Gra§as - .podem chamar, em sentido amplo, cartas paulinas. Isso, contudo, n£o permite atribuir

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  • Ciberteologia - Revista de Teologia & Cultura / Journal of Theology & Culture

    Edio n 03 Janeiro/ fevereiro 2006

    A graa e seus sinais 1 Parte*

    Juan Luis Segundo

    Se comparamos esta temtica a da graa com os temas tratados nesta segunda parte, diramos que, surpreendentemente, deixa-se aqui de lado o tema de Deus. E, portanto, a prpria teologia, enquanto tal. claro que a graa e seus correspondentes mantm estreita relao com o divino. De fato, atendo-nos semntica, a palavra graa aponta ao dom gratuito passe a redundncia - que Deus proporciona ao homem. Mas, como acontece com os presentes, a ateno se fixa primeiro no que presenteado, naquilo que muda no homem favorecido pelo dom. E s, eventualmente, maneira de um complemento circunstancial, a graa aponta ao doador, isto , chama a ateno para a pessoa de onde surge o dom.

    Assim, no ser surpresa que, em vinte sculos de cristianismo, essa coisa chamada graa e provinda de Deus tenha provocado mais hipteses, controvrsias e antemas que o tema, tanto mais direto como misterioso, do prprio Deus. Pelgio, os semi-pelagianos, Jansnio, Baio, Port Royal, a Reforma, a predestinao, a graa necessria, a graa suficiente, a discusso De Auxiliis, a cincia mdia, a predestinao fsica, o efeito do pecado em Deus e no homem, o sobrenatural, a Nouvelle Thologie... todas estas questes dividiram o pensamento cristo durante sculos (includa a primeira metade do sculo XX) e isto ainda que nem sempre tenham destrudo a prpria unidade da Igreja de Jesus Cristo. E at caberia acrescentar que o conferir-se-nos a graa, de maneira vlida atravs de certos sinais ou ritos, suscitou praticamente toda a clssica superfetao dos tratados teolgicos sobre os sete sacramentos na Igreja Catlica, com as resultantes polmicas sobre sua eficcia ex opere operato ou operantis e seus complexos condicionamentos de matria e forma.

    Pereceria que, em lugar de constituir uma porta de acesso do homem ao divino, a graa, no transcurso da elaborao teolgica, tornara-se um obstculo, uma espcie de muro ou de tela que separara, obscurecera ou complicara as relaes dialogais entre Deus e o homem. E isto, quando tudo levava primitivamente a tornar claro e difano o dilogo dos interlocutores num nico universo comum a ambos.

    Porque, convenhamos (e isto deve levar o leitor reflexo) em que, historicamente, Paulo de Tarso o autor cristo mais influente em unificar Deus e o homem numa liberdade, num projeto e numa criao comuns quem ligou, de uma vez para sempre, a significao da mensagem crist com a palavra graa. De fato, das 155 vezes que o Novo Testamento usa a palavra graa, 100 pertencem s que se podem chamar, em sentido amplo, cartas paulinas.

    Isso, contudo, no permite atribuir a Paulo essa coisificao posterior da graa, to claro j no sinnimo com o qual se a designar, em termos mais prximos aos nossos e sobretudo no mbito da Igreja Catlica: o sobre-natural; com toda a parafernlia de causalidades e resultantes variaes com que a teologia especulativa dotou a essa espcie de segunda natureza, acrescida que o homem recebeu

    * Texto extrado de: Juan Luis Segundo Que Mundo? Que Homem? Que Deus?; aproximaes entre cincia, filosofia e teologia. Paulinas, 1995, cap. 13, pp. 531-573.

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    Edio n 03 Janeiro/ fevereiro 2006

    na criao. Natureza que, de acordo com sua origem grega (=fsica) em particular, aristotlica quase se diria materialista.1

    Pretendo que no se pode atribuir a Paulo essa reificao do termo graa, porque esta palavra, para Paulo, est sempre unida expresso boa notcia (= evangelho). Trata-se, com efeito, da notcia que significa, para toda a humanidade, a entrada do Filho de Deus em nossa histria e a filiao divina que se nos presenteia, assim, a todos os seus irmos, de ontem, hoje e amanh, e que se nos revela na plenitude dos tempos, pontualmente, a dentro dos limites humanos da vida visvel de Jesus entre ns (cf. Rm 8,14-30; Gl 4,1-7).

    No entanto, devo admitir que a viso antropolgica que Paulo d a seu evangelho, qual j me referi anteriormente,2 localiza o que , mais que a prpria graa, a vivncia desta graa. Vivncia limitada, por certo, em constante luta, junto luta da f e da justia e contra a priso da verdade na injustia, a lei dos membros, o temor e, resumindo, o pecado e a lei. Tudo isto faz com que unicamente a ressurreio permita ao homem, unido a Cristo vivo, perguntar com ironia: Morte, onde est a tua vitria? Morte, onde est o teu aguilho? O aguilho da morte o pecado e a fora do pecado a Lei. Graas rendam a Deus, que nos d a vitria por nosso Senhor Jesus Cristo! (1Cor 15,55-57). Enquanto isto no chega, enquanto o ltimo inimigo ou seja, a morte no tenha sido vencido (1Cor 15,26) a graa no se faz visvel como realidade divina (cf. Rm 8,24-25), embora j esteja presente e destinada a essa vitria. Aparece, contudo, como que limitada e frgil em nossa experincia histrica e, portanto, no mundo semntico de Paulo. Com o conseqente perigo de que o homem queira control-la, convertendo-a para isso em mecanismo e voltado assim, paradoxalmente, a faz-la lei para assegurar-se (=gloriar-se; cf. Rm 3,27-30; Gl 5,4-6) com ela.

    Por isso mesmo, embora seja Paulo quem deu graa ou dom de Deus em Jesus o lugar central que merece na mensagem crist, talvez seja a teologia de Joo a que, sem utilizar o termo graa,3 melhor a mostre, fazendo-a surgir de seu prprio foco divino: o ser que Deus se d a si prprio. A que se a deve buscar. At para compreender de maneira retrospectiva, mas hermeneuticamente vlida o que Paulo quer dizer com a graa (e sua relao vivencial com a f em Deus, com o existir em Cristo e com a vida do Esprito em nosso esprito).4

    A. A GRAA INCRIADA: DEUS AMOR

    1 Cf. supra, cap. IX, par. B. O conceito de natureza. 2 Cf. supra, cap. VIII, par. B. A liberdade no evangelho de Paulo, e nota 18. Veja-se mais amplamente a este respeito J. L. Segundo, Le Christianisme de Paul, op. Cit., pp. 14-29.

    3 A ausncia material do termo graa vale para a teologia joanina em Geral. As poucas aparies, com valor teolgico, do termo nos escritos joaninos encontram-se no Prlogo do quarto Evangelho, o qual, aparentemente, constitui um hino pr-existente que Joo toma emprestado provavelmente devido influncia do pensamento Paulino (H. H. Esser, Diccionario Teolgico Del Nuevo Testamenyo, op. Cit., t. II, p. 239).

    4 Tambm tem razo Rahner quando, ao falar (como farei, eu tambm, na primeira parte deste captulo) da graa incriada, isto , do prprio Deus enquanto graa, resume a teologia paulina a respeito, mas surpreendentemente no o faz com textos paulinos centrados no termo graa, mas no Esprito Santo: pelo que se refere, em primeiro lugar, teologia paulina, a justificao e renovao internas do homem que a teologia clssica atribui a efeitos da graa criada so vistas em primeiros plano, como um ser (o homem na graa) dotado, habitado e movido pelo Esprito Santo (Escritos..., op. Cit., t. I, p. 350). So os textos que menos se prestam a essa reificao da graa, apesar da ausncia da palavra neles. Rahner cita, em particular, do cirpus paulinum, Rm 5,5; 8,9.11.15.23; 1Cor 2,12; 3,16; 6,19; 2Cor 3,3; 5,5; Gl 3,2.5; 4,6; 1Ts 4,8. No obstante, creio que carncia de Rahner o no utilizar para seu artigo, (Sobre o conceito escolstico da graa incriada, ib. pp. 349-378) a primeira carta de Joo.

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    Edio n 03 Janeiro/ fevereiro 2006

    A situao do cristo comum, hoje, a respeito de uma temtica centrada sobre a graa, no fcil de compreender. E, talvez, nem seja sadia. Provavelmente, o catlico que foi educado em sua f, antes do Vaticano II sabe ou acredita saber que a graa algo difcil de entender, apesar (ou, talvez, por causa) das polmicas teolgicas desatadas sobre ela e com as quais o ecumenismo ainda torna, apesar de tudo, a enfrentar-se. Por outro lado, na vida real, a graa, em seu sentido religioso, at uma palavra evitada, como escreve Otto H. Pesch. E explica: Em contraste com a teologia, na Igreja mal se fala publicamente sobre a graa. Graa reduziu-se, quase totalmente, a um termo tcnico de teologia. Inclusive na linguagem normal que se usa na pregao por exemplo, nas homilias dominicais parece que esta palavra, intencional ou instintivamente, evitada, porque o ouvinte poderia perceber o palavra como uma frmula vazia ou, ainda pior, porque poderia associar-se a mal-entendidos.5

    No que tange dificuldade de empregar a palavra graa, num dilogo vivo com os no-crentes, creio que o leitor j ter farta experincia dela, Quanto aos mal-entendidos, aos quais se refere o autor citado, penso, de minha parte, que se do num campo no teolgico propriamente dito, mas prtico. Embora, claro, relacionado com uma teologia bsica que era fornecida ao cristo atravs da catequese. E quando digo era, no pretendo que isto pertena a um passado remoto e inexistente hoje. Em todo caso, a graa aparecia a relacionada com um dos dois nicos estado em que o homem devia necessariamente encontrar-se e dos quais dependia o destino eterno de cada indivduo, conforme a morte o encontrasse num ou noutro deles. Estado de graa/estado de pecado (mortal), disputavam-se, assim pareceria , os diferentes momentos de toda a vida humana. Em um deles, Deus tomava posse total do homem, enquanto que no outro a tomava Satans. Acrescentava-se a isso a desvantagem, por assim dizer, da graa, pois esta se perdia completamente com qualquer pecado mortal, ao passo que este ltimo no se apagava, nem se suprimia, de modo semelhante, por qualquer ato bom, por mais importante que fosse. Era necessrio um arrependimento explcito seguido posto que fora da Igreja no existi