Franz kafka a metamorfose

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  • 1. Franz KafkaA METAMORFOSETRADUO DE MODESTO CARONE

2. 2Companhia Das LetrasDe certo modo, no preciso ter lido Kafka para conhece-lo um pouco, pelo menos. O adjetivo kafkiano tornou-se para ns sinnimo de incompreensvel, caracterizando em geral uma seqncia de fatos aparentemente banais e, ao mesmo tempo, perfeitamente refratrios a qualquer tipo de explicao.A primeira fase de A metamorfose j nos lana em pleno universo kafkiano: Quando certa manh Gregor Samsa acordou de sonhos intranqilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Gregor Samsa mora com a famlia: pai, me, irm. Ao longo da narrativa, acompanhamos o estupor dos trs, o esforo que fazem para descobrir qual o comportamento adequado situao; do outro lado, vemos uma conscincia tragada por um corpo que lhe estranho. Um corpo antinatural, a-histrico. Mas o absurdo narrado num tom preciso, frio, formal, como se o pesadelo integrasse naturalmente o cotidiano: a dor dos escritos de Kafka deve muito a essa tcnica da indiferena.http://groups.google.com/group/digitalsource 3. 3Franz KafkaA METAMORFOSETraduo e posfcio:MODESTO CARONE10 reimpresso 4. 4Companhia Das Letras______________________________________________________________Copyright traduo, posfcio e notas 1985, 1997.By Modesto CaroneTtulo original:Die VerwandlungCapa:Hlio de AlmeidaSobre desenho deAmlcar de CastroReviso:Isabel Jorge CuryCeclia RamosDados Internacionais de Catalogao na Publicidade (CP)(Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil).___________________________________________________________________________Kafka, Franz, 1883-1924.A metamorfose / Franz Kafka; traduo e posfcio.Modesto Carone. So Paulo: Companhia das Letras,1997.Ttulo original: Die VerwandlungISBN 85-7164-685-61. Fico alem I. Carone, Modesto, II. Ttulo97-3058 CDD-833.91___________________________________________________________________________ndices para catlogo sistemtico:1. Fico: Sculo 20: Literatura alem 833.912. Novelas: Sculo 20: Literatura alem 833.913. Sculo 20: Fico: Literatura alem 833.914. Sculo 20: Novelas: Literatura alem 833.912002Todos os direitos desta edio reservados EDITORA SCHWARCZ LTDA.Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 3204532-002 So Paulo SPTelefone: (!!) 3167-0801Fax: (!!) 3167-0814 5. 5www.companhiadasletras.com.brA METAMORFOSEFranz Kafka(Traduo de Modesto Carone) 6. 6Captulo IQuando certa manh Gregor Samsa acordou de sonhos intranqilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas costas duras como couraa e, ao levantar um pouco a cabea, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido por nervuras arqueadas, no topo de qual a coberta, prestes a deslizar de vez, ainda mal se sustinha. Suas numerosas pernas, lastimavelmente finas em comparao com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos. O que aconteceu comigo? pensou.No era um sonho. Seu quarto, um autntico quarto humano, s que um pouco pequeno demais, permanecia calmo entre as quatro paredes bem conhecidas. Sobre a mesa, na qual se espalhava, desempacotado, um mostrurio de tecidos Samsa era caixeiro viajante, pendia a imagem que ele havia recortado fazia pouco tempo de uma revista ilustrada e colocado numa bela moldura dourada. Representava uma dama de chapu de pele e boa pele que, sentada em posio ereta, erguia ao encontro do espectador um pesado regalo tambm de pele, no qual desaparecia todo o seu antebrao.O olhar de Gregor dirigiu-se ento para a janela e o tempo turvo ouviam-se gotas de chuva batendo no zinco do parapeito deixou-o inteiramente melanclico. 7. 7 Que tal se eu continuasse dormindo mais um pouco e esquecesse todas essas tolices? pensou, mas isso era completamente irrealizvel, pois estava habituado a dormir do lado direito e no seu estado atual no conseguia se colocar nessa posio. Qualquer que fosse a fora com que se jogava para o lado direito balanava sempre de volta postura de costas. Tentou isso umas cem vezes, fechando os olhos para no ter de enxergar as pernas desordenadamente agitadas, e s desistiu quando comeou a sentir do lado uma dor ainda nunca experimentada, leve e surda. Ah, meu Deus! pensou. Que profisso cansativa eu escolhi. Entra dia, sai dia viajando. A excitao comercial muito maior que na prpria sede da firma e, alm disso, me imposta essa canseira de viajar, a preocupao com a troca de trens, as refeies irregulares e ruins, um convvio humano que muda sempre, jamais perdura, nunca se torna caloroso. O diabo carregue tudo isso!Sentiu uma leve coceira na parte de cima do ventre; deslocou-se devagar sobre as costas at mais perto da guarda da cama para poder levantar melhor a cabea; encontrou o lugar onde estava coando, ocupado por uma poro de pontinhos brancos que no soube avaliar; quis apalpa-lo com uma perna, mas imediatamente a retirou, pois ao contato acometeram-no calafrios.Deslizou de volta antiga posio. Acordar cedo assim deixa a pessoa completamente embotada pensou. O ser humano precisa ter o seu sono. Outros caixeiros 8. 8viajantes vivem como mulheres de harm. Por exemplo, quando volto no meio da tarde ao hotel para transcrever as encomendas obtidas, esses senhores ainda esto sentados para o caf da manh. Tentasse eu fazer isso com o chefe que tenho: voaria no ato para a rua. Alis, quem sabe no seria muito bom para mim? Se no me contivesse, por causa dos meus pais, teria pedido demisso h muito tempo; teria me postado diante do chefe e dito o que penso do fundo do corao. Ele iria cair da sua banca! Tambm, estranho o modo como toma assento nela e fala de cima para baixo com o funcionrio que alm do mais precisa se aproximar bastante por causa da surdez do chefe. Bem, ainda no renunciei por completo esperana: assim que juntar o dinheiro para lhe pagar a dvida dos meus pais deve demorar ainda de cinco a seis anos vou fazer isso sem falta. Chegar ento a vez da grande ruptura. Por enquanto, porm, tenho de me levantar, pois meu trem parte s cinco.E olhou para o despertador que fazia tique-taque sobre o armrio. Pai do cu! pensou. Eram seis e meia e os ponteiros avanavam calmamente, passava at da meia hora, j se aproximava de um quarto. Ser que o despertador no havia tocado? Via-se da cama que ele estava ajustado certo para quatro horas: seguramente o alarme tinha soado. Sim mas era possvel continuar dormindo tranqilo com esse toque de abalar aa moblia? Bem, com tranqilidade ele no havia dormido, mas provvel que por causa disso o sono tenha sido mais profundo. E agora, o 9. 9que deveria fazer? O prximo trem partia s sete horas; para alcana-lo precisaria se apressar como louco, o mostrurio ainda no estava na mala e ele prprio no se sentia de modo algum particularmente disposto e gil. E mesmo que pegasse o trem no podia evitar uma exploso do chefe, pois o contnuo da firma tinha aguardado junto ao trem das cinco e fazia muito tempo que havia comunicado sua falta. Era uma criatura do chefe, sem espinha dorsal nem discernimento. E se anunciasse que estava doente? Mas isso seria extremamente penoso e suspeito, pois durante os cinco anos de servio Gregor ainda no tinha ficado doente uma nica vez. Certamente o chefe viria com o mdico do seguro de sade, censuraria os pais por causa do filho preguioso e cercearia todas as objees apoiado no mdico, para quem s existem pessoas inteiramente sadias, mas refratrias ao trabalho. E neste caso estaria to errado assim? Com efeito, abstraindo-se uma sonolncia realmente suprflua depois de longo sono, Gregor sentia-se muito bem e estava at mesmo com uma fome especialmente forte.Enquanto refletia sobre tudo isso na maior pressa, sem poder se decidir a deixar a cama o despertador acabava de dar um quarto para as sete, bateram cautelosamente na porta junto cabeceira da sua cama. Gregor chamaram; era a me. um quarto para as sete. Voc no queria partir? Que voz suave! Gregor se assustou quando ouviu sua prpria voz responder, era 10. 10inconfundivelmente a voz antiga, mas nela se imiscua, como se viesse de baixo, um pipilar irreprimvel e doloroso, que s no primeiro momento mantinha literal a clareza das palavras, para destru- las de tal forma quando acabavam de soar que a pessoa no sabia se havia escutado direito. Gregor quisera responder em mincia e explicar tudo, mas nestas circunstncias se limitou a dizer: Sim, sim, obrigado, me, j vou me levantar.Com certeza por causa da porta de madeira no se podia notar l fora a alterao na voz de Gregor, pois a me se tranqilizou com essa explicao e se afastou arrastando os chinelos. Mas a breve conversa chamou a ateno dos outros membros da famlia para o fato de Gregor, contrariando as expectativas, ainda estava em casa e j o pai batia, fraco, mas com o punho, numa porta lateral. Gregor, Gregor chamou. O que est acontecendo?E depois de um intervalo curto advertiu outra vez, com voz mais profunda: Gregor, Gregor!Na outra porta lateral, entretanto, a irm lamuriava baixinho: Gregor? Voc no est bem? Precisa de alguma coisa?Gregor respondeu para os dois lados: J estou pronto e atravs da pronuncia mais cuidadosa e da introduo de longas pausas entre as palavras se esforou para retirar sua voz tudo que chamasse a ateno. 11. 11O pai tambm voltou ao seu caf da manh, mas a irm sussurrou: Gregor, abra, eu suplico.Gregor, entretanto no pensava absolutamente em abrir, louvando a precauo, adotada nas viagens, de conservar as portas trancadas durante a noite, mesmo em casa.Queria primeiro levantar-se, calmo e sem perturbao, vestir-se e, sobretudo tomar o caf da manh, e s depois pensar no resto, pois percebia muito bem que, na cama, no chegaria, com as suas reflexes, a uma concluso sensata. Lembrou-se de j ter sentido, vrias vezes, alguma dor ligeira na cama, provocada talvez pela posio desajeitada de deitar, mas que depois, ao ficar em p, mostrava ser pura imaginao, e estava ansioso para ver como iriam gradativamente se dissipar as imagens do dia de hoje. No duvidava nem um pouco de que a alterao da voz