ESPECIAL / BUSCA E SALVAMENTO AQUÁTICO PREPARAR .ESPECIAL / BUSCA E SALVAMENTO AQUÁTICO 24 Emergência

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ESPECIAL / BUSCA E SALVAMENTO AQUTICO

MARO / 2013Emergncia22

ESPECIAL / BUSCA E SALVAMENTO AQUTICO

Emergncia22 MARO / 2013

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Para reduzir nmeros alarmantesde afogamentos no Brasil,preveno palavra de ordem

Para reduzir nmeros alarmantesde afogamentos no Brasil,preveno palavra de ordem

MARO / 2013 Emergncia 23MARO / 2013

Reportagem de Sabrina Becker

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E, por que no entrar na gua para se refrescar,j que vero? Todos adotam a ideia e aproveitama ocasio. Brincadeiras e alegria fazem parte docenrio, at que algo no sai conforme o esperado.Um dos jovens presentes no passeio se distanciaum pouco do grande grupo e percebe que j notoca o fundo do rio com os ps. Inicia a umacena angustiante de afogamento. O irmo, toma-do pelo desespero de tentar ajudar, chega prximoda vtima e acaba vivenciando a mesma situao.Ao ver os dois filhos beira da morte, o pai, ex-mio nadador e confiante na sua experincia, joga-se na direo dos jovens. Os trs, movidos peloinstinto de sobrevivncia, tentam agarrar uns nosoutros e acabam morrendo, juntos.

A cena descrita acima fictcia, porm, muitocomum. Mais de 70% dos afogamentos commorte registrados no Brasil acontecem em guadoce, longe dos servios especializados que soos responsveis pelo salvamento aqutico e busca.

DIFERENASAo citarmos este tipo de servio, importante

esclarecer as diferenas entre o resgate de vtimasubmersa e a busca de cadver. David Szpilman,diretor mdico e fundador da Sobrasa (Socieda-de Brasileira de Salvamento Aqutico), explica no Manual de Salvamento Aqutico da entidade que a linha que separa uma situao da outra sebaseia no tempo mximo de parada cardiorres-piratria da vtima. O especialista, que refernciainternacional em salvamento aqutico, aponta queo tempo limite de submerso com possibilidadede ressuscitao de uma hora registrado norelgio, j que em situaes de forte estresse e-mocional esta contagem pode ser estimada de for-ma errada , sendo este parmetro adotado ni-ca e exclusivamente para casos de afogamentoou hipotermia, que possuem tolerncia muitomaior quanto falta de oxignio. Aps uma horade submerso, a vtima j considerada corpoou cadver. Neste caso, trata-se de busca ao cor-po, que no tratada como urgncia e o efetivode guarda-vidas desativado, permanecendo umpequeno grupo no local para continuao dasbuscas. Vale lembrar que, geralmente, este traba-lho deve-se evoluo da vtima de submersono encontrada e que o guarda-vidas precisarde maior apoio de equipamento e de uma equipede mergulho, pois a situao requer uma tcnicamais apurada e aparelhagens que j se distanciamda atividade fim deste profissional.

Citando o socorrista especializado em ocorrn-

m acampamento em famlia beira deum rio. Almoo bem servido, conversa,diverso, uma bebida para descontrair.

cias na gua, importante diferenciar, ainda,ambas nomenclaturas que recebe: salva-vidase guarda-vidas esta segunda, a mais utilizadaatualmente. Em entrevista concedida RevistaEmergncia, em novembro de 2012, Szpil-man dissertou sobre este tema. Antigamente,usvamos salva-vidas. No entanto, isto denotauma atitude reativa, ou seja, ele parte para sal-var. A nomenclatura mudou para guarda-vi-das, e no foi aqui no Brasil, foi l fora, poisagora o profissional no salva apenas, masguarda a vida. Ento, ele tem uma atitudeproativa e reativa. A palavra guarda-vidas de-nota uma amplitude maior de responsabilidadee de trabalho, registrou. A palavra salva-vidas,porm, ainda utilizada em alguns estados doBrasil, como Rio Grande do Sul e Bahia.

NMEROSO artigo Afogamento Perfil epidemiolgi-

co no Brasil ano de 2010 (http://www.sobra-sa.org/biblioteca/obitos_2010/Perfil_afoga-mento_Brasil_2012.pdf), publicado por Szpil-man, em 2012, informa que, de acordo com aOMS (Organizao Mundial de Sade), 0,7%de todos os bitos no mundo ocorrem porafogamento no intencional, totalizando maisde 500 mil bitos anuais passveis de preven-o (8,5 bitos/100 mil habitantes). No mes-mo contexto, mais de 10 milhes de crianasentre um e 14 anos so internadas por estacausa (uma a cada 35 hospitalizaes leva abito). Estes nmeros, porm, no so exatos,uma vez que deve-se considerar casos nonotificados e sem confirmao de bito.

No Brasil, em 2010, 6.590 pessoas morreramafogadas, sendo que esta foi a segunda causageral de bitos na faixa entre cinco e nove anos,terceira entre um e 19 anos e quinta entre 20 e29 anos. Trata-se de uma constatao que no motivo de orgulho, j que somos o pas queocupa a terceira posio no ranking de mortespor afogamento. Nesta perspectiva, calcula-seque quatro crianas com idade at 14 anos mor-rem afogadas por dia no Brasil. Comparadoaos acidentes de trnsito, o risco de morte porexposio ao afogamento 200 vezes maior.Alm da questo que concerne o bito, a per-da de vidas, esta estatstica onera de forma con-tundente os cofres pblicos. Os custos dos afo-gamentos na orla somam mais de 228 e 273milhes de dlares no Brasil e nos EUA, res-pectivamente. So nmeros alarmantes parauma realidade cada vez mais presente. Porm,

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possvel eliminar em 100% este tipode ocorrncia? No. Mas, de acordo comSzpilman, os nmeros podem ser redu-zidos drasticamente. Afogamento no acidente, no acontece por acaso, tempreveno, e esta a melhor forma detratamento. Ela pode reduzir, em mdia,de 85% a 90% o nmero de afogamen-tos, aponta.

PREVENOEste um consenso entre especialistas

em resgate e salvamento aqutico e so-corristas que atendem este tipo de ocor-rncia: a preveno a nica maneirade reduzir os bitos por afogamento.Nada substitui o trabalho do guarda-vidas. Porm, impossvel que este pro-fissional esteja em todos os lugares, poristo, o trabalho de preveno deve sermuito forte, destaca o presidente da So-brasa, coronel RR Joel Prates Pedroso.Ele destaca que o trabalho da entidadetem seus pilares fixados na preveno,com o objetivo de diminuir a mortalida-de por afogamento, por meio da consci-entizao de toda populao em diferen-tes faixas etrias. Para isto, contamoscom dirigentes da diretoria em 22 esta-dos, diz. Para chegar a este objetivo, aSobrasa realiza inmeras atividades du-rante todo o ano, eventos esportivos, re-creativos, culturais e educacionais, porintermdio dos servios de salvamentoestaduais ou regionais, por todo Brasil.Cada estado possui uma realidade. Al-guns tm praia durante o ano inteiro. Emoutros, a poca de praia sazonal. Ou-tros no contam com litoral, mas pos-suem praias de gua doce, piscinas etc.Sendo assim, os estados se responsabili-zam pelo servio de salvamento e comeles que atuamos para implementar, cadavez mais, aes para a preveno, deta-lha Prates.

TCNICASAs tcnicas para busca e resgate aqu-

tico variam de acordo com a situao ecom o local onde ocorrem. Entretanto,Szpilman enfatiza a preocupao emunificar os treinamentos a fim de for-necer todo o conhecimento necessrioaos guarda-vidas, onde quer que atuem.Estamos voltados para a preveno epara unir todos os profissionais no senti-do de termos uma grade curricular ni-ca, ou seja, para que o guarda-vidas queseja formado no Rio de Janeiro seja pare-

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cido com o do Rio Grande do Norte ecom o da Bahia. Ento, temos uma gra-de curricular em que o guarda-vidas depiscina tem que fazer 52 horas/aula nasua formao; o guarda-vidas de rio, 90horas/aula e o guarda-vidas de praia, 110horas/aula. Existe uma diferena que justamente para o guarda-vidas de pisci-nas, pois sobre o mar, corrente, oceano-grafia, tempo, estes temas no precisamser ensinados, reitera Szpilman.

De acordo com o Manual de Salva-mento Aqutico da Sociedade Brasilei-ra de Salvamento Aqutico Sobrasa,uma vez que resgate de vtima submersae busca de cadver so duas situaesdiferentes, as tcnicas para quem atuanestas ocorrncias tambm se diferem.A publicao aponta trs ocasies e astcnicas usadas no resgate de vtimassubmersas (veja Box Tcnicas para Res-gate de Vtimas Submersas).

O manual informa, ainda, que a difi-culdade da busca de cadver est emestabelecer um mtodo que assegure quetodos os pontos prximos rea sejamobservados ou varridos. Um nico pon-to sequer que fique fora pode, teorica-mente, ser o lugar onde o corpo ser en-contrado. Existem vrios mtodos efi-

cientes de varredura que variam em fun-o dos recursos disponveis e das con-dies locais: visibilidade da gua, cor-rente marinha, nmero de socorristas oumergulhadores disponveis, tipo de fun-do, tamanho e formato da rea de pes-quisa, etc. Entre estes, est a tcnica de90, a mais indicada para um guarda-vi-das, porm, depende da visibilidade dagua.

Existe tambm a varredura linear, fei-ta de maneira quadricular, na qual oguarda-vidas conta com o auxlio de umcabo de cerca de dois metros, quadro

por quadro, sem deixar nenhum pontode fora. Outra opo a varredura cir-cular, a partir de um ponto fixo, poden-do ser realizada por uma ou duas pes-soas. Por ltimo, a varredura pendular,que feita em locais de forte corrente-za. Para qualquer destas tcnicas, um kitbsico necessrio: nadadeiras, mscara,snorkel, corda, uma boia de marcao eum peso.

Com quase 20 anos de experincia emtreinamento de resgate, o especialista emFisiologia Humana e do Esforo, Ronal-do Furlan Tafuri, explica pontos impor-

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Sobrasa pretende unificaros treinamentos paraguarda-vidas

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Como prevenirAes educativas e de conscientizao so as principais

ferramentas para reduzir nmeros alarmantes de afogamentosPara prevenir o afogamento, um dos

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