Estrutura e Conservação de um Trecho de Floresta ... ?· the Municipality of Pirai, State of Rio de…

  • View
    212

  • Download
    0

Embed Size (px)

Transcript

Floresta e Ambiente 2016; 23(3): 330-339http://dx.doi.org/10.1590/2179-8087.106214

ISSN 2179-8087 (online)

Artigo Original

Estrutura e Conservao de um Trecho de Floresta Estacional em Pira, RJ

Alexandre dos Santos Medeiros1, Marcos Gervasio Pereira1, Denise Monte Braz2

1Departamento de Solos, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro UFRRJ, Seropdica/RJ, Brasil2Departamento de Botnica, Universidade Federal Rural do Rio Janeiro UFRRJ, Seropdica/RJ, Brasil

RESUMOO objetivo deste estudo foi a caracterizao florstica e estrutural de um fragmento de floresta estacional em Pira, RJ, visando a determinao de seu estgio sucessional. O Parque Municipal da Mata do Amador (2237S e 4353W) abrange 16,4 ha, constituindo um importante remanescente florestal urbano. Foram instaladas 15 parcelas de 10 10 metros, sendo o dimetro de incluso dos indivduos maior ou igual a 5 centmetros. Foram mensurados 176 indivduos, reunidos em 24 famlias, 46 gneros e 51 espcies. A famlia com maior riqueza foi Fabaceae, os gneros mais abundantes foram Cupania L., Casearia Jacq e Eugenia L. e a espcie com maior valor de importncia foi Sorocea bonplandii. Ficou demonstrado que a Mata do Amador apresenta diversidade considervel de espcies (H = 3,517 natsind-1) e equabiliadade elevada (J = 0,884), sendo classificada como fragmento de floresta secundria em estgio mdio de regenerao.

Palavras-chave: Floresta Atlntica, Mdio Vale do Paraba do Sul, fitossociologia, florstica, sudeste brasileiro.

Structure and Conservation of a Stretch of Seasonal Forest in Pirai-RJ

ABSTRACTThis study aimed the floristic and structural characterization of a stretch of seasonal forest in the Municipality of Pirai, State of Rio de Janeiro, in order to determine its successional stage. TheParque Municipal da Mata do Amador has an area of 16.4 ha (2237S and 4353W), where 15 plots of 10 10 meters were installed. Plants with DAP 5cm were measured, which totalized 176 specimens, encompassing 24 families, 46 genera and 51 species. The richest family was Fabaceae. The most abundant genera were Cupania L., Casearia Jacq and Eugenia L. Thespecies with the highest importance value was Sorocea bonplandii. It was demonstrated tha the Mata do Amador has considerable species diversity (H = 3.517 natsind-1) and high equability (J = 0.884), classified as a secondary forest stretch in a intermediate stage of regeneration.

Keywords: Atlantic Forest, Eastern Vale do Paraba do Sul, phytosociological, floristic, southeastern Brazil.

331Estrutura e Conservao de um Trecho de Floresta Estacional...Floresta e Ambiente 2016; 23(3): 330-339

Artigo Original

1. INTRODUO

No Mdio Vale do Paraba do Sul, a antropizao das formaes florestais da Floresta Atlntica pode ser considerada tardia, tendo em vista que at meados do sculo XIX o sul do estado do Rio de Janeiro era apenas rota de passagem para Minas Gerais e So Paulo (Dean, 1996). At ento predominou na regio a agricultura de subsistncia, restrita principalmente s baixadas, enquanto as encostas se mantiveram preservadas. Afertilidade natural dos solos florestais na regio e a localizao estratgica para o escoamento da produo, entretanto, logo impulsionaram na regio a converso de florestas em lavouras de caf, dando incio ao mais importante ciclo de produo do Brasil at aquele momento (Dean, 1996).

A declividade acentuada, a retirada da cobertura florestal das encostas e o uso intensivo dos recursos edficos favoreceram a rpida degradao dos solos na regio do Mdio Vale do Paraba do Sul, promovendo o declnio acentuado da produo de caf em poucas dcadas. Com o colapso do sistema produtivo, as reas de lavoura foram gradativamente substitudas por pastagens, condio que agravou os processos erosivos e impediu a resilincia das comunidades florestais na regio. Como consequncia, observa-se atualmente o assoreamento do sistema hdrico superficial, a remoo dos horizontes superficiais do solo e a diminuio de sua capacidade produtiva. Com relao biota, a fragmentao de hbitat e supresso de extensas reas de floresta causou perdas irreparveis e, possivelmente, a extino de dezenas de espcies vegetais, em geral pouco conhecidas quanto classificao e potencialidades (Cmara, 1991; Oliveiraetal., 1995).

Adicionada a grande devastao sofrida pela vegetao local, restrita na atualidade a pequenos fragmentos florestais isolados, as estratgias para conservao da biodiversidade no estado do Rio de Janeiro (Bergalho, 2009) apontam a falta de conhecimento, especialmente em boa parte da Regio do Mdio Paraba, ao sul do estado. Essas regies ainda abrigam florestas remanescentes e esforos para o preenchimento dessas lacunas so essenciais para o conhecimento da flora do estado e da Floresta Atlntica como um todo.

O municpio de Pira est inserido na regio do Mdio Vale do Paraba do Sul e em sua poro central encontra-se o Parque Municipal da Mata do Amador,

s margens do Rio Pira. Criado em 8 de abril de 1997, pretendia preservar o principal remanescente de Floresta Atlntica prximo ao centro da cidade, permitir a conservao da diversidade local, a manuteno de suas funes ecolgicas, a oferta de espao para a educao ambiental e para a apreciao da natureza aos moradores da cidade.

Para o delineamento de aes efetivas que possibilitem a recuperao e conservao de ecossistemas regionais necessrio conhecimento das comunidades vegetais e da dinmica das paisagens. Logo, se faz necessria a realizao de estudos florsticos e fitossociolgicos para o entendimento da estrutura e composio florstica dessas comunidades (Oliveira, 1998; Vuono, 2002; Vilelaetal., 1994). Este estudo teve como objetivo a caracterizao florstica e estrutural, a determinao da diversidade local e a classificao do estgio sucessional do fragmento florestal que constitui o Parque Municipal da Mata do Amador. Pretende fornecer informaes importantes para a confeco e implementao do plano de manejo da referida unidade de conservao e promover o conhecimento da flora remanescente dessa regio do sul do estado.

2. MATERIAL E MTODOS

O municpio de Pira est localizado no sul do estado do Rio de Janeiro, entre as coordenadas 2243S e 4350W, com altitude mdia de 387 metros. Segundo a classificao Kppen (1948), o clima da regio pode ser classificado como Cwa clima temperado de inverno seco e vero chuvoso e Am clima tropical chuvoso com inverno seco (Oliveira, 1998), apresentando temperatura mdia mxima de 29,1 C em fevereiro e mdia mnima de 20,1 C em julho, com pluviosidade mdia anual de 1.238,5 mm, chuvas abundantes em fevereiro e escassas em julho. O relevo regional classificado como declivoso, sendo predominantes colinas, morrotes e morros baixos com pedoformas convexas, cncavas e lineares, de gradiente suave a mdio, topos arredondados e subnivelados (Silva, 2008), constituindo uma paisagem tpica do domnio morfoclimtico Mares-de-Morros (AbSber, 1966).

O Parque Municipal da Mata do Amador abrange uma rea de 16,4 ha, com altitude variando de 380a450metros, declividade entre 25 e 40 e relevo classificado como fortemente ondulado (Santosetal.,

332 Medeiros AS, Pereira MG, Braz DM Floresta e Ambiente 2016; 23(3): 330-339

2005). A comunidade vegetal classificada como Floresta Estacional Semidecidual Submontana, uma vez que apresenta estao seca acentuada, variando entre 4 a 6 meses, caduciflia de 20% a 50% dos indivduos arbreos do conjunto florestal e por se encontrar entre as latitudes 16 e 24, com altitude mdia entre as cotas 50 a 500 metros (IBGE, 2012; Oliveira-Filho & Fontes, 2000).

Considerando que a comunidade em estudo possui tamanho reduzido, o levantamento florstico e fitossociolgico contou com o nmero mximo possvel de 15 unidades amostrais de 10 10 metros ao longo da trilha principal do parque, totalizando 0,15 ha de amostragem. A alocao das unidades obedeceu s distncias mnimas de 30 metros entre parcelas e 15metros at a trilha principal, a fim de reduzir o efeito de borda. Foram amostrados todos os indivduos com DAP 5 cm. A altura total foi estimada com base em vara de podo (2 m). O material botnico foi coletado preferencialmente com flores e/ou frutos, anotando-se as caractersticas morfolgicas vegetativas e reprodutivas. Todo material coletado foi herborizado segundo as tcnicas usuais em Botnica (IBGE, 2012) e depositado no Herbrio do Departamento de Botnica (RBR) da UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro). As determinaes taxonmicas foram realizadas com auxlio de bibliografia especializada, comparao com o acervo do herbrio RBR ou por meio de consulta a especialistas. O sistema de classificao segue APG III (Souza & Lorenzi, 2012) e a nomenclatura foi atualizada atravs da Lista de Espcies da Flora do Brasil (JBRJ, 2014). As informaes referentes ao grupo ecolgico e forma de disperso das sementes foram obtidas com o auxlio da bibliografia especializada (Lorenzi, 2009; Carvalho, 2003; Lima & Guedes-Bruni, 1996; Morim, 2006; Menezes &Arajo, 2005) e da Flora do Brasil (JBRJ, 2014), alm de observaes de campo.

A estrutura horizontal e os parmetros fitossociolgicos (mdia das alturas e dimetros, rea basal, densidade absoluta, densidade relativa, frequncia absoluta, frequncia relativa, dominncia absoluta, dominncia relativa, valor de cobertura e valor de importncia) foram calculados segundo Felfilietal. (2011), utilizando-se o software MS Excel. A suficincia amostral foi verificada atravs do mtodo proposto por Cain (1938) apud Schilling & Batista (2008), que considera amostragem adequada aquela em que, a um aumento de 10% da

rea amostrada, o nmero de espcies novas no se revela superior a 10% do total de espcies encontradas.

O enquadramento do estgio sucessional da rea de estudo seguiu o critrio estabelecido pela resoluo Conama n. 6, de 4 de maio de 1994, que estabelece definies e parmetros mensurveis