EXTENSÃO RURAL E SERVIÇO SOCIAL: PERSPECTIVAS PARA O ?· EXTENSÃO RURAL E SERVIÇO SOCIAL: PERSPECTIVAS…

Embed Size (px)

Text of EXTENSÃO RURAL E SERVIÇO SOCIAL: PERSPECTIVAS PARA O ?· EXTENSÃO RURAL E SERVIÇO SOCIAL:...

  • EXTENSO RURAL E SERVIO SOCIAL: PERSPECTIVAS PARA O CAMPO

    Amanda Farias dos Santos1

    Mailiz Garibotti Lusa2

    RESUMO

    No artigo discute-se sobre o exerccio profissional do Servio Social inserido na Poltica

    Nacional de Assistncia Tcnica e Extenso Rural (PNATER) brasileira, refletindo sobre suas

    competncias e atribuies. Resgatando a conjuntura histrica do campo brasileiro, e o

    processo de construo desta poltica, objetiva-se debater acerca do que foram e so as suas

    realizaes e idealizaes, especificando a anlise para a atuao do/a assistente social e

    problematizando as perspectivas profissionais no espao rural. Com perspectiva crtica,

    fundada no materialismo histrico dialtico, o artigo resultou de pesquisa bibliogrfica e

    documental, com abordagem qualitativa, alm de valer-se das experincias adquiridas pelas

    autoras acerca da questo agrria e desse espao scio-ocupacional. Est organizado em trs

    sees, que abordaram a Assistncia Tcnica e Extenso Rural no Brasil; o capitalismo e a

    classe trabalhadora no campo; e as competncias e atribuies do Servio Social nessembito,

    apontando, ao final, os avanos, os limites e as perspectivas da PNATER e do atendimento

    das polticas pblicas para o campo.

    PALAVRAS-CHAVE: Questo Agrria. Assistncia Tcnica. Extenso Rural.Servio

    Social.

    RURAL EXTENSION AND SOCIAL WORK: PROSPECTS FOR THE

    COUNTRYSIDE

    ABSTRACT

    The article discusses about the Brazilian professional practice of social work entered in the

    National Technical Assistance and Rural Extension (PNATER), discussing its competences

    and powers. Rescuing the historical situation of the Brazilian countryside, and the

    construction process of this politics, objective is to discuss about what were and are your

    accomplishments and idealizations, specifying the analysis for the performance of the / a

    social worker, discussing career prospects in rural areas. With a critical perspective founded

    in dialectical historical materialism, the article resulted bibliographic and documentary

    research with a qualitative approach, and avail themselves of the experiences gained by the

    authors about the agrarian question and that socio-occupational space. It is organized into

    three sections, addressing the Technical Assistance and Rural Extension in Brazil; capitalism

    and the working class in the countryside; and the competences and powers of Social Work in

    this area, pointing at the end, advances, limitations and perspectives of PNATER and the care

    of public politics for the countryside.

    KEYWORDS: Agrarian Question. Technical Assistance.Rural Extension. Social Work.

    1Graduada em Servio Social pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Especialista em Educao em Direitos

    Humanos e Diversidade (UFAL) e em Direitos Sociais e Gesto dos Servios Sociais (UFAL). Assistente Social / Extensionista Rural, do Instituto de Inovao para o Desenvolvimento Rural Sustentvel de Alagoas EMATER/AL. amanda.social@hotmail.com.

    2Professora Adjunto do Curso de Servio Social da Universidade Federal de Alagoas, Unidade Educacional de Palmeira dos ndios. Assistente Social graduada pela UFSC; mestre e doutora em Servio Social pela PUC-SP. Coordenadora e pesquisadora do Observatrio da Questo Rural (UFAL). mailizlus@yahoo.com.br.

  • 1. PARA INCIO DE CONVERSA

    A Assistncia Tcnica e Extenso Rural (ATER) brasileira no pode ser considerada

    como uma poltica com linearidade histrica e institucional. O seu desenvolvimento no Brasil

    resulta de um processo de construo e reconstruo dialtico e permanente, ora com

    predominncia de orientaes e diretrizes nacionais, ora determinada pelas particularidades

    estaduais ou municipais. Esta dialtica entre as determinaes advindas do Estado enquanto

    ente federativo, e ora dele como ente de governo estadual e municipal, por muito tempo

    fizeram como que, principalmente, a execuo da ATER adquirisse um cariz bastante

    diversificado entre as regies do pas e mesmo internamente a elas. Todavia, no apenas

    diversidades regionais existiram, mas tambm se diferenciaramos perodos histricos de

    desenvolvimento da ATER.

    importante compreend-los, a fim de refletir sobre a relao entre o Servio Social e

    a ATER, entendendo o primeiro como uma importante agente planejador, implementador,

    executor e avaliador desta poltica.Este , portanto, o objetivo desse trabalho: analisar a

    Poltica Nacional de Assistncia Tcnica e Extenso Rural (PNATER) e o Projeto tico-

    Poltico do Servio Social, tratando, em particular, da interveno do Servio Social naATER,

    o que se far problematizando as competncias e atribuies da profisso nesse mbito, de

    forma a identific-las.

    Indica-se ao leitor, que o interesse pelo tema decorreu no s pelo fato das

    experincias profissionais dessas autoras se relacionarem diretamente a esse espao scio-

    ocupacional, como tambm principalmente por terem a questo agrria como uma dentre as

    linhas centrais de estudos e pesquisas.

    O pressuposto que contextualiza este debate que a ATER passou por trs fases em

    relao a seu processo pedaggico: a primeira na dcada de 1950, com a organizaooficial

    dos servios de extenso rural, marcado pelas aes educativas tradicionais, envolvendo o

    agricultor no padro de produo e consumo hegemnicos, dependentes de insumos externos.

    A segunda, que se inicia nos anos 1960, marcada pela predominncia de um trabalho guiado

    pelos moldes fordistas (mecnico, segmentado rotineiro), presencia uma forma difusionista,

    orientada pela pedagogia tecnicista e desenvolvimentista, em que os servios de ATER so

    equiparados ao controle cientfico da agricultura. E, finalmente, a terceira fase, iniciada nos

    anos 1980, quando o modelo de desenvolvimento agrcola implantado entra em crise,sendo

    necessrio traar novos formatos para a extenso rural (CAZELLA, KREUTZ e PINHEIRO,

    2005).

  • Neste nterim histrico as transformaes sociais, polticas, econmicas e culturais

    vividas pelo Brasil rural interferiram diretamente no apenas no mbito produtivo agrcola,

    como tambm na vida da classe trabalhadora rural, ou seja, na reproduo social, nas formas

    de sociabilidade, na cultura e tradies do campo.

    Dessa forma, construda e reconstruda enquanto poltica pblica, a ATER

    brasileirachega a atualidade como 'Poltica Nacional de Assistncia Tcnica e Extenso Rural

    (PNATER)', cujo formato se desenha num processo contnuo, desde 2003.

    Assim, para atingir o objetivo, estruturou-se o trabalho em quatro sees: a primeira

    aborda brevemente o rural e traa a trajetria da ATER at a implantao da nova poltica, a

    PNATER; a segunda trata do capitalismo no campo e identifica a classe trabalhadora rural,

    foco do atendimento do/a assistente social na ATER; a terceira discuteo Projeto tico-Poltico

    do Servio Social, cujo processo de construo propiciou profisso adotar posturas crticas a

    sociabilidade capitalista, fundadas nas dimensestico-poltica, terico-metodolgica e

    tcnico-operativa, que apontam para uma nova ordem societria. Finaliza-se otrabalho com a

    quarta seo, na qual delineiam-se as competncias e atribuies privativas do/a assistente

    social, enquanto extensionista rural.

    2. DO BRASIL AGRRIO ASSISTNCIA TCNICA E EXTENSO RURAL

    Consolidada especialmente atravs do cultivo da cana-de-acar e iniciada atravs das

    capitanias hereditrias, a agricultura brasileira originou-se no perodo colonial e, desde ento,

    permanece com suas bases econmicas de produo agroexportadora fundadas na

    monocultura realizada em latifndios.

    O cultivo do caf e de outras culturas, alm da agropecuria e das prticas extrativistas

    quedesenvolvidas desde a colonizao, contriburam para a configurao dos traos sociais,

    culturais, econmicos e polticos, no apenas do campo, mas de toda a sociedade brasileira.

    Vale lembrar que a base inicial - colonial - do modelo econmico-produtivo foi escravocrata e

    teve como primeiros sujeitos os indgenas, que resistiram a tal situao, e, posteriormente, os

    negros, que j chegavam ao Brasil privados de liberdade.Uma das consequncias mais

    visveis desse processo, trata-se da concentrao da propriedade de terras nas mos de uma

    pequena parcela da sociedade. esse fator um dos principais fundamentos das desigualdades

    da nao: a apropriao e concentrao, embora oficial, mas indevida, de terras, associada aos

    diversos ciclos de explorao das riquezas [...] (LUSA, 2012, p. 35).

  • Considerando que o hoje fruto do ontem, dos processos scio-histricos, entende-se

    a partir dos determinantes acima levantados os motivos pelosquais a sociedade

    contempornea resultado das marcas, que lhe so presentes e visveis,dos diferentes

    perodos nosquais o rural vai se destacando na economia brasileira, embora sendo

    invisibilizado social, poltica e culturalmente na modernidade (LUSA, 2012). Discorrer a

    respeito das polticas pblicas voltadas agricultura, mais precisamente aquelas articuladas

    PNATER, pode auxiliar na compreensosobre como ocorre essa invisibilidade por parte do

    Estado e da sociedade.

    Como brevemente delineado na introduo, os servios de extenso rural

    brasileirosno so frutoscontemporneos.Suas primeiras aes no Brasil foram influenciadas

    por modelos externos, devendo-se considerar que o termo originou-se durante a extenso rural

    executada pelas universidades inglesas, na segunda metade d