FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS CENTRO DE PESQUISA E João Pacheco de Oliveira. João Pacheco de Oliveira

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FUNDAO GETULIO VARGAS CENTRO DE PESQUISA E DOCUMENTAO DE HISTRIA CONTE PORNEA

DO BRASIL (CPDOC)

Proibida a publicao no todo ou em parte; permitida a citao. A citao deve ser fiel gravao, com indicao de fonte conforme abaixo.

FILHO, Joo Pacheco de Oliveira. Joo Pacheco de Oliveira Filho (depoimento, 2017). Rio de Janeiro, CPDOC/Fundao Getulio Vargas (FGV), (2h 30min).

Esta entrevista foi realizada na vigncia do convnio entre BANCO SANTANDER. obrigatrio o crdito s instituies mencionadas.

Joo Pacheco de Oliveira Filho (depoimento, 2017)

Rio de Janeiro

2018

Ficha Tcnica

Tipo de entrevista: Temtica Entrevistador(es): Celso Castro; Tcnico de gravao: Ninna Carneiro; Local: Rio de Janeiro - RJ - Brasil; Data: 22/05/2017 a 22/05/2017 Durao: 2h 30min Arquivo digital - udio: 3; Arquivo digital - vdeo: 1;

Entrevista realizada no contexto do projeto Memria das Cincias Sociais no Brasil, desenvolvido com financiamento do Banco Santander, entre janeiro de 2016 e dezembro de 2020, com o objetivo de constituir um acervo audiovisual de entrevistas com cientistas sociais brasileiros e a posterior disponibilizao dos depoimentos gravados na internet.

Temas: frica; Amaznia; Antropologia; Brasil; Braslia; Campesinato; Claude Lvi-Strauss ; Comisso Rondon; Costa Lima; Cultura; Culturalismo; Darcy Ribeiro; Economia; Emlio Garrastazu Mdici; Ensino privado; Ensino pblico; Ensino superior; Estruturalismo; Faccionalismo; Famlia; Favela; Formao acadmica; Funcionalismo pblico; Fundao Nacional do ndio; Histria; Histria do Brasil; Imprensa; Indios; Metodologia de pesquisa; Mdia; Movimento estudantil; Museu Nacional; Poltica; Pontifcia Universidade Catlica; Procuradoria Geral da Repblica; Regio Nordeste; Religio; Roberto da Matta ; Sociologia; Terras indgenas;

Sumrio

Entrevista: 22.05.2017

Origens: origens familiares; trajetria poltica do pai e a condio financeira de sua famlia; trajetria da me; deslocamentos frequentes da me e a peculiaridade de ter tido uma me de criao; influncias da me de criao em sua vida; religio e seus pais; morte do pai; irmos do primeiro casamento de seu pai; ingresso na vida acadmica: vida no Rio de Janeiro; incios dos estudos em escola pblica; experincia da diversidade ao estudar em uma escola pblica; ingresso em uma escola particular; criao de um jornal poltico e reao negativa do diretor; participao superficial em algumas atividades do movimento estudantil; leituras de histria e reflexes sobre o Brasil; breve ingresso na faculdade de Economia; divergncias ideolgicas com o curso; vestibular e graduao em sociologia pela PUC; primeiras participaes em pesquisas: pesquisa nas favelas do Rio de Janeiro; dados quantitativos e metodologia sociolgica e guinada para antropologia; bolsa de monitoria com Costa Lima; trabalho de anlise estruturalista de discursos do Mdici; pesquisa em campo com coordenao de Roberto DaMatta; leituras etnolgicas; experincias em campo: primeira experincia em campo; enraizamento do grupo na comunidade e sua insero nas relaes j existentes; dirio de campo; influncias de Costa Lima e Lvi-Strauss para o mestrado; ida para Braslia; formao terica da PUC; interesse pela etnografia; pesquisa na frica; trabalho com os Ticuna; funai: projeto da Funai e construo da Perimetral Norte; experincia com os Ticuna e deciso do tema do mestrado; relaes entre indigenistas da Funai e antroplogos; faccionalismo e organizao poltica como tema acadmico; produo de uma anlise da Funai nos anos 80; retorno ao Rio de Janeiro: dificuldades quanto a experincia de campo; conversas sobre a pesquisa com colegas; retorno ao Rio de Janeiro; casamento; pesquisa na FGV sobre seringais na EIAP Escola Interamericana de Administrao Pblica; Otvio Velho e direo do curso de Antropologia Poltica; empecilhos no retorno ao campo dos Ticuna; pesquisa com os seringais: envolvimento com a Comisso Pr-ndio; dificuldades para conseguir autorizao da Funai para a pesquisa; seringais como plano B da pesquisa; elaborao da histria da Amaznia a partir dos seringais; dissertao de mestrado publicada; autorizao da Funai; livro O Caboclo e o Brabo; concurso para professor: doutorado em 1978; antropologia poltica; discusso da natureza do campesinato dentro do Museu Nacional; ingresso como professor no Departamento de Antropologia/UFRJ; banca do concurso para etnologia; Darcy e incio do doutorado: troca de artigos entre Darcy e DaMatta; relao de Darcy e antropologia; retorno ao campo dos Ticuna em 1981; incio do doutorado; projeto de trabalhar com os Ticuna; retorno ao campo: experincia do retorno ao campo dos Ticuna; ausncia de vnculos com a Funai; sonho de um ndio em que Joo saa preso da aldeia; defesa de tese; cursos de TA-1; Museu Magta: criao do Centro Magta; movimento de articulao entre indgenas e pesquisadores; parcerias do museu; massacre dos Ticuna; demarcao fsica das reas indgenas pela Funai; presidncia da ABA: sede da ABA no IFCS; organizao de um seminrio com pensadores portugueses; laudos antropolgicos; articulao com a Procuradoria Geral da Repblica; expanso do convnio s terras quilombolas e tradicionais; definio dos quilombos pela ABA; pesquisa no Nordeste: estudos de indgenas no Nordeste; dificuldade de pesquisa na Amaznia; pesquisa comparativa sobre fronteira; situaes conflitivas da pesquisa no Nordeste; estrutura frgil da Funai no Nordeste; diversidade da pesquisa; relaes poltico-histricas da cultura: constante mudana da cultura; antropologia e a destilao da cultura; cultura Ticuna; ndios Pankararu; cosmologia; tradies etnogrfica:

conflito de tradies na antropologia; Marcel Mauss, Lvi-Strauss e Balandier; estruturalismo no Brasil; estudos culturalistas; antropologia mundial; exposies e artefatos etnogrficos: colees de artefatos etnogrficos; exposies etnogrficas; exposies virtuais; organizao da exposio Os Primeiros Brasileiros; livro O Nascimento do Brasil e outros Ensaios; ideia de pacificao no mundo e no Brasil; indgenas na histria brasileira: projeto da Capes Memrias Brasileiras; recuperao do ndio na histria brasileira; figura de Catarina Paraguau; questo indgena; Toms Reis e a documentao sobre Rondon; Concluso.

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Entrevista: 22/05/2017

Celso Castro Joo, em primeiro lugar, obrigado por colaborar nesse projeto. um prazer

estar aqui entrevistando voc. Eu queria comear pelo incio: suas origens familiares, sua

educao pr-universitria... Voc nasceu em 1948.

Joo Pacheco Em 1948, no Rio de Janeiro. Sou carioca, carioca de Copacabana. Acho

que tive uma trajetria bem pouco tpica, para quem etngrafo e trabalha na Amaznia, em

lugares distantes etc.. Sempre fui uma pessoa muito urbana e no tinha muita inteno, sequer...

A primeira vez que eu fui acampar, eu j fui levado pela minha mulher, e j tnhamos vinte e

cinco anos. Ento, as coisas...normalmente, no era muito dado a essas aventuras. Assim, a

minha trajetria, eu acho que era importante recuperar um pouco a dimenso familiar, em

funo de pensar esses paradoxos da vida profissional, tambm. Quer dizer, meu pai era um

advogado, formou-se como advogado na Bahia, e foi jornalista durante muito tempo; e ele teve,

tambm, uma vida poltica bastante grande: ele foi deputado vrias vezes...

C. C. Por onde?

J. P. Pela Bahia.

C. C. De que partido?

J. P. uma coisa que eu nunca consegui identificar. Meu pai era muito mais velho do

que minha me e morreu em 1951. Na verdade, eu tive pouqussimo contato com ele. E eu

imagino que os primeiros partidos eram aqueles partidos regionais. Na Bahia, ele tinha um

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grupo que era... Partido Republicano, o tal do Jos Marcelino, que era uma figura referncia.

Eu acho que ele tinha ligao com essas pessoas. Era um partido regional.

C. C. Qual era o nome de seu pai?

J. P. Joo Pacheco de Oliveira.

C. C. De Oliveira.

J. P. Tambm. Inclusive, ele tem uma referncia no dicionrio da FGV tambm. Tem

um dicionrio histrico, em que aparece alguma coisa sobre ele. E ele teve uma trajetria...

Depois ele foi ministro do Supremo Tribunal Federal, j aqui no Rio de Janeiro, e morreu j

como senador. E era uma figura, mas... Era uma figura importante, talvez, do ponto de vista

poltico, mas no tinha, digamos, origens ilustres do ponto de vista de condio social. Os pais

dele eram portugueses, o pai e a me, e quando chegaram no Brasil se estabeleceram numa

cidade importante da Bahia, mas no capital, Cachoeira, onde ele era o filho mais velho de

doze filhos. Ento, uma famlia numerosa, sustentada com dificuldade. E eu conheci muito

pouco dessa trajetria, a no ser pelas ressonncias na fala da minha me. Mas os pais eram...

O pai dele tinha uma padaria, em Cachoeira. Quer dizer, as origens bastante simples; no era

oligarquia latifundiria do estado nem nada disso.

C. C. E a sua me?

J. P. A minha me era baiana tambm. O pai dela tinha propriedades no interior, no

era um grande proprietrio; ela veio para o Rio estudar; ela tinha um irmo morando aqui, um

irmo que veio, tambm, para fazer vida, estudar, fazer vida intelectual, era uma pessoa meio

destacada nos meios literrios, bomio, uma figura bem da poca tambm. Mas ela no seguiu

muito com os estudos, e acabou casando com meu pai e teve uma vida mais familiar, bem

estrita. E eu acho que eu tenho uma peculiaridade: eu tenho, praticamente, duas mes. Uma

coisa que no era, nas famlias tradicionais, no era nada raro, embora hoje no haja muita

memria disso. Mas eu tenho tambm uma me negra, quer dizer, uma me que era me de

criao, e que, como a minha me viajava muito, em funo das campanhas poltica