FOLHA UNIVERSAL E A DOMINAÇÃO MASCULINA: UMA .2015-07-12 · trabalho está ancorado nos estudos

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FOLHA UNIVERSAL E A DOMINAO MASCULINA: UMA ANLISE DO

DISCURSO DA MDIA IMPRESSA RELIGIOSA

Wellton da Silva de Fatima1

RESUMO

Este trabalho busca compreender os processos de constituio de sentidos sobre a

mulher no discurso do Jornal Folha Universal da Igreja Universal do Reino de Deus,

tendo como pressuposto a dominao masculina com base no referencial terico e

metodolgico da Anlise do Discurso de linha francesa. O corpus se constitui de duas

edies da coluna Folha Mulher, mais especificamente dos enunciados destacados nos

chamados olhos caractersticos do discurso jornalstico. Buscamos estabelecer nessas

anlises a existncia dos sentidos estabilizados, mas tambm a possibilidade de

rupturas, de deslocamentos. Quanto construo da identidade da mulher, levamos em

considerao e operamos com os conceitos de memria, interdiscurso, formaes

discursivas e formaes ideolgicas; focando nas possibilidades que se do com as

expresses e cadeias parafrsticas.

Introduo

Religio, dominao masculina e mdia

A noo de dominao masculina em que estaremos inscritos no decorrer desse

trabalho est ancorado nos estudos elaborados por Pierre Bourdieu e se refere,

primordialmente, s relaes de poder que eternizam, arbitrariamente, o masculino em

detrimento do feminino no que consiste ao convvio em sociedade, a partir de uma

perspectiva discursiva.

Portanto, nos caro aprofundarmo-nos nesse conceito em uma perspectiva mais

ampla, afunilando as possibilidades de transversalidade do domnio masculino nas

relaes de poder e suas manifestaes atravs do discurso.

A partir de uma viso ampliada, Bourdieu (2014) ressalta a eternizao do

carter arbitrrio da dominao masculina, espantando-se em relao a ordem do

mundo, com seus sentidos nicos e seus sentidos proibidos. ordem estabelecida, com

suas relaes de dominao, seus direitos e suas imunidades, seus privilgios e suas

injustias, perpetue-se apesar de tudo [...]. Sendo assim, a perspectiva que se parte de

estranhamento do perpetuamento dessas estruturas, mesmo diante de um dado cenrio a

que a sociedade encontra-se imersa em seus determinados recortes de momentos

histricos e suas (incertas) progresses de pensamento social.

H, nesse sentido, uma incorporao de esquemas inconscientes de percepo

das estruturas histricas da ordem masculina, havendo a necessidade, portanto, da busca

de uma estratgia que consista em transformar um exerccio de reflexo transcendental

visando explorar as categorias de entendimento ou as formas de classificao com

as quais construmos o mundo. Tudo isso diante de um panorama etnogrfico de

1 Graduando em Letras/Literaturas pela UFRRJ Bolsista PIBIC/CNPq malcon.welton1@gmail.com

estruturas objetivos baseados em uma viso falo-narcsica e na cosmologia

androcntrica.

A respeito do componente etnogrfico percebido no que se refere a construo

social dos corpos h um trato da ordem da sexualidade comparada a dois universos

diferentes, sendo um deles a sociedade Cabila; no tocante a incorporao da dominao,

a ideia da definio social do corpo e dos rgos sexuais est evidenciada medida que

se compreende aqui o produto desses dois fatores enquanto um trabalho de construo

social. A violncia simblica, na perspectiva da dominao masculina, consiste no

aparato no qual se encontram reunidas todas as condies do pleno exerccio da

sobreposio da masculinidade, atravs de estruturas sociais e atividades produtivas e

reprodutivas, com base em uma diviso sexual do trabalho.

relevante notar, tambm, que na gnese do habitus feminino e nas condies

sociais de sua realizao tudo concorre para fazer da experincia feminina do corpo o

limite da experincia universal do corpo-para-o-outro, desse modo, o corpo percebido

duplamente determinado socialmente. Postula-se que atravs daquele que detm o

monoplio da violncia simblica legtima dentro da famlia que se exerce a ao

psicossomtica que leva somatizao da lei, dessa forma a adeso a ordem das coisas,

do princpio das tendncias afetivas atribudos mulher na diviso do trabalho de

dominao, da socializao diferencial que predispe os homens a amar os jogos de

poder e as mulheres a amar os homens que os jogam.

Portanto, compreende-se que o panorama de dominao atual tende

perpetuao tendo como contracondutas algumas possibilidades como o trabalho

histrico de des-historicizao no qual preciso reconstruir a histria do trabalho

histrico de des-historicizao, sendo importante a pesquisa histrica que, por sua vez,

no pode se limitar a descrever as transformaes da condio das mulheres no decorrer

dos tempos. No que se refere a possibilidade de mudana h de positivo o fato de que a

dominao masculina no impe mais com a evidncia de algo que indiscutvel. E de

todos os fatores de mudana, os mais importantes so os que esto relacionados com a

transformao decisiva da funo de dadas instituies que funcionam como aparelhos

ideolgicos do estado (Althusser, 1998), na reproduo da diferena entre os gneros.

Observando fenmenos inerentes s relaes humanas em uma perspectiva atual,

pode-se afirmar que a sociedade se circunscreve, ainda, em um regime estrutural

estritamente patriarcal, estando esse regime anterior a agentes sociais como, por

exemplo, a famlia e a igreja, os quais se configuram enquanto aparelhos ideolgicos do

Estado (Althusser, 1998). A organizao do patriarcado coloca a figura masculina no

centro do poder, estando submetidas a ela as demais instncias. Desse modo, as

mulheres j se inscrevem na perspectiva da diferena j que se encontram submetidas

masculinidade. A dominao masculina, que constitui as mulheres como objetos

simblicos [...] tem por efeito coloca-las em permanente estado de insegurana corporal,

ou melhor, de dependncia simblica: elas existem primeiro pelo, e para, o olhar dos

outros [...] (Bourdieu, 2014, p. 96). Ainda de acordo com Bourdieu, as relaes entre

os gneros se do conforme algumas associaes que se do em uma perspectiva

perpetuadamente simblica nas quais, por exemplo, as mulheres sempre esto

associadas ao espao interno, enquanto os homens estaro associados ao espao externo.

Nesse sentido, a masculinidade pressuposto fundamental para se exercer determinadas

posies no que se refere aos pares opositivos que contrapem a vida pblica e a vida

privada, o viril e o sensvel, entre outras coisas:

Nas faculdades de medicina, a poro de mulheres decresce

medida que se sobe na hierarquia das especialidades, algumas

das quais, como a cirurgia, lhes esto praticamente interditadas,

ao passo que outras, como a pediatria, ou a ginecologia, lhes

esto quase que reservadas. Como se v a estrutura se perpetua

nos pares de oposio homlogos s grandes divises

tradicionais, com a oposio entre as grandes escolas e as

faculdades de direito e de medicina e as faculdades de letras, ou,

dentro destas, entre a filosofia ou a sociologia e a psicologia ou

histria da arte. E sabido que o mesmo princpio de diviso

ainda aplicado, dentro de cada disciplina, atribuindo aos homens

o mais nobre, o mais sinttico, o mais terico e s mulheres o

mais analtico, o mais prtico, o menos prestigioso. (Bourdieu,

2014, p. 127)

Ainda luz dos estudos de Pierre Bourdieu, e na perspectiva sobre os pares

opositivos que evidenciam as divises dos papis de gnero, possvel perceber que h

lugares determinados aos quais somos designados e pr-dispostos ao sermos, no

momento do nascimento, designados segundo a genitlia. Sendo o feminino o lado

onerado dessa determinao social, indagam-se os motivos pelos quais a insurgncia de

negao a esse destino no seja um procedimento comum mesmo na

contemporaneidade, todavia, e seguindo a noo de habitus, entende-se que o processo

to naturalizado que a problematizao cotidiana fica comprometida, mesmo por parte

das mulheres: [...] as meninas incorporam, sob forma de esquemas de percepo e de

avaliao dificilmente acessveis conscincia, os princpios da viso dominante que as

leva a achar normal, ou mesmo natural, a ordem social tal como [...] (Bourdieu, 2014,

p.13).

A dominao masculina est enraizada na sociedade e as suas manifestaes

perpassam a perspectiva discursiva j que se inscrevem nela componentes ideolgicos

cujos sentidos so construdos historicamente. Esses sentidos, ao longo do tempo e das

transformaes pelas quais a sociedade passa, perpetuam-se e continuam a fixar a

masculinidade, simbolicamente, como centro do poder em detrimento da figura

feminina. Nesse sentido, compreender as diversas nuances pelas quais se manifestam e

se perpetuam essas estruturas de dominao torna-se urgente.

Refletindo a partir da ideia de prtica e de divindade caractersticas das religies

monotestas, encontramos processos similares principalmente entre as religies da

descendncia de Abrao, tais processos respaldados no texto sagrado e estruturado em

um modus operandis hierrquico que pe em evidencia a figura masculina para alm

apenas do embate homem/mulher. Alis, a fundao a que pod