Fae curitiba ee_cultura de empresa-signed

Embed Size (px)

Text of Fae curitiba ee_cultura de empresa-signed

  • 1. ElisioGEstanqueTexto em publicao no Brasil, Revista FAE Centro Universitrio,Faculdade Catlica de Administrao e Economia, Curitiba, 2012. Transformao social, democracia e cultura de empresa o caso portugus no contexto de crise europeia Elsio Estanque Centro de Estudos Sociais Faculdade de Economia da Universidade de CoimbraSumrio:A temtica da cultura de empresa na sociedade portuguesa serve de ponto de partida, no presente texto,para uma reflexo mais alargada sobre a sociedade portuguesa e as tendncias de transformaosocioecnomicas na Europa ao longo das ltimas dcadas. Uma das linhas de preocupao prende-secom a necessidade de conjugar a coeso da sociedade, a mudana e a inovao tecnolgica. Por outrolado, as condies de trabalho e os mecanismos de dilogo so discutidos em articulao com adimenso conflitual inerente estrutura do capitalismo moderno. Assim, o conflito, a negociao e ainovao constituem ingredientes que tero de se conjugar no quadro de um projeto modernizao quevise o equilbrio e o bem-estar geral. O caso da empresa Autoeuropa (do grupo Volkswagen), abordado luz do paradigma poltico-cultural, apresentando-o como um exemplo que tem conseguidoconciliar o estmulo produtividade com a defesa dos valores democrticos e dos mecanismos dedilogo.Palavras-chave: Cultura de empresa, crise, Autoeuropa, trabalho, negociao, democracia O presente texto procura contribuir para uma reflexo ampla em torno do dilogo,da mudana e da coeso social nas sociedades abertas. Partindo de uma discussosobre o sentido das transformaes recentes do capitalismo no plano global, com umenfoque especial no campo laboral, a nossa abordagem centra-se na mudanaorganizacional e nas realidade empresarial para, nos tpicos finais tratar o caso daempresa Autoeuropa (do grupo Volkswagen), sediada em Palmela (a sul de Lisboa).Muito embora qualquer destes temas seja familiar aos cientistas sociais, eles surgemde um modo geral encaixados em especialidades distintas. Tal situao, resultado daafirmao das disciplinas do conhecimento em territrios fechados, limitativa, nosentido em que torna mais difcil empreender uma reflexo interdisciplinar e sistemticasobre o social, a importncia do contrato, do conflito e do dilogo na construo deum sistema que busca conciliar a dinmica com a coeso. O objetivo aqui em causavisa justamente responder a essa limitao, ao mesmo tempo que procura analisar,1

2. sob diversos ngulos, aspetos relevantes da sociedade portuguesa no contextoeuropeu marcado pelo recente contexto de crise e de austeridade.Capitalismo global, fragmentao e precariedade do trabalho Para uma compreenso aprofundada do capitalismo global do sculo 21 importante situar o tema numa perspetiva histrica mais ampla e, ao mesmo tempo, noquadro do sistema-mundo que lhe confere os seus principais traos estruturais(WALLERSTEIN, 2004). Numa primeira fase, importa referir a emergncia de umregime desptico de mercado, (BURAWOY, 1985) que vingou no perodo decapitalismo selvagem, suscitando respostas e movimentos sociais anti-sistmicos(WALLERSTEIN e BALIBAR, 1991) com destaque para o movimento operrio e paraas convulses e movimentos republicanos, anarquistas e socialistas que assumiramuma fora decisiva na viragem do sculo 19 para o sculo 20. Entretanto, aconsolidao de novas tcnicas e racionalidades burocrticas aplicadas economia,conduziram ao aperfeioamento de um regime disciplinar na produo, caracterizadopela rpida acumulao e crescimento (modelo taylorista), o que, apesar disso, noevitou a grande instabilidade social e poltica nomeadamente algumas guerras erevolues desde a I Guerra Mundial revoluo bolchevique e, trs dcadas depois, a2 guerra mundial na primeira metade do sculo XX. S posteriormente, j depois dasegunda guerra mundial, se afirmou um regime hegemnico, coincidente com oadvento do welfare state, no qual a integrao e o consentimento foram objeto de umanegociao e compromissos sociais realizados sombra do fordismo e das polticassociais promovidas pelo Estado. Finalmente, desde a dcada oitenta, assistimos a umanova viragem, de sentido liberal mas agora na escala global, o que leva a que se faleda emergncia de uma nova forma de despotismo, o despotismo global ou despotismohegemnico, coincidente com as ltimas dcadas de hegemonia neoliberal, em que aregulao se realizou atravs das mltiplas conexes transnacionais dinamizadas pelaglobalizao e pelo capitalismo financeiro, apoiados nas redes informticas e nasnovas tecnologias da comunicao (BURAWOY 1985 e 2001; CASTELLS, 1999). Pode, pois, afirmar-se que nos ltimos dois sculos se assistiu a uma disputaentre modalidades ou regimes de regulao econmica. No fundo, a secularizao dasociedade ao dessacralizar o poder instituiu novas formas de conflitualidade em que as2 3. tenses, lutas e alianas operaram sobre os despojos da velha sociedade pr-industrialimpondo uma profunda mudana ao longo dos tempos. Na linha de autores comoBoaventura de Sousa SANTOS (1994) e Karl POLANYI (1980), faz sentido afirmar quea regulao dependeu sempre do modo como se conjugaram os princpios dacomunidade, do mercado e do Estado1, bem como da forma como tais tenses seinscreveram na geometria do territrio e na organizao das sociedades. A dinmica eos arranjos entre aqueles princpios dependeram sempre da correlao de foras e dacapacidade estratgica dos sectores e grupos sociais em causa na disputa pelahegemonia numa sociedade nacional particular. claro que ao situar a questo noplano mais geral no nos deve fazer esquecer que, no quotidiano da atividadeprodutiva, os mecanismos negociais e de dilogo se regem por cdigos e condutasmuito particulares, que se prendem como adiante se ver com os valores e acultura de cada empresa ou organizao em concreto. At finais do sculo 19, no Ocidente, foi o princpio de mercado que se sobrepsao Estado e comunidade, mas o mesmo induziu principalmente devido ao papel daluta de classes um esforo de reconstruo do princpio da comunidade, que seprocurou estender escala nacional. O movimento operrio e as ideologias maisradicais que o contaminaram (em especial o anarquismo e o marxismo) foramportadores de uma linguagem e de um projeto poltico que, de certo modo,transportaram um reforo da comunidade ou, dito de outra maneira, projetaram umdiscurso classista e comunitarista que, tambm ele, se inscrevia numa base nacional.Ainda que em parte ficcionada, a ideia de Nao enquanto comunidade imaginada(ANDERSEN, 1991), por um lado, resistiu ao princpio do mercado e, por outro lado, foidecisiva para a emergncia do Estado social. Tal processo acabou por conduzir primazia do princpio do Estado sobre os princpios do mercado e da comunidade,participando este na edificao do modelo hegemnico, em especial aps o triunfo econsolidao do Estado-providncia. Mas, como sabido, a partir da dcada desetenta foi de novo o mercantilismo que se reergueu e, desde ento, novamente o1Boaventura de Sousa Santos refere-se a estes trs princpios na sua articulao com os pilares daregulao e da emancipao (SANTOS, 1994).3 4. papel do Estado e os seus programas sociais, assistenciais e solidrios que recuam emtoda a linha. o que tem vindo a ocorrer na Europa, com as polticas sociais e o Estado social(no seu conceito mais universalista) a cederem o passo cada vez mais economia demercado, sob a batuta da globalizao neoliberal e do capitalismo financeiro. Osmercados, e os poderosssimos interesses que neles se escudam, cresceram de umaforma avassaladora, obrigando ao recuo do Estado e das polticas sociais. SegundoPolanyi, o trabalho, a terra e o dinheiro, sendo parte do sistema econmico, soorganizados atravs do mercado, mas no so mercadorias dado que nenhum deles foicriado para venda pelo que a descrio do trabalho, da terra e do dinheiro comomercadorias inteiramente fictcia (POLANYI, 1980: 85). Sendo uma tendncia antiga,que este autor remete aos finais do sculo XVIII, no h duvidas que orecrudescimento do princpio do mercado como ideologia dominante suscitou algumparalelismo com o que aconteceu na Europa desde h duzentos anos, levando aeconomia de mercado a ganhar ascendente sobre as atividades produtivas de basecomunitria e solidarista (LAVILLE e ROUSTANG, 1999). At certo ponto, a sociedadeno seu conjunto regressa situao que j experimentara no sculo 19, isto , a umasujeio generalizada s leis do mercado. Os avanos do sculo 20 recuperaram aforma do contrato social, mas nas ltimas dcadas assistimos de novo ao reforo dosmercados. De novo, as transaes monetrias e a especulao bolsista esto asubmeter a produo e a distribuio aos objetivos de rpida acumulao lucrativa,perdendo-se a tradicional funo social das relaes de troca e de reciprocidade. O campo laboral foi sem dvida aquele em que os impactos desestruturadores daglobalizao neoliberal tm sido mais problemticos. As consequncias dissomostraram-se devastadoras para milhes de trabalhadores de diversos continentes. Ea Europa o continente onde as alteraes em curso representam o mais flagranteretrocesso perante conquistas alcanadas, desde o sculo 19. Com efeito, os impactosda globalizao tm vindo a induzir novas formas de trabalho cada vez maisdesreguladas, num quadro social marcado pela flexibilidade, subcontratao,desemprego, individualizao e precariedade da fora de trabalho. Assistiu-se a umaprogressiva reduo de direitos laborais e sociais, e ao aumento da insegurana e do 4 5. risco, num processo que se vem revelando devastador para a classe trabalhadora e osindicalismo desde os finais do sculo 20 (ANTUNES, 2006; BECK, 2000; CASTEL,1998, CASTELLS, 1999). As tendncias de restruturao produtiva, de recomposio das relaes detrabalho e o metabolismo que vm ocorrendo nas nossas sociedades, bem como osseus ciclos e oscilaes entre crises e dumping social, por um lado, e euforiaconsumista e crescimento, por outro, podem ser entendidos como situaes inerentes prpria estrutura do capitalismo moderno. Como assinalou Ricardo Antunes, houveuma diminuio da classe operria industrial tradicional, mas, paral