Frederic Jameson - Reificação e Utopia na cultura de massa

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Text of Frederic Jameson - Reificação e Utopia na cultura de massa

  • SUMRIO

    Fredric Jameson Reificao e utopia na cultura de massa .......................................................1

    Caio Navarro de Toledo A modernidade democrtica da esquerda: adeus revoluo? ...................27

    Dcio Saes Marxismo e histria ....................................................................................39 Jorge Migliol~ Ricardo Antunes, Jacob Gorender, Jos Paulo Netto, Joo Quartim de Moraes, Mrcio Bilharinho Naves Debate: O marxismo e a desagregao da Unio Sovitica........................ 61 Benedicto Arthur Sampaio e Celso Frederico Marx: Estado, sociedade civil e horizontes metodolgicos na Crtica da Filosofia do Direito............................................................................ 85 Karl Marx Maquinaria e trabalho vivo (Os efeitos da mecanizao sobre o trabalhador) .................................... ............................................... 103

    RESENHAS Perry Anderson, O fim da histria: de Hegel a Fukuyama ............................111 Alex Callinicos, A vingana da histria.........................................................115 Maurcio Chalfin Coutinho, Lies de Economia Poltica Clssica..............119 Fredric Jameson, O inconsciente poltico.......................................................122 Le Mouvement Social n 62, "Syndicats d'Europe".......................................131 Robert Kurz, O Colapso da Modernizao (Da derrocada do socia lismo de caserna crise da economia mundial) .......................................135

    IX

  • REIFICAO E UTOPIA NA CULTURA DE MASSA

    FREDRIC JAMESON* Traduo: Joo Roberto

    Martins Filho Reviso Tcnica: Maria Elisa Cevasco

    A teoria da cultura de massa - ou cultura da audincia de massa, cultura comercial, cultura "popular", indstria cultural, como variadamente conhecida - sempre tendia a definir seu objeto em contraposio assim chamada alta cultura, sem refletir sobre o estatuto objetivo dessa oposio. Com bastante freqncia, as posi-es neste campo reduzem-se a duas imagens especulares, que so essencialmente apresentadas em termos de valor. Assim, o tema familiar do elitismo defende a prioridade da cultura de massa, com base na pura quantidade de pessoas a ela expostas; a busca da alta cultura, ou cultura hermtica, ento estigmatizada como um passatempo tpico do status de um reduzido grupo de intelectuais. Como sugere seu impulso antiintelectual, esta posio essencialmente negativa tem pouco contedo terico, mas remete claramente a uma convico com razes profundas no populismo americano e articula uma idia amplamente estabelecida de que a alta cultura um fenmeno do sistema, irredimivelmente marcado por sua associao com as instituies, em particular com a universidade. Invoca-se, portanto, um valor social: seria prefervel tratar de programas de TV, de O Poderoso Chefo, ou Tubaro, que de Wallace Stevens ou Henry James, pois os primeiros falam nitidamente uma linguagem cultural significativa para estratos da populao bastante mais amplos que o estrato socialmente representado pelos intelectuais. Mas os radicais(1) populistas tambm so intelectuais, portanto essa posio tem implicaes suspeitas de uma incurso na culpa; na mesma chave, ela desconsidera a postura anti-social, crtica e negativa (embora em geral no revolucionria) de grande parte das formas mais importantes da arte moderna; finalmente, no oferece nenhum mtodo para a leitura, mesmo desses objetos culturais que valoriza e pouco teve a dizer de interessante sobre o seu contedo.

    * Professor da Universidade de Duke, EUA. 1. Termo empregado, nos Estados Unidos, para designar os esquerdistas militantes. (N.T.)

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  • Essa postura ento invertida na teoria da cultura elaborada pela Escola de Frankfurt; de forma apropriada para essa anttese exata da posio populista, a obra de Adorno, Horkheimer, Marcuse e outros intensamente terica e fornece uma metodologia de trabalho para a anlise atenta precisamente desses produtos da indstria cultural que ela estigmatiza e que a vertente militante exalta. De forma breve, esta viso pode ser caracterizada como a extenso e aplicao das teorias marxistas da reificao da mercadoria s obras da cultura de massa. A teoria da reificao (aqui fortemente recoberta com a anlise da racionalizao, de Max Weber) descreve o modo pelo qual, sob o capitalismo, as formas tradicionais mais antigas da atividade humana so instrumentalmente reorganizadas ou "taylorizadas", analiticamente fragmentadas e reconstrudas, segundo vrios modelos racionais de eficincia e essencialmente reestruturadas com base em uma diferenciao entre meios e fins. Trata-se de uma idia paradoxal, que no pode ser adequadamente apreciada at que se entenda em que medida a separao meios/fins efetivamente isola ou suspende os prprios fins, da o valor estratgico desse termo da Escola de Frankfurt, "instrumentalizao", que significativamente coloca em primeiro plano a organizao dos meios em si mesmos, contra qualquer uso ou valor particular que se atribua sua prtica(2). Na atividade tradicional, em outras palavras, o valor imanente, e qualitativamente distinto de outros fins e valores articulados em formas diversas de trabalho ou desempenho humano. Socialmente, isso significava que, nessas comunidades, tipos diferentes de trabalho eram estritamente incomparveis; na Grcia antiga, por exemplo, o conhecido es-quema aristotlico das quatro causas em operao na artesania ou poesis (mate-rial, formal, eficiente e final) aplicava-se somente ao trabalho artesanal, e no agricultura ou guerra, que tinham uma base "natural" - vale dizer, sobrenatural ou divina - muito diferente(3). apenas com a mercantilizao universal da fora de trabalho, que O Capital de Marx designa como a pr-condio fundamental do capitalismo, que todas as formas de trabalho humano podem ser separadas de sua diferenciao qualitativa nica, enquanto tipos de atividade distintos (a minerao em oposio agricultura, a composio de peras como distinta da manufatura txtil), e todas uni versalmente niveladas sob o denominador comum do quantitativo, isto , sob o valor de troca universal da moeda(4). Neste ponto, ento, a qualidade das vrias formas de atividade humana, seus "fins" e valores nicos e distintos, foi efetivamente isolada ou suspensa pelo sistema de mercado, deixando todas essas atividades livres para serem implacavelmente reorganizadas em termos de eficincia, como meros meios ou instrumentalidade.

    2. Ver, para as fontes tericas dessa oposio, meu ensaio sobre Max Weber, ''The Vanishing Mediator", in The ldeologies ofTheory, vol. 11 (Minnesota, University of Minnesota Press, 1988), pp. 3-34. 3. O estudo clssico permanece o de l-P.Vemant; ver ''Travail et nature dans Ia Grece ancienne" e "Aspects psychologiques du travail", in Mythe et pense chez les grecs (Paris, Maspro, 1965). 4. Alm de Marx, ver Georg Simmel, Philosophy of Money (Londres, Routledge, 1978) e tambm seu clssico "Metropolis and Mental Life", traduzido em Simmel, On lndividuality and Social Forllls (Chicago, University of Chicago Press, 1971), pp. 324-39.

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  • A fora da aplicao dessa idia a obras de arte pode ser medida em contraste com a definio da arte na filosofia esttica tradicional (em particular em Kant) como uma "finalidade sem um fim", isto , uma atividade orientada a uma meta que, no obstante, carece de propsito ou fim prtico no "mundo real" dos negcios, da poltica, ou da prxis humana concreta em geral. Tal definio tradicional certamente vale para toda arte que opere enquanto tal: no para histrias inspidas, vdeos domsticos ou garranchos poticos ineptos, mas para obras bem-sucedidas, tanto da cultura de massa como da alta cultura. Ns suspendemos to completamente nossas vidas reais e preocupaes. prticas imediatas, tanto quando assistimos ao Poderoso Chefo, quando como lemos The Wings of the Dove ou ouvimos uma sonata de Beethoven.

    Neste ponto, entretanto, o conceito de mercadoria introduz a possibilidade de diferenciao estrutural e histrica no seio daquela que foi concebida como a descrio universal da experincia esttica enquanto tal e em qualquer forma. O conceito de mercadoria abrevia o caminho para o fenmeno da reificao - des-crito acima em termos de atividade ou produo - de um ngulo diferente, o do consumo. Num mundo em que tudo, inclusive a fora de trabalho, se tomou mercadoria, os fins permanecem no menos indiferenciados que no esquema de produo - so todos rigorosamente quantificados e se tomaram abstratamente comparveis por meio da moeda, de seu preo ou salrio respectivos. Mais ain-da, podemos agora formular sua instrumentalizao, sua reorganizao com base na separao meios/fins, numa nova forma, dizendo que, mediante sua transformao em mercadoria, uma coisa de qualquer tipo foi reduzida a um meio para seu prprio consumo. Ela no tem mais nenhum valor qualitativo em si, mas apenas at onde possa ser "usada": as vrias formas de atividade perdem suas satisfaes intrnsecas imanentes enquanto atividade e tomam-se meios para um fim.

    Os objetos do mundo capitalista das mercadorias tambm irradiam seu "ser" independente e suas qualidades intrnsecas e passam a ser instrumentos de satis-fao mercantil: o exemplo conhecido o do turismo - o turista americano no deixa mais a paisagem "estar em seu ser" como Heidegger diria, mas tira uma foto dela, transformando assim graficamente o espao em sua prpria imagem material. A atividade concreta de olhar uma paisagem - inclusive, sem dvida, a inquietante perplexidade com a prpria atividade, a ansiedade que deve surgir quando seres humanos, confrontando o no-humano, imaginam o que esto fa-zendo ali e qual seria o propsito desse confronto, antes de tudo(5) - assim confortavelmente substituda pelo ato de tomar posse dela e convert-la numa forma de propriedade pessoal. Esse o sentido da grande cena do filme de Godard, Les Carabiniers (1962-63), quando os novos conquistadores do mun