of 114/114
EzraPound DA LITET Cultx

Ezra Pound - ABC Da Literatura (Cultrix 1990)

  • View
    196

  • Download
    5

Embed Size (px)

Text of Ezra Pound - ABC Da Literatura (Cultrix 1990)

  • EzraPound

    DA LITERATURA

    Cultrix

  • ABC DA LITERATURA

  • EZR A P OUND

    ABC DA

    LITERATURA

    Organizao e apresentao da edio brasileira :

    AuGusTo DE CAMPOS

    Traduo de: AuGUSTo DE CAMPOS e Jos PAuLo PAES

    .. .... EDITORA CULTRIX

    SO PAULO

  • EdiAo 6789

    Ttulo do original em ingls:

    ABC OF READING Traduzido e publicado por acordo com New Directions Publishing Corporation e Dorothy

    Pound, curadora de Ezra Pound

    89-90

    Direitos de traduo para o Brasil adquiridos com exclusividade pela

    EDITORA CULTRIX LTDA.

    Rua Dr. Mrio Vicente, 374-fone 63-3141 04270 S. Paulo, SP que se reserva a propriedade literria desta traduo.

    Impresso nas oficinas grficas da Editora Pensamento

    lNDICE

    As Antenas de Ezra Poun d

    Nota Sobre a Traduo

    ABC

    COMO ESTUDAR POESIA

    .ADVERTli:NCIA

    Primeira Parte

    CAPITULO I Condies de Laboratrio o Mtodo ldeogrmico

    CAPITULO 11 o que Literatura Qual a Utilidade da Linguagem?

    CAPITULO 111

    CAPITULO IV Compasso, Sextante ou Balisas

    CAPITULO V

    CAPITULO VI

    CAPITULO VII

    CAPITULO VIII Testes e Exerccios de Composio Segunda Srie

    Outros Testes

    ]!)

    17

    19

    21

    23 2R 30 32 32 33

    36

    40 . 44

    51

    58

    62

    63 64 65 66

  • Base Liberdade Exercicio Sculo XIX Estudo Percepo O Instrutor Gostos

    DISSOCIAR

    DICHTEN = CONDENSARE

    Documentos Quatro Perodos Exerci cio Estilo da ll:poca Tabela de Datas Outras Datas Recapitulando Whitman

    Segunda Parte

    TRATADO DE Mll':TRICA

    Terceira Parte

    MINI-ANTOLOGIA DO PAIDEUMA POUNDIANO Homero Safo

    Da Antologia Clssica Chinesa tConfcio) Li T'ai Po Catulo Ovldio

    De O Navegante Guillaume de Poictiers Bertran de Born

    69 74 74 74

    75

    77 79

    81

    82 86

    87

    111

    119

    125

    138 141 148

    150

    153

    163 165 166 168 170 172 175 176 178

    Bernard de Ventadour Arnaut Daniel Guido Cavalcanti Dante Alighicri Franois Villon Wllliam Shakespeare John Donne Mark Alexander Boyd Robert Herrick Lord Rochester Walter Savage Landor Robert Browning Edward FitzGerald Tristan Corbire Arthur Rlmbaud Jules Laforgue

    180 182 188

    193 195 197 198 201 202 204 20!5 207 210 211 215 217

  • AS ANTENAS DE EZRA POUND

    "Os estudos crticos de Pound - afirmou T. S. Eliot -, dispersos e ocasionais como tenham sido, formam o corpo de crtica menos dispensvel do nosso tempo."

    Esse juzo no aceito de boa vontade pelos crticos ofi czazs. Compreende-se. Pound ps a crtica em crise. Mas ratificado pelos poetas e pelos que esto interessados em poeJia (a do passado, inclusive) como coisa viva e no como ritual morturio.

    Conta Luciano Ancescchi que, certa vez, apresentaram a Pound, na Itlia, um famoso livro de esttica filosfica; ao. restitu-lo, disse o poeta, no seu italiano peculiar: "Tutto bellissimo, ma non fonctiona."

    A pedagogia pragmtica de Pound o oposto das elucubraes metafsicas e da desconversa im/expressionista: "O mau crtico se identifica facilmente quando comea a discutir o poeta e no o poema. "

    Publicado pela primeira vez em 1934, o ABC OF READING (na verso brasileira, o ABC nA LITERATURA) o manual da didtica poundiana.

    Pretende o poeta que esse manual seja lido com prazer e proveito pelos que no esto mais na escola.; pelos que nunca freqentaram uma escola; e pelos que, em seus dias de colgio, sofreram as coisas que a maior parte da gerao de Pound - e da nossa, podemos acrescentar tranqilamente - sofreu. Mas adverte, desde logo: "Este livro no se destina aos que chegaram ao pleno conhecimento do assunto sem conhecer os /atos."

    9

  • r Para Pound, o mtodo adequado de estudar literatura

    o mtodo dos biologistas: exame cuidadoso e dirto da matria, e contnua COMPARAO de uma lmina ou espcime com outra. Este o seu mtodo ideogrmico (crtica via comparao e traduo). Derivou-o do estudo de Ernest Fenollosa sobre o ideograma chins ( The Chinese Written Character as a Medium for Poetry ) : "Em contraste com o mtodo da abstrao ou de definir as coisas em termos sucessivamente mais e mais genricos, Fenollosa encarece o mtodo da ci.ttcia, "que o mtodo da poesia", distinto do mtodo da "discusso filosfica", e que o meio de que se servem os chineses em sua ideografia ou escrita de figuras abreviadas."

    A estrutura ideogrmica uma das chaves do mtodo crtico e da prpria poesia de Poun4_. Outro postulado fundamental do pensamento crtico-potico de EP o compendiado na frmula DICHTEN=CONDENSARE, que ele assim esclarece: "Basil Bunting, ao folhear um dicionrio alemo-italiano, descobriu que a idia de poesia como concentrao quase to velha como a lngua germnica. ''Dichten" o verbo alemo correspondente ao substantivo ('Dichttmg", que significa "poesia" e o lexicgrafo traduziu-o pelo verbo italiano que significa "condensar".

    Exame direto. Comparao. Concentrao. ''I work in concentration", dtria Pound noutra oportunidade. Separao drstica do melhor. "A chave a inveno, o primeiro caso ou primeira ilustrao encontrvel." Preocupao con.fuciana com a "definio precisa", a clareza e a clarificpo das idias. ''A incompetncia se revela no uso de palavras demasiadas. O primeiro e o mais simples teste de um autor ser verificar as palavras que no funcionam." Desses princpios, coordenados por uma viso pragmtica da literatura, extrai o poeta. a sua preceptstica radical e atuante.

    Os escritores so por ele classificados nas seguintes categorias: 1 - Inventores. Homens que descobriram um novo processo, ou cuja obra nos d o primeiro exemplo conhecido de um processo; 2 _.:_ Mestres. Homens que combinaram um certo nmero de tais processos e que os usaram to bem ou melhor que os inventores; 3 - Diluidores. Homens que vieram depois das duas primeiras espcies de escritor e no foram capazes de realizar to bem o trabalho; 4 - Bons escritores

    10

    sem qualidades salientes (a classe que produz a maior parte do que se escreve). Homens que fazem mais ou menos boa obra em mais ou menos bom estilo do perodo. Son.etistas do tempo de Dante, etc. "Ils n'existent pas, leur ambiance leur confert une existence."; 5 - Belles Lettres. Os que realmente no inventaram nada, mas se especializaram numa parte particular da .arte de escrever; 6 - Lanadores de modas. Aqueles cuja onda se mantm por alguns sculos ou algumas dcadas e de repente entra em recesso, deixando as coisas como estavam. As duas primeiras categorias so - segundo EP - as mats definidas e a familiaridade com elas torna possvel avaliar quase que qualquer livro primeira vista. H trs modalidades de poesia: 1 - Melopia. Aquela em que as palavras so impregnadas de uma propriedade musical (som, ritmo) que orienta o seu significado (Homero, Arnaut Daniel e os provenais). 2 - Fanopia. Um lance de imagens sobre a imaginao visual (Rihaku, i., Li T'ai-Po e os chineses atingiram o mximo de fanopia, devido talvez natureza do ideograma). 3 - Logopia. "A dana do intelecto entre as palavras", que trbalha no domnio especfico das manifestaes verbais e no se pode conter em msica ou em plstica (Proprcio, Laforgue).

    A criao est presente em quase todas as categorias de crtica que Pound admite como vlidas: 1 - crtica pela discusso (das formulaes gerais s descries de procedimentos) 2 - crtia:J. via traduo (a traduo entendida como recriao e no mera transposio literal); 3 - crtica pelo exerccio no estilo de uma poca; 4 - crtica via msica (Pound efetivamente testou as palavras de Cavalcanti e Villon em composies musicais); 5 .:...__ crtica via poesia. Para EP, duas so as funes bsicas da crtica: 1 - teoricamente, ela tenta preceder a composio, para servir de ala de mira, o que jamais acontece, pois a obra sempre acaba ultrapassando a formulao; no h caso de crtica dessa espcie que no tenha sido feita pelos prprios compositores; i., o homem que formula algum princpio terico o mesmo que produz a demonstrao; 2 - seleo: a ordenao geral e a mondadura do que est sendo realizado; a eliminao de repeties; o estabelecimento do paideuma, ou seja: a ordenao do c.onhecimento de modo que o prximo homem (ou gerao)

    11

  • possa achar, o mais rapidamente possvel, a parte viva dele e gastar um mnimo de tempo com itens obsoletos.

    Sobre os crticos: "Os melhores so os que efetivamente contribuem para melhorar a arte. que criticam; a seguir, os melhores so os que focalizam a ateno no melhor que se escreve; e a vermina pestilente so aqueles que desviam a ateno dos melhores para os de 2.a classe ou para os seus prprios escritos crticos; Mr. Eliot prqvavelmente ocupa um alto lugar no primeiro desses trs grupos . . . " Em resumo: "Um crtico vale, no peta excelncia dos seus argumentos, mas pela qualidade de sua escolha."

    Todo esse af classificatrio nada tem de acadmico ou escolstico. Trata-se de totalizaes drsticas, para fins didticos e pragmticos, a partir de uma noo dinmica de poesia: a poesia em ao, permanentemente revista por um critrio seletivo, de inveno, que trata de separar, do que est morto e enterrado, o que permanece vivo e aberto e capaz de fornecer "nutrimento de impulso" a novas descobertas e expanses. , precisamente, nesse sentido que Haro/. do de Campos v no ABC DA LITERATURA o exemplo mais caracterstico de uma potica sincrnica, da perspectiva em que Roman Jakobson coloca o conceito de sincronia: a descrio no apenas da produo literria de um dado perodo, mas tambm daquela parte da tradio literria que, para o perodo em questo, permaneceu viva ou foi revivida. o>

    O estilo aforismtico e conversacional de Ezra Pound neste ABC, nas suas cartas, nos seus Cantos, assim como muitas de suas preocupaes fundamentais (o seu fascnio pelas descobertas tecnolgicas, a sua nfase na inveno, p.ex.) ganharam renovada atualidade, nos ltimos tempos, com o xito da obra de Marshall McLuhan. Tem-se relacionado muito a personalidade do profeta da comunicao de massa com . ]ames Joyce, freqentemente citado em seus livros. Sabe-se menos de suas ligaes com Pound. Estas existem, no entanto, e em maior grau do que se pensa. Convm lembrar que o primeiro estudo em profundidade da obra poundiana, The Poetry of Ezra Pound (1951), de Hugh Kenner, trazia esta

    Ol Haroldo de Campos, A Arte no Horizonte do Provvel, Editora Perspectiva S.A., So Paulo, 1969, pg. 207.

    12

    dedicatria: "To Marshall McLuhan / A catalogue, his jewels of conversation." Uma coletnea de estudos sobre o poeta, An Examination of Ezra Pound, publicada por Peter Russell no ano anterior, tinha entre os ensastas selecionados o professor canadense, que assinava o estudo "Pound's Critica! Prose", datado de 1949.

    Nesse trabalho, importante no s pelo que diz como pela poca em que o diz, afirma McLuhan,

    : "Poun o nico escritor de nosso tempo cuja obra obtem o efezto da conversa real, tal como ela ocorre entre aqules. que vivem num inteso foco de intersses complexos. " ,

    Comparndo-o com .. , Ezo:,

    observa ainda: "Eliot ajustou a modulaao de frequenczas de sua prosa de modo a fazer com que ela cause pouca perturbao nos ouvidos pouco sensveis, mas Pund insiste na teo dos seus leitores mesmo quando no ha nenhuma aparencza de compreenso. E por isso ele nunca foi perdoado pelos literatos."

    Segundo McLuhan, o ABC DA LrTERATURA "ao mesmo tempo a mais curta e a mais densa avaliao da poesia inglesa". Enfim, para McLuhan, se existe alguma prosa crtica mais exata, mais aguda, mais carregada de percepo que a de Pound, esta s pode ser encontrada nos ltimos ensaios 4e Mallarm. Em ingls, no h nada que com ela se ombreze .

    Na introduo J.a edio de Understanding Media, McLuhan presta tributo ainda uma vez a Ezra Pound, atravs da aluso a um dos motivos-chave do ABC DA LITERATURA:

    "Os artistas so as antenas da raa". Dh McLuhan: "O poder das artes de antecipar, de uma ou mais geraes, os futuros desenvolvimentos sociais e tcnicos foi reconhecido h muito tempo. Ezra Pound chamou o artista de "antenas d raa". A arte, como o radar, atua como se fosse um verdadeiro ':'sistema de alarma premonitrio", capacitando-nos a descobrzr e a enfrentar objetivos sociais e psquicos, com grante antecedncia."

    Artistas. Antenas.

    (2) M;;;shall McLuhan, Os Meios de Comurvicao Como Extenses do Homem ( Understanding Media) - Traduo de

    Dcio Pignatari. Editora Cultrix, So Paulo, 1969, pgs. 14-15.

    13

  • ]akobson no desautorizaria esse conceito. Pois no foi ele o primeiro a reconhecer a aguda antecipao dos movimentos de vanguarda do princpio do sculo, que afirma terem se constitudo, para ele, no impulso mais forte para uma mudana no seu modo de encarar a linguagem e a Lingstica?

    O ABC OF READING, esse anticompndio literrio, denuncia, premonitoriamente, a falcia dos sistemas ainda ho;e aplicados ao ensino e crtica da literatura. O mtodo ideogrmico de Ezra Pound pe a nu, por comparao, a pseudo-seriedade, a timidez autocomplacente e a carncia de senso criativo ainda hoje dominantes no mbito universitrio. E incita urgente reviso de tais sistemas.

    "Uma nao que negligencia as percepes de seus artistas entra em declnio. Depois de um certo tempo ela cessa de agir e apenas sobrevive."

    Pound deu, com este livro, um sinal de alarme. No possvel negligenciar, sem grave dano, os avisos de suas antenas.

    AUGUSTO DE CAMPOS

    14

    NOTA SOBRE A TRADUO

    A traduo da l.a parte do livro e do Tratado de Mtrica foi feita por Augusto de Campos, a da 2.a esteve a cargo de Jos Paulo Paes.

    A 2.a parte do ABC OF READING - destinada especialmente ao leitor de lngua inglesa - apresenta uma dificuldade particular para a traduo. Os "exhibits" ou documentos poticos: textos, muitos deles, e111 ingls arcaico, de difcil entendimento e de traduo problemtica, seno invivel. Substitu-los por verses literais seria verdadeira mutilao. Por isso mesmo, Denis Rache, o tradutor francs do livrp ( A:j!C DE LA LECTURE, NRF, Gallimard, 1967), optou por no traduzir os "exhibits", salvo num ou noutro caso, em que utilizou tradues j existentes em francs. E dssim justificou o seu critrio: "O interesse primrio dos exemplos escolhidos por Pound reside numa interpretao toda pessoal da evoluo histrica das concepes prosdicas inglesas e continentais. Nenhuma necessidade haveria, portanto, de verses francesas insuficientes quando a mera leitura fontica dos poemas ingleses j seria significativa . ..,

    Adotando, em princpio, o mesmo critrio, mantivemos esses textos em i1zgls. Decidimos, no entanto, suplementar o volume com uma antologia de te."tos de vrios dos principais poetas referidos no s na 2.a parte, como na 1.0, em que Ezra Pound apresenta a sua seleo de poemas e o seu elenco de autores em mbito universal. Encontrar, assim, o leitor, ao final do volume, uma antologia de tradues que lhe permitir acompanhar as incurses de Pound pelo universo literrio greco-latino, chins ou provenal, ingls, francs ou italiano. Alguns dos poemas traduzidos ( p.ex.. "Aura Amara",

    15

  • de Arnaut Daniel. "Donna Mi Priegha", de Guido Cavalcanti, 'O xtase", de J ohn Donne, o fragmento de "Sordello", de Robert Brou;ning - os dois ltimos, "exhibits" da 2.a parte) so textos bsicos do ABC. Dessa forma ter o leitor a possibilidade de seguir com maior proveito e de uma angulao mais ampla que a da 2.a parte do livro, restrita poesia inglesa, a perspectiva poundiana. As tradues - de Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Dcio Pignatari - foram feitas a partir dos textos originais, salvo em casos expressamente indicados, em que se julgou interessante partir da reinterpretao do prprio Pound (caso, p.ex., das verses poundianas de Homero e de Ovdio). No se trata, aqui, de verses literais, mas de recriaes, segundo os preceitos poundianos; de tradues que intentam funcionar autonomamente, reeditando, com a maior preciso possvel, os "achados" formais do original.

    A. de C.

    16

    A B C

    Ou gradus ad Parnassum, para aqueles que gostariam de aprender. Este livro no se destina aos que chegaram ao pleno conhecimento do assunto sem conhecer os fatos.

  • COMO ESTUDAR POESIA

    Este livro pretende responder necessidade de uma explicao mais completa e mais simples do mtodo delineado em How to Read (*) ( Como Ler ) . How to Read pode ser considerado como um panfleto polmico, implicando um sumrio das partes mais eficazes . ou contundentes das primeiras escaramuas crticas do autor e na tomada de conscincia de um tmmtgo. As pginas de agora sero suficientemente impessoais para que possam servir de manual. O autor espera seguir a tradio de Gaston Paris e S. Reinach, isto , elaborar um manual que tambm possa ser lido "tanto com prazer como com proveito" pelos que no esto mais na escola; pelos que nunca freqentaram uma escola; ou pelos que, em seus dias de colgio, sofreram aquelas coisas que a maior parte da minha prpria gerao sofreu .

    -

    Uma palavra especial para os professores e lentes se encontra no final do volume. No estou semeando espinhos frivolamente em seu caminho. Eu gostaria at de fazer com que os seus encargos e a sua vida se torngssem mais alegres e de preservar at a eles prprios de intil caceteao numa sala de aulas.

    (*) How to Read, de Ezra Pound, Londres, Desmond Harmsworth, 1931. O texto do volume foi incorporado a Literary Essays of Ezra Pound (1. edio, 1954, Londres, Faber & Faber, e Nova Iorque, New Directions ) . (N. do T . )

    19

  • ADVE R Tf:.NCIA

    L. H uma extenso meio "longa e fastidiosa" pela frente, logo aps o comeo do livro. O estudante ter de suport-la. Estou, nesse passo, tentando evitar por todos os meios a ambigidade, na esperana de poupar o tempo do estudante mais tarde.

    2. O solene e o sombrio ficam inteiramente deslocados mesmo no mais rigoroso estudo de uma arte que originalmente visava a alegrar o corao do homem.

    Gravity, a misterious carriage of the body to conceal the defects o/ the mind.

    Laurence Sterne ("A gravidade, misteriosa atitude do corpo para ocultar os defeitos da mente". )

    3. O duro tratamento aqui conferido a um certo nmero de escritores meritrios no sem propsito; provm da firme convico de que o nico meio de manter o melhor do que se escreve em circulao ou de "popularizar a melhor poesia" separar drasticamente o melhor, de uma grande massa de obras, que tm sido consideradas vlidas h muito tempo, que tm oprimido todo o ensino e que so responsveis pela idia corrente, extremamente perniciosa, de que um bom livro deve ser necessariamente um livl'o chato.

    Um clssico clssico no porque esteja conforme a certas regras . estruturais ou se ajuste a certas definies ( das quais o autor clssico provavelmente jamais teve conhecimen-

    21

  • to ) . Ele clssico devido a uma certa juventude eterna e irreprimvel.

    Um examinador oficial italiano, impressionado com a minha edio de Cavalcanti ( * ) , expressou sua admirao pela quase ultramodernidade da linguagem de Guido.

    Ignorantes homens de gnio esto constantemente redescobrindo "leis" de arte que os acadmicos tinham perdido ou ocultado.

    f: convico do autor, neste dia de Ano- Novo, que a msica comea a se atrofiar quando se afasta muito da dana; que a poesia comea a se atrofiar quando se afasta muito da msica; mas isto no quer dizer que toda a boa msica deva ser msica de dana ou toda a poesia, lrica. Bach e Mozart nunca se distanciam muito do movimento corporal.

    I

    Nunc est bibendum Nunc pede libero Pulsanda tellus. ( ** )

    ( ) Guido Cavalcant-i - Rime, Edizionl Marsano S.A., eMnova, 1931. V. a propsito, "Futurismo no Duecento ?", estudo de Haroldo de Campos, seguido de traduo do poema "Donna mi Pregha", em Traduzir e Trvar, de Augusto e Haroldo de Campos, So Paulo, Papyrus, 1968. (N. do T.)

    ( .. ) lt hora de beber, 1 De tanger a terra I Com o p liberto (versos extrados da Ode 37, Livro I, de Horcio). (N. do T.)

    22

    PRIMEIRA PARTE

    CAPTULO I

    1

    VIVEMOS numa era de cincia e de abundncia. O amor e a reverncia pelos livros como tais, prprios de uma poca em que nenhum livro era duplicado at que algum se desse ao trabalho de copi-lo a mo, no respondem mais, obviamente, "s necessidades da sociedade" ou preservao do saber. Precisa-se com urgncia de uma boa poda, se que o Jardim das Musas prete)'lde continuar a ser um jardim.

    O MTODO adequado para o estudo da poesia e da lite ratura o mtodo dos biologistas contemporneos, a saber, exame cuidadoso e direto da matria e contnua COMPARAO de uma "lmina" ou espcime com outra.

    Nenhum homem est equipado para pensar modernamente enquanto no tiver compreendido a histria de Agassiz e do peixe:

    Um estudante de curso de ps-graduao, coberto de honrarias e diplomas, dirigiu-se a Agassiz para receber os timos e ltimos retoques. O grande naturalista tomou um peixinho e pediu-lhe que o descrevesse.

    Estudante: - Mas este apenas um peixe-lua. Agassiz: - Eu sei disso. Faa uma descrio dele por

    escrito. Depofs de alguns minutos o estudante voltou com a des

    crio do Ichtus Heliodiplodokus ou outro termo qualquer, desses usados para sonegar do conhecimento geral o vulgar Peixe-lua: famlia dos Hellichtherinkus, etc:, como se encontra nos manuais sobre o assunto.

    23

  • Agassiz pediu ao estudante que descrevesse de novo o peixe.

    O estudante perpetrou um ensaio de quatro pginas. Agassiz ento lhe disse que olhasse para o peixe. No fim de trs semanas o peixe se encontrava em adiantado estado de decomposio, mas o estudante sabia alguma coisa a seu respeito.

    Foi desse mtodo que nasceu a cincia moderna e no da perspectiva estreita da lgica medieval suspensa no vcuo.

    "A cincia no consiste em inventar um nmero de entidades mais ou menos abstratas correspondentes ao nmero de coisas que desejamos descobrir", diz um comentador francs de Einstein. No sei se essa rude traduo de uma longa sentena em francs bastante clara para o leitor comum.

    A primeira afirmao definitiva da aplicabilidade do mtodo cientfico crtica literria o Ensaio sobre os Caracteres Grficos Chineses de Ernest Fenollosa.

    A completa vileza do pensamento filosfico oficial e -se o leitor pensar de fato cuidadosamente no que estou tentando lhe dizer - o mais terrvel insulto e, ao mesmo tempo, a prova convincente da total nulidade e incompetncia da vida intelectual organizada, na Amrica, na Inglaterra, suas universidades e suas publicaes eruditas em geral, ficariam evidenciados se eu contasse as dificuldades que encontrei pa\a conseguir ver impresso o ensaio de Fenollosa. ( * )

    Um manual no lugar para nada que possa ser bem ou mal interpretado como uma queixa pessoal.

    Digamos, portanto, que a mentalidade dos editores e dos homens de poder da burocracia literria e educacional, nos cinqenta anos que precederam 1934, nem sempre tem dife-

    ( ) O estudo de Fenollosa apareceu pela primeira vez em Instigations of Ezra Pound, Nova Iorque, Boni and Liveright, 1920, e s veio a ser reimpresso em 1936 (dois anos depois da 1. edio do Abc da Literatura) por Stanley Nott, de Londres e Arrow Editors, de Nova Iorque. O titulo definitivo do trabalho, que contava com prefcio e notas de E.P., ficou sendo The CMnese Written Character as a Meditm for Poetry (Os Caracteres Grficos Chineses como Veculo para a Poesia). O livro foi reeditado em 1951, por Square Dollar Series, Washington D.C. (N. do T .. )

    24

    rido muit,? da ,me?talidade do alfaiate Blodgett que profeti

    zava que as maqumas de costura nunca sero de uso comum"

    O ensaio de Fenollosa estava talvez adiantado demais em relao

    _ ao seu tempo para que fosse facilmente compreendido.

    Ele nao proclamava seu mtodo como um mtodo estava te?t.ndo expicar o ideograma chins como um meio de transmssao e .regtstro do pensamento. Foi raiz do problema, ratz da dtferena entre o que vlido no pensamento chins e sem .valor ou enganoso em uma grande parte do pensamento e da ltnguagem europeus. . . is a mais simples exposio que posso fazer do seu stgmftcado:

    . Na Euroa . e pedimos a um homem que defina alguma cotsa, sua deftmao sempre se afasta das coisas simples que ele conhee perfeitmente .em e retrocede para uma regio des.conhecta, que e a regtao das abstraes progressivamente mats e mats remotas.

    Assim, se lhe perguntarmos o que o vermc;:lho, ele responder: uma "cor".

    s lhe _perguntarmos o que uma "cor", dir que cor

    uma vtbraao ou uma refrao da luz ou uma diviso do espectro.

    E se lhe perguntarmos o que uma vibrao obteremos a respost ?e qe uma forma de energia, ou qualquer coisa dessa especte, ate que cheguemos a uma modalidade do ser ou do no-ser ou, de qualquer modo, penetremos num terreno ue est alm do nosso alcance e alm do alcance do nosso Interlocutor.

    Na Idade Mdia, quando no havia nenhuma cincia material, tal como agora a entendemos, quando o conhecimento humto no podia fazer com que automveis rodassem ou a eletrtctdade carregasse a linguagem atravs do ar, etc. etc., em su.ma, _

    quando. o aer conistia em pouco mais do que discrimtnaao termmologtca, havta uma grande preocupao com a termmologia e a exatido geral no emprego de termos abstratos pode ter sido ( provavelmente foi ) maior.

    . O que quero dizer que um telogo medieval tinha o cmdado de no definir um cachorro em termos que servissem Para se aplicar igualmente ao dente do cachorro ou sua pele

    25

  • ou ao barulho que ele faz quando bebe gua; mas todos os seus professores diro a vocs que a cincia se desenvolveu mais rapidamente depois que Bacon sugeriu o exame direto dos fenmenos e depois que Galileu e outros cessaram de discutir as coisas em excesso e comearam a olhar realmente para elas e a inventar instrumentos ( como o telescpio ) para v-las melhor.

    O mais til dentre os membros vivos da famlia Huxley acentuou o fato de que o telescpio no era apenas uma idia, mas, definitivamente, uma realizao tcnica.

    Em contraste com o mtodo da abstrao ou de definir as coisas em termos sucessivamente mais e mais genricos, Fenollosa encarece o mtodo da cincia, "que o mtodo da poesia", distinto do mtodo da "discusso filosfica", e que o meio de que se servem os chineses em sua ideografia ou escrita de. figuras abreyiadas.

    . . . Para comear do comeo, vocs provavelmente sabem que

    h uma linguagem falada e uma linguagem escrita, e que h duas espcies de linguagem escrita, uma baseada no . som e outra na vista.

    Falamos a um animal com uma meia dzia de rudos e gestos simples. O relato de Levy-Bruhl sobre as lnguas primitivas da frica assinala linguagens que ainda se acham presas mmica e ao gesto.

    Os egpcios acabaram por usar figuras abreviadas para representar sons, mas os chineses ainda usam figuras abreviadas COMO figuras, isto , o ideograma chins no tenta ser a imagem de um som ou um signo escrito que relembre um som, mas ainda o desenho de uma coisa; de uma coisa em uma dada posio ou relao, ou de uma combinao de coisas. O ideograma significa a coisa, ou a ao ou situao ou qualidade, pertinente s diversas coisas que ele configura.

    Crtludier-Brzeska ( *), que estava acostumado a olhar para a forma real das coisas, podia ler uma certa poro da escrita

    ( *) Henri Gaudier-Brzeska, 1891-1915, escultor franco-polons, amigo de Pound, participante, com ele e Wyndham Lewis, do Vo?ticismo, movimento de vanguarda do inicio do sculo na Inglaterra. (N. do T.)

    26

    chinesa sem QUALQUER ESTUDO. gente v logo que um cavalo" que fosse ) .

    Ele dizia: "Mas claro a ( ou uma asa ou o que qer

    Em quadros mostrando os caracteres primitivos chineses em uma coluna e os atuais signos tornados convencionais em outra, qualquer um pode ver como o ideograma para "homem"

    " , " d l" d ou arvore ou nascer o so esenvolveu-se ou "foi sim-plificado de" ou foi reduzido aos traos essenciais do primeiro desenho de "homem", "rvore" ou "nascer do sol"

    &: .

    A homem

    * rvore 8 sol

    ; sol entre ramos de rvore, como ao nascente (significado atual:

    leste)

    . Mas . quando . o chins queria fazer o desenho de alguma cotsa :na1s complicada ou de uma idia geral como que procedra? ' Ele quer definir o vermelho. Como que pode faz-lo num desenho que no seja feito com tinta vermelha? Ele rene ( ou seu antepassado reunia ) as figurl!s abreviadas de

    ROSA FERRUGEM

    CEREJA FLAMINGO

    1 . Essa, como vem, be ,a .espcie . de coisa que um bioogtsta faz ( de um modo mutttsstmo mais complicado ) quando rene. alguma .centenas ou milhares de "lminas" e extrai o i:re e

    ,nec.esano para a sua. proposio geral. Algo que se Justa a htpotese, que se aphca a todas as hipteses. d A ')alavra" o1:1 ideograma chins para vermelho basea-a em algo que todos CONHECEM.

    . (Se o ideograma se tivesse desenvolvido na Inglaterra os ?crttores teriam certame-r te usado um pintarroxo visto' de tente ou qualquer coisa menos extica do que um flamingo. )

    27

  • Fenollosa explicava como e porque a linguagem escrita dessa maneira simplesmente TINHA QUE PERMANECER POTICA; simplesmente no podia deixar de se e d .peranecer poti:t num sentido em que uma coluna upograftca mglesa podena muito bem . no permanecer potica.

    Ele morreu antes de chegar publicao e proclamao de um "mtodo".

    Este , contudo, o MEIO CERTO de estudar poesia ou lite ratura ou pintura. , de . fato, o meio pelo qual s membros mais inteligentes do pbhco em geral estudam ptntura. Se vocs querem entender alguma coisa de pintura, vo National Gallery, ao Salon Carr, ao Brera ou ao Prado e OLHEM para os quadros.

    Para cada leitor de livros de arte h 1000 pessoas que vo VER os quadros. Graas a Deus!

    CoNDIEs DE LABORATRIO

    Uma srie de coincidncias permitiu-me 1933) dem'?nstrar a tese de How to Read atravs de um meto m,

    at.s pr6J?O da poesia do que a pintura. Um grupo de mustcos senos ( Gerart Mnch, Olga Rudge, Luigi Sansoni), um teatro municipal a nossa disposio ( Rapallo), e pudemos apresentar entre outras coisas os seguintes programas:

    1 O de outubro: Dos manuscritos de Chilesotti. Transcrio de Mnch.

    Francesco da Milano: "Canzone degli Uccelli" (Cano dos Pssaros), refundida de J anequin. '

    Giovanni Terzi: Sute de Baile. Corelli: Sonata em l maior, 2 violinos e piano. J. S. Bach: Sonata em d6 maior, idem. Debussy: Sonata para piano e violino.

    5 de dezembro: Coleo Chilesotti:

    28

    Severi: duas Arias. Roncalli: Preldio, Giga, Bach: Toccata (solo de

    Busoni).

    Passacaglia. piano, ed.

    Bach: Concerto em r maior para 2 violinos e piano.

    Ravel: Sonata para violino e pianoforte.

    . !'Jo houve nada de fortuio: O ponto crucial dessa expenencta que todos os que asststuam aos dois concertos sabem agora muito mais sobre as relaes, o peso relativo, etc. de Debussy e Ravel, do que poderiam ter descoberto lendo TODAS as crticas que j foram escritas sobre ambos. O melhor volume de critica musical que eu j encontrei o S!;avinsy de oris de Scoezer. Mas o que que eu aprenru depois de le-Io que eu j no sabia antes? Estou consciente da coerncia mental de Schloezer e de sua pee!rao. Agrada:me em particular uma sentena, talvez a umca de todo o livro que eu consigo recordar ( aproximadamente): "A melodia -a coisa mais artificial em msica" ou seja, a coisa mais distante de tudo o que um composito; possa enco':trr Lf, pronto,. em estado de natureza, precisando apenas de Imttaao ou c6pta direta. , portanto, a raiz, o teste, etc.

    Este um aforsmo, uma afirmao geral. Para mim, profundamente verdadeua. Ela pode ser usada como medida de aferio para Stravinky ou qualquer outrq compositor. MAs e uanto ao conhecimento efetivo de Stravinsky? Quando BoIs de Schloezer se refere a obras que j ouvi, eu entendo a mawr parte ou talvez a totalidade do que ele quer dizer. Quando ele se refere a obras que no ouvi, eu compreendo a sua "idia geral" mas no adquiro nenhum conheci mento objetivo. Minha impresso final que ele aceitou um caso difcil, fez o mximo pelo seu cliente e por fim deixou Stravinsky entregue sua prpria sorte, embora ele tivesse explicado porque o compositor tomou um caminho errado ou no poderia ter feito de outra maneira.

    2

    Toda afirmao geral como um cheque emitido contra um banco. Seu valor depende do que est l para responder

    29

  • por ele. Se o Sr. Rockefeller emite um cheque de um milho de dlares, o cheque bom. Se eu fizer o mesmo, uma piada ou uma fraude, ele no tem nenhum valor. Levada a srio, a sua emisso se torna um ato criminoso.

    O mesmo se aplica a cheques relativos ao conhecimento. Se Marconi diz alguma coisa a respeito de ondas curtas, isso SIGNIFICA algo. Seu significado s pode ser avaliado adequadamente por algum que SAIBA.

    Vocs no aceitariam cheques de um estrangeiro sem re ferncias. A referncia de um escritor o seu "nome". De pois de um certo tempo, ele passa a ter crdito. Este pode ser slido, ou pode ser como o do saudoso Sr. Kreuger.

    A manifestao verbal que implica um cheque bancrio se parece a qualquer outra na mesma relao.

    Seu cheque, quando bom, significa em ltima anlise a entrega de algo que v.oc quer.

    Uma afirmao abstrata ou genrica BOA_ quando se ve rifica, em ltima anlise, que ela corresponde aos fatos.

    Mas nenhum leigo ser capaz de dizer primeira vista se ela boa ou m.

    Da (omitindo vrias etapas intermedirias) . . . da o estgio praticamente estacionrio do conhecimento durante a Idade Mdia. Os argumentos abstratos no levam a humanidade rapidamente para diante nem lhe permitem ampliar rapi damente os limites do conhecimento.

    O MTODO IDEOGRMICO OU MTODO DA CINCIA

    Ponha um quadro de Carlo Dolci ao lado de um de Cosimo Tura. Voc no pode impedir o Sr. Buggins de preferir o primeiro, mas pode criar um srio obstculo para que ele esta belea uma falsa tradio de ensino com base na suposio de que Tura jamais existiu ou de que as qualidades de Tura no existem ou esto fora do campo do possvel.

    Uma afirmao geral vlida somente com REFERNCIA a objetos ou fatos conhecidos.

    Mesmo que a afirmao geral de um ignorante seja "verdadeira", ela no ter maior validade, vinda de sua boca ou de sua pena. Ele no SABE o que est dizendo. Isto , ele no

    JO

    sabe o que diz ou no o quer dizer com o mesmo grau de cons cincia com que um homem experiente o diria ou quereria dizer. Assim, um rapaz muito jovem pode estar muito "certo" c no parecer convincente a um velho, que est errado e que pode muito bem estar errado e, contudo, saber uma poro de coisas que o jovem no sabe.

    Um dos prazeres da Idade Mdia era descobrir que algum ESTAVA certo, e que estava muito mais certo do que sabia aos 17 ou aos 23 anos.

    Isso no exclui, de forma algum-a, o uso da lgica, das conjeturas, das intuies e das percepes globais, ou da: viso de "como a coisa TINHA QUE SER ASSIM".

    algo, porm, que tem muito que ver com a eficincia da manifestao verbal e com a capacidade de transmitir um juzo.

    31

  • CAPTULO Il

    O que literatura, o que linguagem, etc.?

    Literatura linguagem carregada de significado. "Grande literatura simplesmente linguagem carregada

    de significado at o mximo grau possvel" ( E.P. em How to Read).

    Mas, linguagem? Falada ou escrita? Linguagem falada rudo dividido num sistema de gru

    nhidos, assobios, etc. Isso chamado de fala "articulada". "Articulada" significa que ela est dividida em zonas e

    que um certo nmero de pessoas est de acordo com esse zoneamento.

    Vale dizer que estamos mais ou menos concordes quanto aos diferentes rudos representados por

    a, b, c, d, etc.

    A linguagem escrita, como afirmei no primeiro captulo, pode consistir ( como na Europa, etc. ) em signos representando esses vrios rudos.

    As pessoas se pem mais ou menos de acordo em que grupos desses rudos ou signos devem corresponder a determinado objeto, ao ou condio.

    gato, movimento, rseo.

    A outra espcie de linguagem comea como um desenho d gato, ou de algo que se move ou existe, ou de um grupo

    32

    de coisas que ocorre sob certas circunstncias ou que participa de uma qualidade comum a todas elas.

    ABORDAGEM

    Pouco importa, no mundo contemporneo, por onde se inicia o exame de um assunto, desde que se persista at voltar outra vez ao ponto de partida. Digamos que voc comece com uma esfera ou um cubo; voc deve continuar at que os tenha visto de todos os lados. Ou se voc pensar no seu assunto como numa banqueta ou numa mesa, voc deve persistir at que ele tenha trs pernas e fique de p ou tenha quatro pernas e deixe de balanar com facilidade.

    QuAL a UTILIDADE D:A LINGUAGEM? POR QUE ESTUDAR LITERATURA?

    A linguagem foi obviamente criada e , obviamente, UTILIZADA para a comunicao.

    "Literatura novidade que PERMANECE noidade."

    Mas h gradaes nisso. Sua comunicao pode ser ma1s ou menos exata. O INTERESSE numa afirmao pode ser mais ou menos duradouro.

    No posso, por exemplo, esgotar meu interesse no Ta Hio de Confcio ou nos poemas homricos.

    :h muito difcil ler o mesmo romance policial duas vezes. Em outras palavras, somente um policial muito bom ser passvel de releitura, depois de um longo intervalo, e isso porque a gente prestou to pouca ateno a ele que j esqueceu quase completamente a sua histria.

    Esses so fenmenos naturais, que servem como fitas mtricas ou instrumentos de medio. No h "medidas" idnticas para duas pessoas.

    O crtico que no tira suas prprias concluses, a propsito das medies que ele mesmo fez, no digno de confiana. Ele no um medidor mas um repetidor das concluses de outros homens.

    JJ

  • KRINO, fazer a sua prpria seleo, escolher. isto o que a palavra significa.

    Ningum faria a tolice de me pedir para escolher um cavalo ou mesmo um automvel para os outros.

    Pisanello pintou cavalos de tal maneira que a gente se recorda da pintura e o Duque de Milo o enviou a Bolonha para COMPRAR cavalos.

    Escapa minha compreenso o motivo pelo qual uma espcie semelhante de "faro eqiiestre" no possa ser aplicada ao estudo da literatura.

    Bastava a Pisanello OLHAR para os cavalos. Se algum quiser saber alguma coisa sobre poesia, dever

    fazer uma das duas coisas ou ambas. I. , OLHAR para ela ou escut-la. E, quem sabe, at mesmo pensar sobre ela.

    E se precisar de conselhos, deve dirigir-se a algum que ENTENDA alguma coisa a respeito dela.

    Se vocs quisessem saber alguma coisa sobre automveis, iriam procurar algum que tivesse construdo e guiado um carro, ou algum que apenas ouviu falar de automveis? E, entre dois homens que construram automveis, vocs procurariam o que fez um bom carro ou o que fez um calhambeque?

    Vocs iriam ver o carro ou se contentariam com a sua descrio?

    No caso da poesia, h ou parece haver uma poro de coisas a olhar. E parece haver muito poucas descries autnticas que tenham alguma utilidade.

    Dante diz: "Uma canzone uma composio de palavras postas em msica."

    No conheo melhor ponto de partida.

    Foi Coleridge ou De Quincey quem disse que a qualidade de um "grande poeta est presente em toda parte e em nenhuma parte visvel como um estmulo evidente", ou alguma coisa parecida.

    Este seria um ponto de partida mais perigoso. E provavelmente certo.

    34

    A afirmao de Dante o melhor ponto para comear porque ela faz o leitor ou o ouvinte partir daquilo que ele efetivamente v ou ouve, em lugar de distrair sua mente dessa realidade e faz-Ia volt'.lr-se para alguma coisa que s pode ser mais ou menos deduzida ou conjeturada A PARTIR DA realidade e cuja evidncia no pode ser seno uma extenso particular e limitada da realid'.lde.

    35

  • CAPTULO III

    1

    A literatura no existe num vcuo. Os escritores, como tais tm uma funo social definida, exatamente proporcional sa competncia COMO ESCRITORES. Essa a sua principal utilidade. Todas as demais so relativas e temporrias e s podem ser avaliadas de acordo com o ponto de vista particular de cada um.

    Os partidrios de idias particulares podem dar mas valor a escritores que concordem com eles do que a escntores que no concordem; podem dar - : usualmene._

    do - mais valor a maus escritores do seu part1do ou rehg1ao do que a bons escritores de outro partido ou igreja.

    Mas 'h uma base suscetvel de avaliao e que indepen-

    dente de todas as questes de ponto de vista. . Os bons escritores so aqueles que mantm a lmguagem

    eficiente. Quer dizer, que mantm. a sua precis, . a sua clareza. No importa se o bom escntor quer ser uul ou se o mau escritor quer fazer mal.

    A linguagem o principal meio de comunicao huma..?a. Se o sistema nervoso de um animal no transmite sensaoes e estmulos, o animal se atrofia.

    Se a literatura de uma nao entra em declnio a nao se atrofia e decai.

    O legislador no pode legislar para o bem pblico, o comandante no pode comandar, o . povo ( se se tratar de um pas democrtico ) no pode instruir os seus "representantes" a no ser atravs da linguagem.

    36

    A linguagem nebulosa dos trapaceiros serve apenas a objetivos temporrios. . Uma certa soma de comunicaes que dizem respe1to a assuntos especiais veiculada atravs de frmulas matemticas atravs das artes plsticas, de diagramas, de formas puramete musicais, mas ningum proporia que tais formas substitussem a fala comum ou mesmo sugeriria que isso fosse possvel ou aconselhvel.

    UBICUNQUE LINGUA ROMANA, IBI ROMA

    A Grcia e Roma civilizaram VIA LINGUAGEM. A linguagem de vocs est nas mos de seus escritores.

    ["lnsults o'er dull and speechless tribes" 1 ( "Insultos sobre a tribo obtusa e muda" )

    mas essa linguagem no serve apenas para registro de grandes feitos. Horcio e Shakespeare podem proclamar o seu valor monumental e mnemnico, mas isso no esgota a matria.

    Roma se elevou com o idioma de Csar, Ovdio e Tcito e decaiu num banho de retrica, a linguagem dos diplomatas, "feita para ocultar o pensamento" e assim por diante.

    O homem lcido no pode permanecer quieto e resignado enquanto o seu pas deixa que a literatura decaia e que os bons escritores sejam desprezados, da mesma forma que um bom mdico no poderia assistir, quieta e resignadamente, a que uma criana ignorante contrasse tuberculose pensando que estivesse simplesmente chupando bala.

    muito difcil fazer com que as pessoas compreendam a indignao impessoal que a decadncia da literatura pode provocar em homens que compreendem o que isso implica e a que fim isso pode levar. quase impossvel exprimir o menor grau que seja dessa indignao sem que chamem a gente de "amargurado" ou qualquer coisa desse gnero.

    No entanto, o "estadista no pode governar, o cientista pode comunicar suas descobertas, os homens no podem

    3 7

  • se entender sobre a ao mais conveniente, sem a linguagem" e todos os seus atos e condies so afetados pelos defeitos ou virtudes do idioma.

    Um povo que cresce habituado m literatura um povo que est em vias de perder o pulso de seu pas e o de si prprio.

    E essa frouxido e esse relaxamento no so nem to simples nem to escandalosos como a sintaxe brusca e desordenada.

    Isso diz respeito relao entre a expresso e o significado. A sintaxe brusca e desordenada pode s vezes ser muito honesta e, de outro lado, uma sentena elaboradamente construda pode ser s vezes apenas uma camuflagem elaborada.

    2

    A soma da sabedoria humana no est contida em nenhuma linguagem e nenhuma linguagem em particular CAPAZ de exprimir todas as formas e graus da compreenso humana.

    Esta uma doutrina amarga e pouco agradvel ao paladar. Mas no posso omiti-la.

    De vez em quando as pessoas desenvolvem quase que uma espcie de fanatismo para combater as idias "fixas" numa determinada linguagem. Esses so, genericamente falando, "os preconceitos da nao" ( qualquer nao ) .

    Climas diferentes e sangues diferentes tm necessidades diferentes, diferentes espontaneidades, diferentes averses, diferentes relaes entre diferentes grupos de impulso e retraimento, diferentes conformaes de garganta, e todas essas coisas deixam seus traos na linguagem e a tornam mais ou menos apta para certas comunicaes e certos registros.

    A AMBIO no LEITOR pode ser medocre e a ambio de dois leitores no h de ser idntica. O professor s. pode ministrar os seus ensinamentos queles que mais querem aprender, mas ele pode sempre despertar os seus alunos com um "aperitivo", ele pode ao menos fornecer-lhes uma lista das

    38

    coisas que vale a pena aprender em literatura ou num determinado captulo dela.

    O primeiro pntano da inrcia pode ser devido mera ignorncia da extenso do assunto ou ao simples propsito de no se afastar de uma rea de semi-ignorncia. A maior barreira erguida, provavelmente, por professores que sabem um pouco mais que o pblico, que querem explorar sua frao de conhecimento e que so totalmente avessos a fazer o mnimo esforo para aprender alguma coisa mais.

    39

  • CAPTULO IV

    1

    "Grande literatura simplesmente linguagem carregada de significado at o mximo grau possvel."

    Dichten = condensare.

    Comeo com a poesia porque a mais condensada forma de expresso verbal. Basil Bunting ( * ) , ao folhear um dicio nrio alemo-italiano, descobriu que a idia de poesia como concentrao quase to velha como a lngua germnica. "Dichten" o verbo alemo correspondente ao substantivo "Dichtung", que significa "poesia" e o lexicgrafo traduziu-o pelo verbo italiano que significa "condensar".

    A saturao da linguagem se faz principalmente de trs maneiras: ns recebemos a linguagem tal como a nossa raa a deixou; as palavras tm significados que "esto na pele da raa" ; os alemes dizem, "wie in den Schnabel gewaschsen": como que nascidas do seu bico. E o bom escritor escolhe as palavras pelo seu "significado". Mas o significado no algo to definido e predeterminado como o movimento do cavalo ou do peo num tabuleiro de xadrez. Ele surge com razes, com associaes, e depende de como e quando a palavra comumente usada ou de quando ela tenha sido usada brilhante ou memorvelmente.

    ( * ) Basil Bunting, poeta ingls, autor do Redimiculum M atellarum ( 1930) e Poem. ( 1951 ) . A ele e Louis Zukofsky, "lutadores no deserto", E.P.H.dedicou o seu livro de ensaios Guide to Kulchur ( 1938 ) . (N. do T. )

    40

    difcil dizer "incarnadine" ( tornar encarnado ) sem que um ou mais dos nossos ouvintes pensem num verso particular.

    Numerais e palavras que se referem a invenes humanas tm significados rgidos, definidos. Isto , significados que so mais incisivos que os das "associaes" de uma palavra.

    Bicicleta, hoje, tem um sentido preciso. Mas tandem, ou "bicicleta para dois", provavelmente

    suscitar uma imagem dos anos passados na tela mental do leitor.

    No h limite para o nmero de qualidades que algumas pessoas podem associar com uma dada palavra ou espcie de palavra, e muitas delas variam de indivduo para indivduo.

    preciso remontar aos textos crticos de Dante para se encontrar uma srie de categorias OBJETIVAS para as palavras. Dante chamava-as de "oleosas" e "cabeludas" de acordo com os diferentes RUDOS que elas fazem. Ou pexa et hirsuta, penteada e hirsuta.

    Ele tambm as dividia segundo as diferentes associaes.

    CONTUDO, as palavras ainda so carregadas de significado principalmente por trs modos: fanopia, melopia, logopia. Usamos uma palavra para lanar uma imagem visual na imaginao do leitor ou a saturamos de um som ou usamos grupos de palavras para obter esse efeito.

    Em terceiro lugar, assumimos o risco ainda maior de usar a palavra numa relao especial ao "costume", isto , ao tipo de contexto em que o leitor espera ou est habituado a encontr-la.

    Este o ltimo mtodo a desenvolver e s pode ser usado pelos sofisticados.

    (Se vocs querem realmente compreender o que eu estou falando, tm de ler, afinal, Proprcio e Jules Laforgue . )

    Se vocs estivessem estudando qumica diriam a vocs que h um certo nmero de elementos, um certo nmero de produtos qumicos mais usuais, que tm maior aplicao ou so mais fceis de encontrar. E para maior clareza de suas experincias, dariam a vocs provavelmente essas substncias em estado 'puro', ou pelo menos to puro quanto possvel.

    41

  • SE VOCS FOSSEM UM GUARDA-LIVROS CONTEMPORNEO, provavelmente usariam o sistema da folha solta, pelo qual as casas de negcio separam os arquivos dos fatos que esto em uso ou que so necessitados com freqncia.

    Iguais comodidades so possveis no estudo de literatura.

    Qualquer apreciador de pintura sabe que as galerias modernas pem grande nfase na "boa colocao" dos quadros, isto , em colocar os quadros importantes onde eles possam ser bem vistos e onde o olho no fique confuso ou os ps fatigados de procurar uma obra-prima numa vasta extenso de parede entulhada com um monte de drogas.

    Neste ponto, no posso deixar de reproduzir uma srie de categorias que antecedem de muito ao meu prprio How to Read ( Como Ler ) . ( -;, )

    2

    Se nos dispusermos a ir em busca de "elementos puros" em literatura, acabaremos concluindo que ela tem sido criada pelas seguintes classes de pessoas :

    1 . Inventores. Homens que descobriram um novo processo ou cuja obra nos d o primeiro exemplo conhecido de um processo.

    2 . Mestres. Homens que combinaram um certo nmero de tais processos e que os usaram to bem ou melhor que os inventores.

    3 . Diluidores. Homens que vieram depois das duas primeiras espcies de escritor e no foram capazes de realizar to bem o trabalho.

    { * ) O livro How to Read de 1931. A primeira edio dest ABC data de 1934. A "srie de categorias" reproduzida a seguir deve ter aparecido, pela primeira vez. numa verso primitiva de How to Read publicada sob o titulo "Books", no New Yorlc Herald, 1927 ou 28. { N. do T.)

    42

    4 . Bons escritores sem qualidades salientes. Homens que tiveram a sorte de nascer numa poca em que a literatura de seu pas est em boa ordem ou em que algum ramo particular da arte de escrever "saudvel" . Por exemplo, homens que escreveram sonetos no tempo de Dante, homens que escreveram poemas curtos no tempo de Shakespeare ou algumas dcadas a seguir, ou qe escreveram romances e contos, na Frana, depois que Flaubert lhes mostrou como faz-lo.

    5 . Beletristas. Homens que realmente no inventaram nada, mas que se especializaram em uma parte particular da arte de escrever, e que no podem ser considerados "grandes homens" ou autores que tentaram dar uma representao completa da vida ou da sua poca.

    6 . Lanadores de modas.

    Enquanto o leitor no conhecer as duas primeiras categorias, ser incapaz de "distinguir as rvores da floresta". Ele pode saber de que "gosta". Ele pode ser um "verdadeiro amador de livros", com uma grande biblioteca de volumes magnificamente impressos, nas mais caras e vistosas encadernaes, mas nunca ser capaz de ordenar o seu conhecimento ou de apreciar o valor de um livro em relao a outros, e se sentir ainda mais confuso e menos capaz de formular um juzo sobre um livro cujo autor est "rompendo com as convenes" do que sobre um livro de oitenta ou cem anos atrs.

    Ele jamais compreender a razo pela qual um especialista se mostra irritado com ele ao v-lo exibir pomposamente uma opinio de segunda ou terceira mo a propsito dos mritos do seu mau autor favorito.

    At que vocs tenham feito a sua prpria vistoria e o seu prprio exame detalhado, convm acautelar-se e evitar aceitar opinies:

    1 . De homens que no tenham, eles mesmos, produzido obra importante ( ver pg. 23 ) .

    2 . D homens que no assumiram o risco de publicar os resultados de sua inspeo pessoal, ainda que a tenham feito seriamente.

    43

  • 3

    CoMPAsso, SEXTANTE ou BALISAS

    Que o estudante se arme e se prepare para o pior. Estamos prximos da minha lista do mnimo que indispensvel ler para se saber o valor de um novo livro. O mesmo que lhe seria necessrio para saber se um salto de vara foi notavel mente alto ou se um jogador de tnis tem condies para disputar uma partida na Taa Davis.

    Vocs podem pensar que no h nenhum risco em publicar essa lista ou que isso "seria a ltima coisa sobre a qual o leitor poderia se equivocar". Mas parece no haver limite para os equvocos que as pessoas podem fazer quando no do o melhor dos seus esforos para compreender o que um escritor quer dizer.

    propsito dessa lista, um crtico engenhoso ou ingnuo sgenu que certos poemas foram nela includos porque eu os tmha traduzido. A idia de que durante vinte e cinco anos de pesquisa eu haja traduzido os poemas PORQUE eles tinham posies-chaves ou eram as melhores ilustraes parece no lhe ter ocorrido. Ele superou-se a si prprio ao pretender que o poema de Bion ( '" ) foi um segundo pensamento fora de lugar e que eu o confundira com um poema de Masco ( ** ) que ele prprio havia traduzido. Eis o que acontece quando a gente procura cansar as pessoas o menos possvel colocando o assunto num mnimo de espao.

    Sculos separam Bion de Homero e de Safo. Ao estudar as primeiras partes da lista, a ateno deveria fixar-se - penso eu - na ESCRITA, no discurso, na claridade da expresso mas no se concentraria naturalmente nos artifcios meldico na adequao das palavras, seu SOM e mesmo seu significado melodia.

    ( * ) Bion, sc. III a.C., poeta buclico grego, n. em Esmirna; autor de um canto fnebre em honra de Adnis. (N. do T. )

    ( * * ) Mosco ou Mpscos, :>c. III a.C., poeta siracusiano, autor de um Canto fnecrc em honra de Bion. ( N. do T. )

    44

    O poema de Bion colocado junto com os dos trovadores para oferecer um contraste a fim de impedir o leitor de pensar que uma srie ou meia dzia de sries de artifcios meldicos esgotavam o assunto.

    MAIS OU MENOS NESTE PONTO o leitor de flego curto costuma sentar-se beira da estrada, tirar os sapatos e choramingar que ele " mau lingista" ou que ele ou ela no do para aprender todas essas lnguas.

    Temos que separar os leitores que querem se tornar "experts" daqueles que no querem, e separar, por assim dizer; aqueles que querem ver o mundo daqueles que apenas querem saber EM QUE PARTE DO MUNDO ELES VIVEM.

    Quando se trata de poesia, h uma poro de gente que nem mesmo sabe que o seu pas no ocupa TODA a superfcie til do planeta. A simples idia disso parece um insulto a tais pessoas.

    E no entanto o maxrmo de fanopia ( a proJeao de uma imagem visual sobre a mente ) provavelmente alcanado pelos chineses, em parte devido particular espcie de sua linguagem escrita.

    Nas lnguas que conheo ( e que no incluem o persa e o rabe ) o mximo de melopia alcanado no grego, com certos desenvolvimentos em provenal que no se acham no grego e que configuram uma ESPCIE diferente da do grego.

    E estou firmemente convicto de que se pode aprender mais sobre poesia conhecendo e examinando realmente alguns dos melhores poemas do que borboleteando em torno de um grande nmero deles. De qualquer forma, uma grande quantidade de falsos ensinamentos devida suposio de que os poemas conhecidos da crtica so necessariamente os melhores.

    Minhas listas so um ponto de partida e um desafio. Este desafio foi lanado j h um certo nmero de anos e ningum o aceitou. Houve muitas lamrias, mas ningum props uma lista rival, ou apresentou outros poemas como melhores exemplos de uma determinada virtude ou qualidade.

    Anos atrs um msico me disse: "Mas no h um lugar onde voc possa encontrar tudo ( ele queria dizer " tudo a respeito de poesia" ) como em Bach?"

    45

  • No h. Acredito que quem souber realmente o grego poder encontrar quase "tudo" em Homero.

    Nunca li meia pgina de Homero sem encontrar inveno meldica, isto , inveno meldica que eu ainda no conhecia. De outra parte, achei tambm em Homero aquele espectador imaginrio que em 1918 eu ainda pensava que fosse propriedade particular de Henry James.

    Hoinero diz: "um soldado experimentado o teria notado". As qualidades literrias de Homero so de tal ordem que um mdico j escreveu um livro para provar que Homero devia ser um clnico do exrcito. ( Quando ele descreve certos golpes e seu efeito, a descrio dos ferimentos feita com tanta preciso que parecem prprias para o relatrio de um mdico legista . )

    Outro estudioso francs demonstrou mais ou menos que a geografia da Odissia correta, no como a encontraramos num livro ou numa carta geogrfica, mas como um piloto de barra a encontraria ao fazer um "priplo".

    A informao nova na Odissia ainda nova. Odisseu ( Ulisses ) ainda "mui to humano"; no de nenhum modo um presunoso ou uma bela figura de tapearia. muito difcil descrever certas conversaes homricas, a ironia, etc. sem fazer uso de neologismos e meus editores sugeriram que eu os evitasse. A nica traduo legvel que conheo desse aspecto de Homero foi feita por Amadis Jamyn, secretrio e leitor regular do Rei ( Henrique III de Frana ) . Ele se refere a Odisseu como "ce rus personnage" ( esse ladino personagem ) .

    impossvel trocar Odisseu pelo Enias de Verglio. Odisseu positivamente "o sujeito sabido", o matreiro, o obstinado Odisseu. A maioria dos seus companheiros parece sofrer de algo que deve ter sido o equivaiente grego da neurose de guerra.

    E a linguagem das conversas to viva como a dos personagens de Edgar Wallace quando dizem: "acabamos de perder um cliente".

    W. B. Yeats j suficientemente venerado para ser citado num livro escolar. O abismo entre Homero e Verglio pode ser ilustrado profanamente por uma das anedotas favoritas de Yeats.

    46

    Um marinheiro resolveu tomar umas lies de latim. O professor comeou a dar-lhe Verglio e depois de muitas lies perguntou-lhe alguma coisa a respeito do heri.

    - Que heroi? - disse o marinheiro. - Ora, que heri. Enias, o heri - disse o professor. - Que, um heri, ele, um heri? Pxa! Eu 'tava certo

    que ele era um padre.

    H uma qualidade que une todos os grandes escritores: escolas e colgios so DISPENSVEIS para que eles permaneam vivos para sempre. Tirem-nos do currculo, lancem-nos poeira das bibliotecas, no importa. Chegar um dia em que um leitor casual, no subvencionado nem corrompido, os desenterrar e os trar de novo tona, sem pedir favores a ningum.

    Verglio era a literatura oficial da Idade Mdia, mas "todo mundo" continuava lendo Ovdio. Dante dirige todos os seus agradecimentos a Verglio ( soube apreciar o melhor dele ) , mas o efeito direto e indireto de Ovdio na obra efetiva de Dante talvez maior que o de Verglio.

    Verglio renasceu em 1514 em parte ou possivelmente porque Gavin Douglas conhecia o mar melhor do que ele.

    Ao leitor apaixonado por Vergio que deseje fazer um libelo contra mim recomendo que comece seu ataque separando a parte da Eneida em que Verglio estava diretamente interessado ( poder-se-ia quase que dizer, o elemento folclrico ) das partes que ele escreveu principalmente porque estava tentando escrever um poema pico.

    Eu lhes prometi um livro de textos e pareo talvez estar dando voltas, como se tivssemos sado para fora, para aprender botnica das rvores, em vez de estud-las nas gravuras da sala de aulas. Isto acontece em parte por causa das pessoas que lamentaram que eu lhes dava listas sem dizer por que eu havia escolhido tal ou qual escritor. .

    Vocs NUNCA SABERO por que eu os escolh1 ou por que eles mereceram ser escolhidos, ou ainda, por que vocs aprovam

    47

  • ou desaprovam a minha escolha, at irem aos TEXTOS, aos. originais.

    E quanto mais depressa vocs forem aos textos, menos necessidade tero de dar ouvidos a mim ou a qualquer outro crtico fastidioso.

    Um homem que escalou o Matterhorn pode preferir Derbyshire Sua, mas ele no h de pensar que esse pico a mais alta montanha da Europa.

    Uma epopia um poema que inclui histria. O teatro grego depende muito do conhecimento que os

    espectadores ou os leitores tenham de Homero. Estou convicto e .que muitos defeitos no teatro grego. Mas nunca tentana Impedir que algum lesse Esquilo ou S6focles. No h nada neste livro que obrigue a restringir as leituras de uma pessoa ou a impea de ler aquilo de que ela goste.

    Em ltima anlise, penso que todo homem animado de uma . razovel curiosidade literria h de ler o Agamenon de sq

    ,uilo. Mas se ele pe?sar no teatro como meio de expresso,

    vera que enquanto o veiculo da poesia so PALAVRAS, o veculo do teatro so pessoas em movimento sobre o palco usando pa!avras. Isto , as palavras constituem apenas uma parte do veiculo e as lacunas entre elas, ou as deficincias dos seus significados, podem ser preenchidas por "ao".

    Pessoas que examinaram o assunto com critrio e iseno et . absolutamente convencidas de que a mxima carga de sigmficdo verbal no pode ser usada no palco, exceto por breves mstantes. "Leva tempo para que ela seja apreendida", etc.

    Este no um manual de teatro ou de crtica teatral. Seria injusto para um dramaturgo considerar suas PALAVRAS ou mesmo suas palavras e sua versificao como se fossem a plenitude da sua obra.

    Enquanto MATERIAL DE LEITURA no creio que OS drJmaturgos gregos cheguem aos ps de Homero. Mesmo. squilo retrico. Mesmo no Agamenon h quantidades de palavras que no funcionam como material de leitura, i.e, que no so necessrias ao entendimento do assunto.

    48

    SAFO

    Coloquei o grande nome de Safo na lista por sua antiguidade e porque to pouco resta de sua obra que tanto se pode l-Ia como omiti-la. Se vocs a leram, sabero que no h nada melhor. No conheo melhor ode que a POII

  • No creio que haja autores latinos que se possam medir com Homero. Duvido que Catulo seja inferior a Safo. Duvido que Proprcio seja um milmetro inferior aos seus antecessores gregos; Ovdio para ns o repositrio de uma vasta quantidade de matria que no podemos MAIS encontrar nos gregos.

    Ele desigual. Ele claro. A sua poesia to lcida quanto a sua prosa. Do ponto de vista mtrico ele no se compara com Catulo ou Proprcio.

    Talvez o estudante comece a compreender agora que eu estou tentando dar-lhe uma lista de autores que jamais foram superados NOS SEUS PRPRIOS DOMNIOS, ao passo que OS escritores que omito so evidentemente INFERIORES a um ou vrios dos escritores que incluo e sua inferioridade pode ser demonstrada a partir de uma base particular.

    TENHAM PACINCIA. Eu no estou insistindo em que vocs aprendam uma multido de lnguas estrangeiras. Pretendo at dizer-lhes - no devido tempo - o que vocs podem fazer se souberem ler apenas o ingls.

    Em outras palavras, depois de tantos anos dispus-me a elaborar uma lista dos livros que ainda sou capaz de reler que ponho sobre a escrivaninha e volto a percorrer de qando em quando.

    CAPTULO v

    1

    A grande ruptura na histria literria europia devida passagem das lnguas flexionadas para as lnguas no flexionadas. E um monte de disparates crticos foi escrito por gente que no percebeu a diferena entre umas e outras.

    O grego e o latim so lnguas flexionadas, vale dizer, os substantivos, verbos e adjetivos tm pequenos apndices ou caudas que se mexem e os apndices informam se o substantivo sujeito ou predicado; indicam o que age e aquilo sobre o qual a ao se opera, direta ou indiretamente, ou aquilo que apenas -fica por perto, em relao mais ou menos causal, etc.

    A maior parte desses apndices foi esquecida durante a evoluo das lnguas europias contemporneas. No alemo, idioma menos desenvolvido, permanecem muitas formas flexionadas.

    O melhor modo de utilizar uma lngua que possua esses signos ou rtulos ligados s palavras NO o melhor modo de utilizar uma lngua que tem de ser escrita numa determinada ordem para ser clara.

    muito diferente dizer em ingls "man sees dog" ( homem v cachorro ) e "dog sees man" ( cachorro v homem ) .

    Em latim tanto "cannis" como "canem", "homo" como "hominem", podem vir primeiro sem que a sentena fique nem um pouco ambgua.

    Quando Milton escreve: Him who disobeys me disobeys

    50 51

  • est simplesmente maltratando sua lngua materna. Ele queria dizer:

    Who disobeys him, disobeys me ( "Quem lhe desobedece, me desobedece" )

    muito fcil compreender POR QUE ele procedeu -assim, mas as suas razes apenas demonstram que Shakespeare e algumas dzias de outros homens eram melhores poetas. Milton assim fez porque era unha e carne com o latim. Ele estudou o seu ingls no como urna lngua viva, mas corno algo subordinado a teorias.

    Who disobeys him, disobeys me no d um bom verso. O som fica melhor l onde o idioma claudica. Quando a -arte de escrever perfeita a gente NO precisa desculpar-se ou sair C!!ta de razes por ter cometido urna falta.

    2

    Minha lista de poemas medievais talvez mais difcil de explicar.

    Urna vez consegui que um suJeito se pusesse a traduzir o Seafarer ( Navegante ) ( * ) para o chins. O poema saiu quase que diret-amente em versos chineses, com dois ideogramas chapados em cada meia linha.

    parte o Seafarer no sei de outros poemas europeus daquele perodo que possam ser colocados ao lado da "Carta do Exlio" de Li Po, situando o Ocidente no mesmo nvel do Oriente.

    H p-assagens no anglo-saxo to boas como os pargrafos do Seafarer, mas no encontrei nenhum poema inteiro do mesmo valor. O Cid espanhol urna narrativa de grande

    ( '') The Seafarer - um dos mais antigos textos poticos da literatura anglo-saxnica (sc. X) . Pound traduziu-o admiravelmente para o ingls moderno em seu livro Ripostes ( 1912). Ver na 3. parte deste volume, a traduo de um fragmento desse texto. (N. do T. )

    52

    clareza e as sagas de Grettr e Burnt Nal provam que -a capacidade narrativa no estava esgotada.

    No h nada que um escritor contemporneo pudesse aprender nas sagas que ele no possa aprender melhor de Flaubert, mas o salto de Skarpheddin e a sua corrida no gelo e o encontro de Grettir - ou de um outro qualquer - com o urso no se apagam da memria da gente. Nem parece fico. Aigurn islands encantoado num precipcio deve ter conseguido algum dia escapar das garras de um urso fazedo com que este perdesse o equilbrio. Num certo sentido, Isto fanopia, a projeo de uma imagem _na retina mental: , . A falha da propaganda do Imagisrno, nos seus Intcios, no era devida a urna teoria errada mas a urna teoria incompleta. Os diluidores pegaram o significado mais fcil de manejar e s pensaram numa imagem ESTACIONRIA. Se no se consegue pensar no Irnagisrno ou na fanopia como abra_ne_?tes da imagem em movimento, precisa-se fazer urna divisao realmente .desnecessria entre imagem fixa e praxis ou -ao.

    Eu adoto o termo fanopia para evitar toda conotao particular irrelevante associada com um grupo particular de jovens que escrevia em 1912.

    3

    principalmente por causa da melopia que devemos pesquisar a poesia dos trovadores.

    Pode-se dizer mesmo que toda a cultura da poca, ou pelo menos a massa da cultura puramente literria da poca, de 1050 a 1250 e ainda depois at 1300, estava concentrada num nico problema esttico, que, segundo Dante, "inclui toda a arte".

    Essa "arte total" consistia em reunir cerca de seis estro-fes de poesia de tal forma que palavras e sons se soldassem sem deixar marcas ou falhas.

    Arnaut Daniel, ( * ) o melhor artfice ( "il rniglior fabbro" ) , corno Dante o chamou, no se referiu apenas a pssaros que

    ( : ) Arnaut Daniel, poeta provenal do fim do sculo XII. ( N. do T.)

    53

  • cantavam. . Ele, efetivamente, fez os pssaros cantarem EM suAs PALAVRAS na cano que comea assim:

    L' aura amara Fals bruoills brancutz Clarzir

    Quel doutz espeissa ab fuoills. Els letz Becs Dels auzels ramencz Ten balps e mutz

    etc.

    E tendo feito isto nessa primeira estrofe, ele manteve o esquema at o fim, repetindo a cadncia e encontrando ainda cinco rimas para cada um dos dezessete sons terminais que se seguem na mesma ordem. ( * )

    Alm disso ele construiu uma outra estrofe perfeita, em que o canto do pssaro interrompe o verso:

    Cadahus En son us

    Mas pel us Estauc clus ( * * )

    E segue assim por seis estrofes COM as palavras fazendo sentido.

    . A msica desas ,canes se perdeu, mas a tradio res

    surgtu cerca de tres seculos mais tarde. Clement Janequin escreveu um coro com sons para os

    cantores das dtferentes partes do coro. Esses sons no teriam qualquer valor literrio ou potico sem a msica, mas quando rancesco da Milano , s adaptou para o alade os pssaros amda estavam na mustca. E quando Mnch os transcreveu

    ( * ) Ver na 3. parte a traduo integral deste poema. (N. do T. )

    ( * * ) Os dois pares de versos citados pertencem, respectivamente, primeira e terceira estrofe do poema "Autet e bas entreis prims fuoills" de Arnaut Daniel. (N. do T.)

    54

    para instrumentos modernos os pssaros ainda estavam l. EJes ainda ESTO l na parte de violino ( * ) .

    Eis porque o monumento sobrevive ao bronze.

    Em contraposio a esse tipo de artesanato eu coloco, intencionalmente, a msica sincopada ou o contraponto da Morte de Adnis greco-sria, percorrida, por assim dizer, pela batida de jazz de Bion.

    Um exemplo de que a vida de uma obra de arte algo que simplesmente no pode ser encerrado e enterrado num caixo: os Kennedy-Frasers encontraram nas Hbridas perifricas uma msica que se ajusta ao Beowulf ( ** ) ou, pelo menos, a que algumas partes do Beowulf se ajustam. o Aillte. Eu a ouvi num concerto e quebrei minha cabea pensando ao que aquilo podia se ajustar. Para o Seafarer no servia. Duas linhas se ajustavam a um pedao do Beowulf, mas a seguinte j no se ajustava. Pulei uma linha do Beowulf e fui em frente. Os Kennedy-Frasers haviam omitido uma linha da musrca nesse ponto porque ela no lhes parecia ter um interesse musical em si mesma.

    O problema das estrofes citadas, ou pelo menos uma dimenso da sua arte, pode ser compreendido por qualquer um, quer saiba ou no provenal.

    Mas o que dizer da qualidade de Ventadour ( *** ) nos seus melhores momentos, ou de Sordello, ( **'*) onde no h nada alm da perfeio do movimento, nada que se saliente no pensamento ou no esquema de rimas? preciso conhecer bastante o provenal para perceber a diferena entre estas obras e outras.

    De qualquer forma, para se conhecerem as dimenses meldicas da poesia inglesa de alguns sculos depois, deve-se pro-

    ( * ) Trata-se da transcrio da Cano dos Pssaros de Janequin, j referida por Pound no Capitulo I. (N. do T.)

    ( **) Beowulf - poema pico anglo-saxnico em cerca de 3 000 versos (sc. VIII ) . (N. do T.)

    ( * * * ) Bernard de Ventadour, trovador provenal da segunda metade do sculo XII, o mestre do "trovar suave", "leve", ou "ligeiro". (N. do T.)

    ( H ** ) Sordello, trovador provenal do sculo XIII. {N. do T.)

    55

  • curar as medidas e padres em Ptovena. Os "Minnesingers" foram contemporneos dos provenais; pode-se contrastar a finura do latim meridional com o pigmento mais espesso de Heinrich von Morungen ou Von der Vogelweide ( * ) .

    Os alemes pretendem que a sua poesia evoluiu desde a Idade Mdia. Para mim, Goethe e Stefan George em seus melhores momentos lricos no esto fazendo nada que j no tenha sido feito to bem ou melhor. E, hoje, os melhores versos de Burchardt esto na sua traduo da Vita Nuova.

    Durante sete sculos um monte de assuntos sem maior interesse atual foi introduzido em versos alemes sem muito talento. No vejo razo para que um escritor estrangeiro deva estud-los.

    Vejo todas as razes para estudar a poesia provenal ( uma parte dela ao menos, dtgamos trinta ou cinqenta poemas ) de Guillaume de Poictiers ( ** ) , Bertrand de Born ( *** ) e Sordello. Guido e Dante na Itlia, Villon e Chaucer na Frana e na Inglaterra, tiveram suas razes em Provena: sua arte, seu artesanato e grande parte do seu pensamento.

    A civilizao ou, para usar uma palavra abominada, a "cultura" europia poder ser talvez melhor entendida se a imaginarmos como um tronco medieval lavado e relavado por ondas de classicismo. Isto no toda a histria, mas, para entend-la, preciso pensar nessa srie de percepes, bem como em tudo o que existiu ou subsistiu intacto d antiguidade.

    Este livro no pretende dar conta de toda a Histria . Estamos aqui considerando especificamente o desenvolvimento da linguagem como um meio de registro.

    Os gregos e os romanos usaram um conjunto de artifcios, um conjunto de tcnicas. Os provenais desenvolveram um outro, diferente, no com respeito fanopia, mas com

    ( * ) Heinrich von Morungen (m. 1222) e Walther von der Vogelweide ( 1170-1230 ) , trovadores alemes. ( N. do T.)

    ( * ) Guillaume de Poictiers, o mais antigo poeta provenal que se conhece ( 1 071-1127 ) , inaugurador da linha realista na poesia trovadoresca. (N. do T.)

    ( * ! *) Bertran de Born, n. cerca de 1140, m. cerca de 1210. famoso por suas canes de guerra. (N. do T.)

    56

    respeito melopia, DEPOIS DE ter ocorrido uma mudana nu sistema lingstico ( do discurso flexionado ao discurso progressivamente menos flexionado ) .

    O verso quantitativo dos antepassados foi substitudo pelo verso silbico, como se diz nos livros escolares. Seria melhor dizer que as teorias aplicadas pelos gramticos ao verso latino, como o herdeiro do grego, foram abandonadas.

    E o ajustamento de motz el son, palavras melodia, substituiu os espondeus e os dtilos supostamente regulares.

    O problema da durao relativa das slabas nunca foi negligenciado por homens com ouvidos sensveis.

    Quero evitar especialmente esses detalhes tcnicos. O meio de aprender a msica do verso escut-la.

    Depois disso o estudante poder comprar um metrnomo ou estudar solfejo para aperfeioar a sua sensibilidade para com a durao relativa e a altura dos sons. Este livro se limita ao estudo da linguagem.

    Quanto diferena especfica entre Provena e Itlia ou ao "progresso" de Arnaut Daniel a Sordello, a Cavalcanti e Dante, o leitor que no sabe e no quer ler italiano, poder, se quiser, se reportar minha crtica descritiv&. ( * )

    Sem conhecer Dante, Guido Cavalcanti e Villon ningum ser capaz de julgar os mais altos ndices de certas espcies de escrita.

    Sem esse MNIMO de poesia em outras lnguas impossvel entender "onde entra a poesia inglesa".

    ( *) Os principais trabalhos de "crtica descritiva" de Pound sobre Provena e Itlia podem ser encontrados em dois livros seus : The Spirit o f Rornanoe e LiteraT'I.J Essays o f Ezra Pound. ( N. do T.)

    57

  • CAPTULO VI

    Para os que s sabem ingls, eu fiz o que pude. Traduzi o TA HIO ( * ) paro que possam saber por onde

    comear a PENSAR. E traduzi o Seafarer, para que possam ver mais ou menos onde a poesia inglesa comea.

    No sei como eles podero ter uma idia do grego. No h tmdues satisfatrias em ingls.

    Uma verso latina pode ajudar bastante. Quem l francs pode acompanhar a ESTRIA da Ilada e do comeo da Odissia de Salel e Jamyn, ou melhor, poderia se os livros no estivessem esgotados ( a ltima edio que conheo data de 1590 ) . Chapman ( * * ) algo diferente. Ver minhas notas sobre os tradutores isabelinos (" k * * ) .

    possvel ler Ovdio, ou antes as estrias de Ovdio nas Metamorfoses de Golding ( **** ) , o mais belo livro da lngua ( em minha opinio e, suspeito tambm, na opinio de Shakespeare ) .

    ( ) Ta Hio ou Ta Hsio, o Grande Digesto, o Grande Saber, um dos textos bsicos do pensamento confuciano. A verso definitiva de Pound, Confucius : The Gret Digest & Unwobbling Pivot, foi publicada por Peter Owen Ltd., Londres, 1952. E.P. traduziu tambm os Analetos ( 1951) e as Odes confucianas (1955 ) . ( N. do T.)

    ( - * ) George Chapman, 1559 ? -1634, tradutor de Homero, c contemporneo de Shakespeare. (N. do T. )

    (' < U ) Notes em Elizabethan Classicists. Este ensaio, bem como Early Translators of Homer, que trata em detalhe das tradues de Hugues Salel, foram reimpressos em Literaty Essays o/ E.P. (N. do T. )

    ( ,...,. ) Arthur Golding, 1536-1605. Sua traduo das Metamorfoses data de 1567. ( N. do T.)

    58

    Marlowe traduziu os Amores ( ,., ) . E antes disso Gavin Douglas ( H ) tinha feito algo

    com a Eneida que eu, de qualquer forma, gosto muito mais do que o latim de Verglio.

    Em Chaucer se pode aprender: 1 ) tudo o que se fez em ingls antigo e que possa ser lido sem dicionrio e apenas com um glossrio; 2 ) a qualidade ou o componente especificamente INGLESES. Os dilogos de Chaucer, Petrarca e Boccaccio, por Landor ( "'**) , a melhor crtica efetiva de Chaucer que possumos.

    H antologias da poesia inglesa -arcaica. a melhor delas, se bem me lembro.

    Sidgwick fez

    Depois de Chaucher vieram Gavin Douglas, Golding e Marlowe com as suas "tradues".

    Ento veio Shakespeare cuj-a obra assim se divide: os sonetos, onde ele est, penso eu, praticando sua arte. A poesia lrica, onde creio que ele aprendeu muito dos livros de canes italianos em que as PALAVRAS eram impressas COM a msica.

    As peas, especialmente a srie de peas histricas, que formam o verdadeiro EPOS ingls, distinto da epopia abastardada, da imitao, da contrafao construda.

    Seria particularmente contra o cerne do mtodo ideogrmico fazer uma srie de co'nsideraes gerais em torno da linguagem catacrstica dos poetas isabelinos.

    O modo certo de estudar a linguagem de Shakespeare estud-Ia lado a lado com algo diferente e de igual extenso.

    O antagonista adequado Dante, que de igual porte e DIFERENTE. Estudar a linguagem de Shakespeare apenas em

    ( "' ) Christopher Marlowe, o conhecido poeta e dramaturgo, 1564-93. (N. do T.)

    ( * * ) Gavin Douglas, 1470-1522, o primeiro tradutor ingls da Eneida. ( N. do T.)

    ( * * * ) Walter Savage Landor, 1775-1864, poeta ingls. Pound se refere aqui s Imaginary Conversations, "conversaes imaginrias", em prosa. ( N. do T. )

    59

  • cotejo com a DECADNCIA da mesma coisa no serve de aferio para nada.

    H a cano shakesperiana. H a linguagem para ser FALADA, talvez mesmo para ser declamada.

    Felix Schelling desenvolveu ou citou a teoria segundo a qual Shakespeare queria ser poeta, mas como no conseguisse fazer carreira, ps-se a fazer peas de teatro, embora no gostando dessa forma de escrever.

    Se o estudante no puder comparar Shakespeare com Dante, restar-lhe- a alternativa de medir :ma linguagem com a prosa de Voltaire, Stendhal, Flaubert, ou ' com a de Fielding, se ele no souber francs.

    impossvel aferir a ao de um produto qumico simplesmente acrescentando-lhe um pouco mais do mesmo produto. Para conhec-lo preciso conhecer os seus limites, saber o que ele e o que ele no . Que substncias so mais leves ou mais pesadas, mais elsticas ou mais compactas.

    Impossvel medir um produto por si mesmo, diluindo-o apenas com alguma substncia neutra.

    pARA QUEBRAR A MONOTONIA, CU propus OS grandes tradutores . . . para uma antologia, digamos, dos poemas que no me fazem dormir.

    H passagens de Marlowe. Donne escreveu o nico poema ingls ( O fxtase ) que se pode medir com Donna mi Prega de Cavalcanti. Os dois poemas no so nem um pouco parecidos. Seus problemas so completamente diferentes ( * ) .

    A grande poca lrica durou enquanto Campion fez a sua prpria msica, enquanto Lawes musicou os versos de Waller, enquanto os versos, se no eram efetivamente cantados ou musicados, eram ao menos feitos com a inteno de serem postos em msica. ( ** )

    ( * ) Ver na 3. parte a traduo integral desses poemas. (N. do T.)

    ( "' * ) Thomas Campion, 1567-1619, poeta e compositor, autor de quatro Livros de Arias ( 1601 a 1617 ) . Henry Lawes, 1596-

    60

    A mus1ca apodrece quando se afasta muito da dana. A poesia se atrofia quando se afast11 muito da msica.

    H trs espcies de melopia, a saber, poesia feita para ser cantada; para ser salmodiada ou entoada; para ser falada.

    Quanto mais velho a gente fica, mais a gente acredita na primeira.

    Lemos prosa pelo interesse do assunto. Pode-se dar uma olhada na "anatomia" de Burton ( * )

    como uma curiosidade, um exemplo de NO-POESIA que tem qualidades de poesia mas no se confunde com ela.

    A prosa inglesa est bem viva no Montaigne de Floria, no Rabelais de Urquhart. ( ** )

    Fielding; Jane Austen; os romancistas que todo mundo l; Kipling; Henry }ames. Os prefcios de James explicam o que significa "escrever um romance".

    -1662, msico e compositor. Edmund Waller, 1606-1687, poeta, autor da clebre cano "Go, lovely rase", que Pound parafraseou em seu longo poema Hugh Selwyn Mauberley. ( N. do T. )

    ( * ) Robert Burton, 1577-1640, um dos mais notveis prosadores seiscentistas ingleses, autor da "Anatomia da Melancolia" ( 1621 ) , a que Pound alude neste passo. ( N. do T.)

    ( "' * ) E.P. se refere aqui a dois grandes tradutores ingleses : John Floria, 1553 ?-1625, prosador da poca isabelina, tradutor das obras de Montaigne, e Thomas Urquhart, 1611 ? -1660 ?, tradutor de Rabelais. {N. do T.)

    61

  • CAPTULO VII

    No importa saber por qual perna se comeou a fazer a mesa, desde que ela tenha quatro pernas e fique de p, depois de terminada.

    A poesia medocre, no fim das contas, sempre mesma em toda parte. A decadncia do petrarquismo na Itlia e a "poesia p de arroz" na China chegam ao mesmo nvel de fraqueza apesar das diferenas de idioma.

    62

    CAPTULO VIII

    Voltando ao ponto de partida.

    A linguagem um meio de comunicao. Para carregar a linguagem de significado at o mximo grau possvel, dispomos - como j foi acentuado - de trs meios principais:

    1 . Projetar o objeto ( fixo ou em movimento ) na imaginao visual.

    2 . Produzir correlaes emocionais por intermdio do som e do ritmo da fala.

    3 . Produzir ambos os efeitos estimulando as assoc1aoes ( intelectuais ou emocionais ) que permaneceram na conscincia do receptor em relao s palavras ou grupos de palavras efetivamente empregados.

    ( fanopia, melopia, logopia )

    A incompetncia se manifesta no uso de palavras demasiadas.

    O primeiro e o mais simples teste a que o leitor deve submeter o autor verificar as palavras que no funcionam; que no contribuem em nada para o significado ou que distraem do fator MAIS importante do significado em favor de. fatores de menor importncia.

    Uma definio de beleza: adequao ao objetivo. Quer se trate de uma definio boa ou no, facil cons

    tatar que uma boa dose de crtica RUIM foi escrita por homens que presumiam que o autor estivesse tentando fazer algo que ele NO estava tentando fazer.

    63

  • Por incrvel que parea hoje, os maus cnucos do tempo de Keats achavam sua obra "obscura", o que quer dizer que eles no entendiam POR QUE Keats escrevia .

    A maior parte das percepes humanas data de muito tempo atrs ou deriva de percepes que homens bens dotados tiveram muito antes de termos nascido. A espcie humana descobre e redescobre.

    TESTES E EXERCCIOS DE COMPOSIO

    I

    1 . Fazer com que os alunos troquem suas compostoes entre si e verifiquem quais e quantas palavras inteis foram usadas

    quantas palavras no transmitem nada de novo.

    2 . Quantas palavras obscurecem o significado.

    3 . Quantas palavras esto fora do seu lugar usual e se essa alterao torna o enunciado de algum modo mais interessante ou mais cheio de energia.

    4 . Se a sentena ambgua: se ela realmente significa mais de UJ?a coisa ou mais. d 9ue o escritor pretendia; se ela pode ser hda de modo a stgmlcar algo diferente.

    5 . Se h algo que est claro quando lido mas que fica ambguo quando falado.

    II

    Dizem que foi Flaubert quem ensinou Maupassant a escrever. Quando Maupassant voltava de um passeio com Flaubert, este lhe pedia para descrever alguma coisa, por exemplo uma "concierge" por quem teriam que passar em sua prxima caminhada, c para descrever tal pessoa de modo que Flaubert a reconhecesse e no a confundisse com nenhuma outra "concierge" que no fosse aquela descrita por Maupassant.

    64

    SEGUNDA SRIE

    1 . Que o aluno faa a descrio de uma rvore.

    2. De uma rvore sem fazer meno ao seu nome ( lrio, pinheiro, etc. ) e de tal forma que o leitor no a confunda com a descrio de uma outra espcie de rvore. ,,

    3 . Experimentar com algum objeto qualquer da sala de aulas.

    4 . Descrever a luz e a sombra sobre o relgio ou algum outro objeto da classe.

    5 . Se isso no ocasionar alguma perturbao da paz, o aluno poder fazer descries de seus colegas. O autor sugere que o aluno no procure descrever o professor, pois a descrio pode se tornar um veculo de emoes, sujeitando-se a regras de composio mais complicadas do que as que a classe est, por ora, preparada para enfrentar.

    Em todas essas descries o teste ser a preciso e a vivacidade. O aluno que receber a prova do outro ser a medida de aferio. Ele reconhecer ou no reconhecer o objeto ou pessoa descritos.

    Rodolfo Agrcola, numa edio que data de mil e quinhentos e pouco, diz que a gente escreve ut doceat, ut moveat aut delectet, para ensinar, para comover ou para deleitar.

    Uma grande dose de crtica ruim devida a homens in capazes de perceber qual desses trs motivos era o pressuposto de uma dada composio.

    Os processos inversos, no considerados pelos piedosos mestres da antiguidade, seriam obscurecer, embrulhar ou engodar e chatear.

    O leitor ou ouvinte tem a liberdade de permanecer passtvo e subeter-se a essas operaes, se assim o preferir.

    65

  • OuTRos TESTES

    Que o aluno examine um determinado texto, digamos, o editorial do dia em um jornal, para ver se o escritor est tentando ocultar alguma coisa; para ver se ele est "encobrindo o seu significado"; se est com medo de dizer o que pensa; ou se est tentando dar a impreso de que pensa sem estar pensando em coisa alguma.

    Mtrica.

    1 . Que o aluno tente utilizar o metro de qualquer poema que ele queira. 2 . Que ele escreva a letra para uma melodia bem conhecida. 3 . Que ele escreva . a letro para a mesma melodia de tal modo que as palavras no resultem deformadas quando forem cant-la.

    4 . Que o aluno escreva um poema em qualquer forma estrfica que lhe agrade. 5 . Que ele faa a pardia de algum poema que lhe parea ridculo pela falsidade do enunciado ou da atitude do escritor, ou pela pretenso, de uma espcie ou de outra, ou por qualquer outra razo que desperte a sua faculdade de rir, o seu senso de ironia.

    Pedir-se- ao aluno-aferidor para reconhecer qual o autor que foi parodiado. E se o objeto da pilhria o parodiado ou o parodista. Se a pardia pe em evidncia um defeito real ou apenas faz uso do mecanismo de um autor para expor uma mensagem mais trivial.

    Observao: Nenhum mal jamais sucedeu a um bom poema por esse processo. O Rubayat de FitzGerald ( * ) sobrevi-

    ( * ) Ver na 3. parte a traduo de trs peas da verso de FitzGerald. ( N. do T.)

    66

    veu a centenas de pardias que no so realmente parias nem de Ornar nem de FitzGerald, mas apenas poemas escntos nessa forma estrfica.

    Observao. H uma tradio segundo a qual em Provena era considerado plgio tomar a forma de um outro, tal como agora se considera plgio tomar-lhe o seu assunto ou o seu projeto. , . Os poemas escritos deliberadamente na forma estrof1ca de um outro autor denominavam-se "Sirventes" e eram geralmente satricos.

    OuTROS TESTES

    1 . Que os alunos, ao permutarem os seus textos, julguem se o que tm diante dos olhos diz realmente alguma coisa.

    2 . Que eles julguem se o texto lhes diz alguma coisab

    ou "faz com que eles vejam alguma cois;t" . que no tinhan;- o servado antes especialmente com referenc1a a algum objeto ou alguma cena familiar.

    3 . Variante : se o escritor realmente tinha que SABER alguma coisa a respeito do assunto ou cena antes de ser capaz de escrever a pgina sob exame.

    A questo de saber se uma palavra,

    u uma frase so "inteis" no apenas um problema numenco. . .. .

    Anatole France criticando os eatrlogos franMe$., assinalou que, no tablado, as palavras devem dar temp.C:f :. ao; devem dar tempo a que os espectadores se apercebam do que est se passando.

    Mesmo na pgina impressa h uma pausa anloga. Tcito escrevendo em latim, pde usar certas formas de

    condensa que no so necessariamente traduzidas com vantagem em ingls.

    O leitor muitas vezes julgar desfavoravelmente um escritor contido por tentar l-lo muito depressa.

    67

  • O segredo dos autores populares no meter numa pgina mais do q