Extensão Rural Caradogoverno

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Extensão rural- cara do governo

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  • Revista Habitus IFCS/UFRJ Vol. 9 N. 2 Ano 2011

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    EXTENSO RURAL:

    A CARA DO GOVERNO NO CAMPO

    Pedro Cassiano Farias de Oliveira

    Cite este artigo: OLIVEIRA, Pedro Cassiano Farias. Extenso rural: a cara do governo no campo.

    Revista Habitus: revista eletrnica dos alunos de graduao em Cincias Sociais - IFCS/UFRJ,

    Rio de Janeiro, v. 9, n. 2, p. 67 - 78, dezembro. 2011. Semestral. Disponvel em:

    http://www.habitus.ifcs.ufrj.br. Acesso em: 30 de dezembro de 2011.

    Resumo: O artigo uma anlise de duas instituies que implantaram a Extenso Rural no campo

    brasileiro, a Associao Brasileira de Crdito e Assistncia Rural (ABCAR) na dcada de 1950 e,

    posteriormente, a Empresa Brasileira de Assistncia Tcnica e Extenso Rural (EMBRATER) de

    1973, at os anos 90. Importante ressaltar que, no perodo da ditadura militar (1964-1985), houve

    uma modificao dos seus objetivos em consonncia com o projeto hegemnico da classe dominante.

    Palavras-chave: Extenso Rural, Estado, Poder, Hegemonia.

    Eles cuidam do trator

    com leo e com gasolina,

    mas o pobre do peo

    exigem mais produo

    s com arroz e feijo

    Felipe Santander. O Extensionista, 1987

    1. Introduo

    ara entendermos a Extenso Rural e sua trajetria descontnua, precisamos analisar as

    duas instituies da Pasta da Agricultura destinadas a implementar a poltica

    extensionista. Essa anlise tambm ressalta a questo da mudana de instituio e dos

    objetivos por trs da conjuntura de criao da Empresa Brasileira de Assistncia Tcnica e Extenso

    Rural (EMBRATER), bom como ao desmantelamento da Associao Brasileira e Crdito e

    Assistncia Rural (ABCAR), que foi incorporada pela nova empresa.

    1.1. Os sistemas ABCAR e EMBRATER

    A ABCAR foi criada vinte e um de junho de 1956. Ela foi responsvel pela rpida

    consolidao e formalizao do trabalho de Extenso Rural no Brasil: em 1960 os servios de

    Extenso Rural operavam numa rea de 10,5 % do meio rural dos Estados [1]. A histria contada

    pelas prpria EMBRATER indicam uma continuidade tanto de metodologia, quantos dos objetivos

    P

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    de trabalho da Extenso Rural. Mas, fazendo uma leitura mais minuciosa das prprias cartilhas e

    documentos produzidos posteriormente a 1974 data da criao da EMBRATER , vemos que a

    estrutura agrria e os interesses por de trs das aes extensionistas haviam mudado. Para

    verificarmos essa mudana, devemos olhar primeiro para os materiais produzidos pela ABCAR:

    So finalidades da ABCAR:

    Coordenar e estimular programas de extenso e de crdito rural supervisionado.

    Obter recursos financeiros para a manuteno desses dois programas, e tambm a aquisio de

    tcnicos internacionais, nacionais, para a organizao tcnica dos servios.

    Orientar a implantao e acompanhar o desenvolvimento de organizaes que se proponham a

    realizar programas de Extenso Rural e de Crdito Supervisionado. [2]

    A estrutura administrativa da ABCAR e, posteriormente, da EMBRATER, era centralizada

    na esfera federal, contando ainda com a participao dos Estados e Municpios. A equipe dos

    escritrios locais era composta por um Extensionista, normalmente com formao em agronomia e

    uma Extensionista Domstica, normalmente mulher formada em Veterinria ou Economia

    Domstica. Portanto, a ao dos Extensionistas dava-se diretamente junto ao agricultor. Nas

    cartilhas que orientavam e estruturavam os treinamentos fornecidos a esses agentes nota-se uma

    preocupao em trein-los para oferecer ao agricultor tcnicas que fossem compatveis com sua

    realidade.

    Mesmo sendo de nvel federal, a ABCAR tinha um carter descentralizador em sua

    organizao institucional. As empresas estaduais tinham maior autonomia para direcionarem sua

    forma de atendimento, pois, de acordo com fontes da instituio, as regies possuam problemas

    particulares que deveriam ser solucionados de forma especfica, sem contar com um

    direcionamento centralizador. Anualmente, cada empresa estadual estabelecia um plano de

    trabalho baseado nos problemas da localidade trazida pelos prprios Extensionistas.

    O incentivo organizao rural era proposta pela ABCAR de duas maneiras: o

    associativismo e o cooperativismo. Esses dois tipos de organizao-modelo da ABCAR so

    anteriores a ela. As associaes, por exemplo, surgiram no ano de 1934, em So Paulo, com a

    fundao do Sindicato dos Invernistas e criadores de gado. Essa forma de organizao foi se

    proliferando no pas, at que em 1945 houve uma regulamentao (decreto-lei n. 8.127, de 24 de

    outubro de 1945). Portanto, a ABCAR considerava a associao como principal modalidade de

    mobilizao poltica:

    As associaes agregam peas naturais e jurdicas que exercem, profissionalmente, atividades rurais,

    devendo representar, em certos sentidos, a classe rural, na defesa e reivindicao de seus legtimos

    interesses.[3].

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    Em cada Estado, elas formavam como complemento as Federaes das Associaes Rurais

    que, por ser turno, se congregavam na Confederao Rural Brasileira [4]. Observa-se, portanto, que

    essas associaes deveriam ser fomentadas e orientadas pelos Extensionistas.

    J o corporativismo era recomendado para fins econmicos destinados comunidade

    rural. Essa forma de organizao s se institucionalizou em 1932, com o decreto-lei 22.239 de 19 de

    dezembro de 1932. Existem diversos tipos de cooperativas: de crdito, de beneficiamento, de

    construo, de compra e venda comum, etc. H o predomnio de cooperativas no Sul do pas.

    As cooperativas do Rio Grande do Sul (634 com 350.391 scios), apresentam duas caractersticas

    especficas: organizao setorizada (cerne, banha, l, trigo, mate, arroz, vinho e madeira) e uma rede

    de caixas rurais dos tipos Raiffeisen e Luzzatti [5].

    Vemos, portanto, um modelo de organizao social direcionada, sobretudo para

    determinados fins econmicos e tutelada pela ABCAR. Esses tipos de organizao tinham fortes

    influncias estatais, como benefcios e regulamentaes, se tornando a legtima forma de organizar

    o campo. Nesse sentido, as fontes pesquisadas no mencionam nenhuma associao, ou cooperativa,

    nem mesmo outro tipo de mobilizao rural no pas, que no seja em conformidade com os

    aparelhos de Estado.

    O plano anual de 1968, postula novos direcionamentos programticos com vistas compatibilizao

    com a poltica nacional, ao dirigismo da ao educativa a nvel municipal, nas linhas prioritrias

    estabelecidas nos planos estaduais. Sucessivamente, todas as reas de trabalho foram ajustadas

    hegemonia do crescimento econmico [6].

    O Plano Qinqenal (1961-1965), elaborado em 1960, sob a direo de Jos Irineu Cabral,

    foi o primeiro esforo de centralizar as diretrizes operacionais, rascunhando-se um plano nacional

    de Extenso Rural. Para a elaborao desse documento, foi realizada uma pesquisa sobre a

    realidade do meio rural brasileiro, para o plano ter uma dita base real. Com isso, houve a

    constatao de um complexo de problemas interdependentes, no sendo possvel a soluo

    somente do Extensionismo. Ainda nesse estudo, foram enfatizados os seguintes problemas, que

    estariam mais diretamente ligados Extenso Rural:

    a produo agropecuria, os recursos naturais renovveis, o rendimento do trabalho humano, a

    estrutura agrria, a organizao da vida rural, os aspectos econmicos e financeiros da produo, a

    situao social, instituies e servios que atuam no meio rural e os instrumentos de informao ora

    utilizados para alcanar a comunidade. [7].

    Em certa medida, as diretrizes traadas pelo plano diretor foram s razes para a criao

    do Sistema Brasileiro de Extenso Rural, um ano antes da concluso do prazo estabelecido. Assim,

    em 1964, a ABCAR ganhou o status de Sistema e redefiniu sua ao, associando o crdito

    supervisionado e o orientado mais intensamente, bem como a interlocuo com a pesquisa

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    agropecuria. Com efeito, numa anlise mais superficial das fontes, o surgimento da EMBRATER e,

    conseqentemente, o extermnio da ABCAR, no parecem ter sentido.

    2. A Extenso Rural na Ditadura Militar (1964-1985)

    Para entendermos o desmantelamento da ABCAR e sua substituio pela instituio da

    EMBRATER, precisamos considerar o contexto poltico do pas. As diferenas entre ambas no so

    to acentuadas, porm, a intensificao do processo de privatizao e penetrao de interesses dos

    grupos dominantes agrrios so fundamentais para essa reorientao institucional.

    Mesmo com o golpe militar de 1964, a reforma agrria continuava na agenda poltica do

    pas. O governo do Marechal Castelo Branco promulgou o Estatuto da Terra, com fins de realizar a

    reforma agrria nos seus prprios moldes. Regina Bruno (1995) adverte que o segmento dos

    grandes proprietrios, diante dessa medida, ficou extremamente desconfortvel face ao risco da

    desapropriao de terras, algo que os havia mobilizado a derrubar o Governo Goulart, acusado pelos

    seus opositores de realizar projetos comunistas.

    Contudo, a estratgia dos representantes dos latifundirios foi minar o projeto do Estatuto

    da Terra de dentro para fora. Assim, diversas modificaes no projeto original foram includas,

    ocasionando a perda da sua caracterstica principal. Segundo os