ENSINO DE TÉCNICA DE COMUNICAÇÃ TERAPÊUTICO A .2017-07-18 · ENSINO DE TÉCNICA DE COMUNICAÇÃ

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ENSINO DE TCNICA DE COMUNICAO TERAPUTICA ENFERMEIRA-PACIENTE - PARTE I *

Maguida Costa Stefanei **

STEFANELLI, M.C. Ensino de tcnicas de comunicao teraputica enfermeira-paci-ente - Parte I. Rev. Esc. Enf. USP, So Paulo, 20(2):161-183, 1986.

Apresenta-se ampla reviso de literatura sobre comunicao em enfermagem e em enfermagem psiquitrica. ressaltada a importncia do uso da comunicao teraputica pela enfermeira.

a comunicao que torna possvel ao homem existir no mundo em interao com seus semelhantes. Desde o nascimento at a morte e, em todos os momentos da vida, as pessoas vem-se envolvidas no processo da comunicao, sem perceberem a existncia ou a significao da mesma como condio fundamental para o pleno desenvolvimento do ser humano.

O homem vale-se da comunicao em todas as suas experincias de vida, de modo interpessoal ou dual, em pequenos ou grandes grupos; at quando no est em uma dessas situaes, se refletir um pouco, perce-ber que se encontra sob o impacto ou influncia da comunicao. por meio da comunicao que ele partilha com outras pessoas seus valores, crenas, idias e sentimentos; a maneira como essas pessoas reagem co-municao pode gerar satisfao ou insatisfao, ou seja, determinar o sucesso de suas tentativas de ajustamento ao meio em que vive. Pode-se afirmar, ento, que a essncia do bem-estar do ser humano e da sua sade mental est diretamente relacionada ou mesmo dependente dos seus pa-dres de comunicao e de como os outros reagem a eles.

Isto explica o interesse que o estudo da comunicao j despertou e continua despertando em vrias reas do conhecimento, como psicologia, sociologia, medicina, mais especificamente a psiquiatria e a enfermagem, principalmente a psiquitrica.

Consoante MAY (1973), entretanto, apesar de vivenciar a era da co-municao, na qual os meios desta se do de modo cada vez mais rpido, o homem no existe no mundo com os outros; apenas vive no anonimato,com a sensao de vazio e desesperana que o rodeia.

* Extrado da tese de doutoramento apresentada Escola de Enfermagem da U S P .** Enfermeira. Professor Assistente Doutor do Departamento de Enfermagem Materno-In-

fantil e Psiquitrica da Escola de Enfermagem da U S P disciplina Enfermagem Psiqui-trica.

Rev. Esc. Enf. USP, So Paulo, 20(2):161-183, ago. 1986 161

SULLIVAN (1953a), introdutor da teoria interperssoal no campo da psiquiatria e RUESCH (1957 , 1964), estudioso do uso da comunicao teraputica na relao com o doente mental, declaram ser a doena men-tal uma perturbao no relacionamento interpessoal e um distrbio no processo de comunicao da pessoa. Essas afirmaes associadas de-clarao de MAY (1973), j citada, facilitam a compreenso da impor-tncia da comunicao na assistncia de enfermagem. a enfermeira o membro da equipe teraputica que mais tempo passa junto ao paciente e que mais oportunidades tem para com ele interagir; seu mister, portanto, tornar teraputica a comunicao que desenvolve com o paciente ao assisti-lo.

Podemos considerar PEPLAU (1952) e TUDOR (1952) como as in-trodutoras do uso da comunicao teraputica em enfermagem, uma vez que esta o instrumento bsico do relacionamento enfermeira-paciente, como preconizado pelas autoras citadas. Estas consideram a enfermagem como relacionamento humano entre a enfermeira e a pessoa necessitada de ajuda.

Em enfermagem psiqutrica a comunicao enfermeira-paciente tem sido mais profundamente estudada, uma vez que a doena mental , como vimos, considerada, por vrios autores um problema de comunicao ou de relacionamento interpessoal.

Por considerarmos a comunicao enfermeira-paciente da mxima importncia para a eficcia da assistncia de enfermagem, julgamos opor-tuno realizar um estudo mais profundo sobre o uso das tcnicas de comu-nicao teraputica por alunas de graduao em enfermagem.

Sentimos a necessidade de fazer levantamento extensivo do que as enfermeiras j estudaram sobre comunicao em enfermagem e no rela-cionamento teraputico enfermeira-paciente, porque a comunicao tera-putica no foi, ainda, estudada o suficiente para estabelecer um corpo de conhecimentos em enfermagem devidamente comprovados.

O estudo da comunicao interpessoal muito amplo e tem sido de-senvolvido em vrias reas do conhecimento. No presente estudo, entre-tanto, a reviso de literatura ser restrita, dentro do possvel, rea de enfermagem em geral e, mais especificamente, da enfermagem psiquitrica que nosso foco de interesse.

Tomamos o cuidado de apresentar a reviso de literatura em seqncia cronolgica para que o leitor tenha uma viso do desenvolvimento de es-tudos sobre a comunicao em enfermagem de seu uso.

Comunicao em enfermagem

Em 1859, Florence Nightingale j demonstrava preocupao com a comunicao que se desenvolve entre a enfermeira e o paciente (NIGHTINGALE, 1946). Ao abordar a observao de pacientes, ela faz comentrios sobre certos tipos de perguntas vagas ou que provocam res-postas imprecisas, a importncia da enfermeira sentar-se de frente para

o paciente e no permitir interrupo da comunicao e recomenda que no se deve dar ao paciente falsas esperanas ou conselhos.

Podemos inferir, portanto, que a comunicao integrava os primeiros instrumentos da assistncia de enfermagem tal como a conhecemos hoje.

Segundo PENDA T,L (1954), a comunicao da enfermeira afeta tanto seu relacionamento pessoal como profissional. Chama a ateno para o fato de que as enfermeiras devem estar atentas para isto, uma vez que elas trabalham com pessoas e no com objetos; afirma o autor que o su-cesso de todos os esforos na profisso depende do relacionamento que se desenvolve entre enfermeira e paciente, pessoal da equipe e alunos. Se o relacionamento falhar, a enfermeira falha.

A importncia da comunicao para a adniinistrao hospitalar ressaltada por DOANE (1954). Esta afirma que a funo mais reconhe-cida do administrador estabelecer e manter abertos os canais de comu-nicao dentro da organizao. Para esta autora, considerar as idias dos outros, manter um clima de respeito mtuo, definir objetivos em ter-mos claros e precisos, ter propriedade tanto nas comunicaes orais quan-to nas escritas, ajudam a manter comunicao efetiva entre adminis-trador do hospital e pessoal do departamento de enfermagem, o que tem como conseqncia um melhor cuidado de enfermagem.

BECKER (1955) destaca a importncia da competncia interpessoal para a estudante de enfermagem e a necessidade de se introduzir o ensino desta nos currculos de enfermagem. Na experincia relatada pela au-tora, as alunas comeam a adquirir esta competncia no incio do curso, quando interagem entre si e com as docentes em pequenos grupos de dis-cusso; e, mais tarde, continuam no desenvolvimento do curso, quando discutem em sala de aula o relacionamento que ocorre entre enfermeira e paciente na demonstrao e execuo de cada tcnica e em todas as situaes de complexidade crescente.

KREUTER (1957), BOJAR (1958) e JACKSON (1959) ressaltam a importncia da comunicao para a excelncia do cuidado de enferma-gem para oferecer segurana ao paciente, compreenso do mesmo e auto--compreenso da enfermeira, com o objetivo de restabelecer no paciente a percepo de que ele uma pessoa e, tambm, de facilitar a sua recuperao.

Em toda a obra de ORLANDO (1961), observa-se a importncia que a autora atribuiu comunicao enfermeira-paciente. Ela exemplifica a necessidade de compreenso, pela enfermeira, da comunicao do paci-ente, por meio de descries de sua situao de vida; afirma que este, devido ansiedade e ao medo do que lhe possa acontecer, no consegue se expressar com lgica e clareza, e que a enfermeira precisa explorar a significao da experincia para o paciente, tentando descobrir qual o seu problema real e que s assim possvel identificar a ajuda que ele deseja e da qual necessita. Nas situaes que a autora descreve, fica evidente a importncia da comunicao adequada entre enfermeira e pa-ciente para o alvio da sensao de dor e mal-estar e para ajud-lo a en-frentar situaes desagradveis e desconhecidas. Para a autora, a as-

sistncia da enfermagem e fundamentada na interao enfermeira-pa-que as necessidades do paciente sejam clarificadas e resolvidas em con-junto.

Segundo DAVIS (1963), a importncia em desenvolver o relaciona-mento teraputico tem sido muito ressaltada por diversos autores; para ela, entretanto, se se estiver realmente interessado em ensinar esta habi-lidade aos alunos, necessrio fazer muito mais do que simplesmente apresentar-lhe alguns textos. Esta habilidade tem de ser baseada em princpios e conceitos derivados de um corpo de conhecimento especfico e de pesquisa, que constituam uma estrutura de referncia. A citada autora usa, para o ensino da comunicao enfermeira-paciente, a teoria da comunicao de RUESCH (1952, 1953) e utiliza seus princpios, tam-bm na comunicao que mantm com os alunos para melhor aprendi-zado; coloca, como objetivo final do aprendizado, ajudar o aluno a desen-volver sua habilidade em comunicao e, portanto, a ser capaz de manter um relacionamento mais construtivo com seus pares, paciente e familiares.

MEADOW & GASS (1963) ressaltam a importncia da comunica-o para a funo da enfermeira como entrevistadora, pois esta se v freqentemente na situao de entrevistar candidatos a emprego, alunos, ou mesmo pacientes. Para as autoras, h melhora considervel no de-sempenho desta funo quando a enfermeira analisa suas prprias inte-raes, ou seja, tornar-se consciente de suas falhas de comunicao.

WIEDENBACH (1963) diz ser a enfermagem a arte de ajudar o paciente e, para tal, a enfermeira tem de centrar sua ateno na necessi-dade real de ajudar o paciente; para atender a esta necessidade ela lana mo de todo seu potencial e de todas as suas habilidades, especialmente das referentes comunicao com pacientes.

MEYERS (1964) relata que, ao ministrar um cuidado de en