Ezra Pound - ABC Da Literatura (Cultrix 1990)

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Text of Ezra Pound - ABC Da Literatura (Cultrix 1990)

  • EzraPound

    DA LITERATURA

    Cultrix

  • ABC DA LITERATURA

  • EZR A P OUND

    ABC DA

    LITERATURA

    Organizao e apresentao da edio brasileira :

    AuGusTo DE CAMPOS

    Traduo de: AuGUSTo DE CAMPOS e Jos PAuLo PAES

    .. .... EDITORA CULTRIX

    SO PAULO

  • EdiAo 6789

    Ttulo do original em ingls:

    ABC OF READING Traduzido e publicado por acordo com New Directions Publishing Corporation e Dorothy

    Pound, curadora de Ezra Pound

    89-90

    Direitos de traduo para o Brasil adquiridos com exclusividade pela

    EDITORA CULTRIX LTDA.

    Rua Dr. Mrio Vicente, 374-fone 63-3141 04270 S. Paulo, SP que se reserva a propriedade literria desta traduo.

    Impresso nas oficinas grficas da Editora Pensamento

    lNDICE

    As Antenas de Ezra Poun d

    Nota Sobre a Traduo

    ABC

    COMO ESTUDAR POESIA

    .ADVERTli:NCIA

    Primeira Parte

    CAPITULO I Condies de Laboratrio o Mtodo ldeogrmico

    CAPITULO 11 o que Literatura Qual a Utilidade da Linguagem?

    CAPITULO 111

    CAPITULO IV Compasso, Sextante ou Balisas

    CAPITULO V

    CAPITULO VI

    CAPITULO VII

    CAPITULO VIII Testes e Exerccios de Composio Segunda Srie

    Outros Testes

    ]!)

    17

    19

    21

    23 2R 30 32 32 33

    36

    40 . 44

    51

    58

    62

    63 64 65 66

  • Base Liberdade Exercicio Sculo XIX Estudo Percepo O Instrutor Gostos

    DISSOCIAR

    DICHTEN = CONDENSARE

    Documentos Quatro Perodos Exerci cio Estilo da ll:poca Tabela de Datas Outras Datas Recapitulando Whitman

    Segunda Parte

    TRATADO DE Mll':TRICA

    Terceira Parte

    MINI-ANTOLOGIA DO PAIDEUMA POUNDIANO Homero Safo

    Da Antologia Clssica Chinesa tConfcio) Li T'ai Po Catulo Ovldio

    De O Navegante Guillaume de Poictiers Bertran de Born

    69 74 74 74

    75

    77 79

    81

    82 86

    87

    111

    119

    125

    138 141 148

    150

    153

    163 165 166 168 170 172 175 176 178

    Bernard de Ventadour Arnaut Daniel Guido Cavalcanti Dante Alighicri Franois Villon Wllliam Shakespeare John Donne Mark Alexander Boyd Robert Herrick Lord Rochester Walter Savage Landor Robert Browning Edward FitzGerald Tristan Corbire Arthur Rlmbaud Jules Laforgue

    180 182 188

    193 195 197 198 201 202 204 20!5 207 210 211 215 217

  • AS ANTENAS DE EZRA POUND

    "Os estudos crticos de Pound - afirmou T. S. Eliot -, dispersos e ocasionais como tenham sido, formam o corpo de crtica menos dispensvel do nosso tempo."

    Esse juzo no aceito de boa vontade pelos crticos ofi czazs. Compreende-se. Pound ps a crtica em crise. Mas ratificado pelos poetas e pelos que esto interessados em poeJia (a do passado, inclusive) como coisa viva e no como ritual morturio.

    Conta Luciano Ancescchi que, certa vez, apresentaram a Pound, na Itlia, um famoso livro de esttica filosfica; ao. restitu-lo, disse o poeta, no seu italiano peculiar: "Tutto bellissimo, ma non fonctiona."

    A pedagogia pragmtica de Pound o oposto das elucubraes metafsicas e da desconversa im/expressionista: "O mau crtico se identifica facilmente quando comea a discutir o poeta e no o poema. "

    Publicado pela primeira vez em 1934, o ABC OF READING (na verso brasileira, o ABC nA LITERATURA) o manual da didtica poundiana.

    Pretende o poeta que esse manual seja lido com prazer e proveito pelos que no esto mais na escola.; pelos que nunca freqentaram uma escola; e pelos que, em seus dias de colgio, sofreram as coisas que a maior parte da gerao de Pound - e da nossa, podemos acrescentar tranqilamente - sofreu. Mas adverte, desde logo: "Este livro no se destina aos que chegaram ao pleno conhecimento do assunto sem conhecer os /atos."

    9

  • r Para Pound, o mtodo adequado de estudar literatura

    o mtodo dos biologistas: exame cuidadoso e dirto da matria, e contnua COMPARAO de uma lmina ou espcime com outra. Este o seu mtodo ideogrmico (crtica via comparao e traduo). Derivou-o do estudo de Ernest Fenollosa sobre o ideograma chins ( The Chinese Written Character as a Medium for Poetry ) : "Em contraste com o mtodo da abstrao ou de definir as coisas em termos sucessivamente mais e mais genricos, Fenollosa encarece o mtodo da ci.ttcia, "que o mtodo da poesia", distinto do mtodo da "discusso filosfica", e que o meio de que se servem os chineses em sua ideografia ou escrita de figuras abreviadas."

    A estrutura ideogrmica uma das chaves do mtodo crtico e da prpria poesia de Poun4_. Outro postulado fundamental do pensamento crtico-potico de EP o compendiado na frmula DICHTEN=CONDENSARE, que ele assim esclarece: "Basil Bunting, ao folhear um dicionrio alemo-italiano, descobriu que a idia de poesia como concentrao quase to velha como a lngua germnica. ''Dichten" o verbo alemo correspondente ao substantivo ('Dichttmg", que significa "poesia" e o lexicgrafo traduziu-o pelo verbo italiano que significa "condensar".

    Exame direto. Comparao. Concentrao. ''I work in concentration", dtria Pound noutra oportunidade. Separao drstica do melhor. "A chave a inveno, o primeiro caso ou primeira ilustrao encontrvel." Preocupao con.fuciana com a "definio precisa", a clareza e a clarificpo das idias. ''A incompetncia se revela no uso de palavras demasiadas. O primeiro e o mais simples teste de um autor ser verificar as palavras que no funcionam." Desses princpios, coordenados por uma viso pragmtica da literatura, extrai o poeta. a sua preceptstica radical e atuante.

    Os escritores so por ele classificados nas seguintes categorias: 1 - Inventores. Homens que descobriram um novo processo, ou cuja obra nos d o primeiro exemplo conhecido de um processo; 2 _.:_ Mestres. Homens que combinaram um certo nmero de tais processos e que os usaram to bem ou melhor que os inventores; 3 - Diluidores. Homens que vieram depois das duas primeiras espcies de escritor e no foram capazes de realizar to bem o trabalho; 4 - Bons escritores

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    sem qualidades salientes (a classe que produz a maior parte do que se escreve). Homens que fazem mais ou menos boa obra em mais ou menos bom estilo do perodo. Son.etistas do tempo de Dante, etc. "Ils n'existent pas, leur ambiance leur confert une existence."; 5 - Belles Lettres. Os que realmente no inventaram nada, mas se especializaram numa parte particular da .arte de escrever; 6 - Lanadores de modas. Aqueles cuja onda se mantm por alguns sculos ou algumas dcadas e de repente entra em recesso, deixando as coisas como estavam. As duas primeiras categorias so - segundo EP - as mats definidas e a familiaridade com elas torna possvel avaliar quase que qualquer livro primeira vista. H trs modalidades de poesia: 1 - Melopia. Aquela em que as palavras so impregnadas de uma propriedade musical (som, ritmo) que orienta o seu significado (Homero, Arnaut Daniel e os provenais). 2 - Fanopia. Um lance de imagens sobre a imaginao visual (Rihaku, i., Li T'ai-Po e os chineses atingiram o mximo de fanopia, devido talvez natureza do ideograma). 3 - Logopia. "A dana do intelecto entre as palavras", que trbalha no domnio especfico das manifestaes verbais e no se pode conter em msica ou em plstica (Proprcio, Laforgue).

    A criao est presente em quase todas as categorias de crtica que Pound admite como vlidas: 1 - crtica pela discusso (das formulaes gerais s descries de procedimentos) 2 - crtia:J. via traduo (a traduo entendida como recriao e no mera transposio literal); 3 - crtica pelo exerccio no estilo de uma poca; 4 - crtica via msica (Pound efetivamente testou as palavras de Cavalcanti e Villon em composies musicais); 5 .:...__ crtica via poesia. Para EP, duas so as funes bsicas da crtica: 1 - teoricamente, ela tenta preceder a composio, para servir de ala de mira, o que jamais acontece, pois a obra sempre acaba ultrapassando a formulao; no h caso de crtica dessa espcie que no tenha sido feita pelos prprios compositores; i., o homem que formula algum princpio terico o mesmo que produz a demonstrao; 2 - seleo: a ordenao geral e a mondadura do que est sendo realizado; a eliminao de repeties; o estabelecimento do paideuma, ou seja: a ordenao do c.onhecimento de modo que o prximo homem (ou gerao)

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  • possa achar, o mais rapidamente possvel, a parte viva dele e gastar um mnimo de tempo com itens obsoletos.

    Sobre os crticos: "Os melhores so os que efetivamente contribuem para melhorar a arte. que criticam; a seguir, os melhores so os que focalizam a ateno no melhor que se escreve; e a vermina pestilente so aqueles que desviam a ateno dos melhores para os de 2.a classe ou para os seus prprios escritos crticos; Mr. Eliot prqvavelmente ocupa um alto lugar no primeiro desses trs grupos . . . " Em resumo: "Um crtico vale, no peta excelncia dos seus argumentos, mas pela qualidade de sua escolha."

    Todo esse af classificatrio nada tem de acadmico ou escolstico. Trata-se de totalizaes drsticas, para fins didticos e pragmticos, a partir de uma noo dinmica de poesia: a poesia em ao, permanentemente revista por um critrio seletivo, de inveno, que trata de separar, do que est morto e enterrado, o que permanece vivo e aberto e capaz de fornecer "nutrimento de impulso" a novas descobertas e expanses. , precisamente, nesse sentido que Haro/. do de Campos v no ABC DA LITERATURA o exemplo mais caracterstico de uma potica sincrnica, da perspectiva em que Roman Jakobson coloca o conceito de sincronia: a descrio no apenas da produo literria de um dado perodo, mas tambm daquela parte da tradio literria que, para o perodo em questo, permaneceu viva ou foi revivida. o>

    O estilo aforismtico e conversacional de Ezra Pound neste ABC, nas suas cartas, nos seus Cantos, assim como muitas de suas preocupaes fundamentais (o seu fas