F ilhos da Raia - .se é um verão preguiçoso que teima em não ir embora, ou um outono tími -

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Text of F ilhos da Raia - .se é um verão preguiçoso que teima em não ir embora, ou um outono tími -

TEXTO DE VANESSA RODRIGUES I FOTOGRAFIAS DE PEDRO GRANADEIRO/GLOBAL IMAGENS

F ilhos da RaiaR O T A D A T E R R A F R I A

Casas de xisto e granito, dialetos regionais, rstico luxuoso, gentes vidas de partilhar histrias, cozinha tradicional reinventada.

De aldeia em aldeia, pelo Nordeste transmontano, procura da brama.

MONTESINHO

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RUAS DE SOSSEGO Nas ruas simples e adormecidas de Moimenta, salta vista a Igreja de So Pedro.

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Rota da Terra FriaF I L H O S D A R A I A

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Olha-se a imensa paisagem che-gada ao Nordeste Transmontano, no despontar do dia, sem perceber se um vero preguioso que

teima em no ir embora, ou um outono tmi-do que comea a estender-se nos planaltos. Permanecem viosos de verdura, mas j salpicados de vegetao de cor mbar. Ima-gina-se que, em pouco tempo, o branco ne-vado se ir impor, deitando invernia s gentes de Pinheiro Novo, Moimenta, Zeive, Montesi-nho, Rio de Onor e Guadramil, as seis aldeias da Rota da Terra Fria que elegemos para este trajeto de uma centena de quilmetros.

Chegamos a pensar no frio, enquanto a natureza ainda se veste de calor e castanheiros carregados com o rico fruto da regio. Aproxi-mamo-nos de um pedao do reino maravi-lhoso do escritor Miguel Torga, terra gros-sa, fragosa, bravia, olhando as montanhas, e pensamos no trnsito que deve andar na floresta. Afinal, poca de brama. Os vea-dos devem andar loucos de amores. Ouvir-se--o? E os lobos, onde se escondem, vigilantes?

Terra rendilhada de ricas fauna e flora, de histrias de contrabando fronteirio, de fumeiro, folar, festas tradicionais, patrimnio medieval, arqueolgico, lingustico e humores climticos que pem a vida a bulir no vero, para descansar no inverno.

Com tanta diversidade, urge um prem-bulo no Parque Biolgico de Vinhais (parque biologicodevinhais.com). Est l o carvalho--negral, a rvore sagrada antiga, smbolo da Terra Fria, os freixiais, os salgueiros, o poe-jo. Est l a charrela, espcie de perdiz, o burro mirands, o milhafre-preto, o porco- -bsaro, o co de gado transmontano, o bufo--real, e, entre outros, os veados. Queremos concentrar-nos neles, v-los no habitat na-tural. Com essa ideia em mente, fazemo-nos estrada at Pinheiro Novo, primeira aldeia da nossa rota, na esperana de poder logo encontr-los. A caminho, espiamos Lagare-lhos, onde est a castanheira centenria de 14 metros, monumento da Terra Fria, patri-mnio nacional, propriedade de Francisco Fernandes. L dentro poderia morar gente, de to espaosa que .

VIDAS DE TORNAJEIRACheira a giestas. At Pinheiro Novo, h bos-ques, fragas e hortas. entrada, um burro pasta no lameiro. A aldeia fica junto serra da Coroa, a trs quilmetros da fronteira, partilhando os rios Assoreira e Rabaal. Joo Gomes est sentado nas escadas do cruzei-ro. Em frente, v-se a bandeira espanhola, desfraldada na varanda da casa da vizinha, de xisto escuro. Confidencia, sorridente, a

ROTA DA TERRA FRIAA Rota da Terra Fria prope um percurso de mais de quatrocentos quilmetros, feito marca turstica pela Associao dos Municpios da Terra Fria do Nordeste Transmontano (AMTF) para guiar os visitantes diversidade de fauna, de flora e etnogrfica da regio. O percurso envolve os concelhos de Bragana, Miranda do Douro, Vimioso e Vinhais. Geografias embainhadas por lameiros, planaltos e montanhas, povoados de castanheiros e salgueiros, vigiados por guias, lobos e coros. Sobreir de Cima, Moimenta, Rio de Onor, Quintanilha, Avelanoso, Constantim, Sendim, Salsas e Zoio so as portas de acesso a um roteiro que abrange perto de uma centena de pontos de interesse. Nesse traado, explica Pedro Morais, responsvel de comunicao da AMTF, procurou-se dar ao visitante uma viso das potencialidades da regio e salvaguardar os valores naturais e culturais. Isto , juntar histria, economia, tradies e gastronomia. www.rotaterrafria.com

Aproximamo-nos de um pedao do reino maravilhoso de Miguel Torga, terra grossa, fragosa, bravia.

GUADRAMILGUADRAMIL

RIO DE ONOR

ZEIVEMOIMENTA

PINHEIRO NOVOMONTESINHO

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MONTESINHO

MONTESINHO

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BONS DIAS Quartos com vista para a natureza a proposta da casa 9 Mestres da Mina, em pleno Parque Natural de Montesinho.

RIO DE ONOR

Rota da Terra FriaF I L H O S D A R A I A

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falta de acesso sade, mas que a vida ali no tem crise. Sempre viveram com pouco e a terra rica. Enquanto fala, passa uma mida, guiando o burro pela corda, e logo vem Isabel, que no nos conhece mas ofe-rece tomates que acabara de colher. Ao fundo da rua, as vacas recolhem ao curral. J cheira a fumo. Cortou-se a lenha em setembro para queimar no inverno. Foi po-ca de tornajeira, de ajuda coletiva.

O mesmo comunitarismo ecoa em Moi-menta, para onde seguimos. Alis, trao comum nas aldeias raianas. A rudeza inver-nal isola as gentes, por isso a sobrevivncia pede entreajuda. At Moimenta vemos mon-tanhas sobrepostas, enormes sombras tridimensionais, e cristas de pedras. Galga--se, a p, a via de paralelos, passando as casas de pedra sem cimento e lascas de xisto. Cumprimentamos um casal que lava roupa na pia. Mais tarde, ela, Rita Rego, ofereceria mas e o filho, Mrio Manuel, seria guia at aos trs moinhos comunitrios, datados de 1945, bem ao lado do solar dos Atades de Figueiredo.

Ressoam os badalos do gado, no h sinal de brama, contempla-se o declive do planalto, enquanto nos refrescamos na Fon-te dos Canos, vizinha da Igreja de So Pedro. De estilos maneirista e barroco, este templo reconstrudo na poca moderna (sculos xvii-xviii) lembra a s de Miranda do Douro.

Nas ruas, simples, adormecidas, so os viajantes que distraem os habitantes. A mu-lher sentada na soleira da porta chama-nos e aponta para a placa: vende-se casa e la-meiro, estaremos interessados? Percebido o nosso desinteresse, a conversa diverge e aconselha-nos a visitar a Fraga dos Trs Reinos ali to perto, onde em tempos se cruzavam Portugal, Leo e Castela. No desta. Samos de Moimenta com a certeza de que h ali mistrios que pedem tempo. Como o jantar de coelho de caa, no pote de ferro, e entradas regionais com queijo e chourio caseiros , preparado, nossa espera, com lareira acesa, na Casa da Flo-resta, em Travanca.

E TU S BOA corda que desce do sino da igreja de Zeive, aldeia preservada do Parque Natural de Montesinho, tentadora. Apetece pux-la, para ver o que acontece. No seramos ca-pazes. Leontina Fidalgo, a anci, vigia. Apres-sa-se a vir receber os estrangeiros. Pede mais gente nova na aldeia, reala a riqueza da terra, e pelo ombro espreitamos um alambique de aguardente. E tu s bo, ouve--se-lhe dizer para o vizinho, como quem diz tu s esperto, em linguajar transmontano, uma das muitas expresses que se ouvem pela regio. Convida-nos para comer folar em casa, mas ainda temos muito que andar.

O comunitarismo trao comum s aldeias raianas. A rudeza invernal isola as gentes, e a sobrevivncia pede interajuda.

VARA DA JUSTIAImortalizada pelo antroplogo Jorge Dias na tese Rio de Onor: comunitarismo agro-pastoril, a aldeia raiana, parte portuguesa, parte espanhola, destaca-se por ter, historicamente, um sis-tema prprio de organizao, baseado na administrao rural e regulado pela vara da justia. Quem administrava estas varas de justia eram dois mordomos, nomeados para gerir a par-te comunitria, explica Antnio Jos Preto, presidente da junta de freguesia.Trata-se de um galho delgado, hoje usado para mostrar aos turistas, onde se representava, atravs de smbolos cravados a faca, as tarefas e os bens dos habitantes: o crculo representa o rio que divide a aldeia; um trao diagonal um quartilho de vinho; os traos verticais e gros-sos representam o espao de uma casa, para contar as famlias; o xis simboliza um cntaro de vinho. Quando se trabalhava nos campos comunitrios, era desta forma que se regulava o que cada um tinha. Em assembleia, a reunio do povo, a vara servia para fazer a chamada.

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COMO SURGIU A IDEIA DO DOCE OURIO DE CASTANHA?A Cmara Municipal de Bragana desafiou-me a criar um produto associado castanha.

QUE INGREDIENTES LEVA?No tem segredo: massa de pastis de Tentgal e pasta de castanha. No quis nada de massificado, quis quebrar com as regras de consumo; fui dando a provar em diferentes contextos para promover e poder chegar ao paladar adequado.

NOMEADAMENTE, EM NOVA IORQUE...Aluguei um apartamento l, cozinhei vrios ourios de castanha e andei pelas ruas, onde ningum me conhece, a dar a experimentar s pessoas. Queria perceber a aceitao num contexto completamente diferente. A recetividade foi incrvel.

COMO PENSA EXPANDIR O NEGCIO?Tenho j um projeto internacional, e alm da pastelaria Rota dos Sabores, em Bragana, em breve os ourios de castanha tambm vo ser disponibilizados no Porto e em Lisboa.

EURICO DA CASTANHA Pasteleiro desde os 11, o transmontano Eurico Castro, 39 anos, natural de Macedo de Cavaleiros, criou o mais recente doce gourmet da regio, o ourio de castanha, que j levou a Nova Iorque.

A natureza ainda se veste de calor e castanheiros carregados com o rico fruto da regio.

E N T R E V I S T A

ANDA DIA Anda di que como quem diz anda da, em lngua mirandesa loja de artesanato e em simultneo escritrio de servios tursticos medida (andadi.pt). Fica dentro das mura-lhas do castelo de Bragana, perto da Porta do Sol. Gerida por Cristina Rocha e Lus Costa, o espao casa-anfitri para quem c