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Fonte: HERCULANO, Alexandre. A Harpa do Crente Texto ... · PDF fileE chegar a meu termo, ... Os hinos do Senhor. A natureza Foi a primeira em celebrar seu nome ... Pelo Amigo do povo,

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Fonte: HERCULANO, Alexandre. A Harpa do Crente Texto proveniente de: A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro A Escola do Futuro da Universidade de So Paulo Permitido o uso apenas para fins educacionais. Texto-base digitalizado por: Projecto Vercial - Literatura Portuguesa Copyright (c) 1996-2004 Este material pode ser redistribudo livremente, desde que no seja alterado, e que as informaes acima sejam mantidas. Para maiores informaes, escreva para [email protected] Estamos em busca de patrocinadores e voluntrios para nos ajudar a manter este projeto. Se voc quiser ajudar de alguma forma, mande um e-mail para ou [email protected] br>.

ALEXANDRE HERCULANO

A HARPA DO CRENTE

1837 NDICE A Semana Santa A Voz A Arrbida Mocidade e Morte Deus A Tempestade O Soldado D. Pedro A Vitria e a Piedade A Cruz Mutilada

A SEMANA SANTA Der Gedanke Gott weckt einen frchterlichen Nachhar auf. Sein Name heisst Richter. SCHILLER I Tbio o sol entre as nuvens do ocidente, J l se inclina ao mar. Grave e solene Vai a hora da tarde! O oeste passa Mudo nos troncos da alameda antiga, Que voz da Primavera os gomos brota: O oeste passa mudo, e cruza o trio Pontiagudo do templo, edificado Por mos duras de avs, em monumento De uma herana de f que nos legaram, A ns seus netos, homens de alto esforo, Que nos rimos da herana, e que insultamos A Cruz e o templo e a crena de outras eras; Ns, homens fortes, servos de tiranos, Que sabemos to bem rojar seus ferros Sem nos queixar, menosprezando a Ptria E a liberdade, e o combater por ela. Eu no! eu rujo escravo; eu creio e espero No Deus das almas generosas, puras, E os dspotas maldigo. Entendimento Bronco, lanado em sculo fundido Na servido de gozo ataviada, Creio que Deus Deus e os homens livres! II Oh, sim! rude amador de antigos sonhos, Irei pedir aos tmulos dos velhos Religioso entusiasmo; e canto novo Hei-de tecer, que os homens do futuro Entendero; um canto escarnecido Pelos filhos dest' poca mesquinha. Em que vim peregrino a ver o mundo, E chegar a meu termo, e reclinar-me branda sombra de cipreste amigo. III Passa o vento os do prtico da igreja Esculpidos umbrais: correndo as naves Sussurrou, sussurrou entre as colunas De gtico lavor: no rgo do coro Veio, enfim, murmurar e esvaecer-se.

IV Mas porque sou o vento? Est deserto, Silencioso ainda o sacro templo: Nenhuma voz humana ainda recorda Os hinos do Senhor. A natureza Foi a primeira em celebrar seu nome Neste dia de luto e de saudade! Trevas da quarta-feira, eu vos sado! Negras paredes, mudos monumentos De todas essas oraes de mgoa, De gratido, de susto ou de esperana. Depositadas ante vs nos dias De fervorosa crena, a vs que enluta A solido e o d, venho eu saudar-vos. A loucura da Cruz no morreu toda (1) Aps dezoito sculos! Quem chore Do sofrimento o Heri existe ainda. Eu chorarei que as lgrimas so d homem Pelo Amigo do povo, assassinado Por tiranos, e hipcritas, e turbas Envilecidas, brbaras, e servas. V Tu, Anjo do Senhor, que acendes o estro; Que no espao entre o abismo e os cus vagueias, Donde mergulhas no oceano a vista; Tu que do trovador mente arrojas Quanto h nos cus esperanoso e belo, Quanto h no abismo tenebroso e triste, Quanto h nos mares majestoso e vago, Hoje te invoco! oh, vem! , lana em minha alma A harmonia celeste e o fogo e o gnio, Que dem vida e vigor a um carme pio. VI A noite escura desce: o Sol de todo Nos mares se atufou. A luz dos mortos, Dos brandes o claro, fulgura ao longe No cruzeiro somente e em volta da ara: E pelas naves comeou rudo De compassado andar. Fiis acodem morada de Deus, a ouvir queixumes Do vate de Sio. Em breve os monges, Suspirosas canes aos Cus erguendo, Sua voz uniro voz desse rgo, E os sons e os ecos reboaro no templo. Mudo o coro depois, neste recinto Dentro em bem pouco reinar silncio, O silncio dos tmulos, e as trevas Cobriro por esta rea a luz escassa

Despedida das lmpadas. que pendem Ante os altares, bruxuleando frouxas. Imagem da existncia! Enquanto passam Os dias infantis, as paixes tuas, Homem, qual ento s, so dbeis todas. Cresceste: ei-las torrente, em cujo dorso Sobrenadam a dor e o pranto e o longo Gemido do remorso, a qual lanar-se Vai com rouco estridor no antro da morte, L, onde tudo horror, silncio, noite. Da vida tua instantes florescentes Foram dois, e no mais: as cs e rugas, Logo, rebate de teu fim te deram. Tu foste apenas som, que, o ar ferindo, Murmurou, esqueceu, passou no espao. E a casa do Senhor ergueu-se. O ferro Cortou a penedia; e o canto enorme Polido alveja ali no espesso pano Do muro colossal, que era aps era, Como onda e onda ao desdobrar na areia, Viu vir chegando e adormecer-lhe ao lado. O ulmo e o choupo no cair rangeram Sob o machado: a trave afeioou-se; L no cimo pousou: restruge ao longe De martelos fragor, e eis ergue o templo, Por entre as nuvens, bronzeadas grimpas. Homem, do que s capaz! Tu, cujo alento Se esvai, como da cerva a leve pista No p se apaga ao respirar da tarde, Do seio dessa terra em que s estranho, Sair fazes as moles seculares, Que por ti, mono, falem; ds na ideia Eterna durao s obras tuas. Tua alma imortal, e a prova a deste! VII Anoiteceu. Nos claustros ressoando As pisadas dos monges ouo: eis entram; Eis se curvaram paru o cho, beijando O pavimento, a pedra. Oh, sim, beijai-a! Igual vos cobrir a cinza um dia, Talvez em breve e a mim. Consolo ao morto a pedra do tmulo. S-lo-ia Mais, se do justo s a herana fora; Mas tambm ao malvado dada a campa. E o criminoso dormir quieto Entre os bons soterrado? Oh, no! Enquanto No templo ondeiam silenciosas turbas, Exultaro do abismo os moradores, Vendo o hipcrita vil, mais mpio que eles, Que escarnece do Eterno, e a si se engana;

Vendo o que julga que oraes apagam Vcios crimes. e o motejo e o riso Dado em resposta s lgrimas do pobre; Vendo os que nunca ao infeliz disseram De consolo palavra ou de esperana. Sim: malvados tambm ho-de pisar-lhes Os frios restos que separa a terra, Um punhado de terra, a qual os ossos Destes h-de cobrir em tempo breve, Como cobriu os seus; qual vai sumindo No segredo da campa a humana raa. VIII Eis que a turba rareia. Ermam bem poucos Do templo na amplido: s l no escuro De afumada capela o justo as preces Ergue pio ao Senhor, as preces puras De um corao que espera, e no mentidas De lbios de impostor, que engana os homens Com seu meneio hipcrita, calando Na alma lodosa da blasfmia o grito. Ento exultaro os bons, e o mpio, Que passou, tremer. Enfim, de vivos, Da voz, do respirar o som confuso Vem confundir-se no ferver das praas, E pela galil s ruge o vento. Em trevas no, ficou silenciosas O sagrado recinto: os candeeiros, No gelado ambiente ardendo a custo, Espalham dbeis raios, que reflectem Das pedras pela alvura; o negro mocho, Companheiro do morto, hrrido pio Solta l da cornija: pelas fendas Dos sepulcros desliza fumo espesso; Ondeia pela nave, e esvai-se. Longo Suspirar no se ouviu? Olhai!, l se erguem, Sacudindo o sudrio, em peso os morros! Mortos, quem vos chamou? O som da tuba Ainda do Josafat no fere os vales. Dormi, dormi: deixai passar as eras... IX Mas foi uma viso: foi como cena D' imaginar febril. Criou-se, acaso Do poeta na mente, ou desvendou-lhe A mo de Deus o ntimo ver da alma, Que devassa a existncia misteriosa Do mundo dos espritos? Quem sabe? Dos vivos j deserta, a igreja torva Repovoou-se, para mim ao menos, Dos extintos, que ao p das santas aras Leito comum na sonolncia extrema Buscaram. O terror, que arreda o homem Do limiar do tempo s horas mortas,

No vem de crena v. Se fulgem astros, Se a luz da Lua estira a sombra eterna Da cruz gigante (que campeia erguida No vrtice do tmpano, ou no cimo Do coruchu do campanrio) ao longo Dos inclinados tectos, afastai-vos! Afastai-vos daqui, onde se passam A meia-noite inslitos mistrios; Daqui, onde desperta a voz do arcanjo Os dormentes da morte; onde rene O que foi forte e o que foi fraco, o pobre E o opulento, o orgulhoso e o humilde, O bom e o mau, o ignorante e o sbio, Quantos, enfim, depositar vieram !unto do altar o que era seu no mundo, Um corpo nu, e corrompido e inerte. X E seguia a viso. Cria ainda achar-me, Alta noite, na igreja solitria Entre os mortos, que, erectos sobre as campas, Eram pouco um fumo que ondeava Pelas fisgas do vasto pavimento. Olhei. Do erguido tecto o pano espesso Rareava; rareava-me ante os olhos, Como tnue cendal; mais tnue ainda, Como o vapor de Outono em quarto d'alva, Que se libra no espao antes que desa A consolar as plantas conglobado Em matutino orvalho. O firmamento Era profundo e amplo. Envolto em glria, Sobre vagas de nuvens, rodeado Das legies do Cu, o Ancio dos dias, O Santo, o Deus descia. Ao sumo aceno Parava o tempo, a imensidade, a vida Dos mundos a escutar. Era esta a hora Do julgamento desses que se alavam, voz de cima, sobre as sepulturas? XI Era ainda a viso. Do templo em meio Do anjo da morte a espada flamejante Crepitando bateu. Bem como insectos, Que flor de pego pantanoso e triste Se balouavam quando a tempestade Veio as asas molhar nas guas turvas, Que marulhando sussurraram surgem Volteando, zumbindo em dana doida, E, lassos, vo pousar em longas filas Nas margens do paul, de um lado e de outro; Tal o murmrio e a agitao incerta Ciciava das sombras remoinhando Ante o sopro de Deus. As melodias Dos coros celestiais, longnquas, frouxas,

Com frmito infernal se misturavam Em caos de dor e jbilo. Dos mortos Parava, enfim, o vrtice enredado; E os grupos vagos em distintas turmas Se enfileiravam de uma parle e de outra. Depois, o gldio do anjo entre os dois bandos Ficou, nica luz, que se estirava Desde o cruzeiro ao prtico, e feria De reflexo vermelho os largos panos Das paredes de mrmore, bem como Mar de sangue, onde inertes flutuassem De humanos vultos indecisas formas. XII E seguia a viso. Do templo esquerda, Mestas as faces, inclinada afronte, Da noit

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