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125 Kalagatos Kalagatos Kalagatos Kalagatos Kalagatos - REVISTA DE FILOSOFIA. FORTALEZA, CE, V. 11 N. 22, VERÃO 2014 ENSAMENTO E O PENSADOR APONTAMENTOS A PARTIR DA VISÃO DE GILLES DELEUZE ANTONIO BAPTISTA GONÇALVES * Recebido em jun. 2014 Aprovado em nov. 2014 ESUMO O que é o pensamento? Qual a sua origem? Qual a relação com o pensador? Será que possuímos elementos suficientes para responder essas indagações? É com base em um processo composto por indagações que iremos analisar a relação do pensamento com o pensador e para tanto traremos e nos basearemos na visão de Gilles Deleuze. PALAVRAS-CHAVE Pensamento. Plano de imanência. Gilles Deleuze. * Advogado, Membro da A SSOCIAÇÃO B RASILEIRA DOS CONSTITUCIONALISTAS, Pós-Doutor em Ciência da Religião pela PUC/SP, Pós-Doutor em Ciências Jurídicas pela UNIVERSIDADE DE LA MATANZA. Doutor e Mestre em Filosofia do Direito pela PUC/SP, Especialista em Direitos Fundamentais pela UNIVERSIDADE DE COIMBRA, Especialista em Law: Terrorism’s New Wars and ICL’s Responses pelo ISTITUTO SUPERIORE INTERNAZIONALE DI SCIENZE CRIMINALI, Especialista em Direito Penal Econômico Europeu pela UNIVERSIDADE DE COIMBRA, Pós-Graduado em Direito Penal – Teoria dos delitos pela UNIVERSIDADE DE SALAMANCA, Pós-Graduado em Direito Penal Econômico pela FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS – FGV, Bacharel em Direito pela UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE.

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O �ENSAMENTO E O PENSADOR

APONTAMENTOS A PARTIR DA VISÃO DE GILLES DELEUZE

ANTONIO BAPTISTA GONÇALVES *

Recebido em jun. 2014Aprovado em nov. 2014

RESUMO

O que é o pensamento? Qual a sua origem? Qual arelação com o pensador? Será que possuímos elementossuficientes para responder essas indagações? É combase em um processo composto por indagações queiremos analisar a relação do pensamento com opensador e para tanto traremos e nos basearemos navisão de Gilles Deleuze.

PALAVRAS-CHAVE

Pensamento. Plano de imanência. Gilles Deleuze.

* Advogado, Membro da ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS

CONSTITUCIONALISTAS, Pós-Doutor em Ciência da Religião pelaPUC/SP, Pós-Doutor em Ciências Jurídicas pela UNIVERSIDADE

DE LA MATANZA. Doutor e Mestre em Filosofia do Direito pelaPUC/SP, Especialista em Direitos Fundamentais pelaUNIVERSIDADE DE COIMBRA, Especialista em I������������ ������Law: Terrorism’s New Wars and ICL’s Responses pelo ISTITUTO

SUPERIORE INTERNAZIONALE DI SCIENZE CRIMINALI, Especialista emDireito Penal Econômico Europeu pela UNIVERSIDADE DE COIMBRA,Pós-Graduado em Direito Penal – Teoria dos delitos pelaUNIVERSIDADE DE SALAMANCA, Pós-Graduado em Direito PenalEconômico pela FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS – FGV, Bacharel emDireito pela UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE.

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. ABSTRACT

What is thought? What is its origin? What is therelationship with the thinker? Will we have enoughinformation to answer these questions? It is based ona process composed of questions that we will examinethe relationship between thought and the thinker andfor that we bring and will base ourselves in the sight ofGilles Deleuze.

KEYWORDS

Thinking. Plane of immanence. Gilles Deleuze.

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O artigo em tela tem por objetivo analisar o pensamento. De início iremos apresentar o que

vem a ser o pensamento, uma singela conceituação e,posteriormente sua relação com o movimento.

Transcorrido esse momento preliminar iremosnos ater ao cerne de nossa preocupação: a relação dopensamento com o pensador. Inicialmente pode pareceruma relação indissociável, porém, como veremos, arelação entre pensamento e pensador pode serindependente, com o pensamento existindo por si só,o que ocasionará uma estranheza, reação comumnaquilo que não se encaixa no conhecimento cotidiano.

E nossa tarefa ao longo desse artigo será trazerindagações, sem necessariamente oferecer respostas deforma direta. A nossa construção será através deprovocações. Então, ao longo do texto traremosperguntas que irão envolver o pensamento e o pensador.

Apenas a guisa de ilustração: é possível opensamento existir independentemente do pensador? Épossível que o pensador seja um mero intermediário dopróprio pensamento, isto é, o pensamento apenas e tãosomente usa o pensador para exteriorizar sua existência?Essas e outras indagações serão acompanhadas deapontamentos a partir dos ensinamentos de Gilles Deleuze.

Gilles Deleuze, filósofo francês, nasceu em Parisem 18 de janeiro de 1925 e morreu em 1995. Seutrabalho inclui toda uma interpretação de filósofoscomo Hume, Nietzsche, Bergson, Spinoza, Foucault, ede artistas como Proust, Kafka, Francis Bacon e Carmelo

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. Bene. D ! "# $"%!&'(" )*"+() )(%, $ -).+(, ) '(/(

Nietzsche, Kant e Spinoza. Entre suas obras principaisestão Nietzsche et la philosophie (1962); Proust et lessignes (1964); Logique du sens (1969); Spinoza(1970); Foucault (1986); e Critique et clinique (1993).E)', 0 " *./%2/ +(&) !&0,() )(%, 3&- /.4 5 6/.7 /

Movimento e a Imagem Tempo. Gilles Deleuze e FélixGuattari escreveram juntos, O Anti-Édipo (1972),Kafka, Por uma literatura menor (1975), Mil Platôs(1980) e O que é a filosofia? (1991). Com Claire Parnetescreveu o livro Diálogos (1977)1.

Sobre o tempo, Deleuze tem importantestrabalhos relacionados à literatura e ao cinema2. Aqui

8 Fonte: <http://www.biografiasyvidas.com/biografia/d/deleuze.htm>9 :h;;<=??@@@A<hBCFHF<hBJKABLMF?NFJPH?

deleuze/Deleuze.html> e <h;;<=??@@@AQMSTHAUS?KCJKS?

e n c o n t r o s - n a c i o n a i s - 1 / 6 o - e n c o n t r o - 2 0 0 8 - 1 /Imagens%20de%20Pensamento%20em%20Gilles%20Deleuze.pdf>AAcesso em 28 de maio de 2014.

V Ao longo de seu percurso filosófico, podemos observar aimportância que o filósofo francês Gilles Deleuze conferiu aalguns domínios exteriores à filosofia, tais como a literatura,a pintura e o cinema. Ao contrário do que se poderia pensar,esses trabalhos não se caracterizam por serem justificativasou explicações filosóficas para questões observadas no campoartístico. Trata-se antes de saber quais as possíveis intercessõesexistentes entre esses domínios e a filosofia ou, maisespecificamente, quais conceitos filosóficos podem ser criadose/ou suscitados a partir dos mesmos.

Ao realizar tais intercessões, Deleuze nos apresenta suaconcepção de pensamento e subjetividade, concepção que seencontra profundamente correlacionada ao tempo e a certodevir-artístico do pensador. Apesar de já encontrarmos, nadécada de 1960, trabalhos importantes de Deleuze [CONTINUA]

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ao pensamento e, evidentemente, outras questões comoa imagem do pensamento, o movimento dopensamento e a imanência.

2. O QUE É O PENSAMENTO

A primeira indagação que se suscita é elementar:o que é o pensamento?

Pensamento. De pensar, do latim pensare (pensar,meditar, considerar), designa o fenômeno que se produzna mente da pessoa, em virtude do que se apercebe oucuida de alguma coisa. É, assim, o que vem a mente, oque se produz no cérebro, o que a inteligência percebe,o que se medita ou o que se imagina.

Nesse sentido, pois, o pensamento é o entendimento,a imaginação, uma atividade mental, que pode sercausa de uma deliberação ou determinação. Opensamento, pois, enquanto não manifestado ouexpresso, é impenetrável, pois que se oculta naintimidade indevassável do cérebro ou da mente.Na manifestação ou na expressão é que ospensamentos se revelam, mostrando-se expressos oumanifestados, deliberações, determinações, intuitos,planos, projetos, ideias, vontades, etc. E essa

[CONTINUAÇÃO DA NOTA 2] relacionando pensamento e literatura– é o caso de Proust e os signos (1964/2006) e Sacher-Masoch(1967/2009) – a questão é retomada na década de 1980, destavez no âmbito da pintura e do cinema, atualizada em Lógicada sensação (1981/2007), Imagem-movimento (1983/1985)e Imagem-tempo (1985/1990). MANGUEIRA, Mauricio eMAURICIO, Eduardo. Arte, Tempo e Subjetividade emGilles Deleuze. Revista Artefilosofia, Ouro Preto, n. 13, p.154-166, dezembro 2012.

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. manifestação é feita pela palavra escrita ou oral, ou,mesmo, por imagens (desenhos, pintura)3.

De início já podemos extrair alguns trechos dadefinição acima: “o que se produz na mente da pessoa”,“o que vem a mente”, “o que a inteligência percebe”.Em todos esses casos o que nos parece é que opensamento pode ser externo ao pensador, afinal, opensamento pode estar ali apenas e tão somente nãofoi percebido pelo pensador, o cérebro não processouetc. Contudo, o pensamento pode estar em movimentoe não foi percebido pelo pensador em decorrência destenão ter os mecanismos para reconhecê-lo? O pensadorainda não possui uma capacidade cognitiva que lhepermita reconhecer aquele pensamento? Essas foramapenas as primeiras provocações, voltemos ao temamais adiante.

Agora, ainda sobre o conceito pensamento,contribui Marilena Chauí:

Certa vez um grego disse: “O pensamento é o passeioda alma”. Com isso quis dizer que o pensamento é amaneira como nosso espírito parece sair de dentrode si mesmo e percorrer o mundo para conhecê-lo.Assim como o passeio levamos nosso corpo a todaparte, no pensamento levamos nossa alma a todaparte e mais longe do que o corpo, pois a alma nãoencontra obstáculos físicos para seu caminhar.O pensamento é essa curiosa atividade por meio daqual saímos de nós mesmos sem sairmos de nosso

r SILVA, De Plácido e. Vocabulário Jurídico. AtualizadoresNagib Slaibi Filho e Priscila Pereira Vasques Gomes. 29 ed.Rio de Janeiro: Forense, 2012, p. 1025.

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é maneira pela qual sair de si e entrar em si são umasó e mesma coisa. Como um voo sem sair do lugar4.

Assim podemos extrair o conceito de que opensamento não é estanque e enseja e sugere ummovimento. Gilles Deleuze, sobre o tema, defendea ideia de que o pensamento deve estar emmovimento:

O pensamento reivindica “somente” o movimentoque pode ser levado ao infinito. O que o pensamentoreivindica de direito, o que ele seleciona, é omovimento infinito ou o movimento do infinito. Éele que constitui a imagem do pensamento5.

O pensador pode estar em constante movimentoem elevada velocidade acerca do pensamento e do atode pensar sem, contudo, sair do lugar. O movimentonão é algo exatamente físico ou motor. E sobre omovimento uma nova indagação: quem está emmovimento, o pensador ou o pensamento? Ou seria opensamento em movimento e o pensador a lheacompanhar?

Nesse diapasão, continuando com as provocações,quando se associa o pensamento ao pensador surge adúvida sobre a autonomia de um e de outro, afinal épossível existir o pensamento independente dopensador?

� CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. 13. ed. São Paulo:Ática, 2006, p. 157.

5 DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. O que é filosofia?Tradução Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Muñoz. São Paulo:Editora 34, 2013, p. 47 e 48.

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. De tal sorte não causa estranheza se relacionar opensamento com um autor6. Nesse esteio continuamosa indagar: em geral, quando se relaciona o pensamento

� Há ainda inofensivos observadores de si, que acreditam que há“certezas imediatas”, por exemplo, “eu penso”, ou, como era asuperstição de Schopenhauer, “eu quero”, como “coisa em si”[...] O povo que acredite que conhecer é conhecer-final; o filósofotem de dizer a si mesmo: se eu decomponho o processo que estáexpresso na proposição “eu penso”, obtenho uma série deafirmações temerárias, cuja fundamentação é difícil, talvezimpossível -, por exemplo, que sou eu quem pensa, que em geraltem de haver algo que pensa, que pensar é uma atividade e efeitoda parte de uma essência que é pensada como causa, que há um“eu”, e, enfim, que já está estabelecido firmemente o que se devedesignar como pensar – que eu sei o que é pensar. Pois, se eu jánão tivesse decidido sobre isso comigo mesmo, em que mebasearia para distinguir se o que acaba de acontecer não é, talvez,“querer” ou “sentir”? Basta dizer que aquele “eu penso” pressupõeque eu compare meu estado no instante com outros estados queconheço em mim, para assim estabelecer o que ele é: dada essaremetência a um “saber” de outra procedência, ele não tem paramim, em todo caso, nenhuma certeza imediata. – Em lugardaquela “certeza imediata”, em que, no caso dado, o povo podeacreditar, o filósofo recebe nas mãos em série de questões dametafísica, bem propriamente questões de consciência dointelecto, que são: “De onde tiro o conceito de pensar? Por queacredito em causa e efeito? O que me dá o direito de falar de umeu, e até mesmo de um eu como causa e, afinal, ainda de um eucomo causa de pensamentos?” Quem, fazendo apelo a umaespécie de intuição do conhecimento, se aventura a responderprontamente a essas perguntas metafísicas, como faz aquele quediz: “Eu penso e sei que pelo menos isso é verdadeiro, efetivo,certo” – esse encontrará hoje, em um filósofo, um sorriso e doispontos de interrogação. “Prezado senhor”, dar-lhe-á talvez aentender o filósofo, “é inverossímil que o senhor não esteja emerro: mas também, por que sempre verdade? NIETZSCHE,Friedrich. Para Além de Bem e Mal. In Obras Incompletas.Tradução Rubens Rodrigues Torres Filho. Coleção Os pensadores.São Paulo: Nova Cultural, 1999, p. 305 e 306.

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pensamento com o ser pensante? É possível o ato depensar fomentar a existência do pensamento? Comose o pensamento somente existe porque uma pessoarefletiu sobre algo, se assim o for, o pensamento afloroudo subconsciente? E insistimos: a figura da pessoa éindispensável para a existência do próprio pensamento?

Para tanto, ao analisar a questão podemosformular uma nova indagação a fim de buscarelementos para verificar se existe uma relação entrepensamento e pensador ou se estes podem existirautonomamente: O que é o pensar? Sobre o tema osensinamentos de Gilles Deleuze:

Pensar é, primeiramente, ver e falar, mas com acondição de que o olho não permaneça nas coisas ese eleve até as “visibilidades”, e de que a linguagemnão fique nas palavras ou frases e se eleve até osenunciados. É o pensamento como arquivo. Alémdisso, pensar é poder, isto é, estender relações deforça, com a condição de compreender que asrelações de força não se reduzem à violência, masconstituem ações sobre ações, ou seja atos, tais como“incitar, induzir, desviar, facilitar ou dificultar,ampliar ou limitar, tornar mais ou menosprovável...”. É o pensamento como estratégia7.

Assim, o ato de pensar não pode ficar adstritoapenas ao que se vê e se conhece, pois, é necessárioestar aberto ao novo, ao não conhecido, a algo maior,que o próprio ser pode não ter consciência da existência.

¢ DELEUZE, Gilles. Conversações. Tradução Peter Pál Pelbart.São Paulo: Editora 34, 2013, p. 123 e 124.

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. Pensar pode ser um ato simples se não se observar asconsequências à amplitude do pensamento e aoexponencial de possibilidades com o simples ato depensar.

De tal sorte que cabe ao pensador estar preparadoe querer ver as demais possibilidades intrínsecas a essepensar ou apenas e tão somente ver e refletirpontualmente, seja por não ter mecanismo parareconhecer o além ou por não querer fazê-lo. Quandose tem consciência de algo maior e da amplitude depossibilidade, a crise é inevitável e ao pensador cabe opapel de administrar as crises advindas do ato de pensar,a busca do novo, do que não é conhecido.

Em toda a sua obra, Deleuze faz fulgurar o temada imagem do pensamento8 e as possibilidades para oexercício do pensar. A tarefa da filosofia, de toda afilosofia do porvir, deve ser aquela de colocarmovimento no pensamento, retirá-lo de suaimobilidade, que nada mais é que romper ospressupostos da representação e diluir seus principaiselementos. Pensar é garantir ao pensamento9 sua­ A imagem do pensamento é como que o pressuposto da filosofia,

precede esta; desta vez não se trata de uma compreensão nãofilosófica, mas sim de uma compreensão pré-filosófica.DELEUZE, Gilles. Conversações. Tradução Peter Pál Pelbart.São Paulo: Editora 34, 2013, p. 17.

9 Será que nós temos do pensamento a mesma imagem que teve Platãoou mesmo Descartes ou Kant? Será que a imagem não se transformousegundo coerções imperiosas, que sem dúvida exprimemdeterminismos externos, porém mais ainda um devir do pensamento?Será que ainda podemos pretender que buscamos o verdadeiro, nósque nos debatemos do não-sentido? É a imagem do pensamento queguia a criação dos conceitos. DELEUZE, Gilles. Conversações.Tradução Peter Pál Pelbart. São Paulo: Editora 34, 2013, p. 190.

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que possam, ancorados em um plano de imanência11,fazer alianças com o extrafilosófico e produzir umaviolenta onda de forças que nos faça pensar12. Nospróximos tópicos iremos aprofundar melhor essasideias, na qual trataremos com mais profundidade aquestão do plano de imanência e da relação deste como movimento do pensamento e com a imagem dopensamento.

3. O PENSAMENTO E O ATO DE PENSAR

Até o presente momento apresentamos oconceito de pensamento, a sua relação com uma ideiade movimento e lançamos várias indagações acercado pensador com o pensamento. As indagações irãocontinuar e iremos desenvolver um pouco mais aquestão: pensador, o ato de pensar e o pensamento.

½¾ Criar conceitos é construir uma região do plano, juntar umaregião às precedentes, explorar uma nova região, preencher afalta. O conceito é um composto, um consolidado de linhas, decurvas. Se os conceitos devem renovar-se constantemente, éjustamente porque o plano de imanência se constrói por região,havendo uma construção local, de próximo em próximo.DELEUZE, Gilles. Conversações. Tradução Peter Pál Pelbart.São Paulo: Editora 34, 2013, p. 188.

11 É o que se passa num plano de imanência: multiplicidades opovoam, singularidades se conectam, processos ou devires sedesenvolvem, intensidades sobem ou descem. DELEUZE, Gilles.Conversações. Tradução Peter Pál Pelbart. São Paulo: Editora34, 2013, p. 188.

12 VASCONCELLOS, Jorge. A filosofia e seus intercessores:Deleuze e a não-filosofia. Revista Educação Sociedade.Campinas, vol. 26, n. 93, p. 1217-1227, Set./Dez. 2005.

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. Comecemos com uma reflexão sintáxicagramatical: É possível se conjugar o verbo pensar semque exista um sujeito?

Não é comum em uma frase se considerar umpensamento dissociado de seu sujeito, como em umarelação intrínseca, não há uma frase pensou, pois, logose segue a questão: mas quem pensou? Não é um fatoautônomo e independente como, por exemplo, o atode chover que independe de um sujeito.

O pensamento enseja uma pessoalidade, umapersonificação que reivindica a sua autoria13. No entanto,nova reflexão exsurge: e se o sujeito não for o ser pensante,mas sim, um mero instrumento do próprio pensamento?

De acordo e em consonância com o raciocíniogramatical é comum e compreensível se relacionar o

ÉÊ A imagem dogmática do pensamento está completamentevinculada à idéia de vontade de verdade de Nietzsche. Já anova imagem do pensamento tem como premissa o fato deque o verdadeiro não é mais elemento do pensamento, mas osentido e o valor. Toda a crítica pós- estruturalista concentra-se em um conjunto de conceitos que tem origem em Nietzsche;um anti-essencialismo; um anti-realismo em termos designificado e de referência; um anti- fundacionalismo; anegação à idéia de transcendência; a sujeição a uma idéia deconhecimento como a representação exata da realidade e arejeição de uma concepção de verdade que tem totalcorrespondência com a realidade (PETERS, 2000: 51). ParaDeleuze, os elementos da representação têm, como princípiogeral o “Eu penso”, garantindo a unidade de todas asfaculdades. É uma sujeição ao idêntico, ao semelhante, aoanálogo. CAMPOS, Luana Brant. O cinema nas potênciasdo falso – devir e hibridizações. Revista Travessias.Disponível em: ËÌÍÎÏÐÑÑÑÒÐÑÓÔÕÎÖ×Ï×ØÙÚÛØÙÚÜÖÝÖÞÑßÌÖÝÖÞÑ2861-10821-1-PB.pdf>à áâÏÞÞÖ Ïã Ùä åÏ ãæÍÖ åÏ ÙÚçèà

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podemos considerar a hipótese de que o sujeito sejaum mero intérprete do pensamento? E que, porconseguinte, o pensamento utilizou o corpo e o cérebrodo sujeito como invólucro para estabelecer a suaconcretude? O pensamento pode excluir o próprio serpensante da equação14? Como afirma Nietzsche: Umacoisa sou eu, outra são meus escritos15.

Ainda nessa esteira, duas hipóteses: ou opensamento não é dissociado do pensador ou existeuma ausência de capacidade, isto é de mecanismos,por parte dos demais indivíduos em reconhecer aexistência do pensamento fora do pensador? Eprosseguindo ainda mais na indagação da segundapossibilidade negando, portanto a primeira: há apossibilidade, portanto, se o pensamento existir

øù “Isto quer dizer que o sujeito pensante perderia sua identidadeatravés de um pensamento coerente que o excluiria a partirde si mesmo?... Qual é minha parte neste movimento circularem relação ao qual eu sou incoerente? Qual é minha parte emrelação a este pensamento tão perfeitamente coerente queele me exclui no próprio instante em que eu o penso?... Comoameaçaria ele a atualidade do eu, deste eu que, todavia, eleexalta? Liberando as flutuações que o significavam como eu,de tal modo que só o revolvido retine em seu presente... OCirculus vitiosus deus é apenas uma denominação deste signoque adquire aqui uma fisionomia divina a exemplo de Dioniso.”(Esquecimento e anamnese na experiência vivida do eternoretorno do Mesmo, em NIETZSCHE, Friedrich. Cahiers deRoyaumont, Éditions de Minuit, 1966, p. 233-235.).

15 NIETZSCHE, Friedrich. Ecce Homo. In Obras Incompletas.Tradução Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: NovaCultural, 1999, p. 423. (Coleção Os pensadores).

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. independentemente do pensador, que este último figurecomo instrumento de reconhecimento do própriopensamento, como um intérprete? E, com isso,possibilite que outros pensadores, que não possuemmecanismos para reconhecer a independência dopensamento possam, ao menos, reconhecer opensamento através daquele pensador?

Vamos separar as coisas: primeira pergunta duaspossibilidades: o pensamento é dissociado ou não dopensador. Assumindo que o pensamento é dissociado,então o pensador pode servir de intérprete para osdemais indivíduos reconhecerem esse pensamento?

De início tal visão pode causar estranheza,contudo, essa possibilidade é possível através doescritor. Este ao escrever reconhece um pensamento eo trabalha a fim de que os demais indivíduos possamreconhecê-lo. Da mesma forma o professor em relaçãoaos alunos.

E nesse processo, nessa relação pensamento-pensador, o primeiro pode atravessar o segundo ouocupar sua mente e cérebro e, com isso, comprometeraté a sua saúde?

Um escritor ao longo de seu processo de escritapode deixar o pensamento fluir e tomar forma econtornos próprios o que ocasionar ao escritor se tornarmero portador de algo maior, como que um intérpreteum tradutor.

Sobre esse tema traremos nossa própriaexperiência: Em nosso processo de escrita, em muitasvezes, somos tomados pelo próprio pensamento. Comisso, o dormir, o trabalhar e o entretenimento se tornam

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corpo e a mente tornando desagradável a vidaenquanto o processo de escrita não se conclui, isto é,resulta em dores no corpo, mal estares, indisposiçõese dores de cabeça que se perpetuam até a conclusãoda ideia proposta, com a conversão desta em texto.

Como se fossemos apenas e tão somente oportador do pensamento. É possível a guisa deilustração se comparar esse processo de tradução dopensamento em palavras, em texto para os demais, comuma gravidez, pois, enquanto o livro, artigo, ensaio oudemais escritos não se concluem as dores vem e seapossam do corpo. Com o transcorrer dos dias e àmedida em que a escrita evolui, o pensamento sedesenvolve e o caminho aos poucos se sedimenta, tomaforma, com momentos em que mais parece sedesenvolver por conta própria16. Em algum, ou emvários momentos, se torna incomodo e, enquanto nãoé colocado para fora, com o texto concluso e opensamento desenvolvido, ainda que não por completo,os desgastes ao corpo existem e se repetem.

Quando o processo se conclui e o texto estápronto o que se sente é um profundo alívio somado aum cansaço por toda a energia despendida ao longodo processo. Não queremos comparar o processo deescrever com uma gestação, mas a imagem pode ser

1� Um livro é uma pequena engrenagem numa maquinaria exteriormuito mais complexa. Escrever é um fluxo entre outros, semnenhum privilégio em relação aos demais, e que entra emrelações de corrente, contracorrente, de redemoinho com outrosfluxos. DELEUZE, Gilles. Conversações. Tradução Peter PálPelbart. São Paulo: Editora 34, 2013, p. 17.

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. bem ilustrativa para exemplificar o processo vivenciadopelo escritor.

Com isso, avancemos um pouco mais nasindagações sobre o pensamento: O pensador tem algumcontrole sobre o surgimento de um pensamento emsua mente? E sobre o seu desenvolvimento?

Um pensamento pode surgir pelos mais variadosmotivos, seja por uma conversa, uma leitura, ou atéum simples momento de ócio em que se observa umacena através dos meios de comunicação que ensejamum pensamento derivado do que se viu, apenas paraexemplificar algumas das possibilidades.

Então, do momento em que o pensador temcontato com o pensamento, este pode se desenvolverautonomamente ou depende do pensador para tanto?O pensador pode efetivamente pensar e refletir sobre oassunto ou o sujeito pode inconscientemente seguirpensando sobre algo sem necessariamente ter dedicadoseu tempo àquilo. Neste caso, não se dissocia, o sujeitodo pensamento. Assim, não é aparente a dissociação dopensamento como algo autônomo, pois, para aquelesque não reconhecem a existência do pensamento deforma autônoma do pensador, se coloca o pensamentocomo algo conhecido do próprio cotidiano das pessoas.

No entanto, o pensamento pode ter a existênciaem si mesmo, todavia, necessária será a presença deseu interprete, isto é, o pensador, para que opensamento se exteriorize e seja conhecido pelosdemais? Sobre o tema Nietzsche:

Ninguém pode ouvir nas coisas, inclusive nos livros,mais do que já sabe. Para aquilo a que não se tem

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em um caso extremo: que um livro fale de puras vivênciasque estão inteiramente fora da possibilidade de umaexperiência frequente, ou mesmo apenas rara – que sejaa primeira linguagem para uma nova série deexperiências. Nesse caso simplesmente nada é ouvido,com a ilusão acústica de que, onde nada é ouvido, também

nada há... Esta é, por último, minha experiência média,e, se se quiser, a originalidade de minha experiência17.

De tal sorte que o pensamento pode se apossardo indivíduo, pode acometer e comprometer aexistência física do receptáculo, mas, não poderá existirpor si só e ser identificado como tal pelos demais? Porconseguinte, dependerá do pensador para serconhecido ou reconhecido?

4. O PENSAMENTO E O PENSADOR NA VISÃO DE GILLES DELEUZE

Até o presente momento nos ativemos aoconceito de pensamento e desdobramos a questão aoanalisar o pensamento e o pensador, agora, iremostratar da relação do pensamento com o pensador deacordo e em consonância com Gilles Deleuze18.

17 NIETZSCHE, Friedrich. Ecce Homo. In Obras Incompletas.Tradução Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: NovaCultural, 1999, p. 424. (Coleção Os pensadores).

18 Não será escopo desse trabalho apresentar toda a conceituação deDeleuze acerca do pensamento, sua relação com o conceito e afilosofia, pois, somente este trabalho já ensejaria um espaço próprio.Aqui traremos fragmentos de seu pensamento a fim de corroborarcom o que desenvolvemos até o presente momento sobre opensamento, o movimento e a imagem do pensamento. Para tantointroduziremos a questão do plano de imanência, porém, sem tratarda questão dos conceitos e da relação com a filosofia.

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. O pensamento é um dos grandes temas defilosofia analisados por Gilles Deleuze, sobre o temaJorge Vasconcellos:

O grande tema da filosofia de Gilles Deleuze é opensamento. O exercício do pensamento e apossibilidade de novas formas de expressão dopensar percorrem toda a sua obra. Desde seus textosmonográficos até as obras derradeiras, Deleuzeparece propor-nos duas questões: O que é opensamento? Em que medida é possível dar aopensamento novos meios de expressão?19.

Enrique Álvarez Asiáin defende a ideia que naobra de Gilles Deleuze o pensamento não pensa por simesmo e faz uma relação deste com o que ele denominade imagem do pensamento:

Deleuze escribe en varias ocasiones a lo largo de suobra que el pensamiento nunca piensa por sí mismo20,sino que sólo produce a partir de un campo deposibilidades, campo al cual podemos referirnos paraaproximarnos a eso que el propio Deleuze llama

<= VASCONCELLOS, Jorge. A filosofia e seus intercessores:Deleuze e a não-filosofia. Revista Educação Sociedade.Campinas, vol. 26, n. 93, p. 1217-1227, Set./Dez. 2005.

20 “Para un nietzscheano como Deleuze – advierte Mengue –, elpensamiento es inseparable del ser, y este ser es él mismoinseparable de la vida”. Siguiendo a Nietzsche, Deleuzesostiene que la vida es voluntad de poder, es decir, creación.Repite que la fuerza de la vida consiste en su poder paraplantear, desarrollar, enfrentar y responder a los problemas.Disponível em: <h>>[email protected]?BCDEFHI>JKILFEIKCHMNJKIKJCNOPJEFQO

wordpress.com/2012/08/el-pensamiento-de-deleuze-1.pdf>.RKFQQC FH ST LF HIJC LF SUVWO

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pensamiento no es algo que se ofrezca explícitamente,ni puede deducirse de los conceptos de una filosofía.De supuesto tácito, responde más bien a un tipo deorientación del pensamiento que, difícilmente visibley enunciable, es sin embargo lo que hace visible yenunciable aquello por lo cual el pensamiento va a serafectado en un momento determinado. A cada época,incluso a cada filosofía, correspondería una imagenpropia del pensamiento, o así parecería, al menos, enprincipio, porque Deleuze también observa que, en eltranscurso de la filosofía de occidente, una mismaimagen viene dominando el discurso y elpensamiento: la imagen dogmática del pensamiento21.

Note que, de início, se pode extrair que opensamento não pensa por si só. Contudo, será que aoinvés disso não é o intérprete, diga-se o pensador, quenão está pronto para compreender o pensamento e,por isso não o reconhece? A imagem do pensamentodepende dos elementos cognoscíveis desenvolvidos emum dado espaço-tempo para ser reconhecida e, atémesmo conhecida?

Apresentemos mais elementos a fim deaprofundarmos um pouco mais a análise. Para tanto,Peter Pál Pelbart acerca da imagem do pensamento:

É em Nietzsche e a Filosofia que a expressão aparecepela primeira vez, para mostrar em que medida

ij ASIÁIN, Enrique Álvarez. La imagen del pensamiento enGilles Deleuze; Tensiones entre cine y filosofía. RevistaObservaciones Filosóficas. Disponível em: klmmnoppqqqr

observacionesfilosoficas.net/laimagendelpensamiento.html>.Acesso em 27 de maio de 2014.

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. Nietzsche teria subvertido a imagem de pensamentodogmática. Diferença e Repetição dedica ao assunto oextenso capítulo II, intitulado “Imagem do Pensamento”,retomando e esmiuçando sua aplicação. A imagem dopensamento aparece aí como o pressuposto implícitodo pensamento conceitual filosófico, como o conjuntodos postulados pré-filosóficos aos quais a filosofiaobedece. [...] Com isso, teria compreendido, segundoDeleuze, uma luta contra a Imagem e seus postulados.Ou seja, um combate contra um modelo de pensamento,contra o modelo do que seja pensar, do que seja opensador, do que deva ser o filósofo 22.

O que se extrai é que o pensamento e suacompreensão não podem ser feitos através de modelosestanques de interpretação, pois, não há um modelodo que seja pensar, do que seja pensamento, não hácomo categorizar ou possibilitar uma interpretaçãoestanque do pensamento. Gilles Deleuze explicaaprofunda o tema imagem do pensamento:

Suponho que existe uma imagem do pensamento quevaria muito, que tem variado muito ao longo dahistória. Por imagem do pensamento não entendo ométodo, mas algo mais profundo, sempre pressuposto,um sistema de coordenadas, dinamismos, orientações:o que significa pensar, e “orientar-se no pensamento”23.

Assim, é possível um individuo conceber opensamento de forma equânime a outro? Duas pessoasnão podem ter conclusões distintas sobre o mesmo~~ PELBART, Peter Pál. O tempo não-reconciliado imagens

de tempo em Deleuze. São Paulo: Perspectiva, 2010, p. 30.23 DELEUZE, Gilles. Conversações. Tradução Peter Pál Pelbart.

São Paulo: Editora 34, 2013, p. 189.

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estanque o resultado pode estar muito aquém dopretendido. Para que o pensador possa entender opensamento, ou melhor, tenha elementos emecanismos para traduzir esse pensamento necessárioserá que tenha consciência acerca da profundidadedo próprio pensamento e que este não vem de dentro,mas sim de fora24. Gilles Deleuze em a lógica dosentido defende que as coordenadas do pensamentoperpassam pela altura, a profundidade e a superfície,com isso uma nova indagação: o pensamento podeestar em tudo?

Se o pensador deseja compreender opensamento ele deve estar consciente de sua amplitude,de sua grandeza, o que pode lhe causar crises ante apequenez do ser humano e suas limitações. O ato depensar do pensador pode, portanto, lhe fazer convivercom crises, doenças, inquietudes acerca do próprio atode pensar?

Gilles Deleuze acerca da lógica do pensamentoafirma que este é o resultado de um conjunto de crisesque o próprio pensamento atravessa no qual o equilíbrioe um sistema harmonioso não se coaduna com arealidade, visto que essas crises mais se assemelham auma cadeia vulcânica e toda a instabilidade que a cerca25,

24 O pensamento não vem de dentro, mas tampouco espera domundo exterior a ocasião para acontecer. Ele vem desse Fora,e a ele retorna; o pensamento consiste em enfrentá-lo.DELEUZE, Gilles. Conversações. Tradução Peter Pál Pelbart.São Paulo: Editora 34, 2013, p. 141.

25 DELEUZE, Gilles. Conversações. Tradução Peter Pál Pelbart.São Paulo: Editora 34, 2013, p. 110.

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. afinal a lógica de um pensamento não é um sistemaem equilíbrio 26.

E ainda sobre a questão do método: por queexistem indivíduos que em estado normal nãoconseguem raciocinar sobre algo, porém, em seu sono,ao beber bebidas alcoólicas, perece que uma visão seabre e a resposta surge? Será que não foi o próprioindividuo que se libertou de suas amarras, de um métodopré-estabelecido, e se abriu ao novo e alcançou a repostaque tanto almejava? Gilles Deleuze relaciona esse temaao plano de imanência que trataremos a seguir:

Precisamente porque o plano de imanência é pré-filosófico, e já não opera com conceitos, ele implicauma espécie de experimentação tateante, e seutraçado recorre a meios pouco confessáveis, poucoracionais e razoáveis. São meios da ordem do sonho,dos processos patológicos, das experiênciasesotéricas, da embriaguez ou do excesso27.

É possível que o pensador ao seguir um modelose limita e não consegue ver a amplitude dopensamento? É possível que o pensamento exista emdiferentes níveis, como se tivesse camadas?

A visão que podemos ter do pensamento é umavisão em camadas, com diferentes níveis28, umcrescente de dimensões que podem ou não se sobrepor,�� DELEUZE, Gilles. Conversações. Tradução Peter Pál Pelbart.

São Paulo: Editora 34, 2013, p. 122.27 DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. O que é filosofia?

Tradução Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Muñoz. São Paulo:Editora 34, 2013, p. 52.

28 DELEUZE, Gilles. Conversações. Tradução Peter Pál Pelbart.São Paulo: Editora 34, 2013, p. 123.

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do pensador com o pensamento não é tranquila, massim tempestuosa29, segundo a qual o ato de pensarfornece ao pensador uma gama de experimentações:

Pensar é sempre experimentar, não interpretar, masexperimentar, e a experimentação é sempre o atual, onascente, o novo, o que está em vias de se fazer. A histórianão é experimentação; é apenas o conjunto das condiçõesquase negativas que possibilitam a experimentação de algoque escapa à história. Sem a história, a experimentaçãopermaneceria indeterminada, incondicionada, mas aexperimentação não é histórica, é filosófica30.

No entanto, para se liberar de métodosconvencionais, se questiona: é possível se compreendero pensamento de forma livre? Ou sem um método ouum conjunto de conceitos o que se verá será apenasparte do pensamento? Para se ter o pensamento emtoda a sua amplitude os métodos convencionais deinterpretação são suficientes?

Ao longo de suas obras, Gilles Deleuze relacionaa imagem do pensamento com o que ele denomina deplano de imanência:

29 Há em Leibniz uma declaração esplêndida: “Depois de terestabelecido estas coisas, eu pensava entrar no porto, masquando me pus a meditar sobre a união da alma e do corpo,fui como que lançado de volta ao alto mar”. É justamente oque dá aos pensadores uma coerência superior, essa faculdadede partir a linha, de mudar a orientação, de se reencontrarem alto mar, portanto, de descobrir, de inventar. DELEUZE,Gilles. Conversações. Tradução Peter Pál Pelbart. São Paulo:Editora 34, 2013, p. 134.

30 DELEUZE, Gilles. Conversações. Tradução Peter Pál Pelbart.São Paulo: Editora 34, 2013, p. 136.

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. O plano de imanência não é um conceito pensadonem pensável, mas a imagem que ele se dá do quesignifica pensar, fazer uso do pensamento, se orientarno pensamento... Não é um método, pois todo métodoconcerne eventualmente aos conceitos e supõe umatal imagem. Não é nem mesmo um estado deconhecimento sobre o cérebro e seu funcionamento,já que o pensamento não é aqui remetido ao lentocérebro como ao estado de coisas cientificamentedeterminável em que ele se limita a efetuar-se,quaisquer que sejam seu uso e sua orientação31.

O plano de imanência não é um método pré-estabelecido acerca do pensamento ou do ato de pensar,mas sim, sim uma imagem do que significar pensar edo ato de pensar, mas isso implica em um método?Ademais, é possível não ter um método? A criação deconceito não passa pelo método? E assim, é possívelesse a existência desse próprio método no plano deimanência a fim de compreender o pensamento?

Aprofundando um pouco mais o tema, GillesDeleuze relaciona o plano de imanência, o pensamentoe a questão do movimento:

O plano de imanência envolve movimentos infinitosque o percorrem e retornam32, mas os conceitos são

»¼ DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. O que é filosofia?Tradução Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Muñoz. São Paulo:Editora 34, 2013, p. 47.

32 O movimento do infinito não remete a coordenadasespaçotemporais, que definiriam as posições sucessivas de ummóvel e os pontos fixos de referência, com relação aos quaisestas variam. “Orientar-se no pensamento” não implica nemnum ponto de referência objetivo, nem num móvel que seexperimentasse como sujeito e que, por isso, [CONTINUA]

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percorrem cada vez somente seus próprioscomponentes. O problema do pensamento é avelocidade infinita, mas esta precisa de um meio quese mova em si mesmo infinitamente, o plano, o vazio,o horizonte. É necessário a elasticidade do conceito,mas também a fluidez do meio. É necessário os doispara compor “os seres lentos” que nós somos33.

Temos aqui a relação de conceito comvelocidade, movimento e o pensamento, o que podemosconcluir com a demonstração de um método para quese possa analisar o pensamento, sobre o tema ReginaSchopke: “Eles […] não deixam margem para dúvida:a filosofia não é uma simples arte de inventar, deproduzir os conceitos, ela é uma disciplina rigorosa,que tem como função primordial a criação de novosconceitos” 34.

E a autora faz a relação com o plano deimanência:

[CONTINUAÇÃO DA NOTA 32] desejaria o infinito ou terianecessidade dele. O movimento tomou tudo, e não há lugarnenhum para um sujeito e um objeto que não podem ser senãoconceitos. O que está em movimento é o próprio horizonte: ohorizonte relativo se distancia quando o sujeito avança, mas ohorizonte absoluto, nós estamos nele sempre e já, no plano deimanência. DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. O que éfilosofia? Tradução Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Muñoz.São Paulo: Editora 34, 2013, p. 48.

33 DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. O que é filosofia?Tradução Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Muñoz. São Paulo:Editora 34, 2013, p. 45 e 46.

34 SCHOPKE, Regina. ÍÎÏ ÐÑÒ ÓÔÕÎÖÎÓÔÒ ×Ò ×ÔÓØÏØÙÚÒÛ

Gilles Deleuze, o pensamento nômade. São Paulo:Edusp, 2004, p. 131.

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. Com relação ao plano de imanência, pode-se dizer queeste é o lugar em que os conceitos se distribuem semromper-lhe a integridade, a sua continuidade. Comose fosse um deserto em que os conceitos povoam e éele que dá o suporte para os conceitos. Cabe agora seperguntar o que exatamente é um conceito?35 O quesignifica criar conceitos?36 Qual a função do conceito?37

Qual o lugar do conceito no plano de imanência?38

35 Todo conceito tem componentes, e se define por eles. É umamultiplicidade, embora nem toda multiplicidade sejaconceitual. Não há conceito de um componente só: mesmo oprimeiro conceito, aquele pelo qual uma filosofia “começa”,possui vários componentes. DELEUZE, Gilles e GUATTARI,Félix. O que é filosofia? Tradução Bento Prado Jr. e AlbertoAlonso Muñoz. São Paulo: Editora 34, 2013, p. 23.

36 Com efeito, todo conceito, tendo um número finito de componentes,bifurcará sobre outros conceitos, compostos de outra maneira, masque constituem outras regiões de outro plano, que respondem aproblemas conectáveis, participam de uma co-criação. Um conceitonão exige somente um problema sob o qual remaneja ou substituiconceitos precedentes, mas uma encruzilhada de problemas em quese alia a outros conceitos coexistentes. DELEUZE, Gilles e GUATTARI,Félix. O que é filosofia? Tradução Bento Prado Jr. e AlbertoAlonso Muñoz. São Paulo: Editora 34, 2013, p. 26.

37 Todo conceito remete a um problema, a problemas sem os quaisnão teria sentido, e que só podem ser isolados ou compreendidosna medida de sua solução: estamos aqui diante de um problemaconcernente à pluralidade dos sujeitos, sua relação, suaapresentação recíproca. DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. Oque é filosofia? Tradução Bento Prado Jr. e Alberto AlonsoMuñoz. São Paulo: Editora 34, 2013, p. 24.

38 Um conceito possui um devir que concerne, desta vez, a sua relaçãocom conceitos situados no mesmo plano. Aqui, os conceitos seacomodam uns aos outros, superpõem-se uns aos outros, coordenamseus contornos, compõem seus respectivos problemas, pertencem àmesma filosofia, mesmo se têm histórias diferentes. DELEUZE, Gillese GUATTARI, Félix. O que é filosofia? Tradução Bento Prado Jr.e Alberto Alonso Muñoz. São Paulo: Editora 34, 2013, p. 26.

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imanência?39/40

Bento Prado Jr. explica a questão da imanênciasegundo Gilles Deleuze:

Ainda que chegue a definir o plano como diagrama,Deleuze o definira, previamente, ao mesmo tempocomo horizonte e como solo41. Isto é, o plano deimanência é essencialmente um campo onde seproduzem, circulam e se entrechocam os conceitos42.Ele é sucessivamente definido como uma atmosfera(quase como o englobante de Jaspers, que mais tardeDeleuze vai recusar), como informe e fractal, como

õö Os conceitos e o plano são estritamente correlativos, mas nempor isso devem ser confundidos. O plano de imanência não é umconceito, nem o conceito de todos os conceitos. DELEUZE, Gillese GUATTARI, Félix. O que é filosofia? Tradução Bento PradoJr. e Alberto Alonso Muñoz. São Paulo: Editora 34, 2013, p. 45.

40 SCHOPKE, Regina. Por uma filosofia da diferença:Gilles Deleuze, o pensamento nômade. São Paulo:Edusp, 2004, p. 131.

41 Os conceitos são acontecimentos, mas o plano é o horizontedos acontecimentos, o reservatório ou a reserva deacontecimentos puramente conceituais: não o horizonterelativo que funciona como um limite. Muda com umobservador e engloba estados de coisas observáveis, mas ohorizonte absoluto, independente de todo o observador, e quetorna o acontecimento como conceito independente de umestado de coisas visível em que ele se efetuaria. DELEUZE,Gilles e GUATTARI, Félix. O que é filosofia? Tradução BentoPrado Jr. e Alberto Alonso Muñoz. São Paulo: Editora 34, 2013,p. 46.

42 Criar conceitos é construir uma região do plano, juntar umaregião às predecedentes, explorar uma nova região, preenchera falta. DELEUZE, Gilles. Conversações. Tradução Peter PálPelbart. São Paulo: Editora 34, 2013, p. 188.

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. horizonte e reservatório, como um meio indivisívelou impartilhável. Todos esse traços do plano deimanência, somados, parecem fazer da filosofia deDeleuze uma “filosofia de campo”43.

E prossegue:

O plano de imanência é, entre outras coisas, umaespécie de solo intuitivo, cujos “movimentos infinitos”são fixados pelas “coordenadas” construídas pelomovimento finito do conceito. O plano de imanência,despovoado de conceito, é cego (no limite é o caos);o conceito, extraído de seu “elemento” intuitivo (nosentido da atmosfera), é vazio44.

Por fim, novamente Gilles Deleuze acerca doplano de imanência45:

O plano de imanência é ao mesmo tempo o que deveser pensado e o que não pode ser pensado. Ele seria onão-pensado e o que não poder ser pensado. Ele seria

4� PRADO JR., Bento. A idéia do plano de imanência. IN ALLIEZ,Éric (org.). Gilles Deleuze: uma vida filosófica. SãoPaulo: Editora 34, 2000, p. 308.

44 PRADO JR., Bento. A idéia do plano de imanência. IN ALLIEZ,Éric (org.). Gilles Deleuze: uma vida filosófica. SãoPaulo: Editora 34, 2000, p. 309.

45 A ida-e-volta incessante do plano, o movimento infinito. Talvezseja o gesto supremo da filosofia: não tanto pensar O planode imanência, mas mostrar que ele está lá, não pensado emcada plano. O pensar desta maneira, como o fora e o dentrodo pensamento, o fora não exterior ou o dentro não interior.O que não pode ser pensado uma vez, como o Cristo encarnou-se uma vez, para mostrar desta vez a possibilidade doimpossível. DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. O que éfilosofia? Tradução Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Muñoz.São Paulo: Editora 34, 2013, p. 73.

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planos, imanente a cada plano pensável que nãochega a pensá-lo. É o mais íntimo no pensamento, etodavia o fora absoluto. Um fora mais longínquoque todo mundo exterior, porque ele é um dentromais profundo que todo mundo interior: é aimanência, “a intimidade como Fora, o exteriortornado intrusão que sufoca e a inversão de um ede outro”46.

A exposição de Gilles Deleuze acerca do planode imanência, dos conceitos e do pensamento é muitomaior e mais ampla do que trouxemos, todavia, o nossoobjetivo foi apresentar como que os desdobramentosacerca do pensamento se multiplicam. Não é nossoescopo ter uma resposta definitiva ao tema proposto,ao contrário, oferecemos um caminho a partir dosensinamentos de Gilles Deleuze.

No entanto, ainda a título de provocaçãovoltamos ao que propomos no começo desse artigo: oque é o pensamento? O pensamento existe sem opensador? O pensador pode ser considerado como ointérprete do ato de pensar e do próprio pensamento?

CONCLUSÃO

O objetivo deste artigo não é concluir se opensamento e o pensador são autônomos entre si, massim, levantar indagações sucessivas sobre a relaçãoentre o pensamento e o pensador. Para tanto

�� DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. O que é filosofia?Tradução Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Muñoz. São Paulo:Editora 34, 2013, p. 73.

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. apresentamos ensinamentos de alguns filósofos e nosativemos especialmente a Gilles Deleuze.

O filósofo nos trouxe um novo caminho com ainserção do plano de imanência e da imagem dopensamento. E, assim, com base em tudo que foidemonstrado podemos concluir que o pensamento éuma distribuição organizada que extrapola o sujeito.

Não somos donos do pensamento, este é umaforça que nos atravessa e nos arrasta para outro lugarquer estejamos prontos, quer não. É o arrastar parafora de si, o que não se confunde com a expressão dopróprio sujeito, portanto, podemos concluir que opensamento é anterior ao próprio sujeito.

E vamos terminar da forma que começamos,indagando: temos ferramentas suficientes paracompreender, de fato, o que vem a ser pensamento,como que este se origina e qual a relação do pensadorcom o ato de pensar e com o pensamento?

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