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Entrevista Leda

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Text of Entrevista Leda

  • de 6 a 12 de novembro de 20144 brasil 5

    Bruno Pavanda Redao

    ELEITA SOBRE o discurso das ideias novas, a presidenta Dilma Rousseff ter que contrariar fortes presses para man-ter uma poltica econmica progressis-ta. o que acredita a professora da Fa-culdade de Economia, Administrao e Contabilidade da Universidade de So Paulo (FEA USP) Leda Paulani.

    Ela, que assinou o manifesto dos eco-nomistas em apoio a reeleio da presi-denta no segundo turno das eleies, otimista e no acredita que Dilma recuar da guinada progressista que aconteceu na poltica econmica durante o seu pri-meiro mandato e que a fez ser odiada pelo mercado financeiro.

    Ela comeou com uma mudana no Banco Central, baixou os juros, enfren-tou corajosamente o lobby financeiro usando os bancos pblicos para reduzir os spreads dos bancos privados, deu for-a para o PAC e para o Minha Casa Mi-nha Vida, que um grande pacote de in-vestimentos e tem um fator multiplica-dor muito alto na economia, analisa.

    Leda tambm conta um pouco sobre sua experincia como Secretaria de Pla-nejamento, Oramento e Gesto da pre-feitura de So Paulo onde, entre outras coisas, ajudou na criao da Controla-doria Geral do Municpio, que ajudou a desmantelar a mfia do ISS na cidade. Nessa entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, ela refora que o foco do governo de Fernando Haddad devolver o p-blico para o espao pblico.

    Brasil de Fato O que significou a vitria da Dilma nessas eleies?Leda Paulani No sei se pode falar de um projeto novo, mas a presidenta re-presenta um conjunto de polticas pbli-cas que buscaram reduzir as desigualda-des de renda tanto pessoal quanto regio-nal, ao passo que a outra candidatura ti-nha mais dificuldades em afirmar o com-promisso com esse tipo de poltica.

    O momento econmico do Brasil ruim?

    Logicamente, existem algumas ques-tes que tm que ser resolvidas. A prin-cipal delas a retomada do crescimento. Porm, nem de longe a economia pas-sa por uma situao to ruim quanto a imprensa divulga e quer fazer crer. Eu escrevi um artigo durante a campanha chamado terrorismo econmico onde tento mostrar justamente isso. Muitos falaram que o pas tinha perdido a credi-bilidade no mundo, s que isso no bate com o dado da entrada de capitais exter-nos na economia brasileira. So R$ 65 bilhes esse ano, a mdia no perodo Dil-ma de R$ 64 bilhes. Ento como as-sim? Sem credibilidade pra quem? On-de? Como?

    Outro exagero dizer que a inflao est fora do controle. Esse ano, na pior das hipteses, ela vai fechar em 0,25% acima da meta. Se voc pegar a mdia de inflao do perodo Dilma, ela 6,2% considerando 6,75% para este ano, su-biu um pouco em comparao com o segundo mandato do Lula (5,2%), mas caiu se formos comparar com o pri-meiro governo Lula, e com os governos FHC. Ento esto tentando criar um ambiente que como se a economia es-tivesse beira do precipcio e que est muito longe de estar.

    Falam do dficit pblico, porque o re-sultado primrio vai ser inferior ao que se esperava etc. tudo bem, ele vai ser um pouquinho inferior , s que a ortodoxia e a mdia gostam de olhar s para o re-sultado primrio, porque o que impor-ta pra eles, esse resultado primrio que vai ser usado para pagar os recursos da dvida, fazem a poltica dos credores, no importa o crescimento, a continui-dade das polticas pblicas, a reduo da desigualdade, nada disso, importa a ga-rantia de que os credores sero remune-rados. Mas quando voc faz a conta com o resultado nominal e no com o resul-tado primrio, ou seja, incluindo o que o governo gasta tambm com pagamentos

    Para Leda Paulani, mdia e mercado fazem terrorismo econmicoENTREVISTA Economista e professora acredita que somente os investimentos pblicos podero alavancar o crescimento do pas. Segundo ela, esto tentando criar um ambiente que como se a economia estivesse beira do precipcio e que est muito longe de estar

    de juros, esse resultado muito melhor do que os resultados nos quadrinios an-teriores, e melhor por uma razo muito simples: a queda dos juros que aconte-ceu em alguns perodos e reduziu o ser-vio da dvida e a necessidade de emis-so de novos ttulos.

    Vamos falar ento da proporo da d-vida pblica em relao ao PIB. A nossa deve estar em volta de uns 30% a 40%. No Japo 213%, algum fala alguma coisa? Se a gente for pegar o perodo de 2010 a 2013, o nosso dficit foi de 2,7% do PIB, exatamente no mesmo perodo o dficit nominal dos pases da zona do Euro foi de 4%, dos Estados Unidos foi 9,2%, o do Reino Unido foi de 8%, do Japo foi 9,4% e ningum fala nesses pases como tendo descontrole dos gas-tos pblicos.

    Ento se cria uma narrativa para os lei-gos e se monta uma imagem que nem de longe corresponde realidade. Eu acho que o principal problema da economia hoje que ela no cresce. Porque o n-vel de emprego continua muito bom, o salrio mdio real continuou crescendo, o salrio mnimo tambm cresceu, no h descontrole da inflao, no h per-da de credibilidade, no h descontrole dos gastos, no h nada disso. Isso tudo uma orquestrao mesmo para fazer ver que tem um problema, porque a po-ltica econmica que a presidenta seguiu

    baseada em alguns princpios que no so aceitos pelo mercado, principalmen-te a questo da poltica monetria. Eles fazem esse terrorismo pra tentar forar a mudana da poltica.

    Desde o primeiro turno, o mercado se mostrou hostil reeleio de Dilma Rousseff. Na primeira entrevista da presidenta ela disse que estava aberta discusso com setores da sociedade, inclusive o mercado. Voc teme que exista um retrocesso conservador pra acalmar os nimos?

    Espero que no corramos esse risco e tendo a achar que no. At pelo seu es-tilo, a presidenta gosta de enfrentar as boas brigas. Se voc pegar os 12 anos de PT no governo, voc vai ver que os dois mandatos de Lula tiveram diferenas. O primeiro mandato foi bastante ortodo-xo, o que me fez fazer muitas crticas e at escrever um livro por conta da mi-nha decepo. No segundo mandato de-le, a coisa mudou um pouco. No na po-ltica monetria onde as taxas de juros continuaram muito elevadas, o Henri-que Meirelles continuou no Banco Cen-tral e os colegiados do Copom eram ab-solutamente conservadores. O que se alterou por conta do cenrio de crise mundial foi a presena mais forte do Estado na economia.

    Agora, no mandato da Dilma, essa prioridade comeou a mudar. Ela foi se

    aproximando mais de uma poltica he-terodoxa, por exemplo, comeou com a mudana no Banco Central e baixou os juros, enfrentou corajosamente o lo-bby financeiro usando os bancos pbli-cos para reduzir os spreads dos bancos privados, deu fora para o PAC, para o Minha Casa Minha Vida, que um gran-de pacote de investimentos que tem um fator multiplicador muito alto na econo-mia. Isso fez com que ela fosse odiada pelo mercado financeiro.

    Concluindo, at agora pelo que ela mostrou, acho que ela ser mais resis-tente e no ceder completamente aos reclamos do mercado, que vai continu-ar fazendo o que fez no primeiro man-dato. Existe um mecanismo de chanta-gem muito pesado com eles em parce-ria com a mdia que aumenta esse tipo de discusso espria. Mas espero since-ramente que ela no ceda, por exemplo, pondo o presidente do Bradesco no Mi-nistrio da Fazenda.

    Sobre essas especulaes em cima do nome do futuro ministro da Fazenda, j apareceram nomes do mercado como Luis Carlos Trabuco e o Henrique Meirelles e nomes da academia como o Nelson Barbosa. O que voc acha que isso pode significar?

    Seria uma decepo a nomeao de fi-guras como Trabuco ou Henrique Mei-relles. Agora voc tem nomes bons, o prprio professor Nelson Barbosa, que heterodoxo, conhece muito o governo fe-deral, foi secretrio de poltica econmi-ca e um nome respeitado inclusive pe-lo mercado.

    Esse tipo de discusso complicada porque quando voc contesta a ques-to da inflao, imediatamente te acu-sam de ser irresponsvel. uma distn-cia to abissal, to cavalar, entre voc ter uma inflao de 20%, 30%, 40% ao ms e ter uma que no 6% mas 6,75% ao ano. A questo da inflao, obviamen-te, fundamental, ningum est dizendo que voc pode descuidar desse controle. Essa respeitabilidade e esse compromis-so com a estabilidade monetria o pr-prio mercado enxerga no Nelson Barbo-sa, no precisa pegar e colocar o presi-dente do Bradesco.

    A presidenta se reelegeu com um discurso de mudana e praticamente demitiu o ministro Guido Mantega durante a campanha. Quais os tipos de mudana que vai precisar

    ocorrer na economia a partir do ano que vem para que o pas volte a crescer?

    Precisamos retomar um patamar de investimento pblico, porque a varivel mais importante da demanda agregada o investimento, se ele no robusto, toda a economia acaba tambm tendo um desempenho ruim. No Brasil, his-trico que se o investimento pblico no marchar frente o investimento privado no vem atrs. Todos os momentos em que o Brasil cresceu muito por um gran-de perodo de tempo foi porque o inves-timento pblico foi muito forte. Ele ser-ve como uma locomotiva, voc abre ca-minhos para o investimento privado chegar depois.

    Agora, achar que voc vai desonerar a folha e que isso vai reproduzir uma reto-mada do investimento privado uma to-lice! O que acaba acontecendo que isso vira margem e eles acabam embolsando essa desonerao e no retomam o in-vestimento para o pas. Essa desonera-o pode ter tido algum impacto positi-vo na manuteno do emprego, mas es-perar a retomada dos investimentos so-mente com esse tipo de poltica uma bobagem, isso no acontece, a histria mostra o contrrio.

    Temos uma srie de setores que de-pendem do Estado para puxar o proces-so, reas ligadas infraestrutura e habi-tao so exemplos. Temos um dficit enorme de habitaes no pas e que se o Estado no entrar forte subsidiando, es-se problema durar para sempre. Fora que a construo civil dos setores mais dinmicos porque tem um efeito multi-plicador muito alto na economia.

    A presidenta chegou a baixar a Selic durante vrios meses consecutivos