EXCELENTÍSSIMOS SENHORES MINISTROS DO EGRÉGIO ?· excelentÍssimos senhores ministros do egrÉgio…

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  • EXCELENTSSIMOS SENHORES MINISTROS DO EGRGIO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL

    ref. Autos de Reclamao sob n 2138-6

    MEMORIAL

    O CONSELHO NACIONAL DOS PROCURADORES-GERAIS DE

    JUSTIA, respeitosamente, vem perante Vossas Excelncia, apresentar o

    presente MEMORIAL, em face da proximidade do julgamento da Reclamao

    sob n 2138-6, nos seguintes termos:

    1. PRELIMINARMENTE

    Alega-se basicamente, no pedido de reclamao, a subtrao de

    competncia do Pretrio Excelso em virtude de que a mesma, dada a qualidade

    funcional do ru, do Supremo Tribunal Federal, alm do que no teria

    aplicabilidade a Lei de Improbidade Administrativa aos agentes polticos, que

    1

  • somente poderiam responder por crime de responsabilidade, ficando reservada

    aquela apenas aos servidores comuns.

    A Reclamao o remdio jurdico ofertado ao STF para preservar a sua

    competncia ou garantir a autoridade de suas decises, com previso

    constitucional (artigo 102, I, "l") e disciplinamento nos artigos 13 e seguintes da

    Lei 8.038/90 e 156 e seguintes do RISTF.

    Tratando-se a Reclamao, de medida processual onde se busca,

    exclusivamente, preservar a competncia do STF ou resguardar a autoridade de

    suas decises, o pleito do reclamante no pode ser atendido em sua

    integralidade, mais especificamente no que pertine ao pedido de reconhecimento

    da no aplicao da Lei de Improbidade Administrativa aos agentes polticos.

    Com efeito: no h como se apreciar tal questo em sede de reclamao,

    pois refoge totalmente questo da competncia, eis que refere-se (alegada)

    no aplicao da Lei de Improbidade Administrativa aos agentes polticos em

    razo de que os delitos previstos na referida lei so poltico-administrativos.

    A questo, como se v, no guarda nenhuma pertinncia com a

    competncia. Trata-se, em verdade, de discuso a respeito da aplicao do

    direito material, mais precisamente, negao de vigncia, para certas

    autoridades, do disposto no artigo 1 da Lei n 8.429/92, em nada tendo a ver

    com subtrao de competncia.

    2

  • A concluso, logo, de que, na presente Reclamao, somente pode ser

    julgada a (alegada) competncia do STF para processar e julgar o ru pela

    prtica de ato de improbidade em razo da extenso da regra do denominado

    foro privilegiado. Invivel, no entanto, seja apreciada sobre a aplicao, ou no,

    da Lei de Improbidade Administrativa aos agentes polticos, pois refere-se, essa

    questo, anlise de direito material e de conflito de leis, em nada tendo a ver,

    de conseqncia, com a subtrao de competncia.

    A persistir o entendimento expresso na liminar, na parte em que conclui

    pela inaplicabilidade da lei de improbidade administrativa aos agentes polticos,

    estar convertida a Reclamao em ao constitucional de controle abstrato de

    lei, o que desvirtua necessariamente o objeto pela qual ela foi criada.

    Por isso requer, preliminarmente, que no seja objeto da apreciao a

    questo de mrito atinente aplicabilidade ou no da lei de improbidade

    administrativo aos agentes polticos, por ser estranha ao objeto da reclamao.

    2. DOS FATOS

    2.1. INTRODUO

    2.1.1 OBSTCULOS AO COMBATE DA CORRUPO

    De alguns anos para c o Ministrio Pblico tem se empenhado no

    combate corrupo. Embora ainda exista muito o que fazer esta luta j

    3

  • produziu alguns resultados positivos, os quais foram alcanados, em sua grande

    maioria, pela aplicao da Lei n 8.429/92 - Lei de Improbidade Administrativa.

    Ocorre que as pessoas que se viram atingidas pelas aes do Ministrio

    Pblico neste campo, e que, at ento, se julgavam distantes da aplicao da

    Justia, passaram a arquitetar uma srie de medidas com a ntida inteno de

    bloquear ou ao menos dificultar as medidas de combate corrupo.

    2.1.2. DA LIMINAR DO STF

    A r. Deciso liminar prolatada por Vossa Excelncia, e que ora se

    impugna, estende o foro privilegiado nas aes de improbidade administrativa

    (porque em simetria com os crimes de responsabilidade), bem como afasta a

    aplicao da Lei de Improbidade Administrativa para agentes polticos.

    Vossa Excelncia concedeu a referida medida liminar para o fim de

    suspender a eficcia da sentena da 14 Vara Federal de Braslia, na qual o ento

    Ministro-Chefe da Secretaria de Assuntos Estratgicos fra condenado por

    improbidade administrativa.

    Essa deciso abre caminho para nova interpretao da Lei de Improbidade

    Administrativa, no sentido de (i) afirmar sua natureza penal; (ii) reconhecer, de

    conseqncia, o foro privilegiado para as aes de improbidade administrativa;

    e, (iii) impedir a aplicao da Lei de Improbidade Administrativa aos agentes

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  • polticos, que somente poderiam ser responsabilizados por crime de

    responsabilidade, ficando reservada aquela apenas aos servidos pblicos.

    A prevalecer o entendimento manifestado na liminar, de que a Lei de

    Improbidade Administrativa no aplicvel a agentes polticos, (interpretao

    frontalmente contrria ao disposto em seu artigo 1), apenas os funcionrios

    pblicos comuns, os que outrora eram tratados pela alcunha de barnabs, que

    podero ser processados por improbidade administrativa, uma vez que

    parlamentares, prefeitos, governadores, Ministros de Estado, Secretrios

    Estaduais e o Presidente da Repblica estariam salvo da aplicao da Lei

    8.429/92.

    Como tal concluso encontra-se embasada no pressuposto de ter a Lei de

    Improbidade Administrativa, como dito, natureza penal, acerca desta tertica

    que passa-se a versar.

    3. DOS FUNDAMENTOS JURDICOS

    3.1. DA NATUREZA JURDICA DAS SANES DA LEI DE

    IMPROBIDADE

    Preliminarmente, deve-se afirmar que a doutrina unnime ao afirmar que

    inexiste diferena ntica entre as sanes penais e as demais sanes previstas

    no ordenamento jurdico, cabendo ao legislador a opo, respeitados os

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  • princpios constitucionais de cada ramo do direito, entre apenar determinada

    conduta na rea penal ou apen-la tambm, ou apenas, civilmente (lato sensu).

    Nesse sentido, encontramos:

    Como se v, sob o prisma ntico, no h distino entre as sanes

    cominadas nos diferentes ramos do direito, quer tenham natureza penal, civil

    ou administrativa, pois, em essncia, todas visam a recompor, coibir ou

    prevenir um padro de conduta violado, cuja observncia apresenta-se

    necessria manuteno do elo de encadeamento das sanes sociais.

    Sob o aspecto axiolgico, por sua vez, as sanes apresentaro

    diferentes dosimetrias conforme a natureza da norma violada e a importncia

    do interesse tutelado, distinguindo-se, igualmente, consoante a forma, os

    critrios, as garantias e os responsveis pela aplicao. Em suma, as sanes

    variaro em conformidade com os valores que se buscou preservar.

    Caber ao rgo incumbido da produo normativa, direcionado pelos

    fatores scio-culturais da poca, identificar os interesses que devem ser

    tutelados e estabelecer as sanes em que incorrero aqueles que o violarem.

    Inexistindo um elenco apriorstico de sanes cuja aplicao esteja adstrita a

    determinado ramo do direito, torna-se possvel dizer que o poder sancionador

    do Estado forma um alicerce comum, do qual se irradiam distintos efeitos, os

    quais apresentaro peculiaridades prprias conforme a seara em que venham a

    se manifestar. 1

    1 Garcia, Emerson e Alves, Rogrio Pacheco. Improbidade Administrativa. Rio de Janeiro: Lmen Jris, 2002, p. 338.

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  • Reforando o entendimento de que cabe ao legislador decidir acerca da

    natureza da sano que deseja ver aplicada a determinado ato ilcito, afirma

    Fbio Medina Osrio que importa ressaltar que o Estado legislador pode,

    soberana e discricionariamente, ainda que lhe seja vedada a arbitrariedade,

    escolher um ou outro caminho, ou ambos, para a eficaz proteo de bens

    jurdicos. 2

    Assim, afirmar que a Lei de Improbidade Administrativa tem natureza

    criminal, significa contrariar expressa previso constitucional, vez que a Carta

    Magna prev expressamente, em seu artigo 37, 4, que as sanes por atos de

    improbidade administrativa so aplicadas sem prejuzo da ao penal cabvel,

    bem como, em seu artigo 15, incisos III e V, tratou como coisas distintas a

    condenao penal e a improbidade administrativa. Logo, evidente que os atos de

    improbidade administrativa, e respectivas sanes, possuem cunho extra-penal.

    Incabvel se falar, portanto, que a Lei de Improbidade seria uma ao

    civil de forte contedo penal3, ou que apresenta natureza quase penal4, eis que

    as penas de suspenso de direitos polticos ou perda da funo pblica podem

    ser aplicadas por outros ramos do direito, como o eleitoral e o administrativo,

    por exemplo, sem que ningum, at o momento, as tenha caracterizado como de

    natureza penal (stricto sensu). Alis, a Lei 8.429/92 em momento algum

    sanciona os atos de improbidade com pena privativa de liberdade, esta sim tpica

    do direito penal. Em qualquer caso, inconstitucional se mostra todo e qualquer

    posicionamento que se pretenda atribuir natureza penal ao ato de improbidade