!Financiamentode!Longo!Prazo!no!Brasil:!Um!Mercado!em ...· corrente, representada por’ Henry Thornton

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  • Financiamento de Longo Prazo no Brasil: Um Mercado em Transformao

    Long Term Finance in Brazil: a Market in Transformation

    Ernani Teixeira Torres Filho Professor Associado do IE-UFRJ Bolsista do IPEA

    Fernando Nogueira da Costa Professor Livre-Docente do IE-UNICAMP Bolsista do IPEA

    Resumo:

    Este artigo tem dois objetivos. Inicialmente, procura recuperar as principais teses contidas na bibliografia referente ao BNDES e seu papel histrico no financiamento do desenvolvimento brasileiro. O segundo objetivo analisar a perspectiva do financiamento em longo prazo no Pas e qual ser o papel futuro do BNDES nesse cenrio. Inovaes financeiras recentes esto estimulando a migrao do financiamento de longo prazo para fora dos balanos dos bancos em direo s carteiras de ativos dos fundos gestores de riqueza. A hiptese-chave que o atual padro de financiamento em longo prazo brasileiro dever, nos prximos anos, sofrer alteraes, aproximando-se, embora de forma prpria, ao que j se vem praticando em outros pases. Isso obrigar a uma mudana no comportamento dos principais atores desse mercado, destacadamente na atuao do BNDES. Essa perspectiva deveria mudar o rumo do debate acadmico, hoje, ainda muito polarizado ideologicamente.

    Palavras-chave: Financiamento de Longo Prazo Inovao Financeira

    Abstract:

    This paper has two objectives. Initially, seeks to review the main theses contained in the Brazilian economic literature on the role of the Brazilian Development Bank (BNDES) and its historical role in financing Brazilian economic development. The second objective is to analyze the perspective of long-term financing in the country and the future role of BNDES in this scenario. Recent financial innovations in Brazil are already transfering long-term financing from the books of banks to the portfolios of private wealth managers. The key assumption is that long-term financing in Brazil in the coming years will go through a great transfomation and become more similar, although keeping its own differences, to what is already being practiced in other more advanced capital markets.. This will require a change in the behavior of the main financial players, notably BNDES. This perspective should change the course of the academic debate, still far too ideologically polarized.

    Keywords: Financing Long Term - Financial Innovation

    Classificao JEL / JEL Classification: G17 G18 G21 G24 G38

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    Financiamento de Longo Prazo

    1. Introduo

    Este artigo tem dois objetivos. Inicialmente, procura recuperar as principais teses contidas na bibliografia referente ao BNDES, tendo em vista a elevada importncia desse banco de desenvolvimento no financiamento produtivo de longo prazo. Isso deve ser realizado tendo em vista uma dupla perspectiva. De um lado, analisar a avaliao do papel da instituio a partir do debate acadmico mais abstrato, ou seja, verificar a fundamentao terica de cada conjunto relevante de autores. De outro lado, expor claramente o debate ideolgico, representante de conflitos de interesses concretos, que deve estar referenciado ao momento histrico e poltico em que est inserido.

    A cada contexto ou tema histrico-institucional que se apresenta discusso da opinio especializada, aquelas linhas de pensamento lanam mo de argumentos circunscritos, embora mantenham o mesmo substrato terico. Levantar os principais argumentos encontrados na literatura publicada acerca do BNDES, distinguindo todos os planos de anlise, do mais abstrato ao que trata das decises prticas, o desafio proposto na primeira parte desse artigo. Nesse breve survey no se pretende seguir a cronologia das publicaes, pois a resenha poderia se encerrar quase em uma narrativa sequencial de fatos histricos. Para no ficar em apresentao meramente descritiva, resumindo autores que contam "sempre a mesma histria", mais interessante buscar fazer leitura analtica da literatura acadmica sobre o BNDES: catalogar como os principais temas foram tratados pelas correntes de pensamento liberal e desenvolvimentista. A ideia-chave resgatar as abordagens terico-abstratas permanentes e diferenci-las das abordagens histrico-institucionais datadas.

    Embora os temas se diferenciem ao longo do tempo financiamento da infraestrutura e indstria de insumos bsicos (1952-1964), financiamento da indstria de base e socorro a empresas em situao falimentar (1964-1984), financiamento exportao e privatizao (1985-2002), financiamentto retomada do crescimento sustentado por ciclo de investimentos e atuao contra crise (2003-2011) , o debate esteve ancorado nos mesmos fundamentos tericos. Os contedos dos argumentos ideolgicos se repetem, embora mudem de aparncia.

    O segundo objetivo analisar a perspectiva do financiamento de longo prazo no Pas e qual ser o papel do BNDES nesse cenrio futuro, tendo como ponto de partida o desenvolvimento recente do mercado financeiro, tanto local quanto internacional. A globalizao financeira, de uma forma geral, empurrou o financiamento de longo prazo para fora dos balanos dos bancos em direo aos fundos gestores de riqueza. Essa mudana no representou um alijamento dos bancos do processo, mas sua reinsero no papel de originadores e distribuidores relevantes.

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    O mercado de capitais tornou-se, assim, o locus central da intermediao de longo prazo em grande parte do mundo desenvolvido e emergente. O Brasil j dispe de um mercado financeiro que possui capacidade e instrumentos suficientemente desenvolvidos para operar de forma ampla a intermediao direta de fundos de longo prazo entre os detentores da riqueza lquida e os investidores. Entretanto, at o momento, a elevada taxa de juros, tanto a nominal, quanto a real, constituiu a principal barreira a inibir a maior intermediao privada domstica de ttulos corporativos de longo prazo.

    H, no entanto, sinais de que o atual padro de financiamento em longo prazo brasileiro dever, nos prximos anos, sofrer alteraes, aproximando-se, embora de forma prpria, ao que j se vem praticando em outros pases. Isso obrigar a uma mudana no comportamento dos principais atores desse mercado, inclusive o do BNDES e dos bancos comerciais, e consequentemente dever mudar tambm o rumo do debate acadmico.

    Alm desta breve Introduo, este artigo apresentar, em seguida, os fundamentos tericos e histricos do debate sobre financiamento de longo prazo, a abordagem neodesenvolvimentista e a neoliberal. Depois, expor as experincias recentes do BNDES e dos bancos comerciais nessa atividade. Focalizar o papel dos ttulos corporativos nesse processo de financiamento e concluir.

    2. Fundamentos Tericos e Histricos do Debate

    Em ensaio clssico, A Teoria Monetria e a Histria: Tentativa de Perspectiva, publicado originalmente em 1967, o laureado John Hicks se pergunta: o que sucedeu com as duas correntes de pensamento, a ortodoxa e a heterodoxa, no perodo clssico e neoclssico, ou seja, pr keynesiano? A primeira era representada, grosso modo, por David Ricardo e seus seguidores da Currency School. Ela defendia que tudo funcionaria bem se encontrasse a forma pela qual o crdito atuasse como fosse dinheiro neutro, isto , a moeda e o crdito no teriam existncia prpria no sentido de motivar decises, seja de adiamento, seja de adiantamento de gastos. As instituies financeiras seriam consideradas, basicamente, atores passivos, ou seja, meros intermedirios financeiros. A outra corrente, representada por Henry Thornton e defensores da Banking School, defendia que o dinheiro creditcio devia ser administrado, ainda que fosse difcil regul-lo.

    O que se sucedeu parece a Hicks ser, fundamentalmente, o seguinte. A doutrina ricardiana se tornou a doutrina oficial, ou talvez se possa dizer que muitas coisas, que s tinham sentido nos termos de Ricardo, constituram a doutrina oficial. Esta doutrina teve hegemonia durante tempo suficiente para que fosse apresentada por Keynes como a doutrina clssica que devia ser atacada. Os banqueiros falavam em ricardiano em seus discursos. Nos Manuais, o sistema monetrio, inclusive com crdito muito desenvolvido, era analisado em termos ricardianos. Entretanto, isto era a teoria; na prtica, vigorou mais a Escola Thornton-Mill (1967: 197).

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    Teoricamente, de acordo com princpios abstratos do livre-mercado, no haveria necessidade de desenvolver bancos pblicos, nem mesmo Bancos Centrais. Na prtica, houve sempre certa ambiguidade da prpria iniciativa particular a respeito, pois no s esses emprestadores em ltima instncia se desenvolveram, mas tambm outras instituies financeiras estatais. O Banco da Inglaterra criou, de maneira seminal, longa descendncia em que, em sua organizao, todos os Bancos Centrais possuem um departamento de controle monetrio, em termos contemporneos, o de mercado aberto, e outro departamento de superviso bancria, que acabou se avantajando. Isto no estaria de acordo com a doutrina oficial, mas predominou historicamente.

    Hicks acreditava que aos banqueiros parecia muito bom seus bancos aparecerem como (ou eles mesmos pensarem que eram) apenas um agente passivo que se ajustava a umas regras. Isto porque se s