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Goma Laca 2014 Libreto

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Goma-Laca-2014-Libreto

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  • Goma-Laca um ncleo de descobertas sobre a msica brasileira da primeira metade do Sculo XX, registrada nos antigos discos que giravam a 78 rotaes por minuto. Produzidas no Brasil en-tre 1902 e 1964, as chapas eram fabricadas a partir de uma mistura de cera de carnaba e goma-laca em p. Desde 2009, o Goma-Laca busca o intercmbio entre acervos e geraes propondo olhares e investigando contextos e contemporaneidades.

    Sob direo musical de Letieres Leite, o disco Goma-Laca apresenta rein-venes a partir de temas do candombl, capoeira, emboladas, jongos e maracatus gravados originalmente entre as decadas de 20 a 50.

    No site www.goma-laca.com voc encontra levantamento indito dos primeiros discos de msica afrobrasileira, audio e download gratuito do lbum que voc tem em mos, gravaes originais em 78 rpm, programas de rdio, entrevistas, artigos, vdeos e fotos.

    GOMA-LACA AfrobrasilIdades em 78 RPM

  • A partir de pescarias em acervos digitais, relanamentos em vinil e CD e arquivos de colees particulares disponveis em blogs e redes gramofnicas, criamos o repertrio deste disco sem colocar para girar nenhuma chapa. difcil pegar um 78 rpm para escutar. Bom saber que em tempos digitais a msica j pode resistir poeira, quedas, riscos, mudanas e netos desapegados.

    Assim como os discos, a inspirao musical dos africanos escravizados no Brasil e seus descendentes resiste tambm. Em tempos em que a prtica musical afrobrasi-leira era motivo de dura perseguio policial, desde as rodas de capoeira at os cultos religiosos, as histrias contadas por Joo da Baiana, J.B. de Carvalho, Almirante e M-rio de Andrade mostram o desafio de revelar no disco, no rdio, no palco ou na rua, o mexemexer dos atabaques ancestrais. Sem intenes etnolgicas musicais ou religio-sas, buscamos um recorte fonogrfico, procura de rastros da msica de tradio oral na indstria do disco que acabava de nascer. Cantigas de longe, no relgio e no mapa.

    A busca pelos discos e suas histrias comeou no acervo da Discoteca Oneyda Alvarenga do Centro Cultural So Paulo, a casa do Goma-Laca. Idealizada por Mrio de Andrade em 1935, a Discoteca tinha a misso de formar msicos e composito-res a partir do acesso msica folclrica e de concerto. A pesquisa seguiu pelas

    colees particulares de dois grandes guardies da msica tradicional popular em tempos de gramofone: Almirante (MIS-RJ) e Mrio de Andrade (IEB-USP). No acer-vo de Almirante, alm dos discos, estavam as fotografias da gravao do programa Curiosidades Musicais, em que o msico e radialista levou para o estdio da Rdio Nacional o brbaro e curioso berimbau. Da coleo de Mrio conhecemos os fa-mosos encartes de cartolina em que o poeta-musiclogo escrevia suas impresses sobre cada disco, e escutamos a verso reprovada do batuque africano Baba Mi-loqu, de Josu de Barros, ainda mais experimental e provocadora. Uma tarde com Vanja Orico, no Flamengo, despertou uma escuta-conversa sobre Z do Norte e Caymmi, mensageiros da tradio popular que vinha do Nordeste para desembar-car no disco. As chapas que faltavam foram encontradas nos acervos particulares dos amigos de chiado Dijalma Cndido, Miguel Nirez e Gilberto Incio Gonalves. Completado o lbum, os discos estavam prontos para o ritual Goma-Laca.

    No estdio, o maestro danarino senta, escuta o 78 rpm em mp3 e reconhece alguma coisa de l. P. Joelho gira. A msica veste os braos e alcana os dedos que danam. Partculas pulsam pelos ares, e o velho disco recomea a girar numa rbita ainda mais furiosa que as 78 por minuto. Obrigada a todos que conduziram esta msica de longe at aqui, viva e nova.

    Tabaque mexemexia acertado num ritmo que manejou toda procisso.

    Mrio de Andrade Macunama Macumba

    NOVAS RBITAS: 78 RPM

    biancamaria binazzi

  • Criar junto uma experincia ntima. Compartilhar inspiraes e realizaes deman-da no apenas confiana como simbiose. Exerccio de entrega e ateno, criao es-pontnea de acordo com momento, emoes, parceiro. As sesses de gravao do disco Goma-Laca, durante alguns dias no estdio Traquitana, aconteceram sob clima mgico e calor. Canalizando sensibilidades e sonoridades, o maestro Letieres Leite desenhou arranjos a partir do encontro com cada msico, da personalidade de cada cantor, de inflexes de cada cano, da vontade de cada clave rtmica.

    Estudo clssico e metodologia formal fazem parte da linguagem de Letieres, mas sua formao e abordagem vem embebidas da tradio oral que sobrevive os ritmos ancestrais inesgotavelmente influentes para a msica popular contempo-rnea. Liderando a banda com seu gan e sua flauta, como um Abigail Moura ou um Moacir Santos em verso de cmara, Letieres montou temas para pequena banda com unssonos de baixo acstico e piano eltrico, sobre bateria enrgica e elegantes claves de percusso afrobaiana. Sonoridade spiritual jazz de elemen-tos passados e presente, sacros e profanos.

    Foi uma semana intensa dentro do estdio, entre sesses de criao e gravao. Coletivo inspirado: banda se conhecendo, se ouvindo e se respondendo, aprendendo e ensinando, com maestro a um milho por hora. Arranjos nascendo da energia so-mada regida por Letieres, sobrepondo ostinatos de contrabaixo e mo esquerda do

    piano, liderando o cortejo do ritmo, danando intenes, passeando por convenes e variaes, criando riffs e solos e especiais, solfejando partes, moldando mapas, jo-gando ideias para msicos e cantores e sentindo o que gerava o atrito criativo.

    Para captar vera o que surgia, gravamos moda antiga, sem exagerar a microfo-nao, em menos de 16 canais, com a banda na mesma sala, se olhando, quase sem fone de ouvido, som quente, tudo ao vivo, tocando todo mundo junto, incluindo a voz. Ateno, silncio no estdio, gravando, tocvamos no mximo dois ou trs takes e o bom valia. Quase sempre o primeiro inteiro j foi o valendo, pronto.

    Deu caldo juntar o maestro baiano com a banda especialmente formada, msicos instigantes de So Paulo, cantores passionais e repertrio escolhido com cari-nho. Emocionante assistir o solo de bateria de Sergio Machado de tirar o flego na abertura de Minervina, a expressividade de Marcos Paiva ao contrabaixo na parte B de Ogum, o batuque de piano em Batuque ou o incrvel solo em Do Pil de Hercules Gomes, o solo de flauta em G de Letieres em Ogum, a percus-so aristocrtica do mestre Gabi Guedes por todo o disco.

    Juntos na viagem, intrpretes que se jogaram sem rede de proteo no descobrimen-to musical. Corrente de criatividade buscando as origens e atualidades das canes e encontrando juntos novos significados. Lucas Santtana vontade, malandro e casual relendo nosso dolo Almirante, na ponte entre embolada e rap cantado. Karina Buhr representando vento e passarinho fora da gaiola, girando a lua com cantos imbudos dentro da gente. Russo Passapusso em ponto de bala de sensibilidade e talento, be-bendo com sede e personalidade tudo entre candombl e afox, jazz e funk, ragga e capoeira, Bahia, Brasil, So Paulo e Mundo. Juara Maral cada vez mais no auge de sua voz, cantando com Russo e liderando o ritual amoroso. Toda msica sagrada.

    SO PAULO, FEVEREIRO 2014

    Ronaldo Evangelista

  • Exu (BX - RNA -14-00001)(Domnio Pblico) Antigo e poderoso, o Canto de Ech foi lanado em janeiro de 1931 pelos Filhos de Nag, com direo de Felippe Nery da Conceio (Parlophon 13254-B). O fonograma integra o 78 rpm Candombl, registro histrico de grande valor etnogrfico, um dos primeiros discos comerciais brasileiros cantados em iorub. Evitando adaptaes na letra, ritmo e harmonia, prtica muito comum neste perodo de nascimento da indstria fonogrfica, a gravao busca registrar com fidelidade a musicalidade dos rituais. O mesmo canto tambm foi documentado em Salvador entre 1941 e 1942 por Jean Melville e Frances Shapiro Herskovits, na gravao Ketu for Eshu, e lanado no lbum Afro-Bahian Religious Songs, disponvel no acervo da Diviso de Msica da Biblioteca do Congresso norteamericano. O motivo Exu Tiriri tambm aparece em gravao realizada no Terreiro do Gantois na Bahia em 1961 por Salomo Scliar, den-tro da srie Documentos Folclricos Brasileiros da Editora Xau. Em saudao ao orix do princpio e da transformao, Juara Maral abre o disco citando tambm o canto Imbarab e a banda segue girando o arranjo mntrico.

    batuque (BX - RNA -14-00002)(Domnio Pblico) *com citao de Ponte de Safena, de Russo Passapusso A crtica da chapa, no jornal O Pas em 1929, revelava a sonoridade de um universo des-conhecido: Batuque monumental. Quem o ouve adquire a impresso exata de estar presente, sem que ningum o veja, s prodigiosas festas ntimas dos negros, verdadeiras reunies privativas dessa raa nas quais ela passa momentos de completa independn-cia e d largas sua natureza meio selvagem. Nessa msica temos a frica tornada brasileira e revemos os tempos em que o negro nas suas reunies privadas, s vezes de carter algo religioso, dava expanso sua revolta contra a tirania exercida pelo branco. Lanado em disco em 1929 pela cantora e folclorista pernambucana Stefana de Macedo em arranjo para duo de violes, Batuque (Columbia 5.093-A) apontava no selo sua ori-gem no Sculo XVII: Dana do Quilombo dos Palmares. Enquanto Hercules Gomes faz de seu piano o atabaque ancestral, Russo Passapusso revive o lamento negro e impro-visa sobre o canto de resistncia e libertao.

    Letieres Leite Arranjo, Regncia e Gan | Gabi Guedes Atabaques | Hercules Gomes Piano Eltrico Fender Rhodes | Marcos Paiva Contrabaixo Acstico | Sergio Machado Bateria | Juara Maral Voz

    Letieres Leite Arranjo, Regncia e Atabaque | Gabi Guedes Atabaques | Hercules Gomes Piano Eltrico Fender Rhodes | Marcos Paiva Contrabaixo Acstico | Sergio Machado Bateria | Russo Passapusso Voz

  • Minervina (BX - RNA -14-00003)(Domnio Pblico) A toada nordestina registrada pela atriz e cantora Vanja Orico em disco de 1954 (RCA Victor 80.1257-B) integra a trilha sonora do filme O Cangaceiro, de Lima Barreto, lanado em 1953.