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Agenda Cultural Faialense Comunitrio, no lucrativo e independente.

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  • No com cortes que se desatam ns

    #79 NOVEMBRO 12 O BOLETIM DO QUE POR C SE FAZMENSAL / DISTRIBUIO GRATUITA

  • Proposta legislativa vai tentar resolver situa-o dos mendigos era o ttulo da notcia publicada na pgina 5 do jornal Aoriano Oriental, no dia 14 de outubro de 2012.Pelo corpo da notcia ficmos a saber que a Associa-o Ilhas em Movimento vai apresentar uma pro-posta legislativa no sentido de obrigar as pessoas a no praticarem atos de vadiagem e mendicidade. Registe-se a subtileza: no se escreve proibir mas sim obrigar a no praticarem.O lder da Associao Ilhas em Movimento (AIM), o advogado Ricardo Pacheco, esclarece: O que nos propomos a desenvolver prende-se com a suscetibi-lidade de constituir ilcito penal os atos de vadiagem e mendicncia, atento o atual estdio de justia constitucional.Na parte final do artigo pode ler-se: a AIM conside-ra que est em causa uma questo de sade pbli-ca, da imagem que os Aores passam aos turistas e das boas regras da convivncia social, at por-que ningum gosta de andar em artrias pblicas e presenciar comportamentos e prticas desagra-dveis.Esta problemtica j tinha sido objeto da ateno do Conde de Abranhos, Alpio Severo de Noronha Abranhos, nascido em 1826 - vo completar-se 186 anos no dia de Natal deste ano. Problema j antigo, pois. De facto, a pobreza e os seus aspectos era-lhe odiosa. Isole-se o pobre! dizia ele um dia na C-mara dos Deputados, sintetizando o seu magnfico projecto para a criao dos Recolhimentos do Traba-lho. Nestas instituies, os pobres receberiam do

    O Trouve - Um objecto que permite cruzar novos contextos ou criar associaes novas.

    Persiste um fascnio sobre objectos que pare-cem mortos, sem utilizao, inanimados. Mas numa constelao nova eles inspiram-me a contar novos contos.

    s vezes sento-me num caf observando as pes-soas, e imagino as histrias que cada uma carrega consigo.

    O que deu origem aos contos entre as peas de corda. Eles tornaram-se pares de amor, de instru-o ou de discusso.

    So histrias inventadas por mim e para o espec-tador que, se calhar, atravs de outro olhar, sugere outras novas histrias.

    Assim, sinto que a Arte , muitas vezes, um espe-lho das nossas emoes, quer espelhe as emoes do artista quer as do espectador.

    Fazendo Editorial

    Capa

    2.

    Petra Bartenschlager

    Fazendo - DirecoAurora RibeiroToms Melo

    CoordenadoresAlbino Carla Cook Carlos Alberto Machado Fernando Nunes Filipe Porteiro Helena Krug Ldia Silva Pedro Gaspar Pedro Afonso

    CapaPetra Bartenschlager

    Colaboradores Andreia GouveiaBeatriz RosaCarla DmasoCarla GomesCristina LouridoGenuno MadrugaGonalo TochaJlio Correia da SilvaJos Lus NetoLus HenriquesMiguel MachetePedro LucasRuth BartenschlagerVernica AlvesVictor Rui Dores

    Design e GrafismoMauro Santos Pereirawww.comunicaratitude.pt

    RevisoCarla Dmaso

    Propriedade Associao Cultural Fazendo

    Sede Rua Conselheiro Medeirosn 19 9900 Horta

    Periodicidade Mensal

    Tiragem 500 exemplares

    Impresso Grfica O Telgrapho

    As opinies expressas nesta edio so dos autores e no necessariamente da direco do Fazendo

    Estado um tecto contra a chuva e um caldo contra a fome. O pobre devia viver ali, separado, isolado da sociedade, e no ser admitido a vir perturbar com a expresso da sua face magra e com narrao exa-gerada das suas necessidades, as ruas da cidade.

    E as classes dirigentes, tendo a certeza de que os seus pobres l esto, bem aferrolhados, com uma razovel enxerga e um caldo dirio, podem dormir descansadas, sem receio de perturbaes da ordem ou de revoltas do pauperismo.Quem sabe se no podero as ideias do Conde de Abranhos contribuir para que a Associao Ilhas em Movimento aperfeioe a sua proposta?

    Nota: O pensamento do Conde de Abranhos relati-vamente aos pobres e mendicidade est aqui ex-posto atravs de transcries do romance O Conde de Abranhos da autoria de Ea de Queirs.

    Jlio Correia da Silva

    Petra Bartenschlager, nascida 6.11.1960 em Munique/

    Alemanha

    1979 - 82 Formao de Carpintaria

    1985 Academia International em Salzburgo

    1994 - 95 Escola do Maestro Innsbruck/ Austra

    Vrias exposies com o Collectivo das Mulheres do Isartal

    O Conde de Abranhos de visita s Ilhas

  • Horta Cidade Educadora

    .3

    A cidade pode ser intencionalmente educadora. Uma cidade que educa f-lo quando, alm das suas funes tradicionais econmica, social, poltica e de prestao de servios exerce uma outra funo cujo objectivo a formao para e pela cidadania, promovendo e desenvolvendo o protagonismo de todos/as. Enquanto educadora, a Cidade tambm educanda.

    Habitar a cidade comprometer-se a reflectir e participar na estrutura e gesto do seu espao pblico (ambientes cuidados e qualificados), nos valores que esta fomenta, na qualidade de vida que oferece, considerando: as suas ruas e praas, as suas rvores e pssaros, o cine-teatro, a biblioteca, o castelo, a Assembleia regional, os seus cafs e res-taurantes, as suas igrejas, as suas empresas e lojas, o seu porto e praia, a baa enfim, toda a vida que pulsa na cidade.

    Por no ser uma tarefa espontnea das Cida-des, estala-nos a ateno sobre a vontade poltica para instaurar a cidadania plena, activa, estabelecer canais permanentes de comunicao e incentivar o

    envolvimento da populao para que ela assuma, de forma atrevida, o controle social da sua cidade.

    A cidade educadora integra, tolerante e flex-vel. Surpreende, cativa, deslumbra pelo seu patri-mnio, tecido urbano, reas verdes, janeles de luz, paredes tortas, cores inesperadas. Problematiza, questiona-nos e reconstri o olhar diferenciado em percursos inspirados onde o Encontro acontece. Quantas histrias no avesso dos lugares!

    As cidades falam de si prprias, preservam a sua memria e transmitem identidade s geraes que chegam. nos espaos informais de educao que as (re)visitamos, bisbilhotando, deixando-nos levar, recolhendo impresses, ilustrando os passos por curiosidade e paixo. Seja: museu, mercado, Casa de ch, lojas com exposies de fotografia, coreto/palco no jardim, cais com poesia, Banco de artistas, itinerrio do Monte da Guia.

    A Horta uma cidade de conjugaes imaginadas ao longo da histria, oscila entre ambientes aristo-craticamente decadentes, o cho-salgado dos ba-leeiros e a actualidade. Regenera os arrepios, arqui-

    Fazendo Actualidade

    #79 NOVEMBRO 12

    tecta cenrios, concentra sensibilidades e vontades bem-humoradas. Acumula alegria, prazer, leveza, in-conformismo criativo e aprende a aceitar e respeitar o que o desassossego das intervenes, unidas pelo acaso, quisera ser ou ter sido na alma da cidade.

    Talvez falte, simplesmente, uma nova atitude cidad. Mas este simplesmente muito tudo! Pequenas aces que nos encorajam a exigir, querer, desejar, formular.

    Viver a cidade andarilh-la, parar a conversar com as pessoas, sentar a sentir as flores, a maresia, cafzar com os amigos no passeio, apropriar-se dos cheiros, dos sons, dos sabores, dos espaos. Apre-ciar a jia na paisagem Pico.

    At o basalto dar flor, a Horta pode ser esta Cidade.

    Cristina Lourido

  • Fazendo Histria

    Entrevista a Antnio Jos SaraivaPoderia algum aceitar o raciocnio simplista de que as moscas possuem esprito universal por-que se espalharam pelo mundo inteiro? per-gunta Antnio Jos Saraiva, em entrevista concedi-da ao Fazendo.H anos atrs, um dos maiores antroplogos por-tugueses j existentes, Lus Lopes, confidenciou que os mortos bem conversados, dizem mais do que a maior parte dos vivos. Evidentemente falava de anlise e interpretao de esqueletos. Estava eu ainda a dar os primeiros passos na arqueologia. Se se podiam pr esqueletos e cacos a falar, tambm o poderamos fazer com as mmias da cultura por-tuguesa, cobertas de p e arrumadas no sto do esquecimento, na esperana de que oia a sua voz, quem no fr surdo. Um desses esqueletos do arm-rio da tumba nacional Antnio Jos Saraiva, marco da cultura portuguesa, nomeadamente da literria, do Sculo XX. Em 1946, estando a lecionar no liceu de Viana do Castelo, publica o Para a Histria da Cultura em Portugal. Quase 70 anos decorridos, a ele retornmos para lhe colocar algumas questes prementes e atuais.

    Hoje temos ativa a gerao mais qualificada de toda a histria portuguesa, mas parece total-mente impotente face crise que atualmente se vive. O que justifica isso?Todos sabemos que em Portugal o ensino universit-rio uma conveno. Existe com o nome de Univer-sidade um organismo dispensador de diplomas in-dispensveis ao exerccio de determinadas funes. A Universidade est destinada a ser ultrapassada pelos acontecimentos. J hoje ela uma pequena ilha resistindo com tenacidade nova ordem das coi-sas e nova cultura correspondente para a qual no est preparada.

    Ento, o problema portugus um problema das suas elites ou da cultura?Ora qual a massa representada na chamada elite portuguesa? Poderia algum aceitar o raciocnio simplista de que as moscas possuem esprito uni-versal porque se espalharam pelo mundo inteiro? A histria da cultura poderia ser encarada como uma srie de tentativas algumas realizadas, qua-se todas frustradas para acender dentro da vida colectiva o lume do logos. H condies histricas mais propcias do que outras. Talvez que o prprio facto histrico da expanso mundial (donde certos concluem, simplisticamente, o nosso universalismo) tenha criado condies que frustraram o acender-se a chama. H uma estagnao na vida mental portu-guesa a partir da segunda metade do sculo XVI. H lume de logos na poesia de Cames.

    Ento acha que desde Cames no h cultura em Portugal?O sculo XVII portugus oferece-nos um espetculo de uma cultura frustrada, vazia de experincia e de intelecto, em que as palavras chamam as palavras; uma espcie de delrio manso, calmo, convicto, in-corrigvel e fixo. Quem quer que pode abarcar no seu conjunto a