GEOGRAFIA REGIONAL CONTEMPORÂNEA DO BICO DO

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  • A DIVERSIDADE DA GEOGRAFIA BRASILEIRA: ESCALAS E DIMENSES DA ANLISE E DA AO

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    GEOGRAFIA REGIONAL CONTEMPORNEA DO BICO DO PAPAGAIO: A REGIO E A REGIONALIZAO

    RUTILEIA LIMA ALMEIDA1

    Resumo: O artigo discute questes relacionadas geografia contempornea da regio do Bico do Papagaio a luz dos conceitos de regio e de regionalizao. A regio do Bico do Papagaio uma regio do Estado do Tocantins que se configura como uma zona de confluncia com os estados do Maranho e do Par, formando um canal de acesso, via Belm-Braslia, para pessoas, mercadorias e informaes do Centro-Sul ao Norte do pas. Esse espao recortado de formas diferentes e de acordo com interesses diversos, delimitando seu territrio com distintos formatos. Dentre as regionalizaes estabelecidas, escolhemos para anlise a microrregio do Bico do Papagaio, o Norte do Tocantins e a Mesorregio Diferenciada do Bico do Papagaio.

    Palavras-chave: Regio; Regionalizao; Bico do Papagaio Abstract: The article discusses issues related to contemporary geography of Parrot's Beak region of the light of the region and regionalization concepts. The Parrot's Beak region is a state of Tocantins region which is configured as a dividing line with the states of Maranho and Par, forming an access channel via the Belm-Braslia, for people, goods and information Centro- South to North. This space is cut in different ways and according to different interests, delimiting its territory with different formats. Among the established regionalization, we chose to analyze the micro Parrot 's Beak , the northern Tocantins and Mesoregion Differentiated Parrot 's Beak .

    Key-words: Region; Regionalization; Parrot's Beak

    1 Introduo

    O presente trabalho visa analisar a geografia contempornea do Bico do

    Papagaio, uma regio do Estado do Tocantins que se configura como uma zona de

    confluncia com os estados do Maranho e do Par, formando um canal de acesso,

    via Belm-Braslia, para pessoas, mercadorias e informaes do Centro-Sul ao

    Norte do pas. Segundo a Secretaria de Desenvolvimento do Estado do Tocantins, o

    Bico do Papagaio uma microrregio poltico-administrativa composta por 25

    municpios. J o Ministrio da Integrao Nacional entende que essa regio

    ultrapassa as fronteiras do Estado do Tocantins, em seu extremo norte, e vai at o

    Sudoeste do Maranho e o Sudeste do Par. Este ltimo recorte tambm

    assumido pelo senso comum, pela sociedade civil e por polticos, o que se justifica

    pelos laos historicamente construdos, dado o seu processo de ocupao e as suas

    1 Mestre em Geografia - IESA/UFG. Prof do Instituto Federal de Educao, Cincia e Tecnologia do

    Maranho - IFMA. Email de contato: rutigeo@ifma.edu.br

    mailto:rutigeo@ifma.edu.br

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    aproximaes geogrficas, cujo espao, material e simbolicamente contguos,

    caracteriza-se por uma importante coerncia funcional.

    Compreendemos que o Bico do Papagaio tem seu espao recortado de

    formas distintas e de acordo com o interesse diversos, nesse caso importante

    perceber a regionalizao enquanto instrumento de investigao (HAESBAERT

    1999, p.19). Uma regionalizao pode motivar uma reflexo terica ou atender as

    necessidades impostas por uma poltica setorial, uma prtica de planejamento ou

    por propostas de desenvolvimento regional, a regionalizao surge como um

    instrumento bsico do planejamento e pode contribuir para corroborar o

    desenvolvimento. Dentre as regionalizaes estabelecidas, escolhemos para anlise

    a Microrregio do Bico do Papagaio, o Norte do Tocantins e as Mesorregies

    Diferenciadas.

    A primeira, Microrregio do Bico do Papagaio uma determinao poltica

    para fins administrativos, recorte que considera o extremo norte do Tocantins com

    25 municpios. A segunda regionalizao, Norte do Tocantins, com 37 municpios

    procura inserir um maior nmero de municpios, j que a inteno deste recorte

    busca considerar as relaes de fluxos na produo e no consumo entre os

    municpios. A regionalizao criada pelo governo federal, Mesorregio Diferenciada

    do Bico do Papagaio, incorpora tanto municpios do estado do Tocantins, como dos

    estados do Maranho e do Par. So 66 municpios que partilham caractersticas

    polticas, econmicas e at culturais semelhantes. possvel perceber que a

    regionalizao, as regionalizaes possveis e existentes para um mesmo territrio

    so inmeras e usualmente atendem a interesses extremamente precisos

    (LIMONAD 2004, p. 33).

    2 Desenvolvimento

    Qual ento seria a relao entre regio, regionalizao? Como podemos

    relacionar esses conceitos para compreender a geografia contempornea da regio

    do Bico do Papagaio?

    O entendimento dessa relao perpassa por uma complexa questo, a de que

    arriscado definir um espao regional, uma regio, com tantas variveis existentes

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    no espao contemporneo. Existe uma dificuldade de determinar categoricamente o

    limite de uma regio. complexo definir, segundo Limonad (2004, p.57) um marco

    delimitador que permita ao cientista afirmar aqui termina uma regio A e ali comea

    uma regio B, pois o espao uma expresso de continuidades e descontinuidades

    fsicas e sociais.

    Ao relacionar os conceitos de regio e regionalizao importante ressaltar

    que o primeiro est conexo a uma construo histrica e com uma base terica-

    metodologia intricada de aplicao, diferentemente do conceito de regionalizao,

    aplicvel, principalmente, nas esferas de planejamento econmico e poltico.

    Limonad (2004, p.57) afirma que uma regionalizao pode fundamentar uma

    reflexo terica ou atender uma prtica de planejamento ou por propostas de

    desenvolvimento regional. Ou seja, uma mesma regio pode ser regionalizada de

    diversas formas, de acordo com o interesse de quem regionaliza a questo a se

    considerar ao tratar de regionalizao, pois quem regionaliza, o faz com interesses

    nem sempre explcitos.

    Na maioria dos estudos, a regio era vista sob uma abordagem que concebia

    o conceito apenas como uma parcela do espao, que possusse aspectos coerentes

    de carter singular, aspectos contguos, at considerando uma homogeneidade

    espacial. Um erro, segundo as novas teorias, j que a homogeneidade espacial no

    existe2. Outro erro corrente seria a negligncia ao aspecto cultural. Qualquer poro

    do espao institucionalizado ou no, que possui, segundo Haesbaert (1999, p.25)

    identificao ideolgica-cultural e representatividade poltica, articulado em funo

    de interesses especficos, geralmente econmicos, por uma frao ou bloco

    regional de classe que nele reconhece sua base territorial de produo, pode ser

    considerado um espao regional.

    As mudanas conceituais emergem frente s novas formas de organizao do

    espao e as interaes espaciais que se impem. Mesmo considerando esses

    conceitos no podemos nos fixar exclusivamente na questo terica, Corra (1986, 2 A nova geografia regional demonstra o carter relevante de perceber as recentes questes

    regionais, segundo Haesbaert (1999, p.16) regionalismos, identidades regionais e/ou regies so ou foram abordados tanto pela cincia poltica (desde o legado de Gramsci e a questo meridional italiana como questo regional, pela Economia regional (como nos trabalhos de Perroux, Boudeville, Richardson e Isnard), pela Sociologia (vide trabalhos de Bourdieu e Giddens), pela Antropologia e pela Histria regional.

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    p.92), aponta para a relevncia de transcender essa etapa e proceder ao exame

    das condies concretas de existncia de uma regio indispensvel.

    A importncia do estudo emprico demonstra como o conceito adquire uma

    face relacional, de forma que no possvel estudar uma regio isoladamente.

    importante lembrar que segundo Santos (1988, p. 46) estudar uma regio significa

    entrar num mar de relaes, formas, funes, organizaes, estruturas etc., com

    seus mais distintos nveis de interao e contradio, que nesse processo

    globalitrio, a anlise regional apreende novos contornos, precisando ser

    redefinida j que enfocar o conceito apenas como um espao de coerncia

    funcional no basta. Hoje, o mundo fragmentado, possui vrios espaos ou

    subespaos recortados com continuidades e descontinuidades.

    Nesta lgica, emerge a necessidade de uma nova metodologia para se

    pensar nos espaos fragmentados, regionalizados, criados que podem ser

    chamados de regio ou no. Mas, que espaos regionalizados so esses? O que

    regionalizar? E o principal, porque regionalizar, qual objetivo? O Bico do Papagaio,

    no Norte do Estado do Tocantins, pode ser considerado uma regio conforme

    detalhamos o conceito ou apenas um espao regionalizado? Para Ribeiro (2004,

    p.198):

    A noo de regionalizar nitidamente polissmica. O termo refere-se, mais do que a efetiva existncia de regies, capacidade de produzi-las, o que inclui o acionamento de ideologia, com apoio, por exemplo, em dados da paisagem, valores culturais compartilhados ou critrios poltico-cientficos que legitimam fronteiras e limites.

    Regionalizar exige uma interpretao maior do que uma simples diferenciao