanto esse discurso de no discriminao no condiz com as prticas

    cotidianas e institucionais pautadas pelo racismo, pelo preconceito e pelas discriminaes raciais.

    Segundo Santos (2008)

    Levando em considerao essa anlise, fundamental compreendermos a escola pblica

    como uma importante instituio responsvel pela sociabilidade dos seres humanos. Nela

    ocorre a possibilidade de construo das identidades, da formao de valores ticos e

    3 Dados referentes ao ano de 2012. Disponvel em: http://mapadaviolencia.org.br/pdf2012/mapa2012_cor.pdf. Acesso

    em 18/10/2014

  • morais. Contudo, a escola na sociedade capitalista assume um carter homogeneizador,

    prevalecendo um padro esttico e histrico vinculado sociedade europia, o que estamos

    chamando de monoculturalismo e excluindo, por exemplo, a referncia negro-africana da

    formao da sociedade brasileira. A garantia de acesso gratuito a todos os que querem

    entrar na escola no esconde contraditoriamente o seu papel de reproduo das idias e

    valores da classe dominante. na escola que os adolescentes e jovens devero passar boa parte de suas vidas, sendo a vivncia

    nesta instituio marcante contribuindo definitivamente para a formao das suas subjetividades. Por isso o

    autor afirma que o olhar sobre a adolescncia dos sujeitos n