Epistemologias Do Seculo XX

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Universidade Federal do Rio Grande do Sul Instituto de Fsica Mestrado Acadmico em Ensino de Fsica

EPISTEMOLOGIAS DO SCULO XX

Alberto Ricardo Prss

Monografia

apresentada

como

requisito para aprovao na disciplina Fundamentos Epistemolgicos para a Pesquisa em Ensino de Fsica, ministrada pelo Prof. Marco Antonio Moreira em 2007/2.

Porto Alegre RS Maro 2008

2Epistemologias do Sculo XX Alberto Ricardo Prss Resumo No presente trabalho, so apresentados textos que resumem diversas epistemologias desenvolvidas ao longo do sculo XX. Os textos foram produzidos com base em um livro especfico, mas foram consultadas leituras complementares. Palavras-chave: epistemologia, filosofia da cincia, pesquisa em ensino de cincias.

Epistemologies of Century XX Alberto Ricardo Prss Abstract In the present work, texts are presented that summarize diverse epistemologies developed to the long one of Century XX. The texts had been produced on the basis of a book specific, but complementary readings had been consulted. Key-words: epistemology, philosophy of science, research on education of sciences.

3SUMRIO 1. Apresentao 2. Introduo 3. A Epistemologia de Popper 4. A Epistemologia de Kuhn 5. A Epistemologia de Lakatos 6. A Epistemologia de Laudan 7. A Epistemologia de Toulmin 8. A Epistemologia de Bachelard 9. A Epistemologia de Feyerabend 10. A Epistemologia de Bunge 11. A Epistemologia de Maturana 12. A Epistemologia de Mayr 13. Concluso Apndice: Epistemologias do Sculo XX Quadro Comparativo 4 5 6 14 21 27 34 40 48 53 61 70 78 79

41. APRESENTAO Esta monografia foi elaborada como trabalho de concluso da disciplina de ps-graduao Fundamentos Epistemolgicos para a Pesquisa em Ensino de Fsica, ministrada pelo Prof. Marco Antonio Moreira em 2007/2. Os textos apresentados foram baseados nas leituras referenciadas, nas leituras consultadas, nas aulas do Prof. Moreira, nos debates feitos durante o semestre e em conhecimento anterior. Minha preocupao foi estritamente pessoal. Procurei produzir textos onde eu pudesse organizar o raciocnio e compreender a epistemologia do autor analisado. Procurei usar fontes confiveis, quando as leituras principais apresentaram lacunas.

52. INTRODUO Segundo a Wikipdia (2008): Epistemologia ou teoria do conhecimento (do grego [episteme], cincia, conhecimento; logos], discurso) um ramo da filosofia que trata dos problemas filosficos relacionados crena e ao conhecimento. A epistemologia estuda a origem, a estrutura, os mtodos e a validade do conhecimento (da tambm se designar por filosofia do conhecimento). Ela se relaciona ainda com a metafsica, a lgica e o empirismo, uma vez que avalia a consistncia lgica da teoria e sua coeso fatual, sendo assim a principal dentre as vertentes da filosofia ( considerada a "corregedoria" da cincia). Podemos ver a importncia da epistemologia citando o fsico Hermann Bondi no seu livro O Universo como um todo: Quando uma atividade se desenvolve com a velocidade e sob a presso com que o trabalho cientfico realizado, difcil muitas vezes parar e analisar o que se est realmente fazendo. Felizmente os filsofos da Cincia o fizeram por ns. Entretanto, alguns cientistas modernos do pouco valor aos estudos epistemolgicos. Vejamos o caso de Steven Weinberg, ganhador do Prmio Nobel, em seu livro Sonhos de uma teoria final: A maioria dos fsicos concordaria que uma falcia lgica partir da observao de que a cincia um processo social e chegar concluso de que o produto final, nossas teorias cientficas, moldado por foras histricas e sociais que agem nesse processo. Essas idias no afetam de forma alguma a cincia ou os cientistas. O perigo que representa para cincia vem da possvel influncia sobre aqueles que no participaram do trabalho cientfico, mas dos quais a cincia depende, especialmente sobre os encarregados de financiar a cincia e a nova gerao de cientistas em potencial. muito importante que o cientista, o professor e, por que no, o cidado comum saiba que a cincia uma construo humana e como tal deve ser entendida. Por mais popperianos que alguns cientistas sejam, com certeza se eles conhecerem o verdadeiro pensamento de Popper, a relao entre cincia e sociedade certamente ser menos tensa. Em relao ao ensino em geral e , em particular, ao ensino de cincias, inegvel que no se pode separar o ensino do contedo cientfico e o ensino das idias que esto ligadas a esse contedo.

63. A EPISTEMOLOGIA DE POPPER

Introduo Karl Raimund Popper (1902-1994) nasceu Viena, licenciou-se em matemtica e fsica e se doutorou em Filosofia pela universidade local em 1928. Embora no tenha sido membro da famosa Escola de Viena, foi simptico com as idias defendidas, mas criticou muito dos postulados adotados. Ensinou de 1937 a 1945 na Universidade de Canterbury, na Nova Zelndia e, mais tarde, na Universidade de Londres. Morreu em 1994. A contribuio mais significativa de Popper a filosofia da cincia foi sua caracterizao do mtodo cientifico. Em seu livro A Lgica da Pesquisa Cientfica, criticou a idia prevalecente de que a Cincia , em essncia, indutiva. Props um critrio de demarcao que denominou falseabilidade, para determinar a validade cientifica, e negou o carter hipottico-dedutivo da Cincia. As teorias cientficas so hipteses a partir das quais se podem deduzir enunciados comprovveis mediante a observao; se as observaes experimentais adequadas revelam como falsos esses enunciados, a hiptese refutada. Se uma hiptese supera o esforo de demonstrar sua falseabilidade, pode ser aceita, ao menos em carter provisrio. Nenhuma teoria cientifica, entretanto, pode ser estabelecida de forma definitiva. No livro A Sociedade Aberta e seus Inimigos (Popper, 1987), Popper defendeu a democracia e apresentou problemas as implicaes supostamente autoritrias das teorias polticas de Plato e Marx. O presente trabalho foi inspirado na leitura do livro Conjecturas e Refutaes (Popper, 2006), publicado originalmente em 1963. O Crculo de Viena Para entender as idias de Popper, precisamos conhecer as idias neopositivistas do chamado Crculo de Viena (Wikipdia, 2008a). O Crculo foi um grupo de filsofos e cientistas, organizado informalmente em Viena volta da figura de Moritz Schlick. Encontravam-se semanalmente, entre 1922 e finais de 1936, ano em que Schlick foi assassinado por um estudante universitrio irado. Muitos membros deixaram a ustria com a ascendncia do partido nazista, tendo o crculo sido dissolvido em 1936. Membros proeminentes do Crculo foram Rudolf Carnap, Otto Neurath, Herbert Feigl, Philipp Frank, Friedrich Waissman, Hans Hahn. Receberam as visitas ocasionais de Hans Reichenbach, Kurt Gdel, Carl Hempel, Alfred Tarski, W. V. Quine, e A. J. Ayer (que popularizou a obra deles em Inglaterra).

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A filosofia do sculo XX teve vrios marcos fundamentais. Um deles surgiu nos princpios do sculo em Viena. Durante o sculo XIX, a filosofia idealista colidiu frontalmente com os interesses cientficos. A filosofia desligou-se da cincia e das suas preocupaes. Aos poucos cada uma delas vo se tornando autnomas e no dependem uma da outra. Os idealistas vo contra as pretenses e os avanos que desde o sculo XVII produziram diferentes disciplinas cientficas, guiam a filosofia por caminhos distintos a os dos cientistas. Esta separao foi temporria, pois um novo movimento filosfico estava comeando a surgir: nascia o que hoje chamamos de filosofia da cincia, apoiada nas disciplinas cientficas a crescente influncia no conhecimento humano. Os fundadores eram pensadores fascinados pela fora da experincia na comprovao e pelo avano que este mtodo proporciona as disciplinas cientficas. Junto com a predileo pelas disciplinas cientficas, houve tambm o auge da lgica apoiada na matemtica, que converteu esta disciplina filosfica no mtodo adequado para o conhecimento da realidade e numa nova forma de verificao. Os nomes que se destacaram foi os de Wittgenstein, Russel e Whitehead. A verificao das proposies pode ser feita com mtodos lgicos que vo decidir se podem ser ditas e se tem sentido ou no. O avano das disciplinas cientficas e o nascimento desta nova concepo da lgica propiciaram novos ares filosficos. Um grupo de jovens filsofos, ma maioria deles provenientes de disciplinas cientificas, estava disposto a colocar ordem no conhecimento cientifico e a descobrir a verdadeira essncia de seu mtodo. No incio do sculo XX e durante os poucos perodos de paz, a reflexo sobre o mtodo cientfico recebeu um impulso decisivo. Na Universidade de Viena formou-se um grupo de cientistas e filsofos dispostos a unificar o pensamento cientifico. A idia era consolidar esta nova forma de pensar. O primeiro inspirador intelectual do grupo foi o fsico alemo Ernst Mach (1838-1916), que foi professor de filosofia da cincia de 1895 at 1901 na Universidade de Viena. As idias de Mach podem ser resumidas a dois princpios: 1. A cincia fenomenalista: a cincia est dedicada ao estudo dos fenmenos, que so nicos e reais. S estuda os fenmenos e qualquer pretenso de ir mais alm da experincia impossvel. 2. A cincia no se move entre parmetros de verdade e falsidade. Prope que a cincia no pode ir alm dos fenmenos. A idia central que a cincia seria capaz de conhecer os fatos, os fenmenos e servir de instrumento eficaz para a consolidao da espcie humana. Qualquer outra pretenso de estaria fora do alcance deste saber. Mediante a cincia, o homem completava sua adaptao a Natureza. Rapidamente os membros do Crculo de Viena perceberam que as idias de Mach careciam de fora lgica, sendo sumariamente intuitiva. Foi por causa disso que surgiram os grandes debates do grupo.

8Em 1922, Moritz Schlick tornou-se professor de filosofia de cincias indutivas na Universidade de Viena. Um grupo de filsofos e cientistas, incluindo a Rudolf Carnap, Herbert Feigl, Kurt Gdel, Hans Hahn, Otto Neurath, e Friedrich Waismann, sugeriram a Schlick que iniciassem encontros regulares para discutir ci