EXPOSIÇÃO ADVERSA, PSICOPATOLOGIA E ?ão... · utiliza, frequentemente, medidas que nos fornecem

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  • I Congresso Luso-Brasileiro de Psicologia da Sade

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    EXPOSIO ADVERSA, PSICOPATOLOGIA E QUEIXAS DE SADE EM BOMBEIROS PORTUGUESES Cludia Carvalho 1 (lau.carvalho@gmail.com) e ngela Maia2 (angelam@psi.uminho.pt) 1Aluna do Mestrado integrado em Psicologia Clnica na Universidade do Minho, Portugal 2 Professora Auxiliar do Departamento de Psicologia da Universidade do Minho, Portugal

    Os Bombeiros esto continuamente expostos a adversidade como vtimas secundrias e

    frequentemente experienciam situaes que os ameaam directamente, podendo inclusive

    colocar a sua prpria vida em perigo. A exposio cumulativa a adversidade pode ter

    consequncias pejorativas no equilbrio psicolgico e afectar o bem-estar fsico. Este estudo teve

    como principais objectivos analisar a prevalncia de exposio a adversidade em Bombeiros do

    Norte de Portugal bem como as suas queixas fsicas e psicolgicas. Os 296 participantes foram

    avaliados em relao a Exposio e Impacto de Acontecimentos Traumticos, Lista de

    Acontecimentos de Vida, sintomas de PTSD e queixas psicolgicas (BSI) e fsicas (RSCL).

    Os resultados revelam uma exposio muito elevada a adversidade, tendo 12% sintomas de

    perturbao ps-stress traumtico e 17% sintomas de psicopatologia geral. Existe uma relao

    entre a gravidade e o impacto da exposio, a psicopatologia e as queixas fsicas, sendo esta

    relao particularmente elevada com os sintomas de PTSD. Todas estas variveis so preditoras

    das queixas fsicas. Os resultados deste trabalho indicam a importncia de serem adoptadas

    medidas que permitam no s o treino dos Bombeiros para desenvolverem estratgias

    adequadas para lidar com a adversidade, como tambm a obteno de apoio (psicolgico,

    social) continuado e, sobretudo, perante as situaes mais difceis.

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    Introduo

    O conceito de adversidade utilizado para designar situaes que podem ameaar a

    sade fsica ou psicolgica do ser humano (Gunnar, 2000). No extremo dessas situaes

    podemos encontrar os acontecimentos traumticos. A definio actual de acontecimento

    traumtico coloca o foco no s na natureza do acontecimento, como tambm na resposta da

    vtima ao mesmo. A Associao de Psiquiatria Americana (APA, 2002, p.463) deixa bem

    claras estas duas componentes ao definir este conceito do seguinte modo: 1) uma experincia

    pessoal directa com um acontecimento que envolva morte, ameaa de morte ou ferimento

    grave, ou outra ameaa integridade fsica; ou observar um acontecimento que envolva morte,

    ferimento ou ameaa integridade fsica de outra pessoa; ou ter conhecimento acerca de uma

    morte violenta ou inesperada, ferimento grave ou ameaa de morte ou ferimento vivido por um

    familiar ou amigo ntimo.; 2) A resposta da pessoa envolve medo intenso, sentimento de

    desproteco ou horror.

    Existem dois tipos essenciais de exposio a adversidade: a exposio primria/directa e a

    exposio secundria/vicariante. A exposio primria/directa refere-se experincia de um

    acontecimento adverso pelo prprio (Dean, Gow & Shakespeare-Finch, 2003). Na exposio

    secundria/vicariante, o sujeito observa a experincia de uma situao adversa por outrem ou

    obtm conhecimento de que algum significativo vivenciou uma situao adversa. No exerccio

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    das suas funes, os Bombeiros podem estar sujeitos no s a exposio vicariante (e.g.,

    observao de sofrimento humano intenso, de pessoas com corpos desfigurados) como tambm

    a exposio directa (e.g., situaes que colocam em risco a sua prpria vida) (Dean et al., 2003).

    Em algum momento das suas vidas, a maior parte dos indivduos poder e ir, com

    grande probabilidade, deparar-se com algum tipo de situao adversa. Num estudo realizado em

    Portugal foi verificado que, ao longo da vida, 75% da populao est exposta a pelo menos um

    acontecimento adverso e 43.5% a mais do que um (Albuquerque, Soares, Jesus & Alves, 2003).

    Embora todos possamos vivenciar uma ou mais situaes de adversidade h grupos que, por

    inerncia sua actividade profissional, esto, priori, mais sujeitos a este tipo de situaes.

    Entre estes, destacam-se os profissionais de socorro, isto , profissionais que actuam em

    situaes de emergncia ou crise, designadamente os Bombeiros, Paramdicos e Polcias (Paton

    & Smith, 1996). Uma investigao com 203 Bombeiros dos Estados Unidos da Amrica

    (EUA) e 625 do Canad que analisou a exposio a incidentes potencialmente traumticos

    durante o ano anterior ao estudo, revelou que o nmero mdio de exposio era de 6.47 para a

    amostra dos EUA e 3.19 para os Bombeiros Canadianos (Corneil, Beaton, Murphy, Johnson &

    Pike, 1999). Num estudo com 131 Bombeiros dos EUA, os autores constataram que, no ano

    anterior, 67% dos Bombeiros responderam a mais do que um incidente por dia, 12%

    responderam a um incidente por dia, 18% a um incidente por semana e os restantes 2% a um

    incidente por ms (Del Ben, Scotti, Chen & Fortson, 2006).

    A literatura tem demonstrado que a exposio adversa pode colocar em causa os

    mecanismos de funcionamento normais e dar origem a psicopatologia, designadamente

    perturbao ps-stress traumtico (PPST), sintomas indicadores de perturbao psicolgica e

    queixas fsicas.

    Em relao PPST, apenas recentemente a literatura se tem debruado com maior

    intencionalidade sobre a proporo de PPST em Bombeiros. Dos estudos analisados a nvel

    internacional, verificou-se que a proporo de PPST em Bombeiros varia entre 0% (Bryant &

    Guthrie, 2005) e 25% (Wagner, Heinrichs & Ehlert, 1998). Ao contrrio do que se verifica a

    nvel internacional, so conhecidos poucos estudos que tenham analisado a proporo de PPST

    em Bombeiros Portugueses. Uma investigao com Bombeiros Voluntrios revelou que a taxa

    de ocorrncia de PPST para a totalidade de vida destes profissionais de 3.9% (Fernandes &

    Pinheiro, 2004, citados por Marcelino & Figueiras, 2007). Em 2004, Horta-Moreira verificou

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    que 7.4% dos Bombeiros (N=189) apresentavam sintomas compatveis com o diagnstico de

    PPST. Marcelino e Figueiras (2007) identificaram uma taxa de PPST de 64% em 56

    Socorristas de Emergncia Pr-hospitalar.

    A literatura que explora o desenvolvimento de psicopatologia em profissionais de socorro

    utiliza, frequentemente, medidas que nos fornecem indicadores de sintomatologia psicolgica

    em geral, designadamente sintomas depressivos e ansiosos. Nos estudos analisados os nveis de

    sintomatologia variam entre 2.5% (Morren, Dirkzwager, Kessels & Yzermans, 2007) e 35%

    (Alexander & Klein, 2001).

    Para alm da avaliao da sade mental, importante analisar o potencial impacto da

    adversidade ao nvel da sade fsica dos profissionais de socorro. A literatura tem revelado

    consistentemente a possibilidade de os Bombeiros experienciarem vrios problemas fsicos.

    Entre estes salientam-se problemas msculo-esquelticos, designadamente dores nos ombros,

    no pescoo e nas costas, fadiga, tenso, nuseas, alteraes no apetite, aumento do ritmo

    cardaco, dores de cabea (Aasa, 2005; Robinson, 1994), problemas de sono e de estmago

    (Aasa, 2005; Robinson, 1994; van der Ploeg & Kleber, 2003).

    De salientar, no entanto, que a exposio a adversidade no implica necessariamente o

    desenvolvimento de problemas psicolgicos e fsicos, na medida em que possvel assistirmos

    a trajectrias adaptativas. Assim, a compreenso do impacto destes acontecimentos deve

    atender a um conjunto de factores de risco/protectores. O estudo destes factores afigura-se como

    muito relevante para a melhoria da qualidade de vida dos Bombeiros, pois contribui para

    aumentar o conhecimento sobre os factores associados a este tipo de dificuldades e, por

    conseguinte, para o desenvolvimento de medidas preventivas/interventivas nestas mesmas

    dificuldades. Apesar da importncia deste tipo de estudos, verificamos que a literatura a este

    nvel muito escassa (Aasa, 2005). Neste trabalho iremos debruar-nos concretamente sobre as

    experincias de vida adversas e a PPST.

    Em relao exposio a acontecimentos potencialmente traumticos, vrios estudos

    tm demonstrado a possibilidade desta exposio constituir um factor de risco para o

    desenvolvimento de problemas de sade fsica (e.g., Aasa, 2005; Dirkzwager, Yzermans &

    Kessels, 2004). Dirkzwager e colaboradores (2004) analisaram o impacto da participao de

    profissionais que actuam em situaes de emergncia nas operaes de socorro associadas

    exploso de um armazm de fogo de artifcio situado numa zona residencial. Os resultados do

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    estudo revelaram um aumento ao nvel dos problemas musculo-esquelticos e e respiratrios

    aps o desastre.

    Aasa (2005) constatou que diferentes tipos de exposio a adversidade podem ser

    nocivos a diferentes estruturas do corpo ou rgos atravs de diferentes vias. Num estudo

    realizado por Sluiter, van der Beek e Frings-Dresen (2003, citados por Aasa, 2005), os

    autores verificaram que lidar com pacientes em situao de risco de vida estava associado a um

    aumento dos nveis de cortisol comparativamente com o confronto com situaes adversas que

    no envolviam risco de vida para o paciente.

    Embora a literatura sobre a relao entre PPST e queixas f