Fazendo 83

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agenda cultural faialense

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  • #83 MARO 13 O BOLETIM DO QUE POR C SE FAZMENSAL / DISTRIBUIO GRATUITA

    A Vida o Bolor do Mundo

  • Fazendo Editorial

    2.

    Editorial83Ano da publicao dos livros Arqui-tectura nos Aores: subsdios para o seu estudo e Escultura nos Aores

    -1983 do investigador e colecciona-dor terceirense Francisco Ernesto de Oliveira Martins. O escritor, professor e filsofo, Onsimo Teotnio Almei-da, publica A Questo da Literatura Aoriana. inaugurado o museu da Graciosa, que recupera uma casa ru-ral, uma adega e um moinho, exibindo canhes do sculo XV, uniformes e barcos baleeiros. A Biblioteca Pblica

    O Verde.

    O desenho composto de tcnicas mistas, sobrepostas e unidas pela cor comum, aquela que o olho guarda com maior harmonia no Faial: o verde.

    De clima instvel, o degrad acompa-nha a flutuao metereolgica que quem habita a ilha sente na pele.O papel guarda assim a memria das texturas que nascem da interveno humana.

    e Arquivo de Angra do Herosmo edi-ta Manuel Joaquim de Andrade um editor aoriano na cidade de Angra: catlogo de uma exposio. A rea envolvente ao porto de Vila do Topo, ilha de So Jorge, classificada como Reserva Natural Parcial, pelo Gover-no Regional dos Aores. Angra do Herosmo acorda em Setembro com um aparatoso incndio no interior da Catedral da S que lhe destruiria de forma irreversvel o seu interior, es-pecificamente a sua talha dourada dos altares, os rgos de tubos e o teto em caixotes. O centro histrico da cidade de Angra elevado a Cida-de Patrimnio Mundial da UNESCO, tornando-se pioneira na atribuio deste ttulo em Portugal, completan-do trinta anos desta efemride. A 28 de Setembro inaugurado o Aerdro-

    Ceci Lombardi

    DirecoAurora RibeiroToms Melo

    CapaCeci Lombardi

    Colaboradores Ana Besugo Carlos Alberto MachadoCristina LouridoDaniela SilveiraFernando NunesJlio vilaLus BicudoLus C.F. HenriquesRuth BartenschlagerRegina Venncio SilveiraVictor Rui Dores

    Layout DesignMauro Santos Pereirawww.comunicaratitude.pt

    PaginaoToms Melo

    RevisoCarla Dmaso

    Propriedade Associao Cultural Fazendo

    Sede Rua Conselheiro Medeirosn 19 9900 Horta

    Periodicidade Mensal

    Tiragem 500 exemplares

    Impresso Grfica O Telgrapho

    As opinies expressas nesta edio so dos autores e no necessariamente da direco do Fazendo

    Capa

    .3#83 MARO 13

    mo do Corvo, com uma pista de 800 metros de comprimento. O postal m-ximo CEPT Aores traz consigo a ban-deira do arquiplago aoriano e custa 12 escudos e cinquenta centavos. No continente, Mrio Soares substitui Francisco Pinto Balsemo no cargo de primeiro-ministro de Portugal (IX Governo Constitucional-PS/PSD). Nas salas de cinema estreiam-se os filmes

    Zelig do nova iorquino Woody Allen e La Nave Va do italiano Federico Fellini.

    Do nosso convvio desaparecem o ci-neasta mexicano Luis Buuel, realiza-dor de filmes como Susana, Le Chien Andalouz ou Los Olvidados, e ainda Herg, autor de banda desenhada do clebre Tintin.

    Ests c? Quando partes? As duas perguntas seguidas

    so caractersticas dos micaelen-ses que mantm o gosto de re-ceber os forasteiros. Da a mani-festao de alegria ao encontrar algum que se encontrava em-

    barcado (ests c?) e a pergunta imediata querer saber quando dei-

    xar a ilha (quando partes?), porque se pretende receb-lo em casa e, para

    isso, tem de se conhecer a sua agenda de compromissos. in Dicionrio Senti-

    mental da Ilha de So Miguel de A a Z, de Ftima Sequeira Dias, 2011

    Esta observao feita por uma ilustre mi-caelense que faleceu pouco depois de eu ter

    tomado conhecimento do seu trabalho e que eu tanto, mas tanto, gostaria de ter conhecido, pode ser estendida a todos os aorianos (arris-

    co a afirmar at que a todos os ilhus). Mas j c voltamos.

    Acontece de vez em quando, num jantar de ami-gos ou num passeio, que um deles, dos amigos, por motivos to inadiveis quanto inconvenien-tes, nos abandona e se vai, deixando o grupo que resta desfalcado, desasado, informe. O que fica outra coisa, no a mesma. Perde-se uma centelha de alegria se for um amigo humorado, de sarcas-mo se ele for mais para o retorcido ou de conexo se aquela alma que abalou fosse o elo de ligao entre todas as outras.

    Os grupos so assim somatrios de vontades e ainda mais que a pura soma das suas partes. Um grupo cria uma nova identidade, a do grupo, a alma

    conjunta. Uma nova energia ou, para usar uma palavra muito em voga no associativismo e na poltica: uma nova sinergia. E

    ilhas habitadas

    Fazendo CrnicaFazendo Crnica

    ainda que muito abstracto possa ser este conceito, reconhecemo-lo: ser a identidade de uma turma de adolescentes a mesma quando a professora est presente e quando no est? Non...

    A palavra egrgora, segundo apurei na internet (essa gigante e estranha egrgora) no anterior ao sc. XIX. Encontrei muitas referncias a ela em sites ligados ao ocultismo ou maonarias, mas nem sequer sabia que da vinha nem me parece coisa da qual eu vos possa falar com alguma propriedade, at porque nesses meios nem sempre utilizada com este sentido que comummente damos hoje em dia e que me levou a escrever este texto. A definio da wikipdia : Egrgora, ou egrgoro para outros, (do grego egrgorein, Velar, vigiar), como se denomina a entidade criada a partir do coletivo pertencente a uma assembleia, ou seja, um campo de fora cria-do no Plano Astral a partir da energia emitida por um grupo de pessoas atravs dos seus padres mentais e emocionais. Peguemos nesta noo de egrgora como entidade (conceito mais concreto e personifi-cado do que o de identidade) criada a partir da coe-xistncia de um grupo.

    Entendo a ilha (qualquer ilha) como um palco, onde os personagens (ns) actuam, entram e saem de cena, transformam e fazem progredir a narrativa e por a afora. Claro que no s nas ilhas, isto at se pode extrapolar para o mundo inteiro, imenso palco daquilo a que chamamos a Histria. Dentro do uni-verso, cada um de ns vive a sua histria, nos limites do seu tempo e espao (e na sua imaginao tam-bm ela mais ou menos limitada).

    egrgoras em mutao

    ningum c vem s para

    comer bifanas

    Mas que nas ilhas ainda se mantm a importncia da via-gem. Como quando h ainda nem 100 anos se escrevia no jornal que fulano tal filho de tal tinha vindo dos Cedros estudar para a Horta. A escassez d importncia s coisas. Hoje todos os jovens cedrenses es-tudam na Horta e to natural que nem sai nos jornais ( normalidade ningum lhe liga, e ainda bem).

    Mas vir s ilhas ou de c sair continua a ser caso de conversa e de reparo, de atenes e de perguntas. Tem que haver mais moti-vaes para vir de Lisboa ao Faial do que para parar em Vendas Novas. Ora, ningum c vem s para comer bifanas. A SATA leva e traz os personagens, alguns outros chegam e saem bravamente por mar, e enquanto c esto (esse dourado e frutuoso momento que vai desde o

    chegar at ao partir) aproveitamos todas as possibilidades dramticas desses novos actores e estes por sua vez aproveitam as nossas e tam-bm as maravilhas cenogrficas do dcor (nesse campo altamente cotadas, as ilhas, sim senhor).

    E a cada vinda e ida de algum a egrgora da ilha altera-se. A entidade que ns somos transforma-

    -se. Umas vezes mais fervilhante (sobretudo no Vero) outras mais intelectual (o Inverno ajuda). E dela resultam coisas, palpveis ou imaginadas. Da-mos conta que a vinda deste ou daquele persona-gem nos tornou mais isto ou mais aquilo e percebe-mos o que se perdeu com a ida de tal ou tal pessoa. Mudanas culturais, afectivas, sociais, cognitivas, sei l. A todos os nveis... E a vida isto, ir, vir, ficar... transformar. Estarmos atentos...

    Aurora Ribeiro

    Ceci Lombardi nasceu em So Paulo (1982), vive e trabalha entre Lisboa e Londres (que cinzenta). Trabalha com pintura, ilustrao, gua e cor.Visitou os Aores em 2009 e os br-culos verdes das ilhas ficaram grava-dos na sua memria. Quatro anos de-pois pinta, desenha, rabisca e colora a sua nostalgia.

  • 4.#83 MARO 13

    .5#83 MARO 13

    Fazendo Msica

    Sapateia(de So Miguel)A dana constituiu sempre um ato eminentemente social, cumprindo uma funo integradora. Dana(va)-

    -se e canta(va)-se para exteriorizar a alegria de viver, por um lado, e, por outro, pela necessidade de fazer uma espcie de catarse. o caso da Sapa-teia da ilha de S. Miguel, caracterizada pela sua energia rtmica. A melodia desta cantiga assenta so-bre os acordes da tnica e da dominan-te. A letra varia. Ora tem uma vertente lrica:

    Sapateia amor aquiAmor do meu coraoSe tu choras, tambm choroV l se te quero ou no.Ou uma veia mordaz:Se o padre cura soubesseO que a sapateia temLargava de dizer missaSapateava tambm.

    Mas h referncias menos jocosas, como por exemplo a aluso s con-dies scio-econmicas da maioria da populao micaelense de outros tempos:

    Sapateia, meu bem, sapateiaAi vira e volta a sapateiaAi quantas vezes, ai quantasO jantar serve de ceia.

    (Isto num tempo em que o jantar era o almoo e a ceia o jantar). ou no verdade que quem canta seus males espanta?

    Victor Rui Dores

    O organeiro Heitor Lobo ter nascido em Vila Real, por volta de 1496, vindo a morrer depois de 1571. Lobo, que partilha o mesmo apelido que o compo-sitor do incio do sculo XVII Duarte Lobo, tido como um dos primeiros organeiros portugueses. O primeiro rgo que se sabe ter construdo foi para o Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, entre 1530 e 1532. Pela documentao que chegou aos nossos dias, tem-se uma boa descrio deste instrumento, que voltou a ser reconstrudo em 1541 e ainda em 1559. Lobo ter sido tambm autor de um grande r-go para o coro alto da S do Porto (em 1537-1538) e mais dois de pequena dimenso. Alguns dos tubos

    deste rgo ainda sobreviveram at ao sculo XVIII, tendo sido incorporados no rgo que construiu Manoel Loureno da