Fazendo 77

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boletim do que por c se faz

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  • fim da srie 4.0 + pr-histria faialense petrificada + filmes sobre baleias mortas e vulces adormecidos + robinson cruso com bom tempo no canal + o mistrio da senhora das tranas + POPA +a primeira editora do pico + porto pimtado + genes modificados por interesse + peixes voadores + pzinho + fotgrafos apaixonados + diferenas queirosianas + karnart + BANHOS + TRILHOS + MARS + FESTAS

    O BOLETIM DO QUE POR CA SE FAZDISTRIBUIO GRATUITA

    AG

    OS

    TO 77

    para um ilhua sua nave

    nunca pequena

  • Crnica

    CapaCapa

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    Capa

    gata B

    iga

    FaialUma Pr-Histria Gravada em Pedra

    Todas as preocupaes do mundo no cabem neste jornal, nem que dele se editem centenas de nmeros. A importncia dada aos assuntos aumenta s pela vontade de quem escreve. O Fazendo no corre atrs de mquinas fotogrficas nem de microfones, mas s vezes fotografa uma coisa annima e d voz a um pensamento esquisito.

    Um jornal que feito por quem o faz e qualquer pessoa o pode fazer. Pessoas que por c faam e morem, pessoas que de c sejam e pessoas que no sendo de c nem por c andem, que queiram falar sobre o aqui. Que aqui? Desde os Capelinhos Manhenha, com uma seco alargada que vai do Ilhu de Monchique aos Ilhus das Formigas. Tambm mergulha frequentemente em montes submarinos a ver que ilhas se fabricam l em baixo e que novidades nos traro. Isto para sublinhar que o que falta ao Fazendo, o leitor que completa. Pode ser s com a ideia, mas melhor sempre fazendo.

    Durante o ms de Setembro o jornal fica no Pico a refrescar cada uma das suas pginas e ressuscitar miraculosamente no Outono, todo com cheirinho a tinta fresca.

    A srie 4.0 termina aqui.

    + 3 + FAZENDO + AGOSTo 2012 ++ 2 + FAZENDO + AGOSTO 2012 +

    No passado dia 7 de Julho o Observatrio do Mar dos Aores, desenvolveu uma actividade para alertar para o excesso de pesca que decorre com alguns stocks Europeus, que est a compromenter seriamente o futuro das pescas. A actividade contou com o apoio da OCEAN2012, promotora do evento a nvel europeu, assume como de diversas associaes nacionais que aderiram ao protesto/apelo aos decisores polticos em matria de Poltica Comum das Pescas. Para que ficasse claro que fim da sobrepesca diferente de fim da pesca, aos participantes foi oferecida uma grelhada de peixe capturado com artes tradicionais. A aderncia beneficiou de uma actividade que decorria nas proximidades, tendo aderido tambm pessoas em visita regio que no hesitaram a juntar-se a este apelo realidade dos stocks, demonstrando a seridade com que as pessoas veem a questo da sobrepesca a nvel Europeu. Jos Nuno G P7 de Julho, cerca de 100 pessoas do as mos Fazendo ver que o excesso de pesca na Europa pe em causa o futuro da pesca

    Semana Europeia do Peixerene cerca de 100 pessoas na Horta

    CIENCIA E AMBIENTE^

    EDITORIAL

    caldeira ter irrompido do fundo do mar j o Faial existia como ilha. Mais pequeno certo, mas j com a rea hoje ocupada pelas freguesias da Praia do Almoxarife, Pedro Miguel e Ribeirinha.

    O edifcio inicial construiu- -se lenta e descontinuamente no tempo por muitos milhares de anos. Primeiro debaixo do mar, de onde cresceu e deve ter criado um banco submarino como o D. Joo de Castro. Um dia, talvez h cerca de 800 mil anos, passou acima das guas e continuou a subir e a alargar-se at a sua fonte secar. Calcula-se h 580 mil anos, mas esta evoluo no parou. As foras que afastam esta ilha da Amrica

    partiram o edifcio. Torceram-no. Uns blocos subiram, outros

    desceram e os destroos mais

    e l e v a d o s so

    agora

    as lombas da Espalamaca, dos Frades, Grande e Ribeirinha, enquanto nas partes abatidas se instalaram as povoaes.Depois, talvez h 410 mil anos, o vulco da Caldeira saiu das guas, cresceu e coalesceu com a anterior

    ilha. Nele assentam Cedros, Salo, Feteira, Castelo Branco e Flamengos. No incio sem uma caldeira, esta a cicatriz de erupes explosivas mais recentes e intercaladas com perodos de dormncia desde h 16 mil anos. O vulco dorme agora, mas no se sabe se voltar a mostrar a sua fora.

    No puzzle que completa a ilha ainda faltam duas peas: uma

    fruto de vrias pequenas erupes que construram o monte Carneiro, da Guia e os cabeos da Conceio,

    de So Loureno, das Moas, Queimado e outros

    nos ltimos 20 mil anos no sudeste do Faial. Uma

    atividade terminada talvez h 10 mil anos e onde agora

    assenta a Horta.

    Pelo menos nos ltimos 1200 anos alinharam-se pequenos

    vulces que estenderam o Faial para oeste: a Pennsula do Capelo. Onde tambm assenta a Praia do Norte. Mas, tal como a caldeira, uma zona em construo e s no sabemos quando e por onde a ilha voltar a crescer e enquanto esta dorme, a gua vai corroendo-a. Carlos Faria

    O historiador perde-se em labirintos de bibliotecas e arquivos a desvendar em papis o passado da humanidade e o gelogo vagueia por montes e vales a decifrar na pedra a evoluo da Terra.Ao pegar-se num livro ou certos guias tursticos sobre o Faial, fica- -se a saber a origem do seu povoamento no sculo XV e as aes do homem nesta terra desde ento, espao de tempo que nem atinge 600 anos, muito longe dos quase um milho de anos que vo da gnese e crescimento desta ilha at sua forma e tamanho atual.O gelogo l na ilha uma histria que comeou muito antes de o homem c chegar e de ter humanizado a paisagem com pastagens, flores, animais, infraestruturas e casas.

    Todos os faialenses assumem saber a origem vulcnica do Faial, mas claro um certo desconhecimento em muitos para alm dessa gnese eruptiva, mais ou menos violenta, com lava a sair do Atlntico e h uma tendncia para situar o seu nascimento na Caldeira: como se esta fosse a boca de onde saram todas as frias e materiais que ora construram, ora destruram a ilha.No! Muito antes do vulco da

    Fazendo um texto.Procurei as vrias camadas de ilha depositadas atravs do olhar, pequenos aspectos de uma realidade de mais de oito anos de vivncia ancorada. Detalhes conjugando-se para criar uma sensao nica de beleza. O mar, azul, verde, profundo, transparente, odoroso de algas, revolto, salgado, corrosivo, ameaador e convidativo; verdes incontveis e selvagens. A caldeira, nuclear, umbigo para onde tudo escorrega pouco a pouco.Contornos definidos que delimitam; uma estrada permetro, 52 km pelo lado da terra, 54 km pelo lado do mar, por onde sempre regressamos ao ponto que imaginamos deixar para trs. Texturas, paredes com salitre, bolores e fungos, tinta que descasca, muros de pedra, afinal de peluche, cimentos e betes em crescimento rpido, madeiras antigas esquecidas. Os barcos que passam e por vezes param, trazendo e levando encomendas, desejos e saudades, ondulam loucamente no canal, apitam de manh.Um sossego recheado de marulhar e vento, gaivotas, cagarros e garajaus, grilos, galinhas, vacas e burros, carros, sinos, filarmnicas em procisso e festas a todos os santinhos.A natureza que tudo reclama sem trguas, engolindo com a terra que floresce, quando no com mistrios de rocha e lava...A luz surpreendente, todos os cambiantes num s dia.Cada olhar fascinado de verdes e azuis, atravs desses tantos vus sobrepostos, procurando fixar o processo de sedimentao da ilha em mim. A was here. E agora, no meio do mar, a interferncia inesperada de um apelo novo, de cidades em tons de cinza e neve.

    Escreveu Oscar WildeAs pessoas cujo desejo apenas a auto-realizao nunca sabem para onde vo.No podem saber. () O mistrio final somos ns prprios. (...)Quem capaz de calcular a rbita da sua alma?

  • INTERVENCAOCINEMA CINEMA

    + 5 + FAZENDO + AGOSTO 2012 ++ 4 + FAZENDO + AGOSTO 2012 +

    H trs meses que no me escapulia do Pico, o meu actual local de trabalho, quando recebi o convite de dois amigos arquitectos a residir na ilha do Faial. Minutos antes da travessia, o taxista Jos Alves encorajava tamanho ensejo, pois enunciava que o estado do tempo estaria propcio aventura e navegao Robison Crusoe. O incitamento era incorporar uma tripulao de jangada com o intuito de atravessar o canal. Demorei algum tempo a tentar perceber as razes do convite, dado eu no ter participado na recolha dos materiais ou mesmo na sua concretizao. Aps alguma insistncia anui para felicidade e jbilo dos meus contemporneos, mas a verdade que no sabia o que me esperava. Mal avistei a jangada no porto da Madalena, temi pela vida, no entanto, cedi entrar por razes de compromisso bem como para manter viva a chama e vida das tradies martimas de todo um povo e, evidentemente, familiares. Hoje sei que aventuras destas so fisicamente custosas e podem ser sinal de muita vergonha, pois imediatamente partilhadas pelos quatros do globo, dada a tecnologia envolvente e a rapidez dos meios informticos existentes.

    Quando de manh cedo avistei o Faial, e, da coberta do navio, vi a surpreendente beleza da cidade da Horta, tive a mesma impresso que sinto quando chego a Malfi, na Itlia, meu pas

    Com estas palavras, transcritas do Correio da Horta de 9 de Junho de 1956, o prncipe Mrio Ruspoli anunciava a sua chegada ao porto da Horta, depois de uma viagem de 17 dias a bordo de um vapor sado de Le Havre, em Frana. Trazia consigo uma cmara 16mm Bell-Howell e a convico de filmar os ltimos baleeiros do tempo de Moby Dick, a aventura que tinha liderado a sua infncia. Ruspoli tinha conseguido um emprstimo de 2 milhes de francos do armador grego Onassis, com o qual pde reunir uma equipa etnogrfica para registar os sons e imagens da baleao aoriana. Assim viria a nascer Les Hommes de la Baleine, importante documentrio que nos desvela a experincia humana da caa baleia na ilha do Faial.

    O filme de Ruspoli inicia-se com um conjunto de pinturas inquietantes em que o Homem domina o grande Leviato dos mares, enca