Gravidez na adolescência e características socioeconômicas ... opment index (HDI), and a higher percentage

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  • Cad. Sade Pblica, Rio de Janeiro, 27(5):855-867, mai, 2011

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    Gravidez na adolescncia e caractersticas socioeconmicas dos municpios do Estado de So Paulo, Brasil: anlise espacial

    Teenage pregnancy rates and socioeconomic characteristics of municipalities in So Paulo State, Southeast Brazil: a spatial analysis

    1 Faculdade de Medicina de Ribeiro Preto, Universidade de So Paulo, So Paulo, Brasil.

    CorrespondnciaE. Z. MartinezDepartamento de Medicina Social, Faculdade de Medicina de Ribeiro Preto, Universidade de So Paulo.Av. Bandeirantes 3900, Ribeiro Preto, SP 14049-900, Brasil.edson@fmrp.usp.br

    Edson Zangiacomi Martinez 1

    Daiane Leite da Roza 1

    Maria do Carmo Gullaci Guimares Caccia-Bava 1

    Jorge Alberto Achcar 1

    Amaury Lelis Dal-Fabbro 1

    Abstract

    Teenage pregnancy is a common public health problem worldwide. The objective of this ecologi-cal study was to investigate the spatial associa-tion between teenage pregnancy rates and socio-economic characteristics of municipalities in So Paulo State, Southeast Brazil. We used a Bayesian model with a spatial distribution following a conditional autoregressive (CAR) form based on Markov Chain Monte Carlo algorithm. We used data from the Live Birth Information System (SINASC) and the Brazilian Institute of Geogra-phy and Statistics (IBGE). Early pregnancy was more frequent in municipalities with lower per capital gross domestic product (GDP), higher pov-erty rate, smaller population, lower human devel-opment index (HDI), and a higher percentage of individuals with State social vulnerability index of 5 or 6 (more vulnerable). The study demon-strates a significant association between teenage pregnancy and socioeconomic indicators.

    Pregnancy in Adolescence; Health Status Indica-tors; Spatial Analysis

    Introduo

    Dentro do processo de crescimento e desen-volvimento humano, a adolescncia uma fase marcada por intensas transformaes fsicas e biolgicas, que se associam a outras de mbi-to social, emocional, cultural e psicolgico, de forma que o corpo assume uma dimenso bas-tante significava na vida da adolescente 1. At a transio entre a infncia e a adolescncia, as relaes afetivas de maior importncia tendem a ser as familiares. No entanto, essas relaes modificam-se quando as caractersticas sexuais secundrias comeam a surgir como resultado da estimulao hormonal 2, o que favorece uma etapa marcada por namoros e o incio de expe-rincias sexuais. Consequentemente, as adoles-centes so expostas ao risco de gravidezes pre-coces, sendo a magnitude deste risco associada a fatores sociais e econmicos 3.

    Enquanto, durante muito tempo, a adoles-cncia foi considerada a etapa ideal para engra-vidar, hoje considerada uma idade inadequada para a mulher ter filhos 4, perante as associa-es da gravidez precoce com morbidades do neonato e impactos econmicos, educacionais e sociais 5. Como exemplo, uma consequn-cia da gravidez precoce bastante explorada na literatura o baixo peso ao nascer 6,7. Essa as-sociao tem por mecanismos fatores como a imaturidade do sistema reprodutivo e o ganho

    ARTIGO ARTICLE

  • Martinez EZ et al.856

    Cad. Sade Pblica, Rio de Janeiro, 27(5):855-867, mai, 2011

    de peso inadequado durante a gestao 6, alm de aspectos como a pobreza, falta de instruo e cuidados pr-natais. Outro fator decorrente da gravidez na adolescncia a prematuridade (idade gestacional abaixo de 37 semanas) 8, que pode predispor o recm-nascido a infeces ou a problemas como hipoglicemia, hipxia e atraso no desenvolvimento neuropsicomotor futuro 9.

    A gestao na adolescncia tem sido consi-derada um importante assunto de sade pbli-ca, em virtude da sua alta prevalncia 3. Segundo a Pesquisa Nacional sobre Demografia e Sade (PNDS) 10, realizada em 1996, 18% das adoles-centes brasileiras de 15 a 19 anos j tiveram pelo menos um filho ou estavam grvidas. Nos es-tudos dos fatores associados s causas e conse-quncias dessa gravidez necessrio considerar que se trata de um fenmeno complexo, associa-do a fatores econmicos, educacionais e com-portamentais 11. A literatura tem evidenciado as-sociaes entre esse fenmeno e variveis, como a desigualdade social e econmica 6,12,13, incio precoce da vida sexual 14, histria materna de gravidez na adolescncia 14, pr-natal inadequa-do 13, no utilizao ou utilizao inconsistente de mtodos contraceptivos 15,16 e uso frequente de drogas ilcitas por familiares 17.

    Considerando-se que a gravidez, assim co-mo outros fenmenos sociais, difere por regies e grupos sociais, assumida a hiptese de no aleatoriedade espacial da gravidez adolescente em diferentes ambientes 18. A despeito da im-portncia do tema, a literatura evidencia uma lacuna em pesquisas que considerem o aspecto espacial da distribuio desse fenmeno. Assim, o presente trabalho tem por objetivo estudar a associao entre os percentuais de gravidez na adolescncia e caractersticas socioeconmicas e de vulnerabilidade social dos municpios do Estado de So Paulo, Brasil, considerando uma estrutura espacial para os dados.

    Mtodos

    Neste estudo ecolgico, avaliou-se a associao entre os percentuais de gravidez na adolescn-cia e as seguintes caractersticas de cada um dos 645 municpios do Estado de So Paulo: nmero mdio de anos de estudo dos responsveis pe-los domiclios (segundo Censo Demogrfico de 2000. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatsti-ca IBGE; http://www.ibge.gov.br), tamanho da populao (em nmero de habitantes, estima-do pelo IBGE para 2007), produto interno bruto (PIB) per capita (dados de 2007, em Reais), ndice de Gini 19 (medida do grau de concentrao de renda, cujos valores variam de 0 a 1, sendo este

    ltimo correspondente desigualdade mxima), incidncia de pobreza (segundo mapa de pobre-za e desigualdade do IBGE, calculada para o ano de 2003), ndice municipal de desenvolvimento humano (IDH-M) e ndice paulista de vulnerabi-lidade social (IPVS) 20.

    Os dados de gravidezes na adolescncia fo-ram obtidos no Sistema de Informaes sobre Nascidos Vivos (SINASC) do Ministrio da Sade, considerando o nmero total de nascidos vivos em cada municpio do Estado de So Paulo no ano de 2007 e o nmero de nascidos vivos cuja me tinha at 19 anos, nos respectivos munic-pios 21. A mdia de anos de estudos dos respon-sveis pelos domiclios, o tamanho da populao (em nmero de habitantes), o PIB per capita, o ndice de Gini e a incidncia de pobreza foram obtidos na pgina eletrnica do IBGE (http://www.ibge.gov.br).

    O IPVS foi criado pela Fundao Sistema Es-tadual de Anlise de Dados (Fundao Seade) pa-ra identificar os segmentos populacionais mais vulnerveis pobreza, nos 645 municpios do Estado de So Paulo 22. De acordo com os setores censitrios, o IPVS classifica os segmentos po-pulacionais de um municpio em seis estratos: nenhuma vulnerabilidade (grupo 1), vulnerabili-dade muito baixa (grupo 2), baixa (grupo 3), m-dia (grupo 4), alta (grupo 5) e muito alta (grupo 6). No presente estudo, utilizou-se como indi-cador de vulnerabilidade social o percentual de indivduos de cada municpio classificados nos grupos 5 e 6 do IPVS, por englobarem os setores censitrios que possuem as piores condies na dimenso socioeconmica (baixa), nos quais os chefes de domiclios apresentam, em mdia, os nveis mais baixos de renda e escolaridade 23.

    O IDH-M derivado do IDH utilizado pelo Programa das Naes Unidas para o Desenvol-vimento (PNUD). Esse ndice composto por indicadores capazes de influenciar a qualidade de vida dos moradores de um municpio, sendo calculado pela mdia aritmtica de trs compo-nentes: educao, longevidade e renda. O com-ponente educao considera o ndice de anal-fabetismo do municpio e a taxa de matrcula em todos os nveis de ensino. O componente longevidade baseado na expectativa de vida ao nascer, enquanto o componente renda dado pelo PIB do municpio, corrigido pelo poder de compra da moeda local. Uma lista contendo o IDH-M para os municpios brasileiros, relativo ao ano 2000, est disponvel na pgina eletr-nica do PNUD (http://www.pnud.org.br/atlas/tabelas/index.php). O IDH-M e seus compo-nentes so padronizados em uma escala de 0 a 1, sendo que maiores valores so indicativos de maior desenvolvimento.

  • GRAVIDEZ NA ADOLESCNCIA E CARACTERSTICAS SOCIOECONMICAS 857

    Cad. Sade Pblica, Rio de Janeiro, 27(5):855-867, mai, 2011

    A anlise estatstica dos dados conside-rou que, para o municpio i, Yi a contagem de nascimentos de mes adolescentes, Ni o n-mero total de nascidos vivos e i o percentual de gravidezes na adolescncia. Assim, o modelo estatstico considerou que Yi uma varivel ale-atria que segue uma distribuio binomial com probabilidade i em Ni ensaios independentes. Formalmente, o modelo estatstico foi escrito na forma:

    em que, M = 645 o nmero de municpios, Ni foi considerado conhecido e i um parmetro a ser estimado pelo modelo. Foi assumida uma funo de ligao logito entre os percentuais de gravidez na adolescncia i e uma observao xi da varivel quantitativa X, escrita na forma:

    em que, a mdia aritmtica das observaes x1, x2, ..., x645, a e b so parmetros desconhecidos (efeitos fixos) e i um efeito aleatrio associado ao i-simo municpio. Na anlise bayesiana 24, considerou-se que i assume uma distribuio a priori espacial que permite que as correlaes entre as reas prximas no espao sejam maio-res. A distribuio espacial aqui adotada seguiu uma estrutura condicional autorregressiva (CAR) 25,26 tal que:

    em que, A*(i) denota o conjunto dos municpios vizinhos ao municpio i, a mdia dos efeitos aleatrios j associados aos municpios vizinhos ao municpio i, ni corresponde ao nmero de municpios que so vizinhos ao municpio i, a varincia da distribuio e N(a,b) genericamen-te denota uma distribuio normal com mdia a e varincia b. O critrio utilizado para a definio de vizinhana foi o de adjacncia, no qual reas que fazem fronteira umas com as outras foram considera