Esse Porto, este Porto, tem raízes longínquas. Tem ... ?· Permitam-me, pois, que não deixe de referir…

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    11-Nov-2018

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  • Discurso do Senhor Presidente da Cmara Municipal do Porto, Dr. Rui Moreira

    Sesso Solene de Imposio de Medalhas da Cidade

    9 de Julho de 2016 Casa do Roseiral

    Tive um espelho em criana que me lembrava um rio, me fez lembrar um rio, as suas pontes.

    Este verso, que parte de um poema de Ana Lusa Amaral, uma das homenageadas de hoje, foi escrito quando o Porto foi muito justamente Capital Europeia da Cultura, em 2001.

    Sabendo da homenagem que a cidade lhe pretendia prestar hoje, reenviou-mo, como que em jeito de lembrete.

    muito curioso que o tenha feito, assim, quase sem mais nenhuma considerao. Caiu no meu e-mail, singelo. E, como as pontes que evoca, transportou-me para uma reflexo: o que hoje o Porto? O que hoje o Porto das pessoas, o Porto que se espelha no rio e que se projecta no cu, pelo mundo?

    De onde veio esse Porto que parece acordado, sempre acordado, mesmo quando o julgamos adormecido ou quando o julgaram adormecido?

    Esse Porto, este Porto, tem razes longnquas. Tem alicerces na resilincia ao cerco que comeou a cair a 9 de Julho. um Porto de carcter. verdade. Mas se o olharmos bem, como quando nos olhamos nos olhos ao espelho, esperando que as nossas rugas nos tragam respostas para os mistrios insondveis da vida, h, neste Porto velho, um olhar novo.

    15 anos depois da Porto 2001, porventura, tempo de reflectirmos sobre o que nos deixou e sobre o que, dcada e meia depois, tambm podemos comear.

    A Porto 2001, j o disse por diversas vezes, deixou-nos fundamentalmente dois legados. O legado de alguns cones, onde a Casa da Msica o templo, mas tambm nos deixou uma singular democratizao dos contedos. No foi, apenas, uma democratizao no sentido tradicional, na abrangncia daqueles que, antes disso, no acediam cultura. Foi mais do que isso. Encontramos, na Porto 2001, a democratizao transversal, em que os pblicos se entrecruzaram.

    Foi a que nasceu uma ideia de que a cultura, no Porto, no tinha que ser coisa de elites ou de pseudo-elites. De que no havia pblicos cativos.

    Foi a que se ensaiou uma forma de olhar o que se espelha do rio de uma forma diferente. E, regressando ao poema de Ana Lusa Amaral, se construram os alicerces de algumas pontes.

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    A evocao da Porto 2001 pertinente por outros motivos neste dia. Entre aqueles a quem a cidade presta muito justamente homenagem, est tambm a vereadora da cultura de ento.

    Sei bem quanto custa ter arrojo, Manuela de Melo. Sei bem ao que nos sujeitamos quando preferimos fazer, em lugar de no fazer. Arriscar, em detrimento de descansar. Porque quem no faz, no erra nunca.

    Queria, a esse propsito, sublinhar a presena de vrios cidados, que hoje homenageamos e, entregando a sua vida funo poltica ou, simplesmente, tendo decidido pontualmente servir como polticos a causa pblica, honram a cidade e a quem o Porto deve, por isso, reconhecimento.

    Refiro-me a Carlos Lage, a Joo Semedo, Jos Pedro Aguiar Branco, Manuela de Melo e Rui S.

    De diferentes formas, fosse ao servio do Pas, fosse ao servio do Municpio que tambm o Pas, fazem parte daquilo a que chamamos carcter do Porto e que distinguimos sem preconceitos. Aplaudir e honrar os que honram a cidade, independentemente de convices e de ideologias, , afinal, o melhor exemplo que podemos dar pela dignificao da vida poltica.

    Tambm nessa matria o Porto tem sido e, deve continuar a ser, liberal, tolerante e um exemplo para um pas que no pode continuar divorciado daqueles que se expem ao escrutnio supremo que o do eleitorado e so, por isso, o garante da democracia e da liberdade de um pas.

    Devemos dignific-los, caso contrrio, no poderemos clamar por direitos nem queixar-nos de ataques extremistas e ditatoriais ao poder.

    certo, porm, que h muitas formas de servir o pas e de servir os interesses de uma cidade que no em cargos polticos e de eleio directa.

    Permitam-me, pois, que no deixe de referir nenhum dos outros nomes que, com justia, hoje so agraciados com a Medalha de Mrito Grau Ouro.

    Jos Carlos Marques dos Santos, que foi reitor da Universidade do Porto, recebe a medalha que lhe foi atribuda no ano passado.

    Amrico Manuel Alves Aguiar, padre a cujo zelo devemos o restauro de um dos cones desta cidade a Igreja e Torre dos Clrigos; Angelo Arena, que foi cnsul de Itlia e que se apaixonou pelo Porto e preside Dante Alighieri; Antnio Ricardo Oliveira Fonseca, fotgrafo de eleio e grande gestor da APDL, dos STCP, da Metro do Porto; Belmiro Carlos Pereira Rubim e Gasto Celestino Ferreira Teixeira, ambos salvadores de muitas almas que o Rio Douro queria para si; Joo Rosas Nicolau de Almeida, um dos mais respeitados enlogos do mundo; Joaquim Poas Martins, um dos mais distintos professores de engenharia, a quem a cidade deve o projecto Porto Gravtico; Jorge Olmpio Bento que tem dedicado a sua vida a ensinar a cincia no desporto, e que hoje no est entre ns por estar a leccionar em Moambique; Jos Antnio Martnez de Villarreal Baena; embaixador e um dos espanhis que nos faz sentir irmos; Levi Eugnio Ribeiro Guerra, mdico, pintor, professor; Manuela Gouveia, uma das nossas grandes pianistas e Ana Lusa Amaral, de que j falei mas , tambm, um exemplo de cidadania

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    livre, a par dos seus dotes como poeta. Desculpem, invocando Sophia, que no lhe chame poetisa.

    Tambm as empresas e as instituies so merecedoras de distino. Este ano, a cidade decidiu agraciar a Agncia Abreu - a mais antiga agncia de viagens do mundo, imagine-se, nascida aqui no Porto, e ao magnfico Coral de Letras da Universidade do Porto. Pela antiguidade, mas tambm pelo reconhecimento do mrito colectivo, podem ser, muito justamente, apontadas como instituies de que a cidade se orgulha.

    Decidiu, tambm, agraciar o Sporting Clube da Cruz, que teimosamente resiste ao tempo e aos tempos e que se transforma num novo olhar social sobre o que o rodeia.

    No esquecemos os funcionrios municipais. Aqueles que individualmente aqui so hoje homenageados so porta-estandartes de tantos annimos e competentes servidores do bem pblico.

    Todos so Porto.

    Todos, sua maneira, e nas funes que desempenham, nos servios que prestaram ou prestam ao Porto, ajudaram a fazer cidade e serviram o interesse comum.

    Minhas Senhoras e meus Senhores

    Permitam-me que regresse um pouco atrs, e volte a evocar a Porto 2001 para chegar ao cidado a quem este ano entregamos a nica Medalha de Honra da cidade, dolorosamente a ttulo pstumo.

    O Professor Paulo Cunha e Silva, tambm ele, foi programador desse momento controverso da histria da cidade, mas que, apesar de tudo, foi invulgarmente iniciador.

    Tal como alguns outros aqui presentes, que ento insistiram que o Porto merecia, pelo menos na cultura, ser capital, foi resiliente. Como foi sempre teimosamente obstinado no amor que nutria pela sua cidade, que desejava Nao.

    Paulo Cunha e Silva era ele prprio a democratizao da cultura. Era, como criador, a verdadeira cultura em expanso. Era a mistura. Era o espelho e era as pontes.

    Aquando da inaugurao da exposio P. Uma Homenagem a Paulo Cunha e Silva, por extenso, anunciei a criao de um prmio internacional de artes visuais, com o seu nome.

    Sim, queramos e queremos homenagear o nosso querido amigo e vereador com esse projecto de estmulo e reconhecimento profissional dirigido a artistas, nacionais e internacionais, que trabalham em artes visuais: um domnio que lhe era particularmente prximo, no qual cresceu e permitiu que muitos crescessem, dentro e fora do pas. Era isso que movia o Paulo: provocar talento, descobrir novo pensamento e d-lo a conhecer ao mundo que o rodeava.

    Mas no s. Na verdade, o Prmio Paulo Cunha e Silva constitui uma pea num plano maior para a Cultura: uma estratgia que estamos desde j a desenvolver e que pretendemos que potencie o Porto, ao longo dos prximos anos, como territrio mpar para a criao contempornea.

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    Depois de trs anos a trabalhar na reinveno dos diferentes espaos de cultura municipais, na reactivao do patrimnio da cidade atravs da arte contempornea, na concepo de programas e festivais que recuperaram e criaram pblicos para a cultura, na diluio de fronteiras e barreiras culturais no territrio da cidade, e na ligao da cidade aos discursos contemporneos nacionais e internacionais, iremos sedimentar a qualidade de todos estes projectos e iniciativas.

    Mas vamos, em simultneo, concentrar recursos no apoio directo criao contempornea no Porto em reas to destintas quanto o pensamento crtico, a escrita, a prtica das artes visuais, a curadoria ou a composio musical.

    Queremos com os futuros programas de apoio directo criao artstica, e de apoio e visibilidade a espaos de residncia artstica da cidade, contribuir de forma incisiva para fixar o talento da cidade e tambm atrair talento nacional e internacional para o tecido artstico do Porto.

    O Porto , por natureza um porto. Seja ele o porto que se abria pelo rio ao mar e nos ligou ao Mundo em todos os sentidos que a vida pode dar, seja ele hoje tambm o aeroporto, seja ele o Porto que abrigo e quer ser abrigo de novas gentes, de pensamento e de criao contempornea, provocativa, expansiva, nova.

    A criao contempornea que aqui tem nascido nos espaos e plataformas mais informais e inusitados; a criao sub-40, sub-30 ou da gerao Y, o nosso Porto 2001. Sem precisar da construo de templos que j tem. Sem obra de fachada de que no precisa. Sem necessidade de serventia. Um Porto 2016, 2017 ou dois mil e qualquer coisa.

    Um Porto contemporneo e que olha o futuro a partir da sua cultura; uma cultura que no se confunde com outras. Uma cultura que , ela prpria, a capital.

    A resilincia, a resistncia ao cerco, a capacidade de continuar, sempre, mesmo quando Deus chama a si os que mais nos so queridos, essa capacidade de criar usando, at, aquilo que mais nos magoa, o Porto nunca pode perder.

    Minhas Senhoras e meus senhores

    Homenageamos hoje vrias personalidades e instituies importantes. Cada uma delas foi e portadora, com a sua fora criadora, de uma singular capacidade para interpretar a cidade e de lhe acrescentar.

    Todos se honram com a medalha que hoje lhe entregamos. Mas sobretudo nos honram com os seus feitos, com a sua capacidade criadora e com o seu amor pelo Porto e, s vezes, at com a sua modstia e discrio.

    Felicito-os a todos. A cidade est-vos grata.

    E, termino como tambm termina o poema de Ana Lusa Amaral:

    Falei. Que o corao possa sonhar!

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    Lista dos agraciados

    MEDALHA DE HONRA

    - Paulo Cunha e Silva (a ttulo pstumo)

    Valor Desportivo

    - Sporting Club da Cruz

    Mrito - grau ouro

    - Agncia Abreu;

    - Amrico Manuel Alves Aguiar;

    - Ana Lusa Ribeiro Barata do Amaral;

    - Angelo Arena;

    - Antnio Ricardo Oliveira Fonseca;

    - Belmiro Carlos Pereira Rubim;

    - Carlos Cardoso Lage;

    - Coral de Letras da Universidade do Porto;

    - Gasto Celestino Ferreira Teixeira;

    - Joo Rosas Nicolau de Almeida;

    - Joo Pedro Furtado da Cunha Semedo;

    - Joaquim Manuel Veloso Poas Martins;

    - Jorge Olmpio Bento;

    - Jos Antnio Martnez de Villarreal Baena;

    . Jos Carlos Marques dos Santos (2014)

    - Jos Pedro Correia de Aguiar Branco;

    - Levi Eugnio Ribeiro Guerra;

    - Manuela Gouveia;

    - Maria Manuela de Macedo Pinho e Melo;

    - Rui Pedro de Arajo S.

    Bons Servios - grau prata

    - Antnio Abel de Oliveira Monteiro Teixeira

    - Jos Joaquim Moreira Teles

    - Maria da Luz Ferreira

    - Maria Palmira Saraiva Mendes

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