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  • Ciberteologia - Revista de Teologia & Cultura - Ano VI, n. 27 107

    Epistemologia e Ensino Religioso: limites e possibilidades

    Carlos Odilon da Costa Clvis Maciel Kruger 1

    Resumo: Este artigo analisa e debate o dilema epistemolgico decorrente da

    incluso da disciplina Ensino Religioso no currculo das escolas pblicas de Ensino Fundamental. Descreve as diversas constituies brasileiras e a relao que foram estabelecendo com tal dilema. Reflete, posteriormente, alguns pareceres do Conselho Nacional de Educao (CNE) sobre a disciplina Ensino Religioso e temas correlatos e busca compreender se possvel afirmar que o Ensino Religioso tem uma base epistemolgica e sua razo de ser nas escolas.

    Palavras-chave: Ensino Religioso; escola pblica; epistemologia.

    Introduo Refletir o Ensino Religioso a partir de uma perspectiva externa a uma f religiosa

    especfica pode ser importante passo para uma melhor compreenso deste relevante aspecto

    da vida das pessoas que a questo relacionada ao conhecimento religioso. Conhecer sem

    preconceitos diferentes perspectivas religiosas pode ser muito til para que se tenha maior

    tranquilidade ao assumir o seu prprio credo ou nenhum.

    No caso especificamente brasileiro, a questo religiosa aflora em todos os lugares. De

    acordo com o professor Costa (2002, p. 2),

    no Brasil, se voc olhar ao seu lado ao caminhar nas ruas de sua cidade, [ver] farmcias, supermercados, hospitais, lojas, escolas com nomes de santos, santas e pessoas religiosas. Em

    1 Mestre, pesquisador do grupo de pesquisa Educogitans, do mestrado em Educao da Universidade

    Regional de Blumenau, Rua Antonio da Veiga, 140, CEP 89012-900. E-mail: carlosodiloncosta@gmail.com. Clvis Maciel Kruger, especialista em Cincias da Religio pela Universidade Regional de Blumenau, Rua Antonio da Veiga 140, CEP 89012-900. E-mail: clovismacielkruguer@gmail.com.

    mailto:carlosodiloncosta@gmail.com

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    reparties pblicas comum o uso de crucifixo na parede e at mesmo, em alguns ambientes pblicos, a Bblia. Muitas cidades, vilas, rios, estados brasileiros recebem a influncia de nomes religiosos.

    Mesmo as pessoas que no se preocupam muito com a prtica religiosa acabam se

    interessando, por exemplo, em casar e batizar na igreja. Deve-se lembrar tambm que as

    rdios e televises esto cheias de programas de natureza religiosa, ou, pelas ruas das

    grandes cidades, so cada vez mais comuns figuras exticas ligadas s novas religies,

    como os Hare Krishna. Mesmo quando achem sem sentido ou at relativamente hipcritas

    as prticas religiosas dos pais e familiares, esbarram em questes relativas s origens e ao

    destino das pessoas. E saem procura de respostas para seus dilemas. Cedo ou tarde as

    pessoas so despertadas pelos sentimentos do que a vida mais do que nela se percebe.

    Sentir e desejar a presena de um algo a mais o Sagrado entre as pessoas.

    No final da dcada de 1990, um debate sobre a forma e as leis do Ensino Nacional (Lei

    de Diretrizes e Bases da Educao Nacional LDBEN n. 9.394/96) relanou uma antiga

    discusso em torno da importncia e do papel da manuteno do Ensino Religioso no

    Ensino Bsico. Argumentos bastante conhecidos vieram novamente tona: o Ensino

    Religioso nunca teria produzido resultados suficientes para faz-lo figurar ao lado das

    disciplinas verdadeiramente cientficas. Em resposta, os cientistas da Religio (ver a esse

    respeito o site ) sublinharam os progressos relativos aos domnios

    incriminados pelos crticos, evocando, notada e principalmente, o papel do Ensino

    Religioso como elemento bsico na formao cidad do ser humano.

    Nesse sentido uma das intenes da presente pesquisa exatamente procurar levantar

    alguns dos principais problemas relativos ao lugar do Ensino Religioso e do Sagrado (como

    algo importante na vida das pessoas, que no pode faltar na vida das pessoas. Ver Fusinato;

    Keim, 2004) na vida das pessoas. A partir desse levantamento, pretende-se direcionar o

    foco da discusso e reflexo do presente trabalho para o campo da epistemologia.

    Especificamente falando: busca-se descobrir a epistemologia ou no do Ensino Religioso.

    Em outras palavras: enquanto problema da pesquisa, como se apresenta a base

    epistemolgica do Ensino Religioso? Como se constituram ou no a gnese e o

    desenvolvimento da epistemologia do Ensino Religioso? Ou seja: que o Ensino Religioso,

    qual o seu objetivo, seus mtodos, como conceber um conhecimento religioso moderno?

    http://www.fonaper.org.br/

  • Ciberteologia - Revista de Teologia & Cultura - Ano VI, n. 27 109

    Isso significa, ainda, que a pesquisa pretende compreender o Ensino Religioso em

    termos da dinmica da sociedade e cultura e no em termos individuais. importante

    destacar que cada vez mais se torna necessria uma contribuio multidisciplinar para a

    compreenso dos problemas humanos. Nesse sentido, anlises situadas em outras

    perspectivas no so apenas complementares, mas fundamentais para uma viso global do

    assunto pesquisado. Em se tratando de um tema to complexo, sempre oportuno lembrar

    que a anlise que se pretende apenas um recorte possvel, h outros. O importante deixar

    claro o lugar de onde se fala e falar o mais precisamente possvel.

    Quanto classificao da pesquisa, seguindo o padro adotado pela pesquisadora

    Weiduschat (2005, p. 121-124), ela pode ser de natureza bsica, pois tem como propsito a

    gerao de novos conhecimentos para o avano da cincia sem aplicao prtica prevista.

    Sua abordagem qualitativa. Quanto a seu objetivo, ela descritiva e explicativa. E nos

    seus procedimentos tcnicos ela bibliogrfica. composta em sua parte terica de uma

    introduo, o primeiro tpico trata da questo epistemolgica, o segundo descreve a relao

    epistemologia e Ensino Religioso e por ltimo vm as consideraes finais.

    A questo da epistemologia A palavra epistemologia vem do grego episteme, que quer dizer conhecimento ou

    cincia. Nesse sentido, a epistemologia pode ser entendida como sendo a parte da filosofia

    que estuda a questo do conhecimento, sua origem, estrutura , mtodos e validade. Assim

    concebida, a epistemologia remonta Antiguidade grega. Os escritos de Plato sobre a

    origem do conhecimento verdadeiro, ou os de Aristteles, sobre as faculdades da alma

    humana, poderiam, portanto, ser considerados como ensaios de epistemologia. De acordo

    com esse entendimento, a epistemologia se confundiria com a gnosiologia ou teoria do

    conhecimento, e trataria das interpretaes mais significativas na histria da filosofia sobre

    a questo do conhecimento. Nomes como Toms de Aquino, Ren Descartes, John Locke,

    David Hume, Immanuel Kant, entre inmeros outros, seriam referncias fundamentais.

    O principal problema da teoria do conhecimento a oposio entre essncia e aparncia.

    A tese clssica, geralmente associada a Plato, de que tudo que conhecemos de modo

    imediato no passa de aparncia. Para alm do que percebemos acerca de um objeto,

    qualquer que seja, h uma essncia invisvel na qual reside a verdade da coisa mesma.

  • Ciberteologia - Revista de Teologia & Cultura - Ano VI, n. 27 110

    Como no conhecido mito da caverna, de Plato, somos prisioneiros, no vendo seno

    sombras de uma realidade maior que quase sempre nos escapa. Mas, se nos esforarmos

    bastante, podemos vislumbrar a essncia e alcanar um conhecimento verdadeiro do objeto.

    Segundo o professor Vasconcelos (2009, p. 23-24), esse posicionamento epistemolgico,

    convencionalmente chamado de realismo ou dogmatismo , choca-se com outros tais, como

    o ceticismo , o relativismo ou o perspectivismo . nesse complexo campo de debates que

    se forja a epistemologia. Existe, contudo, um outro uso do termo epistemologia, no

    necessariamente oposto, mas que assume conotaes um pouco diferenciadas. O termo

    familiar aos estudiosos das reas da lgica, filosofia da linguagem e filosofia da cincia.

    Isso porque a questo do conhecimento foi retomada na poca contempornea em termos

    radicalmente diferentes daqueles em que havia sido concebida at ento. At meados do

    sculo XIX, a lgica aristotlica reinava suprema, muito pouco tinha sido acrescentado ao

    que Aristteles havia escrito de forma sistemtica no conjunto de obras intitulado Organon,

    que constitui seu tratado mais completo sobre o assunto. Na virada do sculo XIX ao XX,

    mas especialmente nas primeiras dcadas do sculo XX, vrios pensadores passaram a

    desenvolver um estudo sobre a linguagem, enfatizando seu papel na produo do

    significado. Merece nfase a atuao de um grupo conhecido como Crculo de Viena, sob a

    liderana de Moritz Schlick e Rudolf Carnap. O principal objetivo desses pensadores era

    desenvolver uma linguagem desprovida de ambiguidades e que servisse de forma exemplar

    ao conhecimento cientfico. Lentamente, foi-se desenvolvendo uma vertente diferenciada

    na filosofia, de carter essencialmente lgico e preocupada, sobretudo, com a relao entre

    linguagem e pensamento cientfico. Essa vertente, popularmente conhecida como filosofia

    analtica, ganhou amplo espao acadmico, tornando-se predominante nos pases de lngua

    inglesa, principalmente na Inglaterra e nos Estados Unidos. Quando usamos a palavra

    epistemologia associando-a a essa corrente de pensamento, continuamos usando-a no

    sentido de teoria do conhecimento, mas a nfase recai sob