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Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro Execução Contra a Fazenda Pública e o Regime de Precatórios Carlos Henrique Mink Rio de Janeiro 2011

Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro ... · 2. A FAZENDA PÚBLICA EM JUÍZO É indispensável uma análise sucinta da atuação da Fazenda Pública em Juízo, em especial

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  • Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro

    Execuo Contra a Fazenda Pblica e o Regime de Precatrios

    Carlos Henrique Mink

    Rio de Janeiro 2011

  • CARLOS HENRIQUE MINK

    Execuo Contra a Fazenda Pblica e o Regime de Precatrios

    Artigo Cientfico apresentado Escola de Magistratura do Estado do Rio de Janeiro, como exigncia para obteno do ttulo de Ps-Graduao. Orientadores Prof. Guilherme Sandoval Profa. Katia Silva Profa. Mnica Areal Profa. Nli Fetzner Prof. Nelson Tavares

    Rio de Janeiro 2011

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    EXECUO CONTRA A FAZENDA PBLICA E O REGIME DE PRECATRIOS

    Carlos Henrique Mink

    Graduado pela Faculdade Cndido Mendes. Advogado.

    Resumo: O processo de execuo contra a Fazenda Pblica apresenta peculiaridades em relao aos processos executivos que no envolvem Entes Pblicos. A satisfao do crdito quando a parte autora vencedora no se d em espcie, mas sim por meio do instituto do precatrio na forma definida pela Constituio Federal de 1988. Tal instituto sofreu uma srie de alteraes por meio de Emendas CRFB/88. A essncia deste trabalho abordar o processo executivo em que a Fazenda Pblica r e fazer uma anlise crtica do regime de precatrios, tanto do ponto de vista jurdico quanto do ponto de vista da efetividade de tal regime a nvel social e econmico, como forma de satisfao de crditos devidos pelo Poder Pblico.

    Palavras-chave: Execuo. Fazenda Pblica. Precatrios.

    Sumrio: Introduo. 1. O Processo de Execuo. 2. A Fazenda Pblica em Juzo. 2.1. Fazenda Pblica e Capacidade Postulatria. 2.2. Prerrogativas da Fazenda Pblica em Juzo. 2.3. Citao da Fazenda Pblica. 2.4. Fazenda Pblica e Revelia. 2.5. Fazenda Pblica e Aes de Embargo. 2.6. Execuo contra a Fazenda Pblica. 3. O Regime Constitucional dos Precatrios. 3.1. Pagamento de Requisies de Pequeno Valor. 3.2. A EC 62/2009 e a Criao de Pagamento Preferencial a Idosos e Portadores de Doenas Graves. 3.3. Competncia para o Cumprimento da Ordem dos Precatrios. 3.4. Execuo Provisria contra a Fazenda Pblica. 3.5. Possibilidade de Incidncia de Juros de Mora no Pagamento de Precatrios. 4. Anlise Jurisprudencial e Doutrinria. 4.1. Controvrsias a Respeito da Abrangncia da Expresso Fazenda Pblica. 5. Propostas de Alteraes. 5.1. Tipificao da Conduta de No Incluso de Verbas Oramentrias Suficientes para o Pagamento de Precatrios. 5.2. Vedao Cesso de Crditos dos Credores de Precatrios. 5.3. Extino Definitiva do Sistema dos Precatrios. Concluso. Referncias.

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    INTRODUO

    O trabalho, ora proposto, enfoca a temtica do processo de execuo no direito ptrio,

    em especial quando envolve a atuao da Fazenda Pblica em Juzo.

    Busca-se fazer uma anlise crtica quanto realidade do regime constitucional dos

    precatrios como forma de pagamento de crditos devidos pela Fazenda Pblica quando

    condenada em processos judiciais. Para tanto, ser feita uma anlise do texto original do art.

    100 da CRFB/88 e tambm da verso ora vigente aps as reformas trazidas ao texto de tal

    dispositivo pelo poder constituinte derivado por meio da Emenda Constitucional 62/2009.

    Objetiva-se despertar a ateno para os efeitos trazidos pela EC 62/2009, em especial

    por modificar de forma considervel o andamento original do pagamento dos precatrios com

    a introduo de novos critrios a ttulo de ordem de preferncia para recebimento.

    Busca-se, tambm, trazer a anlise jurisprudencial e doutrinria a respeito do tema, em

    especial quanto efetividade das decises judiciais que, quando envolvem a Fazenda Pblica,

    dificilmente surtem efeitos imediatos, levando os cidados, na sua interpretao dos

    resultados no nvel do senso comum, a desacreditarem o Poder Judicirio como meio para

    fazer valer os seus direitos.

    Objetiva-se, por fim, apresentar propostas de possveis novas alteraes no texto

    constitucional que viabilizariam uma melhor efetivao da satisfao dos crditos dos

    credores da Fazenda Pblica, em especial no que se refere a alteraes substanciais quanto

    reserva de parcela do oramento anual especificamente para honrar o pagamento de

    precatrios, bem como apresentar propostas alternativas para a ordem de preferncia de

    pagamento proposta pela EC 62/2009.

  • 4

    1. O PROCESSO DE EXECUO

    A finalidade da execuo, seja processo de execuo ou fase executiva, produzir na

    prtica um resultado tanto quanto possvel equivalente ao que se teria com o adimplemento de

    uma obrigao (como se o devedor tivesse realizado voluntariamente sua prestao). Trata-se,

    pois, de atividade judicial que, em caso de condenao do devedor, visa a dar efetividade a

    uma sentena judicial proferida no mbito de um processo de conhecimento.

    A execuo se d em etapas. Haver uma primeira etapa postulatria, em que o

    exequente informar a obrigao que deseja executar e por qual motivo. Depois, haver uma

    etapa instrutria/preparatria (sem produo de provas instruir no sinnimo de provar,

    significando preparar), em que se d a apreenso de bens, avaliao de bens e a expropriao

    de bens. Haver, ao final, uma etapa de satisfao do crdito, quando o Estado entregar ao

    credor o bem jurdico que lhe devido.

    A atividade de conhecimento busca a declarao do direito existente, o

    reconhecimento da existncia ou da inexistncia de um direito material.

    J a atividade de execuo objetiva verdadeira transformao da realidade. Ela no

    busca reconhecer o direito, mas sim transformar em realidade prtica aquilo que o direito traz

    como preceito. Essa atividade processual chamada de execuo representa uma atividade de

    transformao da realidade. Da a noo de que a execuo nada mais do que etapa posterior

    fase de cognio processual, objetivando que a determinao oriunda de uma sentena

    judicial seja efetivamente cumprida.

    Quando o autor se sai vencedor em uma demanda em face do Estado, a sentena

    obtida no processo de conhecimento um ttulo executivo judicial. Faz-se necessrio, pois,

    dar prosseguimento a uma execuo por quantia certa contra a Fazenda Pblica lastreada no

    quantum fixado pela deciso judicial transitada em julgado.

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    O procedimento de execuo por quantia certa em face da Fazenda Pblica

    especfico, por meio do chamado precatrio requisitrio, pelo fato de a Administrao

    Pblica, mesmo condenada em juzo, no se submeter ao sistema executrio comum, por

    conta da impenhorabilidade dos bens pblicos, assim como ocorre com os bens de famlia.

    Nesse sentido, o entendimento de Lsaro Cndido da Cunha1, de que o bem inalienvel ser

    sempre impenhorvel, salvo se perder tal caracterstica. Tal procedimento especfico de

    execuo est consagrado no art. 100 da CRFB/88.

    2. A FAZENDA PBLICA EM JUZO

    indispensvel uma anlise sucinta da atuao da Fazenda Pblica em Juzo, em

    especial em relao s suas prerrogativas, para o entendimento de como se d a satisfao dos

    crditos dos credores do Poder Pblico quando vencedores em demandas judiciais.

    Quando h meno Fazenda Pblica faz-se referncia s pessoas jurdicas de

    direito pblico, que so a Unio, os Estados, os Municpios, o Distrito Federal as autarquias e

    as fundaes.

    Vale observar que predomina o entendimento de que as agncias reguladoras

    possuem a natureza de autarquias, fazendo parte, portanto, da noo de Fazenda Pblica.

    2.1. Fazenda Pblica e Capacidade Postulatria

    Um dos pressupostos processuais a capacidade para ser parte, que inclui a

    capacidade para ser parte em sentido estrito, a capacidade para estar em juzo e a capacidade

    postulatria. Segundo o art. 36 do Cdigo de Processo Civil (CPC), A parte ser

    representada em juzo por advogado legalmente habilitado. Ser-lhe- lcito, no entanto,

    1 CUNHA, Lsaro Cndido da. Precatrio: execuo contra a fazenda pblica. Belo Horizonte: Del Rey, 1999, p. 38.

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    postular em causa prpria, quando tiver habilitao legal ou, no a tendo, no caso de falta de

    advogado no lugar ou recusa ou impedimento dos que houver.

    A primeira parte do art. 36 do CPC estabelece que a capacidade postulatria

    conferida por advogado legalmente habilitado. Normalmente, a parte demonstra que possui

    um advogado legalmente habilitado atravs da exibio do instrumento de mandato chamado

    procurao.

    A Unio representada pelos membros da Advocacia Geral da Unio (AGU) e pelos

    Procuradores da Fazenda. O Estado, o Distrito Federal e os Municpios, por sua vez, so

    representados pelos seus procuradores e, de forma semelhante, as autarquias e as fundaes.

    Esses representantes das pessoas jurdicas de direito pblico no precisam exibir instrumento

    de mandato em juzo, pois a prpria lei j lhes confere capacidade postulatria.

    2.2. Prerrogativas da Fazenda Pblica em Juzo

    A Fazenda Pblica goza em juzo de uma srie de prerrogativas, dada a prpria

    natureza dos interesses que ela cuida. Segundo Norberto Bobbio2, vetusta a ideia de que o

    todo vem antes das partes, remontando a Aristteles o primado do pblico, resultando na

    contraposio do interesse coletivo ao interesse individual e na necessria subordinao, at a

    eventual supresso, do segundo ao primeiro, bem como na irredutibilidade do bem comum

    soma dos bens individuais. De tal entendimento, resulta a noo de supremacia do interesse

    pblico sobre o particular como um dos alicerces de todo o direito pblico.

    Devemos dar uma interpretao extensiva ao art. 188 do CPC, que regula:

    Computar-se- em qudruplo o prazo para contestar e em dobro para recorrer quando a parte

    for a Fazenda Pblica ou o Ministrio Pblico.

    2 BOBBIO, Norberto. Estado, Governo, Sociedade: para uma teoria geral da poltica. 3.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987, p. 24-25.

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    Um primeiro comentrio que merece ser feito refere-se ao termo parte presente no

    artigo. A princpio pode parecer que os prazos em qudruplo e em dobro previstos no artigo

    fazem meno apenas a hipteses em que a Fazenda Pblica autora ou r. Entretanto, se a

    Fazenda estiver na qualidade de assistente (simples ou litisconsorcial) ou de interveniente, ela

    tambm gozar da prerrogativa do art. 188 do CPC.

    Quanto ao prazo em qudruplo, podemos concluir que o legislador quis se referir ao

    prazo para apresentao de resposta, englobando as modalidades contestao, reconveno e

    exceo.

    2.3. Citao da Fazenda Pblica

    No CPC a regra a citao se dar por correio para qualquer comarca do pas. Na

    alnea c do art. 222 do CPC h uma exceo a essa regra quando a r for pessoa jurdica

    de direito pblico, a citao dever ser feita por oficial de justia e pessoalmente na pessoa do

    representante da Fazenda Pblica (excluindo-se qualquer possibilidade de aplicao da Teoria

    da Aparncia).

    Em algumas localidades em que h um nico oficial de justia, admissvel a prtica

    comum de os juzes fazerem acordos com os procuradores para eles tomarem cincia

    diretamente nos prprios autos dos processos. At porque a partir do momento em que a

    defesa apresentada, qualquer invalidade de uma citao porventura existente acabar

    restando sanada.

    2.4. Fazenda Pblica e Revelia

    Tecnicamente, revelia significa ausncia de contestao. A revelia no gera a

    presuno de veracidade quando a causa versar sobre direitos indisponveis. Se a Fazenda

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    Pblica for validamente citada e no contestar, ela ser revel. Resta discutirmos se so

    aplicados ou no Fazenda os efeitos da revelia. Segundo Leonardo Carneiro da Cunha3, O

    direito da Fazenda Pblica indisponvel, devendo o magistrado, mesmo na hiptese de

    revelia, determinar a instruo do feito para que a parte autora possa se desincumbir do seu

    onus probandi.

    2.5. Fazenda Pblica e Aes de Embargo

    Em execuo movida em face da Fazenda Pblica, no importa se ela fundada em

    ttulo judicial ou em ttulo extrajudicial o mecanismo de defesa dever ser a ao de

    embargo do executado.

    A ao de embargo, como o prprio nome j indica, possui a natureza jurdica de

    ao tramitando por processo de conhecimento (deve ser interposta petio inicial, a parte

    contrria dever tomar cincia, deve ser assegurado o contraditrio e o juiz dever proferir

    sentena ao final). Em regra, atualmente o prazo para embargar de 15 dias a contar da data

    de juntada aos autos do mandado de citao, ressalvado que caso o embargo seja apresentado

    pela Fazenda Pblica o prazo passa a ser de 30 dias.

    2.6. Execuo contra a Fazenda Pblica

    A execuo de quantia contra a Fazenda Pblica tem regime especial por causa da

    impenhorabilidade dos bens pblicos e do regime constitucional dos precatrios que impedem

    a execuo fundada em penhora que normalmente utilizada para a satisfao de execues

    de quantia. Trata-se, pois, de procedimento especial.

    Tal procedimento especial est previsto nos arts. 730 e 731 do Cdigo de Processo

    Civil (CPC). A atividade judicial de primeiro grau encerrada com a expedio do precatrio

    3 CUNHA, Leonardo Jos Carneiro da. A Fazenda Pblica em Juzo. 7.ed. So Paulo: Dialtica, 2009, p. 94.

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    no valor da condenao. Tal procedimento s pode ser utilizado em caso de obrigao de

    pagar por parte da Fazenda Pblica (Unio, Estados, Municpios, Autarquias e Fundaes

    Autrquicas). Segundo tais dispositivos, em sntese, a Fazenda Pblica dever ser citada para

    a oposio de embargos no prazo de 10 (dez) dias. Ultrapassado esse prazo legal ou julgados

    improcedentes os embargos, o juzo da execuo requisitar o pagamento por intermdio do

    presidente do tribunal competente e o pagamento dever se dar por meio da expedio de

    precatrio.

    A atuao da Presidncia do Tribunal em relao aos precatrios no tem natureza

    jurisdicional e sim natureza de atividade administrativa (no pode ser revisto o contedo da

    sentena, sendo possvel rever apenas eventuais erros de clculo ou erros materiais). Como

    no est a Presidncia no desempenho de atividade jurisdicional nesses casos, no cabe a

    interposio de recurso extraordinrio a deciso proferida pela Presidncia do Tribunal no

    processamento de precatrios no desafia recurso extraordinrio (nesse sentido a Smula 733

    do STF4).

    3. O REGIME CONSTITUCIONAL DOS PRECATRIOS

    O regime de pagamentos por parte da Fazenda Pblica quando vencida em juzo est

    previsto em mbito constitucional, sendo diferenciado dos pagamentos de condenaes por

    particulares. Assim sendo, cabem breves consideraes a respeito de tal regime especfico.

    O art. 100 da CRFB/88 regula o chamado regime constitucional dos precatrios.

    Trata-se de regime especial de pagamento por parte da Fazenda Pblica de um Ente da

    Federao condenado em juzo ao pagamento de quantia certa.

    4 Supremo Tribunal Federal. Smula 733. No cabe recurso extraordinrio contra deciso proferida no processamento de precatrios. Publicada no DOU de 9.12.2003.

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    Segundo tal dispositivo, em regra dever ser respeitada a ordem cronolgica da

    apresentao dos precatrios perante a Presidncia do Tribunal do ente federativo. H,

    entretanto, duas ordens cronolgicas distintas: uma para o pagamento de crditos de natureza

    alimentcia e outra para o pagamento de crditos que no tm natureza alimentar. Nesse

    sentido, Nelson Nery Jnior5 j destacava que De acordo com a CF 100, as dvidas de

    natureza alimentar esto excludas da ordem cronolgica de apresentao dos precatrios

    ordinrios. Existe outra ordem cronolgica, de precatrios extraordinrios, vlida apenas para

    os crditos de natureza alimentar.

    O art. 6 da Lei 9.469/97, que trata da atuao da Fazenda Pblica em Juzo, dispe

    especificamente a respeito da existncia de tal distino, em especial em seu pargrafo nico

    onde h meno clara a respeito do direito de preferncia dos credores de crditos de natureza

    alimentcia previstos no 1 do art. 100 da CRFB/88.

    3.1. Pagamento de Requisies de Pequeno Valor

    A Emenda Constitucional n 30/2000 trouxe importante alterao na execuo contra

    a Fazenda Pblica ao excluir os pagamentos das chamadas requisies de pequeno valor

    (RPVs) do sistema de precatrio. Como referncia para a identificao do quantum que

    corresponderia ao pequeno valor utilizada a previso do art. 87 da ADCT da CRFB/88,

    onde est estabelecido que o limite de 60 salrios mnimos para a Unio, at 40 salrios para

    Estado e at 30 salrios para Municpio. Observa-se, assim, que no mbito federal h a

    peculiaridade de o valor coincidir com o limite para o ajuizamento de demandas no Juizado

    Especial Federal.

    5 NERY JUNIOR apud DANTAS, Francisco Wildo Lacerda, Execuo Contra a Fazenda Pblica. Regime de Precatrio. 2.ed. So Paulo: Mtodo, 2010, p. 101.

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    Ainda a respeito do pagamento das requisies de pequeno valor, interessante

    mencionar que a Fazenda Pblica pode reconhecer uma dvida total ou parcialmente. Se a

    Fazenda Pblica reconhecer parcialmente a dvida, ainda que a parte incontroversa seja

    inferior a 60 salrios mnimos, pelo Princpio da Unidade do Precatrio, o precatrio no

    poder ser fracionado (no ser possvel pagamento de parte em RPV e parte em precatrio

    o valor total dever ser requisitado de acordo com o regime ditado pelo valor total da

    obrigao).

    3.2. A EC 62/2009 e a Criao de Pagamento Preferencial a Idosos e Portadores de

    Doenas Graves

    A Emenda Constitucional n 62/2009, por sua vez, trouxe outras mudanas de grande

    impacto no regime dos precatrios implementada pela Constituio Federal. A nova redao

    trazida por tal Emenda para o art. 100 da CRFB/88, em especial em seu pargrafo 2, criou

    um segundo quesito que passou a influenciar na ordem de pagamento dos precatrios,

    estabelecendo uma preferncia ao pagamento de dbitos de natureza alimentcia para

    portadores de doenas graves definidas em lei, idosos, crditos alimentares e, por fim, ao

    pagamento de crditos no alimentares.

    3.3. Competncia para o Cumprimento da Ordem dos Precatrios

    A observncia da ordem de pagamento de precatrios constitucionalmente prevista

    de suma importncia, porm extremamente complexa. O Cdigo de Processo Civil (CPC) traz

    um mecanismo para o caso de deteco de preterio dessa ordem no seu art. 731 do CPC

    (prevendo sequestro a ser requerido perante a presidncia do Tribunal). O STF entende que tal

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    medida seria uma funo administrativa do Presidente do Tribunal onde os precatrios foram

    requisitados. J a doutrina entende se tratar a previso do art. 731 do CPC de processo

    jurisdicional de sequestro. Assim sendo, em tal processo dever constar no plo passivo

    aquele que recebeu antes da ordem correta. Outros doutrinadores, como Araken de Assis6,

    entendem que quem deve figurar no plo passivo desse processo de sequestro a prpria

    Fazenda Pblica, com o objetivo de liberar o pagamento de todos os que foram preteridos,

    visando ao devido reestabelecimento da ordem cronolgica.

    3.4. Execuo Provisria contra a Fazenda Pblica

    Uma discusso que surgiu a partir da EC n 30/2000 est relacionada com a

    possibilidade de execuo provisria contra a Fazenda Pblica com a nova redao do antigo

    1 do art. 100 que foi reposicionado como 5 do mesmo dispositivo atualmente vigente.

    Alguns doutrinadores, como Cassio Scarpinella Bueno7, entendem que teria sido

    eliminada definitivamente do ordenamento jurdico ptrio a possibilidade de execuo

    provisria contra a Fazenda Pblica. O fundamento de tal entendimento seria de que a redao

    atual do art. 100 da CRFB/88 exige que o precatrio seja lastreado em sentena transitada em

    julgado. Em sentido contrrio, outros doutrinadores, como Francisco Wildo Lacerda Dantas8,

    entendem que tal dispositivo constitucional estaria se referindo sentena do processo de

    conhecimento transitada em julgado e no sentena proferida em processo executrio.

    3.5. Possibilidade de Incidncia de Juros de Mora no Pagamento de Precatrios

    Outra matria bastante controvertida que merece destaque a possibilidade de

    cobrana de juros de mora em pagamentos de precatrios.

    6 ASSIS, Araken de. Comentrios ao Cdigo de Processo Civil. 7.ed. So Paulo: RT, 2007, p. 412. 7 BUENO, Cassio Scarpinella. Execuo por Quantia Certa Contra a Fazenda Pblica. So Paulo: Dialtica, 2005, p. 39-67. 8 DANTAS, Francisco Wildo Lacerda. Execuo Contra a Fazenda Pblica. Regime de Precatrio. 2.ed. So Paulo: Mtodo, 2010, p. 49-51.

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    Deve-se fazer a distino entre dois aspectos que a matria pode apresentar: a

    extrao e o pagamento dos precatrios no prazo constitucional (at o final do exerccio

    seguinte sua apresentao at 1 de julho do exerccio corrente) e a extrao e o pagamento

    dos precatrios em prazo superior ao fixado na CRFB/88.

    Na primeira hiptese, em que os precatrios so pagos dentro do prazo previsto no

    5 do art. 100 da CRFB/88, no h que se considerar a ocorrncia de mora. O STF j pacificou

    entendimento nesse sentido em matria de repercusso geral reconhecida. Segundo o 12

    introduzido pela EC n 62/2009, os valores devero ser monetariamente corrigidos pelo ndice

    oficial de remunerao bsica da caderneta de poupana. Na segunda hiptese, em que os

    precatrios no so pagos no prazo constitucional, a jurisprudncia dos tribunais tem

    reconhecido que so devidos os juros de mora.

    4. ANLISE JURISPRUDENCIAL E DOUTRINRIA

    Desde a promulgao da Constituio Federal de 1988, muitos autores tm

    apresentado entendimentos divergentes a respeito da natureza jurdica do ttulo executivo

    capaz de ensejar a execuo contra a Fazenda Pblica.

    A princpio, uma execuo contra a Fazenda Pblica s poderia ser fundada em ttulo

    judicial oriundo, portanto, de uma sentena em uma interpretao literal do disposto no 1

    do art. 100 da CRFB/88 (atual 5 do mesmo dispositivo aps a Emenda Constitucional n

    62/2009): obrigatria a incluso, no oramento das entidades de direito pblico, de verba

    necessria ao pagamento de seus dbitos, oriundos de sentenas transitadas em

    julgado, constantes de precatrios judicirios apresentados at 1 de julho, fazendo-se

    o pagamento at o final do exerccio seguinte, quando tero seus valores atualizados

    monetariamente.

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    Assim, seria necessrio o detentor de um ttulo extrajudicial ingressar com uma ao

    de conhecimento com o objetivo de obter uma sentena que geraria um ttulo executivo

    judicial, quando s ento poderia se dar a execuo contra a Fazenda Pblica.

    Autores como Milton Flaks, por sua vez, entendem no haver incompatibilidade na

    execuo de ttulos executivos extrajudiciais com o texto constitucional, dando uma

    interpretao mais ampla ao termo sentena constante no 5 do art. 100 da CRFB/88 como

    fazendo referncia genrica a deciso judicial. Assim sendo, com a combinao de tal

    dispositivo constitucional com o que dispem os arts. 730 e 731 do Cdigo de Processo Civil,

    no haveria qualquer bice execuo de ttulo extrajudicial contra a Fazenda Pblica.

    Segundo Milton Flaks,9 o vocbulo sentena previsto no art. 100 da CRFB/88 corresponde

    a uma deciso judicial equivalente expresso sentena judiciria a deciso do

    juiz que, em execuo fundada em ttulo extrajudicial contra a Fazenda Pblica,

    reconhece a idoneidade do ttulo e do pedido, proclama que no houve embargos ou

    que os rejeitou e, como tal, fora reconhecer que se atendeu ao imperativo

    constitucional.

    Tal divergncia restou superada com a edio da Smula de n 279 do Superior

    Tribunal de Justia, que regula que cabvel execuo por ttulo extrajudicial contra a

    Fazenda Pblica.

    4.1. Controvrsias a Respeito da Abrangncia da Expresso Fazenda Pblica

    Jos Celso de Mello Filho10, em sua obra Cdigo de Processo Civil Anotado, ao

    fazer meno expresso Fazenda Pblica referente Constituio Federal de 1967,

    entende que tal expresso abrangeria as Fazendas Federal, Estaduais e Municipais e tambm

    9 FLAKS apud DANTAS, Francisco Wildo Lacerda, Execuo Contra a Fazenda Pblica. Regime de Precatrio. 2.ed. So Paulo: Mtodo, 2010, p. 140-141. 10 FILHO, Jos Celso de Mello. Cdigo de Processo Civil Anotado. 27. ed. So. Paulo: Saraiva, 1996.

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    as suas respectivas autarquias. Segundo tal autor, as sociedades de economia mista e empresas

    pblicas estariam excludas de tal conceito, sob o argumento de que seriam dotadas de

    personalidade de direito privado e no de direito pblico. Assim sendo, as entidades

    paraestatais de personalidade de direito privado no estariam submetidas execuo pelo

    regime dos precatrios na forma do art. 100 da CRFB/88 c/c arts. 730 e 731 do CPC vigente.

    Celso Ribeiro Bastos11, por sua vez, destaca que (...) embora se submetam

    fundamentalmente ao direito privado, as sociedades de economia mista e as empresas pblicas

    sujeitam-se tambm, a regras jurdicas de carter administrativo. Em desdobramento de tal

    entendimento, o doutrinador Francisco Wildo Lacerda Dantas entende que necessrio

    avaliar caso a caso se uma entidade paraestatal desempenha atividades econmicas tpicas do

    direito privado ou se desempenha servios pblicos. Na segunda hiptese, os bens de uma

    paraestatal afetados ao desempenho de sua atividade no seriam passveis de penhora, o que

    nos levaria ao entendimento de que deveriam ser executadas na forma disposta nos arts. 730 e

    731 do CPC, sendo as execues submetidas ao regime constitucional dos precatrios. Nesse

    sentido, o STF, no julgamento do Recurso Especial de n 101126/RJ publicado em

    01/03/1985, j havia se pronunciado (ainda poca da vigncia da Constituio Federal de

    1967): Nem toda fundao instituda pelo Poder Pblico fundao de direito privado. As

    fundaes institudas pelo Poder Pblico, que assumem a gesto do servio estatal e se

    submetem ao regime administrativo previsto, nos Estados-membros, por leis estaduais, so

    fundaes de direito pblico. Tais fundaes so espcies do gnero autarquia, aplicando-se a

    elas a vedao a que alude o 20 do art. 9 da Constituio Federal.

    11 BASTOS apud DANTAS, Francisco Wildo Lacerda, Execuo Contra a Fazenda Pblica. Regime de Precatrio. 2.ed. So Paulo: Mtodo, 2010, p. 145-146

  • 16

    5. PROPOSTAS DE ALTERAES

    Cabe a cada Ente Federativo incluir no seu oramento anual previso de verbas para

    o pagamento de precatrios. Infelizmente, para os credores da Administrao Pblica, tais

    verbas geralmente no so suficientes muitas vezes sequer para a quitao do primeiro

    precatrio na lista de pagamentos.

    Tambm comum haver dotao oramentria prevista para o pagamento de

    precatrios e a sua utilizao para outros fins, muitas vezes sob o argumento de necessidades

    prementes da coletividade que se sobrepem aos interesses de poucos.

    No h, por sua vez, previso de qualquer sano para os agentes pblicos que no

    incluem as verbas mencionadas no projeto enviado ao Legislativo referente ao oramento e

    tampouco para as hipteses em que, mesmo existindo previso de tais verbas, elas so

    destinadas a outras finalidades.

    5.1. Tipificao da Conduta de No Incluso de Verbas Oramentrias Suficientes para

    o Pagamento de Precatrios

    Uma possvel soluo para o no cumprimento de ordens judiciais seria a elaborao

    de uma emenda Constituio prevendo expressamente punies para os agentes pblicos

    responsveis pela elaborao e cumprimento dos oramentos dos Entes Federativos. Tais

    sanes poderiam se desdobrar desde crime de desobedincia por descumprimento de ordem

    judicial at a declarao de impedimento dos agentes pblicos de se candidatarem a cargos

    eletivos.

    O objetivo a ser alcanado o respeito aos cidados, muitos de avanada idade, que

    se veem humilhados pelo descumprimento de decises judiciais contrrias ao Errio Pblico

  • 17

    e, por que no, o respeito s decises do Poder Judicirio transitadas em julgado que devem

    ser cumpridas na ntegra em um Estado Democrtico de Direito.

    5.2. Vedao Cesso de Crditos dos Credores de Precatrios

    O 13 do art. 100 da CRFB/88 permite ao credor de precatrios ceder o seu direito

    aos crditos que lhe so devidos a terceiros. Tal previso constitucional, infelizmente, tem

    tido aplicao distorcida, extremamente injusta para alguns e objeto de especulao para

    muitos.

    O art. 170 do Cdigo Tributrio Nacional prev que A lei pode, nas condies e sob

    as garantias que estipular, ou cuja estipulao em cada caso atribuir autoridade

    administrativa, autorizar a compensao de crditos tributrios com crditos lquidos

    e certos, vencidos ou vincendos, do sujeito passivo contra a Fazenda pblica.

    A combinao do 13 do art. 100 da CRFB/88 com o art. 170 do CTN gerou uma

    verdadeira especulao envolvendo diversos contribuintes devedores do Fisco que passaram a

    oferecer aos credores de precatrios a compra de seus direitos, mediante cesso, com

    desgios absurdos, muitas vezes oferecendo menos do que 20% do valor nominal.

    Posteriormente, esses mesmos especuladores compensariam seus dbitos tributrios com o

    Fisco utilizando o valor nominal dos precatrios comprados.

    Merece ateno, pois, do legislador constitucional derivado, uma possvel alterao,

    via Emenda Constitucional, de certos dispositivos do art. 100 da Carta Magna, no tocante

    cesso dos precatrios. Uma possvel proposta seria a extino da possibilidade de cesso

    aliada possibilidade de compensao tributria nica e exclusivamente por parte do titular

    do crdito perante o Fisco do Ente Federativo em caso de eventuais dvidas tributrias.

  • 18

    5.3. Extino Definitiva do Sistema dos Precatrios

    Por ltimo, no seria de todo absurda a hiptese de considerarmos a possibilidade de

    alterao, via Emenda Constitucional, de grande parte do art. 100 da Carta Magna, tendo em

    vista no tratar tal dispositivo de clusula ptrea. Poderia ser mantida, nica e exclusivamente,

    a regulao quanto ordem cronolgica dos pagamentos no texto constitucional, mas

    extinguir-se-ia, definitivamente, o sistema dos precatrios.

    Dessa forma, mesmo mantidas as principais prerrogativas da Fazenda Pblica em

    juzo, os Entes Federativos condenados em processos de execuo ao pagamento de valores

    seriam obrigados a faz-lo como qualquer cidado, em espcie (respeitada a peculiaridade da

    impenhorabilidade de bens pblicos), porm em ordem cronolgica de pagamento nos moldes

    da atual redao do art. 100 da CRFB/88, inclusive no que se refere obrigatoriedade de

    incluso dos valores devidos no oramento das entidades de direito pblico.

    CONCLUSO

    O sistema constitucional de pagamento de crditos devidos pelo Poder Pblico via

    precatrios precisa se reciclar para atender de forma justa e precisa os anseios dos credores

    das Fazendas Pblicas federal, estadual e distrital.

    cada vez maior o nmero de condenaes do Poder Pblico transitadas em julgado

    que resultam em listas de pagamentos via precatrios, elaboradas com fulcro no art. 100 da

    CRFB/88, que no chegam ao efetivo pagamento dos credores em sede de execuo.

    H a necessidade de reformas constitucionais para tornar mais eficiente o sistema de

    pagamento dos precatrios em respeito s decises definitivas do Poder Judicirio e em

    respeito aos cidados, muitos de j elevada idade que, no modelo atual, no tm qualquer

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    expectativa de receber o que lhes devido ainda em vida, quanto mais seus filhos e netos. As

    propostas apresentadas de alteraes no texto da Constituio Federal, apesar de ousadas, so

    plenamente viveis e capazes de proporcionarem uma melhor efetivao das decises

    judiciais que culminam em condenaes a serem pagas na forma de precatrios.

    No se trata, entretanto, apenas de necessidade de respeito s decises judiciais

    definitivas, mas tambm de atendimento dos preceitos constitucionalmente consagrados da

    dignidade da pessoa humana e do direito vida e sade.

    REFERNCIAS

    ASSIS, Araken de. Comentrios ao Cdigo de Processo Civil. 7.ed. So Paulo: RT, 2007.

    BOBBIO, Norberto. Estado, Governo, Sociedade: para uma Teoria Geral da Poltica. 3.ed.

    Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

    BUENO, Cassio Scarpinella. Execuo por quantia certa contra a Fazenda Pblica. So

    Paulo: Dialtica, 2005.

    CUNHA, Lsaro Cndido da. Precatrio: Execuo contra a Fazenda Pblica. Belo

    Horizonte: Del Rey, 1999.

    CUNHA, Leonardo Jos Carneiro. A Fazenda Pblica em Juzo. 7. ed. So Paulo: Dialtica,

    2009.

    DANTAS, Francisco Wildo Lacerda. Execuo contra a Fazenda Pblica. 2. ed. So Paulo:

    Mtodo, 2010.

    LENZA, Pedro. Direito Constitucional esquematizado. 14. ed. So Paulo: Saraiva, 2010.

    MELLO FILHO, Jos Celso. Cdigo de Processo Civil anotado. 27. ed. So. Paulo: Saraiva,

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    MORAES, Alexandre. Direito Constitucional. 18 ed. So Paulo: Atlas, 2005.

  • 20

    MORAES, Guilherme Pea. Curso de Direito Constitucional. 2. ed. Niteri: Impetus, 2008.

    MOTTA, Sylvio. Direito Constitucional. 11 ed. Rio de Janeiro: Impetus, 2002.

    NEVES, Daniel. Manual de Direito Processual Civil. So Paulo: Mtodo, 2009.