Exposição-Feira Angola 1938

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Um episódio esquecido ou ocultado da história de Angola, e um magnífico álbum fotográfico sobre uma exposição colonial que permaneceu ignorada. O fotógrafo Firmino Marques da Costa escondido no pseudónimo C. Duarte; Vasco Vieira da Costa, funcionário aduaneiro e grande arquitecto antes de o ser; um governador geral que representa os interesses económicos dos colonos contra o centralismo de Lisboa, coronel António Lopes Mateus; e o democrata e autonomista Dr. António Gonçalves Videira, que discursou em nome dos seus “colegas”

Text of Exposição-Feira Angola 1938

LUANDA

EXPOSIO-FEIRA ANGOLA 1938

Um episdio esquecido ou ocultado da histria de Angola, e um magnco lbum fotogrco sobre uma exposio colonial que permaneceu ignorada. O fotgrafo Firmino Marques da Costa escondido no pseudnimo C. Duarte; Vasco Vieira da Costa, funcionrio aduaneiro e grande arquitecto antes de o ser; um governador geral que representa os interesses econmicos dos colonos contra o centralismo de Lisboa, coronel Antnio Lopes Mateus; e o democrata e autonomista Dr. Antnio Gonalves Videira, que discursou em nome dos seus colegas1

Dois anos antes da Exposio de Mundo Portugus, realizou-se em Luanda uma muito grande Exposio-Feira que no cou para a histria colonial. Teve por objectivo exibir o desenvolvimento econmico de Angola num documentrio expressivo e completo, em lugar de encarecer o programa historicista e a mstica imperial do regime, como era norma das exposies coloniais e ocorrera por exemplo em 1937 na Exposio Histrica da Ocupao, em Lisboa no Parque Eduardo VII. Era uma demonstrao geral das resultantes do nosso esforo colonizador em Angola [nosso, dos colonos, entenda-se], que devia obedecer a uma orientao vincadamente utilitria e prtica... fazendo que aos assuntos de ordem econmica seja dado relevo especial, escreveu o governador geral coronel Antnio Lopes Mateus (perodo 1935-39), no prembulo da portaria que determinou o certame (1). Inaugurou-se por ocasio da visita do Presidente Carmona s Colnias em 1938, mas foi evidente que no foi esta a sua razo de ser. Com a Exposio-Feira quis-se dar resposta, representar ou dar corpo ao que eram as aspiraes autonomistas contra o centralismo administrativo de Lisboa, sucessivamente manifestadas e reprimidas desde o incio dos anos 1930. O lbum comemorativo publicado pelo Governo Geral de Angola, certamente s para ofertas e escassamente destribudo, uma produo fotogrca de excepcional qualidade e d conta da adopo de programas arquitectnicos e decorativos que ilustram a monumentalidade moderna ocial mas tambm a melhor Art Dco portuguesa, e igualmente um surpreendente ecletismo experimental. Vasco Vieira da Costa, que veio a ser o famoso arquitecto modernista de Luanda (autor do mercado de Kinaxixe - de 1950/1952, destrudo em 2008), foi o seu principal criador, ainda na condio de funcionrio aduaneiro e desenhador, ento identicado como chefe dos servios tcnicos e artista de elevado merecimento. As fotograas, atribudas a C. Duarte, sero de Firmino Marques da Costa. (2)

Pavilho de Honra, projecto de Fernando Batalha2

Posto emissor do Rdio Clube de Angola e Stand do Porto do Lobito

Retrato SGL, Catlogo Geral Ocial

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A literatura que se ocupa das grandes exposies do regime costuma passar de Paris 1937 (com o pavilho de Keil do Amaral) para Nova Iorque e S. Francisco em 1939 (de Jorge Segurado), e depois para Belm, em 1940, com as mesmas equipas de artistas-decoradores do Antnio Ferro - a abordagem arquitectnica e artstica que sobre elas tem predominado. Ora Luanda 1938 pertence a outra histria, que tambm no a da exposio de 1934 no Porto - a 1 Exposio Colonial Portuguesa, de Henrique Galvo - que veio a prolongar-se na pouco conhecida Seco Colonial da Exposio de 40, com o mesmo director -, nem a que esteve representada nos seus Pavilhes ociais dos Descobrimentos, da Colonizao e dos Portugueses no Mundo. Luanda 1938 pertence a uma histria recalcada pelo regime e tambm pelas suas oposies, mas que igualmente foi at agora ignorada pela historiograa recente sobre os colonos portugueses em frica (3). Algumas escassas referncias exposio-feira surgiram em estudos sobre a arquitectura colonial, de Jos Manuel Fernandes e Ana Vaz Milheiro (4), e sobre a Art Dco nacional, de Rui Afonso Santos (5), mas o acontecimento tem uma dimenso relevante noutros domnios, a histria polticoeconmica de Angola e a da sua relao com a "metrpole", bem como a histria da fotograa e da edio fotogrca portuguesa. O seu interesse absolutamente pluridisciplinar e justicaria o respectivo tratamento num alargado congresso bilateral (Angola-Portugal). O lbum comemorativo uma encruzilhada de surpresas e de incgnitas, sendo ao mesmo tempo muito escasso em informao e um testemunho de imenso valor, para alm de ser um dos melhores photobooks portugueses, seno o melhor. S confrontando o lbum com diversa outra bibliograa da poca possvel tentar uma aproximao importncia do acontecimento. o caso do Guia da Exposio-Feira de Angola (Edio da Agncia Tcnica de Publicidade - publicao considerada ocial pela Direco do certame -, Luanda, 1938, 6 p.) e do Catlogo Geral Ocial (Luanda, 1939, 122 p.), a que se somam em especial a revista "Actividade Econmica de Angola - Revista de Estudos Econmicos - Propaganda e Informao", ns 9 a 12, de Maro a Dezembro de 1938 ("Exposio-Feira de Angola"), editada pela Repartio de Estudos Econmicos do Governo Geral de Angola (178 p., mais fotograas em extratexto e publicidade) e ainda o Boletim Geral das Colnias, vol. XV n 163 (Nmero especial dedicado viagem de S. Ex. o Presidente da Repblica a S. Tom e Prncipe e a Angola ), ed. Agncia Geral das Colnias, 1939, 628 pags. (em especial as pp. 45-75), este disponvel em formato digital no portal Memrias de frica e do Oriente. s a revista Actividades Econmicas que identica na sua ltima pgina de texto o nome de dois arquitectos com interveno no desenho das construes do recinto (a nomeados enquanto "outros colaboradores" dos responsveis pela Exposio): "Fernando Batalha, autor do projecto de Pavilho principal, cuja construo dirigiu; Joo Eugnio de Morim, autor dos projectos dos pavilhes ociais da Provncia de Benguela, do Bar-'Dancing' e do monumento a Portugal Colonizador, (que) dirigiu a construo dos referidos pavilhes e monumento". sabido que Vasco Regaleira Vasco de Morais Palmeiro (Regaleira), 1897-1968 - , foi autor do Pavilho do Banco de Angola, com esculturas de Manuel de Oliveira (revistas Arquitectos n 9, ed. SNA,4

4/6, 1939, p. 270; e Arquitectura n 41, 1938, p. 18) - e o mesmo viria a construir a sede denitiva do Banco de Angola, um pastiche setecentista concludo em 1956 que hoje ainda um ex-libris da capital do novo Estado. Destas mesmas informaes se poder seguramente concluir que o chefe dos servios tcnicos Vasco Vieira da Costa foi o projectista ou em geral o responsvel por grande parte dos pavilhes e pela concepo do espao da feira e a sua decorao, em que a luz elctrica, ento chegada a Luanda, teve um papel central (e tambm o teve no lbum fotogrco). A diversidade estilstica dos pavilhes e 'stands', conjugada com a respectiva qualidade e originalidade, sugere uma autoria nica que tivesse percorrido diferentes sugestes construtivas num jogo muito livre de apropriaes e referncias, o que absolutamente verosmil j que Vasco Vieira da Costa partiu logo depois para o Porto e a sua Escola Superior de Belas-Artes, onde tirou o curso de Arquitectura entre 1940 e 1946. Mas tambm na mesma revista Actividades Econmicas que se publica o Plano de Fomento da Colnia de Angola, aprovado pelo Conselho do Governo em 1936, o qual vem a dar lugar criao do Fundo de Fomento da Colnia apoiado num vultoso emprstimo que se aprovou em Lisboa j em 1938, ao arrepio da poltica de equilbrio e austeridade oramental at a em vigor. Entre os vrios documentos publicados, a se regista a controvrsia suscitada durante o respectivo debate por uma defesa isolada dessa poltica de conteno centralista de Lisboa, contrria aos interesses dos colonos, enquanto toda a outra argumentao desenvolvida se identica com os objectivos desenvolvimentistas explcitos de uma nova poltica assumida pelo governador geral coronel Antnio Lopes Mateus - que fora ministro do Interior e da Guerra (de 1930 a 1932), activo na fundao da Unio Nacional, Comandante da PSP de Lisboa (1932-1935) e depois foi presidente do Conselho de Administrao da Diamang e da Comisso das Colnias na Unio Nacional (dcada de 1940) -, um governador em consonncia com os sectores econmicos da Colnia que a Exposio-Feira veio expressar. Um outro personagem singular desta histria o Dr. Antnio Gonalves Videira, republicano e autonomista, cunhado de Cunha Leal, um dos lderes dos colonos descontentes em 1928 e dos rebeldes em 1930, fundador e candidato do MUD em 1945 (6). Foi ele que discursou "em nome dos seus colegas" (sic) na sesso de homenagem nal ao governador.

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No grande mapa central: Relaes comerciais de Angola com alguns pases", incluindo PORTUGAL e So Tom, Amrica, Austrlia, Ilhas Neerlandesas e Japo, AEF (Africa-Equatorial Francesa), Congo Belga e Unio Sul Africana, ndia Inglesa, Frana, Holanda, Inglaterra, Blgica, Romnia, Alemanha, Estnia e Noruega. Os outros grcos, Exportao, Importao, Balana

Comercial e Comercio Geral / Comrcio Especial, seguiro o mesmo critrio, que pode entender-se do ponto de vista econmico, mas levanta problemas no quadro colonial

Vendo bem, bastaria esta imagem para interditar a circulao do lbum, como sucedeu noutras circunstncias, e julgo que o seu responsvel seria incomodado mesmo sendo uma gura grada do regime. NOTAS (1) A portaria que determinou a iniciativa da Exposio-Feira publicada da ntegra no Catlogo Geral Ocial (Luanda : [s.n.], 1939. - 122 p. : il. + 1 mapa), e o seu prembulo parcialmentr transcrito no lbum Comemorativo. (2) Publiquei os primeiros comentrios sobre o lbum Comemorativo em http:// alexandrepomar.typepad.com/alexandre_pomar/luanda-1938/ a 28/Agosto/2011 (1) , ver depois outras anotaes: Luanda 2 / Luanda 3 / e 28/Nov./2012 (3) Fernando Tavares Pimenta estudo detidamente o nacionalismo angolano e o autonomismo, em Brancos de Angola. Autonomismo e Nacionalismo (1900-1961), ed. Minerva Coimbra, 2005, e Angola, os Brancos e a Independncia, Ed. Afrontamento, Porto, 2008, mas no refere a Exposio-Feira de 1938 nem aborda a aco do governador geral Antnio Lopes Mateus (1935-39), ausente dos ndices analticos. J a gura e a intervenao do Dr. Antnio Videira referenciada no seg