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ROCHA, Ana Luiza Carvalho da; ECKERT, Cornelia. Etnografia com imagens: práticas de restituição. Tessituras, Pelotas, v. 2, n. 2, p. 11-43, jul./dez. 2014. ETNOGRAFIA COM IMAGENS: práticas de restituição Ana Luiza Carvalho da Rocha 1 Cornelia Eckert 2 Resumo: A restituição é uma ação ética, prática da pesquisa etnográfica. A partir das experiências de formação científica em dois núcleos de pesquisa em antropologia visual na UFRGS, refletimos sobre as aprendizagens nos exercícios de etnografia com imagens e descrevemos formas de socializar as pesquisas com imagens. Palavras-chave: Etnografia; restituição; imagem; narrativas. Abstract: Reporting is an ethical action, practice of the ethnographic research. Through the experience of scientific training in two research centers in visual anthropology at UFRGS, we reflect upon the learning process inherent to ethnographical exercises with images and we describe forms of socializing researches with images. Keywords: Ethnography; reporting; image; interlocutors; narrative. 1 Professora da Universidade FEEVALE, Novo Hamburgo, e antropóloga na UFRGS, Porto Alegre, RS. Coordenadora do Banco de Imagens e Efeitos Visuais neste âmbito. E-mail: [email protected] . 2 Professora do Departamento de Antropologia e PPGAS IFCH UFRGS, Porto Alegre, RS. Coordenadora dos núcleos Antropologia Visual e Banco de Imagens e Efeitos Visuais neste âmbito. E-mail: [email protected] .

Etnografia Com Imagens Restituiççao

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antropologia visual e da imagem

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  • ROCHA, Ana Luiza Carvalho da; ECKERT, Cornelia. Etnografia com imagens: prticas de restituio. Tessituras, Pelotas, v. 2, n. 2, p. 11-43, jul./dez. 2014.

    ETNOGRAFIA COM IMAGENS: prticas de restituio

    Ana Luiza Carvalho da Rocha1

    Cornelia Eckert2

    Resumo: A restituio uma ao tica, prtica da pesquisa etnogrfica. A partir das experincias de formao cientfica em dois ncleos de pesquisa em antropologia visual na UFRGS, refletimos sobre as aprendizagens nos exerccios de etnografia com imagens e descrevemos formas de socializar as pesquisas com imagens. Palavras-chave: Etnografia; restituio; imagem; narrativas. Abstract: Reporting is an ethical action, practice of the ethnographic research. Through the experience of scientific training in two research centers in visual anthropology at UFRGS, we reflect upon the learning process inherent to ethnographical exercises with images and we describe forms of socializing researches with images. Keywords: Ethnography; reporting; image; interlocutors; narrative.

    1 Professora da Universidade FEEVALE, Novo Hamburgo, e antroploga na UFRGS, Porto

    Alegre, RS. Coordenadora do Banco de Imagens e Efeitos Visuais neste mbito. E-mail:

    [email protected] . 2 Professora do Departamento de Antropologia e PPGAS IFCH UFRGS, Porto Alegre, RS.

    Coordenadora dos ncleos Antropologia Visual e Banco de Imagens e Efeitos Visuais neste

    mbito. E-mail: [email protected] .

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    Tessituras

    ROCHA, Ana Luiza Carvalho da; ECKERT, Cornelia. Etnografia com imagens: prticas de restituio. Tessituras, Pelotas, v. 2, n. 2, p. 11-43, jul./dez. 2014.

    Imagens narradas, mediando restituies

    A restituio da pesquisa antropolgica um compromisso tico da

    prtica da etnografia. Um ato no s de contra-dom que nos ensinou Marcel

    Mauss ao fundar a antropologia simblica a partir da teoria da reciprocidade

    (MAUSS, 1922), mais do que isso, ao de interlocuo na trama simblica

    da cultura. Esta tradio tica orienta a comunidade antropolgica na

    responsabilidade de construo de conhecimento crtico e reflexivo pela

    partilha do patrimnio etnogrfico, que pblico, porque a significao o

    (GEERTZ, 1984, p. 17).

    No campo da antropologia e imagem ou antropologia visual, as

    prticas de descrio interpretantes dos processos de pesquisa etnogrfica

    contam com a obra da imagem como uma aliada para a prtica da

    reciprocidade e restituio. Seja por demanda do prprio grupo, seja pelo

    consentimento individual solicitado para a pesquisa com suportes

    audiovisuais, as imagens se situam como patrimnio etnogrfico das

    diversidades socioculturais.

    No que hoje postulado para o ofcio da antropologia, a grafia da luz

    das diversidades socioculturais superou os projetos reacionrios de

    perspectivas exotizantes da pesquisa etnocntrica na construo de um

    Outro antropologizado e chega contemporaneidade com disposies

    dialgicas consentidas de enfrentamento das determinaes ideolgicas e

    coercitivas e alcana qualidades de convivncia social e responsabilidade

    poltica de complexidade planetria. Das imagens testemunhais de gnero

    realista de Bronislaw Malinowski dos melansios em Trobriand (1976

    [1922]) so hoje inmeros os estudos que refletem sobre o lugar da imagem

    na restaurao da inteligibilidade da ao do Outro, como sugere Marilyn

    Strathern sobre os barock, para quem as imagens so autoconhecimento

    refletido (2014, p. 223).

    A partilha das imagens, da concepo restituio, foi uma ao

    criativa e revolucionria no mbito da disciplina com a consolidao da

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    Tessituras

    ROCHA, Ana Luiza Carvalho da; ECKERT, Cornelia. Etnografia com imagens: prticas de restituio. Tessituras, Pelotas, v. 2, n. 2, p. 11-43, jul./dez. 2014.

    denominada antropologia compartilhada internacionalizada na obra de Jean

    Rouch, o cineasta-antroplogo francs. Imbudo do talento flmico operando

    a cmera subjetiva, o pesquisador biografa a ao de atores sociais, amigos

    nigerianos, na construo de suas identidades narrativas (RICOEUR,

    1991). Um acompanhamento fenomenolgico (PIAULT, 2009, p. 163) em

    que Rouch, e seus amigos africanos participam do processo etnogrfico

    flmico. De fato o tema da alteridade que se coloca de outra forma, ora

    distanciamento, ora familiarizao, o que importa, evidenciando os esforos

    de Jean Rouch junto s comunidades africanas, o dilogo constante, a

    conversao engajada, a continuidade das trocas nas mltiplas situaes

    interativas (PIAULT, p. 164-165) e, claro, importa reconhecer a conjuntura

    mundial de um cinema politizado (cine-olho, cine-verdade, cine-novo, cine-

    neorealista, cine-transcultural) no qual divulga sua obra.

    Dialogar em torno das imagens a serem captadas, os pontos de

    observao, os lugares de escuta, as disposies tcnicas (luz,

    enquadramento, plano de proximidade at um close) implicam em

    concordncias, em rejeies, em negociaes, em consentimentos das pessoas

    implicadas no drama da pesquisa at as frustraes em face do roteiro guia

    imaginado e interrompido pelas recusas e os imponderveis da pesquisa, ou

    as expertises em face do improviso e da emoo.

    O processo de restituio da etnografia com imagens se coloca para

    ns com um compromisso com a memria intrageracional, de outro modo,

    com um museu imaginrio dinamizado pela extroverso de colees de

    imagens restituindo aos pesquisados no presente e s futuras geraes um

    quadro compsito das esperanas e temores da espcie humana, a fim de que

    cada um nele se reconhea e se revigore (DURAND, 1998, p. 106), projeto

    que temos denominado de etnografia da durao (ECKERT e ROCHA,

    2013c).

    Como professoras e pesquisadoras de antropologia audiovisual, no

    contexto acadmico, compartilhamos da coordenadoria de dois ncleos de

    formao para o qual temos nos inspirado com as instncias da

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    Tessituras

    ROCHA, Ana Luiza Carvalho da; ECKERT, Cornelia. Etnografia com imagens: prticas de restituio. Tessituras, Pelotas, v. 2, n. 2, p. 11-43, jul./dez. 2014.

    aprendizagem propostas por Sara Pain (1988) ao entender que, para a

    formao do discente, o mestre deve partir de um desafio mltiplo que

    promove situaes de aprendizagem em que o(a) aluno(a) deve intervir

    globalmente, construindo o desafio do conhecimento como um jogo

    dramtico do saber. A pedagoga orienta a aplicao de uma srie de

    estruturas lgicas, na aventura do aprendizado pela atividade criativa. J

    escrevemos sobre os desafios de situaes de ensino-aprendizagem nas

    disciplinas de Antropologia Visual e da Imagem, que cultivamos no mbito

    da universidade (ECKERT e ROCHA, 2014). No ensino da antropologia

    visual, a reflexo sobre o tema da restituio nos cara e se investe como

    ressonncia da experincia viva da temporalidade observada, escutada,

    filmada, fotografada, gravada, vivida junto as pessoas e grupos pesquisados

    nas produes fotogrficas, videogrficas, sonoras e grficas (escritas, blogs,

    desenhos, pinturas, instalaes, etc.). Uma experincia divulgada pela arte

    do saber-fazer etnogrfico que narra imaginao produtora do

    conhecimento partilhado sempre em fluxo.

    Tambm refletimos alhures sobre a partilha da escrita etnogrfica

    como processo de restituio. Tendo por referncia a obra de Jacques

    Rancire e seu estudo sobre a esttica e poltica, segundo o qual o ato da

    escrita ato de partilha do sensvel (modos do fazer, modos do ser e do dizer)

    pode-se recolocar alguns dos dilemas que vive a Antropologia em termos das

    possibilidades da escrita etnogrfica configurar-se como uma partilha do

    sensvel entre os prprios pesquisadores em antropologia. Neste nterim ao

    se colocar as diferenas da etnografia fora do trabalho de campo e no interior

    da escrita interpretativa (o corpo da letra) prope-se a escrita antropolgica

    como coisa poltica porque recoloca o dilogo entre civilizaes nos termos

    das relaes entre, por um lado, um conjunto comum partilhado de saberes

    e, por outro, a sua diviso em partes exclusivas (saberes tradicionais/saberes

    cientficos, o que pertence ao nativo/o que pertence ao etngrafo) (ROCHA

    et al., 2008, p. 1-2).

    Considerando que do campo da etnografia com imagens que prticas

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    ROCHA, Ana Luiza Carvalho da; ECKERT, Cornelia. Etnografia com imagens: prticas de restituio. Tessituras, Pelotas, v. 2, n. 2, p. 11-43, jul./dez. 2014.

    de restituio se consolidaram como ao tica e poltica de ressonncia do

    conhecimento da imagem do Outro e de s-mesmo na interao, relatamos

    neste artigo prticas que desejamos se somarem aos mltiplos esforos de

    circulao das interpretaes antropolgicas.

    Sem cair na armadilha de que teremos o controle das formas de

    acolhimento da pesquisa, almejando antes uma abertura para novas

    experincias, relatamos empenhos acadmicos de circulao dos fatos

    etnogrficos como processos de restituio, uma vez que o que comunicado

    [...] , para alm do sentido de uma obra, o mundo que ela projeta e que

    constitui seu horizonte (RICOEUR, 1994, p. 119), mas cuidando para

    respeitar os acertos de consentimentos informados e as fontes de referncias

    das obras citadas. No h idealizao para estas contrapartidas, ou modelos

    de recepo. Talvez no nos furtemos da ambio de aspirar comover os

    interlocutores pelo conhecimento afetivo, no s por promover

    democraticamente o acesso as imagens de si, mas por visibilizar os desgnios

    intencionais nas experincias de campo e de como os que etnografam so

    afetados pela responsabilidade de mediar mundos conceituais. Desta feita

    nos conformamos com o que prope Paul Ricoeur em A metfora viva ao

    tratar das obras literrias, plagiando sua proposta adaptada para as

    etnografias visuais: as obras literrias trazem tambm linguagem uma

    experincia e assim vm ao mundo como qualquer discurso (RICOEUR,

    1994, p. 120), mas por certo um discurso vivo e corrente que pressupe uma

    compreenso ativa (BAKHTIN, 1978, p. 89). Trata-se do dialtico processo

    de subjetivao/objetivao da experincia que nos ensina Georg Simmel

    (1987) a que no escapamos na filiao institucional (universitria) em suas

    funcionalidades, o que no invalida a almejada fuso de horizontes nas

    dinmicas de recepo da narrativa imagtica pelo pblico que tem

    assegurada sua liberdade de interpretar, de ficcionalizar pela ao humana

    criativa e imaginativa de todos ns.

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    Tessituras

    ROCHA, Ana Luiza Carvalho da; ECKERT, Cornelia. Etnografia com imagens: prticas de restituio. Tessituras, Pelotas, v. 2, n. 2, p. 11-43, jul./dez. 2014.

    As imagens nos habitam

    Se somos habitados por imagens, pelas imagens que buscamos

    restituir a experincia etnogrfica. O postulado de Gastn Bachelard

    (1984) em quem nos inspiramos para ousar, no horizonte que nos

    proporcionado ao trabalho de antropologia visual, restituir narrativas com

    imagens pelo qual a investigao etnogrfica pode ser contada, recitada,

    refazendo a trama das intersignificaes do tempo vivido na interao da

    pesquisa.

    Em dois ncleos do nosso trabalho cotidiano acadmico no Programa

    de Ps-Graduao em Antropologia na Universidade Federal do Rio Grande

    do Sul, privilegiamos a formao em antropologia com imagens de alunos de

    graduao e ps-graduao, no NAVISUAL e no BIEV. A circulao dos

    trabalhos seguem os suportes que a mdia contempornea proporciona. Em

    especial destacamos o portal do projeto Banco de Imagens e Efeitos Visuais

    www.biev.ufrgs.br e a publicao da revista cientfica e eletrnica

    Iluminuras, acessvel pelo portal http://seer.ufrgs.br/iluminuras/ .

    A expografia como contexto de restituio: a experincia do

    Navisual (UFRGS)

    O ncleo de antropologia visual, apelidado de Navisual, se constituiu

    como um projeto coletivo dos docentes do PPGAS. Esta filosofia de abertura

    s diversas linhas de pesquisa que caracterizam o programa para a

    formao, segue como meta do projeto. Com reunies semanais,

    pesquisadores so incentivados aos desafios da pesquisa antropolgica com a

    produo de imagens. Hoje j com 25 anos de atividade, podemos numerar

    as tradicionais formas de divulgao das experincias de aprendizagens:

    teses, dissertaes, trabalhos de concluso de curso, produo de vdeos,

    produo de cds e dvds, apresentaes orais e de psteres nos eventos

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    ROCHA, Ana Luiza Carvalho da; ECKERT, Cornelia. Etnografia com imagens: prticas de restituio. Tessituras, Pelotas, v. 2, n. 2, p. 11-43, jul./dez. 2014.

    cientficos, reunies acadmicas, oficinas, etnografias de rua, participao

    em redes sociais virtuais, exposies de fotografias e exibio dos

    documentrios em congressos, em reunies de Ongs, associaes de bairros,

    movimentos sociais, etc. Mas uma prtica, que nos cara, ser tema da

    nossa contribuio neste artigo: a expografia de narrativas fotogrficas que

    temos denominado de narrativas etnofotogrficas.

    O espao institucional da universidade, mais precisamente do

    Instituto de Filosofia e Cincias Humanas. Embora a prtica de expografia

    do Navisual no se restrinja a este contexto, este tem sido privilegiado para

    a divulgao das pesquisas de discentes e docentes, no s da antropologia,

    mas de reas afins. So paredes de um corredor de salas funcionais que, no

    final dos anos 90, a fotgrafa e ento bolsista trabalho do IFCH Fernanda

    Chemale idealizou como Galeria Olho Nu, como parte de um complexo que

    seria denominado centro multimeios (uma sala com equipamentos

    multimdia para aulas, palestras e defesas). Com a finalizao da atuao da

    bolsista, a Galeria ficou rf e, estando a sede do Navisual no Laboratrio de

    Antropologia Social no mesmo corredor, lhe foi concedida a curadoria. Este

    foi o inicio de um projeto de extroverso das pesquisas que j dura 21 anos.

    Todas as exposies realizadas esto registradas e divulgadas no

    portal oficial do Programa de Ps-Graduao em Antropologia Social no

    http://www.ufrgs.br/ppgas/portal/index.php/pt/producao-cientifica/exposicoes .

    Mais que isso, expor na Galeria aberto a qualquer interessado(a) a partir

    da proposta de uma exposio temporria a partir do que orienta o edital

    publicizado neste mesmo portal. A estrutura simplria, ocupa a parte

    inicial do corredor D2 do IFCH e tem por disposio 12 quadros, 8 deles de

    80x80cm (vertical) e 4 de 80x50cm no sentido horizontal.

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    Tessituras

    ROCHA, Ana Luiza Carvalho da; ECKERT, Cornelia. Etnografia com imagens: prticas de restituio. Tessituras, Pelotas, v. 2, n. 2, p. 11-43, jul./dez. 2014.

    Foto 1 - Reunio dos membros da equipe do Ncleo de Antropologia Visual. Oficina de fotografia ministrada por

    Rumi Kubo e Fabricio Barreto de 22 e 29 abril e 13 e 20 de maio 2014. Porto Alegre. Fotografia de Cornelia Eckert.

    Foto 2 - Idem. Fotografia de Ananda Andrade.

    Foto 3 - Corredor do prdio D2. Galeria Olho Nu. Porto Alegre.

    Foto 4 - Placa em homenagem a Inaugurao da Galeria Olho Nu. Porto Alegre, maro 1995. Fotografia de Liliane

    Stanisuaski Guterres.

    Para relatar algumas experincias de expografia nos restringimos s

    duas ltimas exposies de pesquisadores do Navisual. Mas antes relatamos

    como procedemos para a construo de um projeto expogrfico coletivo, sem

    grandes dilemas sobre a curadoria. Porm, falando em curadoria, importa a

    homenagem a antroplogas visuais, que como pesquisadores do Navisual, se

    dedicaram a coordenar (curadorar) mantendo viva a ao da transmisso

    do saber. Por muitos anos a antroploga Liliane Guterrez, aluna de

    graduao, mestrado, doutorado, foi a tutora mr desta atividade, seguida

    de Rumi Kubo, Fabiela Bigossi e Fabrcio Silveira. Das duas derradeiras

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    Tessituras

    ROCHA, Ana Luiza Carvalho da; ECKERT, Cornelia. Etnografia com imagens: prticas de restituio. Tessituras, Pelotas, v. 2, n. 2, p. 11-43, jul./dez. 2014.

    atividades de expografia a serem relatadas participaram como

    pesquisadores do Navisual Yuri Rapkiewicz, Aline Rochedo, Roberta Simon,

    Gabriela Jacobsen, Dbora Wobeto. Ainda em 2013 Ronaldo Correa,

    professor da Universidade Federal do Paran, durante seu estgio de ps-

    doutorado, e em 2014 Camila Braz, Jos Abalos Junior, Ananda Andrade,

    alm de outros pesquisadores com participao espordica.

    Uma pesquisa etnofotogrfica inicia em situaes como, curso de

    antropologia visual na graduao no curso de Cincias Sociais ou como

    resultado de pesquisas de iniciao cientfica, trabalho de concluso de

    curso, mestrado, doutorado, etc. Relatamos duas experincias, dos alunos

    Yuri Rapkiewicz e de Dbora Wobeto, ambos do curso de Cincias Sociais na

    UFRGS, graduao.

    Entre trilhos e temporalidades

    Yuri inicia como aluno de iniciao cientfica e finaliza com o trabalho

    de concluso de curso. Sua pesquisa se engaja no projeto ento em

    andamento por ns coordenado (BIEV/PNPD-CAPES) intitulado Trabalho e

    Cidade: Antropologia da memria do trabalho na cidade contempornea.

    Estimulado por ns, adere ao tema da memria dos ferrovirios

    aposentados, muitos ainda residentes na antiga Vila dos Ferrovirios no

    bairro Humait em Porto Alegre. Passando pela orientao da pesquisa

    etnogrfica e colees etnogrficas, Yuri tambm estagia por um ano e meio

    no Museu do Trem em So Leopoldo. Em todos estes processos, a

    interlocuo com os ferrovirios aposentados se contextualiza na vila, no

    sindicato, no museu, e, em especial, no Clube Ferrinho, onde conhece o

    guardio da memria do Esporte Clube Ferrinho, o ferrovirio Hlio Bueno

    da Silveira, morador do quadro (vila) ferrovirio. Esta orientao de

    aproximar-se privilegiadamente de Sr. Hlio, dava continuidade a uma

    relao de cunho etnogrfico iniciada em 2001 por ocasio de outra pesquisa

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    Tessituras

    ROCHA, Ana Luiza Carvalho da; ECKERT, Cornelia. Etnografia com imagens: prticas de restituio. Tessituras, Pelotas, v. 2, n. 2, p. 11-43, jul./dez. 2014.

    por ns orientada do ento aluno Lucio Lord. Na sede da agremiao, no

    prdio da antiga Estao Diretor Augusto Pestana, onde encontramos um

    imenso acervo do trabalho ferrovirio, da luta sindical, da histria do clube,

    da vila dos ferrovirios. Este foi o tema do trabalho de concluso deste aluno

    e as imagens fotografadas na ocasio compem o acervo etnogrfico do

    Banco de Imagens e Efeitos Visuais.

    Foto 1 - No Clube do Ferrinho, Sr. Helio Silveira apresenta documentao sobre os ferrovirios para Lucio Lord.

    Porto Alegre, 2001. Fotografia de Cornelia Eckert.

    Foto 2 - Nos fundos do atual prdio do Clube, Lucio caminha pelos escombros de antigas instalaes. Porto

    Alegre, 2001. Fotografia de Cornelia Eckert.

    Foto 1 - Seu Hlio Silveira mostra trofu de homenagem recebida. Porto Alegre, 2001. Fotografia de Cornelia

    Eckert.

    Foto 2 - Na Vila dos Ferroviarios, as casas geminadas a esquerda. A direita escombros do antigo prdio do sistema

    ferrovirio. Porto Alegre, 2001, Fotografia de Cornelia Eckert.

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    Tessituras

    ROCHA, Ana Luiza Carvalho da; ECKERT, Cornelia. Etnografia com imagens: prticas de restituio. Tessituras, Pelotas, v. 2, n. 2, p. 11-43, jul./dez. 2014.

    Yuri, ao inserir-se neste campo, encontra Sr. Hlio novamente como

    interlocutor privilegiado que consente e o integra no universo de pesquisa no

    contexto dos moradores da vila e do sindicato da categoria. Nesta

    experincia, durante sua graduao (4 anos), realiza fotografias e pesquisa

    imagens de acervo sobre o tema. Escreve seu trabalho de concluso e artigos

    sobre a pesquisa. O desafio ento de propor uma narrativa visual como

    uma forma de dar um retorno aos pesquisados de um processo que se

    finaliza. Como incentivado a todos os pesquisadores do ncleo, passamos a

    refletir sobre uma expografia do trabalho etnogrfico de Yuri no Navisual.

    Como j de tradio, inicia-se o debate sobre a experincia da pesquisa, em

    seu tema, em suas perspectivas metodolgicas e convvio cotidiano embalado

    por referncias terico-conceituais que o inspiram na produo etnogrfica

    escrita e imagtica. A equipe, informada do desenrolar da pesquisa,

    familiariza-se com as imagens para a elaborao de um roteiro

    etnofotogrfico.

    Discute-se a sequncia narrativa, os conceitos, as categorias e

    palavras-chaves, a esttica, o formato, os materiais, o estilo, mas sobretudo,

    a histria a ser contada com as imagens. Em cada etapa, importa refletir

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    Tessituras

    ROCHA, Ana Luiza Carvalho da; ECKERT, Cornelia. Etnografia com imagens: prticas de restituio. Tessituras, Pelotas, v. 2, n. 2, p. 11-43, jul./dez. 2014.

    sobre o pblico, para quem queremos contar algo: as pessoas pesquisadas,

    aos alunos interessados e annimos, os passantes habitus do corredor

    (visitantes diversos, funcionrios da limpeza, professores, servidores, etc) de

    forma que, sempre pensando nos interlocutores, estes se reconheam ou que

    ao menos, se motivem ao debate.

    Opta-se por uma estrutura de banners. Algo excepcional na tradio

    da galeria, mas a intenso era circular os mesmos no contexto da pesquisa,

    no museu do Trem em So Leopoldo, em escolas, etc. Predomina na

    expografia a pesquisa na forma de coleo etnogrfica com as imagens do

    aluno e da pesquisa de acervo dispostas em 12 pranchas temticas seguindo

    a metodologia de Gregory Bateson e Margareth Mead (1942). Seu Hlio e

    outros ferrovirios interlocutores, recebem destaque em suas biografias e

    trajetrias de trabalho. Para a divulgao, confeccionado um cartaz e um

    folder distribudo e propagandeado. Combina-se a visita dos ferrovirios

    para o evento, tambm dos muselogos e de outros convidados. A abertura,

    chamamos de visita comentada, e assim, Yuri e a equipe recebem os

    convidados. O pesquisador apresenta seu trabalho, abrindo para debate e

    comentrios.

    A exposio segue por mais dois meses, de forma que o tempo seja

    suficiente para sua apreciao antes de circular em outros ambientes de

    recepo. Uma visita em especial documentada. Seu Hlio e sua esposa

    visitam a galeria, e aproveitamos para homenagear o guardio da memria

    do trabalho ferrovirio no Rio Grade do Sul3.

    3 A circulao da exposio tema de uma resenha publicada na Revista Iluminuras, j

    citada.

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    Tessituras

    ROCHA, Ana Luiza Carvalho da; ECKERT, Cornelia. Etnografia com imagens: prticas de restituio. Tessituras, Pelotas, v. 2, n. 2, p. 11-43, jul./dez. 2014.

    Foto 1 - Seu Hlio Silveira, ferrovirio aposentado e sua esposa visitam a expografia de Yuri. Cornelia aproveita

    acarinha-los. Porto Alegre, maro 2014. Fotografia de Roberta Simon.

    Foto 2 - Seu Hlio Silveira e sua esposa. Porto Alegre, maro 2014. Fotografia de Roberta Simon.

    Foto 1 - Idem ao quadro anterior.

    Foto 2 - Idem ao quadro anterior.

    Vila Dique: entre o transitrio e o permanente

    Dbora Wobeto pesquisadora de um projeto de extenso intitulado

    Projeto Memrias da Vila Dique parceria entre a faculdade de

    Educao/UFRGS e o Grupo Hospital Conceio. Ao mesmo tempo, como

    aluna da disciplina de antropologia visual em 2013, se prope a narrar

    fotograficamente o processo de sua pesquisa e insero neste universo de

    moradores, na Vila Dique em Porto Alegre.

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    Tessituras

    ROCHA, Ana Luiza Carvalho da; ECKERT, Cornelia. Etnografia com imagens: prticas de restituio. Tessituras, Pelotas, v. 2, n. 2, p. 11-43, jul./dez. 2014.

    Foto 1 - Apresentao trabalhos finais dos alunos na disciplina de Antropologia Visual no curso de graduao

    Cincias Sociais, IFCH, UFRGS. Apresentao do trabalho de Debora Wobeto. Porto Alegre, dezembro 2013.

    Fotografia de Debora Wobeto.

    Foto 2 - Idem.

    A situao conhecida dos portoalegrenses dada proximidade

    territorial com a rea do aeroporto. Sua ampliao sempre foi tema de

    projetos de transformao urbana, situao que se acirra em face da

    realizao da Copa do mundo de 2014 e da previso de recepo de grande

    nmero de aeronaves de grande porte. A remoo dos moradores, sempre

    uma ameaa velada, torna-se realidade nesta conjuntura. Para alguns

    moradores, o fim da resistncia em seus desejos de permanecer onde esto

    suas razes e motivaes cotidianas; para outros, um projeto de novas

    casas esperado. Mas tanto para um grupo quanto para outro, todos foram

    pegos de surpresa na remoo s pressas e sem tempo de planejamento.

    Pegam de surpresa, sobretudo, os moradores em suas lutas que no

    conseguem mais confrontar as decises municipais. As casas so demolidas,

    resta a remoo para o conjunto habitacional Porto Novo, no bairro Rubem

    Berta. Dbora documenta todo o processo, no como uma testemunha ocular

    e passageira, mas como pesquisadora com trabalho consentido, conhecida e

    recebida pelos moradores, de modo que a mesma pode reconhecer as tramas

    vividas por estes moradores. Segue com estupefao as formas de agir das

    secretarias e empresas de remoo. Sem tempo para mudanas, a demolio

    realizada. Moradores encaixotam o que podem e as escolhas so dolorosas.

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    Tessituras

    ROCHA, Ana Luiza Carvalho da; ECKERT, Cornelia. Etnografia com imagens: prticas de restituio. Tessituras, Pelotas, v. 2, n. 2, p. 11-43, jul./dez. 2014.

    Para narrar esta dramtica, Dbora prope uma mistura de expografia com

    instalao. Discutimos o roteiro no ncleo. Rumi Kubo, antroploga visual,

    artista plstica, alm de professora de economia rural (UFRGS), coordena a

    equipe. A matria da caixa, do encaixotar a vida como os moradores se

    expressam para Dbora, estetiza a crise vivida. A expografia ganha forma,

    expressando a narrao da pesquisadora. A equipe se envolve na montagem;

    os cartazes e os flyers so distribudos, e a visita comentada aguarda

    moradores, pesquisadores do projeto de extenso e visitantes. A experincia

    filmada por Cornelia Eckert, e a pesquisadora Juliana Goulart transcreve

    e escreve uma resenha publicada na Revista Iluminuras v. 15, n. 35 (2014).

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    Tessituras

    ROCHA, Ana Luiza Carvalho da; ECKERT, Cornelia. Etnografia com imagens: prticas de restituio. Tessituras, Pelotas, v. 2, n. 2, p. 11-43, jul./dez. 2014.

    Foto 1 - Expografia de Debora Woberto. Porto Alegre, 8 de maio 2014. Fotografia de Fabricio Barreto.

    Foto 2 Idem.

    Foto 3 Idem.

    Foto 4 Idem.

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    Tessituras

    ROCHA, Ana Luiza Carvalho da; ECKERT, Cornelia. Etnografia com imagens: prticas de restituio. Tessituras, Pelotas, v. 2, n. 2, p. 11-43, jul./dez. 2014.

    Foto 1 - Moradores da Vila Dique visitam a exposio ciceroneados por Debora Wobeto. Porto Alegre, 8

    de maio 2014. Fotografia de Fabricio Barreto.

    Foto 2 Idem.

    Foto 1 - Pesquisadora do projeto, aprecia a restituio. Idem. Porto Alegre, 8 de maio 2014. Fotografia de Fabricio

    Barreto.

    Foto 2 Idem.

    A singeleza do resultado como esforo de restituio motiva-nos a

    recorrer expografia como tema de aula de antropologia visual em

    disciplinas de metodologia de nossa responsabilidade na graduao.

    Cada aluno foi desafiado a comentar por escrito as aprendizagens em

    mtodo e em antropologia e imagem a partir da interpelao com a

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    Tessituras

    ROCHA, Ana Luiza Carvalho da; ECKERT, Cornelia. Etnografia com imagens: prticas de restituio. Tessituras, Pelotas, v. 2, n. 2, p. 11-43, jul./dez. 2014.

    narrativa visual. Tambm foi tema de workshop nas atividades de formao

    no ncleo. Ao total, 25 alunos escreveram sobre suas aprendizagens e

    apontaram questes como:

    - Forma criativa de oportunizar a criao de imagens de si;

    - Sensibilidade para contar a histria de moradores da Vila Dique,

    uma realidade que poucos conhecem;

    - Aprendi a importncia de narrar, de contar uma histria atravs das

    imagens;

    - Conheci esta realidade que no conhecia. Esta mescla de imagens e

    objetos dos sujeitos permite uma aproximao sensorial, uma

    linguagem diferente da monogrfica; sempre exclusiva.

    - A autora diz que quer contar as histrias dos moradores de

    companheirismo e de luta, sempre ocultadas por distores e

    preconceitos. A antropologia visual, trabalhando com a construo de

    personagens, traz as singularidades que a pesquisa pode revelar.

    - A pesquisa consegue trazer os interlocutores e fazer um retorno para

    eles.

    - A gente tem uma experincia com o campo da pesquisadora.

    - Uma boa denuncia social pois consegue gerar muito mais impacto

    com imagens do que com palavras.

    - As imagens que nos mostram fenmenos, dramas, episdios, eventos,

    rotinas, etc.

    - Uma pesquisa visual que complementa bastante a teoria aprendida

    em aula. Descreve o ambiente, o tema e objeto de pesquisa, da

    dimenso.

    - Revela o contraditrio, desperta emoes, remete histria real e ao

    imaginrio. De outra forma, o contraditrio no tem explicao.

    - Intensifica os protagonismos dos interlocutores da pesquisa.

    - O trabalho em antropologia visual busca, atravs de imagens e falas

    dos envolvidos em eventos, como este da remoo de uma vila, a contar

    o que no facilmente captado. As memrias, a vontade de

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    Tessituras

    ROCHA, Ana Luiza Carvalho da; ECKERT, Cornelia. Etnografia com imagens: prticas de restituio. Tessituras, Pelotas, v. 2, n. 2, p. 11-43, jul./dez. 2014.

    permanecer, os sonhos, as dificuldades, a forma de uso de espaos que,

    aos olhos de quem passa apressadamente, no imagina. Aquilo que

    priorizado e tido como melhor pelos que planejam a cidade casas de

    alvenaria e ruas asfaltadas justamente o que questionado atravs

    de falas dos moradores e imagens dos momentos da mudana, com

    distribuio das casas.

    - Apresenta as pistas de uma histria. Em um amontado de materiais,

    existe uma histria. Vimos, mas no podemos contar, somente quem

    teve uma vivncia local pode contar esta histria de vidas

    despedaadas. Mas posso montar uma histria, mesmo que no seja a

    deles, para que sempre seja remontada.

    - O uso das imagens um modo de apresentar as formas de

    socializao, as estruturas de uma comunidade. Com a imagem,

    possvel perceber como um espao auto-organizado, mesmo aparecendo

    catico, tem um ordenamento compreensvel para quem nele convive.

    Mais, permite perceber que a mudana que segue uma lgica de

    organizao urbanstica de uma comunidade, implica em mudanas

    de relaes sociais.

    As experincias afetivas e dramticas vividas pelos moradores da Vila

    Dique so compartilhadas e mediadas por Dbora, com a colaborao da

    equipe do Navisual, para os(as) alunos(as) que reverberam em suas

    interpretaes as cognoscncias operadas na partilha destas experincias

    sensveis. So igualmente engajados(as) neste crculo (hermenutico) de

    restituio. No h exigncia de reflexo erudita ou metafsica, tambm no

    se trata de uma obra de arte com agncias complexas. A contestao ao

    poder estruturado do desenrolar da poltica urbana representada com fora

    de metfora. Sem negligenciar a importncia da restituio do prprio livro

    (monografia, dissertao, tese), de modo geral, restitudo com

    agradecimentos e homenagens, momento to almejado pelos etngrafos para

    retornar aos interlocutores colaboradores, trata-se tambm da circulao do

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    Tessituras

    ROCHA, Ana Luiza Carvalho da; ECKERT, Cornelia. Etnografia com imagens: prticas de restituio. Tessituras, Pelotas, v. 2, n. 2, p. 11-43, jul./dez. 2014.

    conhecimento informado em um esforo de heteroglossia simetrizando os

    mundos vividos dos atores plurais. Nos termos de Mikhail Bakhtin, o

    pensador do ato de leitura e da crtica esttica, esta expografia no estaria

    submissa s disposies estticas, mas antes, abrigada pelas disposies

    tico-prticas. Para o pensador, rejeitar a dissociao forma/funo,

    forma/contedo, instiga o ponto de vista daqueles que se orientam no

    mundo social atravs de categorias cognitivas ticas e prticas (as do bem,

    do verdadeiro e das finalidades prticas) e, que por isso, vivem mais as

    histrias (ouvidas, lidas ou produzidas) dos que iniciam uma relao

    propriamente esttica (BAKHTIN, 1978 e BAKHTIN, 1984 apud LAHIRE,

    2002, p. 91-92).

    A cidade vivida como morada das imagens: a coleo de imagens

    para reverberar a memria coletiva dos habitantes

    O projeto das colees etnogrficas desenvolvido no mbito do Banco

    de Imagens e Efeitos Visuais, centro de pesquisa que coordenamos, tem em

    sua premissa a restituio constante na circulao das imagens

    pesquisadas. Esta meta pode ser dimensionada na proposta das

    coordenadoras de promover uma etnografia da durao, inspiradas na teoria

    dos instantes e na dialtica da durao de Gaston Bachelard (1984). A

    trajetria deste projeto, mesmo que recente, j percorreu quinze anos no

    mbito do Programa de Ps-graduao em Antropologia (UFRGS). Desde

    ento, a iniciativa da pesquisa em web coordenada por Ana Luiza. C. da

    Rocha com exposio de colees de documentos etnogrficos em telas

    encontra-se hospedada no portal www.biev.ufrgs.br .

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    Tessituras

    ROCHA, Ana Luiza Carvalho da; ECKERT, Cornelia. Etnografia com imagens: prticas de restituio. Tessituras, Pelotas, v. 2, n. 2, p. 11-43, jul./dez. 2014.

    A coleo resulta de complexo processo de formao de alunos e

    alunas em diferentes nveis. De modo geral, o trabalho de iniciao

    cientfica, de concluso de curso, de mestrado ou doutorado aporta uma

    coleo que restaurada, no s aos interlocutores da pesquisa, mas aos

    usurios das linguagens eletrnicas em que podem partilhar o que

    denominamos de experincias temporais do viver no contexto urbano.

    Podemos exemplificar com a ltima tese de doutorado defendida em

    setembro 2014 no PPGAS, IFCH, UFRGS por Ana Paula Marcantes Soares,

    intitulada O territrio mito da orla. Antropologia de conflitos territoriais

    urbanos e memrias ambientais em Porto Alegre, RS. Ana Paula elabora

    uma coleo etnogrfica apresentada em CD e impressa em um Tomo II da

    tese (SOARES, 2014, 62 p.). A coleo traz fotos suas, notcias de imprensa,

    imagens de livros, fotos de pesquisa em acervo e fotografias cedidas pelos

    interlocutores da pesquisa. Afinal, a cada entrevista com os trabalhadores

    aposentados do antigo Estaleiro S e antigos moradores da regio Cristal em

    Porto Alegre, desvendavam-se as experincias de trabalho e vida cotidiana

    no somente na forma oral, mas na abertura de lbuns, caixas de fotos ou

    livros institucionais publicados. A trajetria dos interlocutores vai sendo

    tecida em meio a estas trocas, em que a memria do ofcio narrada,

    reconfigurando as experincias no presente. Seu Fernando, de forma

    especial, possua um rico acervo que disps para a pesquisadora. As

    fotografias, como ele diz, eram da poca do slide. Mas graas sua interao

    com o neto adolescente, Seu Fernando tinha providenciado a digitalizao de

    http://www.biev.ufrgs.br/grupos-de-trabalho/gt-video.php

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    Tessituras

    ROCHA, Ana Luiza Carvalho da; ECKERT, Cornelia. Etnografia com imagens: prticas de restituio. Tessituras, Pelotas, v. 2, n. 2, p. 11-43, jul./dez. 2014.

    parte do acervo de fotografias em slides da famlia e do estaleiro, as quais

    foram registradas, em grande parte, no perodo final da sua trajetria de

    trabalho na empresa. (SOARES, 2014, p. 138). Doar suas lembranas em

    troca da escuta respeitosa e da interlocuo tica implica, ao longo dos

    quatro anos de convvio, em um engajamento dos entrevistados(as) e da

    antroploga, para um processo colaborativo que aprendemos desde Jean

    Rouch, ou mais recentemente com David e Judith MacDougall4 ou ainda o

    com o meritoso projeto Vdeo nas Aldeias (entre outros)5, motivao que

    aproxima uma antropologia engajada da eficcia simblica da restituio.

    Foto 1 - Fotografias cedidas pelos interlocutores para a antroploga Ana Paula. A fotografia foi feita no Estaleiro

    S em Porto Alegre. Citado na tese de SOARES, 2014.

    Foto 2 - Trabalho operrio naval. O trabalho operrio no Plano de Carreira do navio. Estaleiro S em Porto Alegre.

    Acervo Pessoal de Fernando Kuschner (SOARES, 2014, tomo II, p. 42).

    A exemplo da coleo de Ana Paula, as colees produzidas a partir

    dos trabalhos etnogrficos de alunos e alunas por ns formados j compem

    uma experincia geracional. Grande nmero destes trabalhos esto

    divulgados na Revista Iluminuras, publicao do BIEV. As imagens

    produzidas e pesquisadas em diversos suportes tcnicos (fotografia, vdeo,

    som, texto) so restauradas de forma descontnua, a partir do mtodo da

    convergncia, tendo na obra de Gilbert Durand (1998) a concepo original.

    4 Sobre a obra dos MacDougalls, sugerimos as leituras de David MacDougall (1998a e

    1998b) e Grimshaw (2003). 5 O projeto Vdeo nas Aldeias foi criado em 1986. Informaes sobre o projeto podem ser

    acessadas no http://www.videonasaldeias.org.br/2009/vna.php?p=1 ..

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    Tessituras

    ROCHA, Ana Luiza Carvalho da; ECKERT, Cornelia. Etnografia com imagens: prticas de restituio. Tessituras, Pelotas, v. 2, n. 2, p. 11-43, jul./dez. 2014.

    As imagens pesquisadas e divulgadas so portadoras das motivaes

    simblicas de um corpo coletivo e, segundo expresso durandiana,

    degradam-se em formas (literrias, fotogrficas, flmicas, sonoras, grficas,

    etc.) cuja fora de sentido traduzem para elas uma direo. Entretanto, as

    imagens possuem, em seu nascedouro, um carter dominante (imperialismo

    das imagens), agindo como princpio de organizao (estrutura): os gestos e

    as pulses e a matria do ambiente tcnico (csmico e social) sobre a qual a

    imaginao criadora humana se deposita. Ao explorar a ideia de fragmento,

    buscam-se os traos de um tempo e de um espao concreto de representao

    da memria e do patrimnio locais para o usurio do site www.biev.ufrgs.br,

    visando restaurar a ideia da cidade como uma obra moldada e configurada

    pelo depsito de muitos gestos e intenes dos grupos humanos que nela

    habitam. H, portanto, no processo de destruio e de reconstruo da

    cidade, uma singularidade especfica.

    A linguagem eletrnica acomoda as intenes de complexificar o

    sentido de circulao das imagens como em um jogo entre universalidade e

    particularidades. Deste processo resultam as imagens como num acordo

    entre natureza e cultura para que um contedo cultural, configurado em

    determinadas formas, possa ser transmitido e perpetuado no tempo e no

    espao como algo de ordem de uma determinada sociedade. As imagens

    resultam de motivaes simblicas, frutos de acordos, e no como falta. As

    classificaes das imagens tm estreita relao com a histria das

    representaes simblicas de objetos, tcnicas e materiais, mas no se

    reduzem s motivaes veiculadas por um ambiente tcnico e material de

    uma dada ordem social e csmica; bem ao contrrio, so estas imagens que o

    consolidam como real. Portanto, para Gilbert Durand (1998), toda a imagem

    simblica, e no semiolgica, por integrar uma funo fantstica.

    Transladando para o que nos importa aqui como pesquisa com imagens, e

    imagens inclusive de acervos os mais diversos, h uma anterioridade

    cronolgica e ontolgica do simbolismo de uma imagem antes de toda e

    qualquer factualidade da significao audiovisual, cuja caracterstica central

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    Tessituras

    ROCHA, Ana Luiza Carvalho da; ECKERT, Cornelia. Etnografia com imagens: prticas de restituio. Tessituras, Pelotas, v. 2, n. 2, p. 11-43, jul./dez. 2014.

    a forma de exprimir ou enunciar o cogito sonhador daquele que a fabrica.

    Para as investigaes sobre memria coletiva e patrimnio etnolgico

    no interior do BIEV, sobre o tema das colees etnogrficas, formas de

    sociabilidades e itinerrios urbanos no mundo contemporneo, ficam

    evidenciadas novas motivaes de seguir o estruturalismo figurativo

    durandiano que dialoga com os estudos da forma e da imagem, seguindo a

    inspirao bachelardiana no estudo da imaginao e do imaginrio. A

    comunidade interpretativa que evocamos para esta prtica de montagem de

    colees etnogrficas bastante extensa, mas nos cabe mencionar as

    principais, que so os estudos de Pierre Sansot sobre a potica da cidade, de

    Michel Maffesoli, sobre o paradigma esttico, de Georg Simmel, sobre a

    sociologia das formas, alm da sociologia figuracional de Norbert Elias e da

    instigante teoria dos saberes e prticas cotidianas, de Michel de De Certeau.

    O que rene as obras destes autores aos temas de investigao do BIEV em

    suas pesquisas antropolgicas na cidade a partir da produo sonora, visual

    e escrita de etnografias na cidade que estamos operando com o estudo do

    carter figuracional das imagens e de seus simbolismos como procedimentos

    de compreenso das formas expressivas que elas adotam para o viver a

    cidade, da perspectiva de seus habitantes, tanto quanto da do antroplogo

    (ECKERT e ROCHA, 2005).

    Ao se trabalhar com colees etnogrficas de imagens presentes e

    passadas, estamos operando no interior de uma convergncia de imagens

    (constelaes) da qual a imaginao criadora do antroplogo participa

    intensamente na forma como, por seu intermdio, narra a cidade, dando a

    ela um continuum de conscincia a si e a todos os outros nelas

    representados. Portanto, torna-se importante pensar a pesquisa com

    colees etnogrficas multimdias como integrando a investigao de uma

    etnografia da durao no mbito dos estudos das prticas culturais no

    mundo contemporneo e dos seus fluxos espao-temporais. Em particular, a

    hipertextualidade como procedimento de construo da representao

    etnogrfica da memria e do patrimnio etnolgico nas e das modernas

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    Tessituras

    ROCHA, Ana Luiza Carvalho da; ECKERT, Cornelia. Etnografia com imagens: prticas de restituio. Tessituras, Pelotas, v. 2, n. 2, p. 11-43, jul./dez. 2014.

    sociedades contemporneas.

    A adeso hipermdia (adio dos registros etnogrficos multimdia

    ao hipertexto) na produo de etnografias da durao tambm nos permite

    refletir sobre o tema da restituio a partir da multireferencialidade da

    pesquisa etnogrfica em diversos suportes sendo que, para o web-site, uma

    narrativa da produo de pesquisa com base na convergncia das imagens

    divulgada para que possa ser, no somente acessvel como acervo de dados

    de pesquisa, mas como patrimnio da memria coletiva pela partilha

    reflexiva que essas tecnologias permitem.

    Tais artefatos referem-se s exigncias de se explicitar o ato

    interpretativo que comporta todo o registro de dados etnogrficos, bem como

    as retricas empregadas pelo(a) antroplogo(a) para reconfigurar o sentido

    desse material no interior de uma narrativa etnogrfica hipertextual, cujas

    prticas enunciativas esto referidas, at certo ponto, a um outro espao de

    prticas sociais e a um outro campo epistemolgico que no aqueles oriundos

    da tecnologia da escrita impressa.

    http://habitantesdoarroio.blogspot.com.br/ http://www.ufrgs.br/memoriaambientalpoa/

    http://www.biev.ufrgs.br/grupos-de-trabalho/gt-video.php

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    Tessituras

    ROCHA, Ana Luiza Carvalho da; ECKERT, Cornelia. Etnografia com imagens: prticas de restituio. Tessituras, Pelotas, v. 2, n. 2, p. 11-43, jul./dez. 2014.

    Dessa forma, o patrimnio etnogrfico no est mais preso ao texto

    impresso, nem sua forma de argumentao submetida sequncia

    espacial da paginao das folhas, seguindo-se uma ordem temporal

    determinada, pela qual o autor da obra procura restaurar, para seu leitor, os

    fatos e as situaes por ele vividos em campo.

    O acesso s imagens no suporte eletrnico permite usos, manuseios e

    intervenes infinitamente mais livres e numerosas. Pode-se supor a

    possibilidade de uma etnografia hipertextual, com base numa retrica mais

    aberta, mais dinmica, mais fluida de disponibilizao dos dados

    etnogrficos em web-sites.

    Importa, aqui, tratar da cultura da tela, conforme as palavras de Lev

    Manovich (2014) e da civilizao da imagem, nos termos de Gilbert Durand

    (1998), como novas formas de reorganizao dos saberes que os outros

    suportes mais tradicionais disponibilizam, transfigurando seu sentido

    original e atribuindo-lhes uma significao mais mvel, plural e instvel

    pelo carter granular que atribui a todos eles.

    Diante do ambiente hipertextual desterritorializado, as antigas

    prticas de escrituras de que so portadores os(as) antroplogos(as) e os

    microterritrios de suas obras etnogrficas, que lhes atribuem o status de

    autores, sofrem novos constrangimentos, agora nos termos que alguns

    chegam a denominar de engenharia autoral, isso com base na gerao e

    http://www.biev.ufrgs.br/fotocronografias/

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    Tessituras

    ROCHA, Ana Luiza Carvalho da; ECKERT, Cornelia. Etnografia com imagens: prticas de restituio. Tessituras, Pelotas, v. 2, n. 2, p. 11-43, jul./dez. 2014.

    manipulao de informaes e dados digitais, segundo modelos de

    configuraes visuais (letras, palavras, textos) em arquivos registrados e

    transportados conforme determinados procedimentos de montagem e de

    associao de ideias e que conta com o leitor como co-autor.

    Ainda que preexista uma engenharia do texto (ERTZCHEID, 2004),

    em um hipertexto, o leitor desfruta de uma autoridade compartilhada com

    aquele que o produziu, de acordo com sua competncia em hierarquizar,

    classificar e unificar uma gama infinita de informaes e dados que cobrem

    semelhante obra, incluindo-se, a, o risco, inclusive, de destru-la.

    A construo de uma escrita etnogrfica hipertextual (documentos

    ligados entre si por uma rede informatizada de laos ativveis) se processa,

    assim, na mediao com outras formas de produes textuais que lhe

    antecederam, ou que lhe so contemporneas, e que tem como origem a

    interao, localizvel no tempo e no espao, do etngrafo com uma

    determinada cultura e, como referncia, o espao livresco.

    http://bievufrgs.blogspot.com.br/

    http://www.ufrgs.br/memoriasdotrabalho/dvds/

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    Tessituras

    ROCHA, Ana Luiza Carvalho da; ECKERT, Cornelia. Etnografia com imagens: prticas de restituio. Tessituras, Pelotas, v. 2, n. 2, p. 11-43, jul./dez. 2014.

    Ainda que a noo de intertextualidade elimine por si as ideias do

    dentro e do fora de texto, interessante se pensar ambas, principalmente,

    agindo na tessitura do texto etnogrfico, no como reproduo de um texto

    passado ou de busca da verdade da escrita antropolgica, mas como condio

    da prpria produtividade da narrativa etnogrfica.

    De um ponto de vista mais conceitual, o tema da intertextualidade e

    da produo textual antropolgica na era das textualidades eletrnicas

    (hipertexto ou hipermdias) recoloca o campo dos saberes antropolgicos na

    crise da autoridade etnogrfica e na polmica da crtica s formas de

    operaes textuais da escrita etnogrfica a partir de suas relaes com a

    autoridade dos pais fundadores dessa matriz disciplinar, segundo uma

    reflexo sobre suas estruturas narrativas no interior de uma atitude potica

    de representao do mundo, referidas que esto a um sistema de textos e,

    no mais, apenas, sua aluso realidade do mundo - isso de tal forma que

    se torna cada vez mais difcil separar a referncia do mundo do texto

    etnogrfico da referncia ao texto do mundo.

    Com isso, quer-se afirmar que, na escritura etnogrfica

    hipermiditica ou hipertextual, a autoridade etnogrfica no reside tanto na

    competncia do antroplogo em se tornar autor, mas na sua competncia em

    ser leitor e em criar leitores para suas obras segundo a tradio qual ela

    pertence, ou seja, em um dilogo diretamente com outros textos que no

    apenas os de sua poca, buscando desvendar o eco de suas palavras contido

    na construo de sua prpria produo textual. Em tais escrituras, a

    http://caismaua-memorias.blogspot.com.br/

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    Tessituras

    ROCHA, Ana Luiza Carvalho da; ECKERT, Cornelia. Etnografia com imagens: prticas de restituio. Tessituras, Pelotas, v. 2, n. 2, p. 11-43, jul./dez. 2014.

    intertextualidade aparece como fenmeno que permite pensar a obra

    etnogrfica conforme um deslocamento hermenutico, isto , como tributria

    de um vasto sistema textual em que as etnografias se compreendem em

    relao umas s outras, incluindo-se, a, o estudo das formas

    representacionais que invadem a veracidade etnogrfica e as prticas

    sociais.

    Consideraes finais

    A restituio no uma atitude unitria; ela ocorre atravs de vrias

    formas, aes, gestos, processos de partilha que podem ser significativos,

    tanto para a comunidade dos pesquisadores, quanto para a comunidade de

    comunicao envolvida, para que possam com estas narrativas, dramatizar

    seus esforos de interpretao de processos e experincias vividas.

    As experincias dos ncleos que impulsionamos como professoras e

    pesquisadoras, promovem o conhecimento etnogrfico e o acesso a este

    patrimnio nas linguagens de que dispomos no mbito da academia, por um

    lado, pela prtica da expografia por outro lado, com base num documento

    hipermdia ou na forma de hipertexto. Prticas que pressupem a ao da

    comunidade de comunicao, o expectador visitante, o interlocutor

    interessado na restituio, o leitor-navegador em sua ao interpretativa. A

    proposta que se sintam provocados na partilha do patrimnio que, para

    ns, consiste na etnografia da durao. Cada interpretao, cada leitura,

    cada navegao vai gerar mais informaes, as quais vo modificar a sua

    inteno interpretativa inicial, retroagindo com ela, e assim sucessivamente.

    No caso da coleo de imagens, a inteligibilidade do relato etnogrfico

    dependente da forma como o leitor-navegador opera, na tela do

    computador, a leitura desse documento, com base na organizao

    hierarquizada do texto. Se, na leitura de documentos etnogrficos na forma

    clssica de objeto-livro, podem ser detectadas as condies de

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    ROCHA, Ana Luiza Carvalho da; ECKERT, Cornelia. Etnografia com imagens: prticas de restituio. Tessituras, Pelotas, v. 2, n. 2, p. 11-43, jul./dez. 2014.

    intertextualidade que o configuram, no caso da leitura de um documento

    etnogrfico hipermdia ou em hipertexto, esses explicitam abertamente sua

    intertextualidade, pois essa a condio de sua prpria criao.

    A restituio, por fim, nas propostas apresentadas, tem talvez por

    mrito maior, criticar a lgica de produo linear do material etnogrfico,

    pautando exerccios no-lineares pela descontinuidade material e discursiva,

    introduzindo a ruptura com a textualidade formal. Sem objetivar o controle

    dos caminhos e percursos do patrimnio etnogrfico, extroverte a produo

    no movimento prprio da civilizao das imagens, descolonizando a pesquisa

    de ranos positivistas da formao cientfica, adotando o mundo sensvel

    (sons, vdeos, fotos e textos) como mediadora de mltiplas formas de aes

    criativas. Desta provocao, a escrita etnogrfica encontra-se aberta, assim,

    cada vez mais, a mltiplas interpretaes dos sistemas culturais.

    Diante desses desafios de restaurao da palavra do Outro, a

    emergncia da ressonncia do patrimnio etnogrfico na forma de

    etnografias abertas, como a expografia no Navisual e a etnografia

    hipertextual no mbito do Banco de Imagens e Efeitos Visuais, tem

    conduzido a refletir sobre os princpios tico-prticos que orientam o saber-

    fazer antropolgico, propondo desafios de romper um discurso hegemnico

    sobre a Alteridade, distante ou prxima.

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