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  • Histria, imagem e narrativas No 20, abril/2015 - ISSN 1808-9895 - http://www.historiaimagem.com.br

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    A nova ordem mundial: fim da Guerra Fria e neoliberalismo nas Histrias em Quadrinhos dos X-Men e Homem Aranha 2099

    Aderaldo Janurio de Almeida Ps graduando., FEUC/PPHSCB [email protected]

    Resumo: As histrias em quadrinhos ou simplesmente HQS so influenciadas pelo contexto histrico poltico social que foram produzidas, j que seus criadores so influenciados repassam essa influncia a suas obras. Pretendemos abordar essas influncias nas HQS Homem-Aranha e X-men 2099, que foram criadas num perodo onde grande parte do mundo se utilizava de medidas neoliberais em sua poltica especialmente os Estados Unidos. Apresentar a relao dos quadrinhos com a poltica neoliberal e a Guerra Fria. Com base nos textos de Eric Hobsbawm, o socilogo Francisco Uribam Xavier de Holanda que aborda o liberalismo desde o seu surgimento at a sua mova roupagem como neoliberalismo, trataremos de enfatizar como o neoliberalismo influenciou essas HQS e quais so as suas caractersticas que podemos encontrar nas mesmas. E associar ao arcabouo terico e o imaginrio social em questes trabalhadas por Bronislaw Baczko.

    Palavras-chave: Histrias em quadrinhos, Neoliberalismo, Guerra Fria.

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    HQs Tempo e Histria As histrias em quadrinhos ou simplesmente HQs so uma forma de expresso

    cultural da sociedade moderna produzidas pela indstria cultural que almeja atingir um

    pblico alvo, tendo facilidade de abranger vrios ambientes e faixas etrias. Com facilidade

    de assimilao e divulgao as histrias em quadrinhos se tornaram uma poderosa arma

    para difundir conceitos e ideologias. De acordo com Dutra, Desde o comeo da industrializao, com o crescimento das cidades, a cultura popular passou a ser sistematicamente substituda pela cultura de massa. Enquanto a primeira tem como motivo a espontaneidade, a segunda depende da tecnologia e da inteno de ser assimilada, produzida para ser distribuda e consumida, formando e refletindo influncias no coletivo popular.1

    Dutra afirma que mesmo HQs sem um cunho poltico ou de propagao de ideologia,

    possvel encontrar as referncias das circunstncias na qual foram elaboradas, porque, se

    tratando de um produto industrial, o apelo comercial tem que estar presente para justificar a

    sua venda, pois, se o leitor no se identificar com o produto, provavelmente no vai adquirir

    edio que esta venda. Um ponto importante no trabalho de Dutra a discusso entorno da

    manipulao atravs da indstria cultural. E aborda o incio dos estudos nessa rea a partir da

    dcada de 1930 com a Escola de Frankfurt. De acordo com o pesquisador, que se aprofundou

    na economia poltica dos meios de comunicao, juntamente com a anlise cultural dos

    efeitos sociais e ideolgicos da cultura e das comunicaes de massa.2

    a partir de ento que surge o conceito indstria cultural, que primeiramente

    divulgado por Theodor W. Adorno e Max Hokhimer. Eles empregaram o termo indstria

    cultural pela primeira vez em seu livro Dialtica do Esclarecimento, publicado em 1947,

    mas acabaram abandonado a expresso cultura de massa, que utilizavam em seus esboos,

    pois argumentavam de que a cultura de massa se origina do povo, enquanto a cultura

    industrial produzida para ser consumida pelo povo.3

    Flvio Calazans apresenta que as HQS tambm variam de gnero, traos e podem ser

    classificadas como informativas, humorsticas, erticas entre outras, dependendo apenas de

    1FEIJ, Mrio. Quadrinhos em Ao: um sculo de histria. So Paulo: Moderna, 1997. In DUTRA, Joatan Preis. Histria & Histria em Quadrinhos: A utilizao das HQS como fonte histrica poltico-social. Santa Catarina: Universidade Federal de Santa Catarina, 2002.p.82DUTRA, Joatan Preis. Op. cit.p.83FREITAG, Barbara. A Teora Crtca ontem e hoje. So Paulo: Brasiliense, 1986. In Dutra, Joatan Preis. Histria & Histria em Quadrinhos: A utilizao das HQS como fonte histrica poltico-social. Santa Catarina: Universidade Federal de Santa Catarina, 2002. P.14.

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    seus idealizadores e do contexto em que foram criadas. No Brasil o dia 30 de Janeiro de 1879

    considerado como surgimento das histrias em quadrinhos data da publicao do

    personagem Nh Quim de ngelo de Agostini que foi publicada na revista Leste Fluminense.

    Segundo Dutra, A imagem sempre fez parte da vida do homem. Desde os primrdios da civilizao, na pr-histria, encontramos registros como as gravuras, que se tornam importantes fontes de anlise e estudo, da qual se podem desvendar alguns rituais antigos, como caa e dana. Quando o homem fez a pintura rupestre, deixou marcada a sua impresso da realidade que o cercava, seus sonhos e desejos. Independente de seu objetivo inicial conseguiu transmitir atravs do tempo a sua impresso.4

    Assim possvel perceber que h muito que o homem se interessa por imagens, por

    desenhos, para expressar seus desejos.

    Moacyr Cirne argumenta acerca da dificuldade para acadmicos trabalharem com esta

    temtica, por conta do preconceito a respeito dos quadrinhos, porm, pouco a pouco esse

    preconceito foi sendo diludo, devido aos frgeis argumentos dos acadmicos que eram contra

    a leitura das HQS pelas crianas e da sua utilizao em sala de aula. Conforme Cirne, Durante muito tempo as histrias foram tidas e havias como uma subleitura prejudicial ao desenvolvimento intelectual das crianas, socilogos apontavam-nas como uma das principais causa da delinquncia juvenil. Aos poucos, porm, foi-se verificando a fragilidade dos argumentos daqueles que investiam contra os quadrinhos: uma nova base metodolgica de pesquisas culturais conseguiu estruturar a sua evoluo crtica.5

    Ruy Castro afirma que, nascidos no olho das tcnicas de reproduo, os quadrinhos

    beneficiam-se de uma penetrao que nenhuma das artes de galerias jamais experimentou,

    pelo fato de que a pintura e a escultura so originalmente, objetos no reprodutveis.6 A

    partir da viso de Ruy Castro, Moacyr Cirne explica que o surgimento dos quadrinhos foi uma

    consequncia das relaes tecnolgicas e sociais que alimentaram as editoras, que se

    beneficiavam para aumentar a venda de jornais.

    A Segunda Guerra Mundial propiciou a multiplicao e popularidade dos quadrinhos, por

    introduzir ficcionalmente os super heris no conflito. Waldomiro Vergueiro apresenta

    exemplos desses heris que lutam na Segunda Guerra, destacando o Capito Amrica. Suas

    aventuras se passaram na Segunda Guerra Mundial, junto com seu parceiro Bucky,lutaram ao

    4DUTRA, Joatan Preis. Histria & Histria em Quadrinhos: A utilizao das HQS como fonte histrica poltico-social. Santa Catarina: Universidade Federal de Santa Catarina, 2002. P.14.

    5CIRNE, M. Bum a exploso criativa dos quadrinhos. Petrpolis. Ed Vozes, 1970.p.1.6CASTRO, Ruy. Os quadrados contra os quadrinhos. Petrpolis. RJ, revista Vozes, julho de 1969. In CIRNE, M. Bum a exploso criativa dos quadrinhos. Petrpolis. Ed Vozes, 1970.p.2.

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    lado dos aliados contra os nazistas e japoneses (eixo). Vale lembrar que aps o trmino da

    guerra Capito Amrica teve como inimigos os soviticos, perodo em que se iniciou a

    chamada Guerra Fria.7 Para Dutra, As histrias em quadrinhos se caracterizam com um excelente veculo de comunicao, justamente por abranger vrios ambientes e faixas etrias. S para citar a sua importncia no que diz respeito a propagao de ideias e valores, as HQs ocidentais foram proibidas durante a segunda guerra mundial pelas potncias do eixo, como tambm pelos pases do bloco socialista no perodo da guerra fria8.

    No ps guerra e incio da Guerra Fria iniciou-se a desconfiana em relao as HQs. O

    psiquiatra alemo radicado nos Estados Unidos, Fredrick Wertham, escreveu vrios artigos

    em jornais, e publicou um livro chamado A seduo dos Inocentes, publicado em 1954. No

    livro e nos artigos ele apontava malefcios que a leitura das HQS poderiam trazer as crianas e

    adolescentes, Dutra apresenta alguns exemplos das ideias do psiquiatra: um deles que a

    Mulher Maravilha representava ideias sado masoquistas e outra refere-se homossexualidade

    entre a dupla Batman e Robin. Segundo Waldomiro Vergueiro no livro, Wertham se baseava

    nos atendimentos que ele fazia a jovens problemticos e as suas concluses foram

    generalizadas a partir de um segmento da indstria de revistas, principalmente as de suspense

    e de terror. o psiquiatra tentava provar como as crianas que recebiam a influncia dos

    quadrinhos apresentavam as mais variadas anomalias de comportamento, tornando-se

    desajustados na sociedade.9

    As interpretaes de Wertham so facilmente refutadas por Flvio Calazans. Embora

    seja subestimada devido a preconceitos academicistas, ela permite que seus autores expressem

    questes cientficas, filosficas e artsticas sem patrulhamento e lazer, e por ser tambm uma

    forma de entretenimento e lazer no encontra resistncias por parte dos alunos.10 De acordo

    com o pesquisador, Alguns quadrinhos abrangem temas como radioatividade, que cria mutaes genticas em personagens como X-men, Hulk e Homem Aranha, poderes pseudocientficos como Super-Homem, o emprego de tecnologias avanadas em Tony Stark (Homem de Ferro) e Batman, estrutura atmica, qumica e anatomia. Outros temas, como poltica e geografia, tambm so

    7BARBOSA, Alexandre.Como usar as histrias em quadrinhos na sala de aula. Alexandre Barbosa, Paulo Ramos, Tlio Vilela; Angela Rama, Waldomiro Vergueiro, (orgs).4 ed., 1 reimpresso So Paulo: Contexto, 2012. (Coleo Como usar na sala de aula). 8DUTRA, Joatan Preis. Histria & Histria em Quadrinhos: A utilizao das HQS como fonte histrica poltico-social. Santa Catarina: Universidade Federal de Santa Catarina, 2002.p.9.9VERGUEIRO, Waldomiro. Op.cit.,p12.10CALAZANS, Flvio Mrio de Alcntara. Histrias em quadrinhos na escola. So Paulo: Paulus, 2004.p.7.

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    abordados com freqncia: nesse tipo de quadrinhos h inmeras citaes que envolvem literatura, teatro e artes norte-americanas.11

    Calazans deixa explcito que com a anlise dos quadrinhos, podemos encontrar

    questes cientficas, como foi citada acima. As HQS como todas as formas de artes, fazem

    parte do contexto histrico social que as cercam. Elas no surgem isoladas e isentas de

    influncias. Segundo o historiador Joatan Preis Dutra, as ideologias e o momento poltico

    social moldam de maneira decisiva, at mesmo o mais descompromissado gibi. Para ele, A variedade imensa, e o apelo comercial tambm. Indo mais alm, podemos perceber que muitas vezes esses mesmos queridos heris so manipulados em prol de um objetivo maior, normalmente indo a favor dos interesses do Estado. Atravs de suas histrias fascinantes, possvel notar a utilizao das HQs como disseminao e reflexo de ideias e conceitos, podendo assim capturar diversos momentos da Histria Contempornea.12

    Dutra deixa claro que as histrias em quadrinhos so influenciados pelos contextos

    sociais e poltico no qual foram criados, e com a anlise das HQs junto ao contexto da sua

    criao, podemos compreender as influncias, as crticas e as mensagens que elas passam.

    Nildo Viana apresenta um panorama das relaes entre quadrinhos e poltica. Ele esclarece

    que as relaes entre HQs e poltica so muito complexas, e vrios quadrinhos apresentam

    manifestaes polticas. E ele apresenta o exemplo da HQ V de Vingana que mostra a

    questo da luta de classes. O autor afirma que: As lutas polticas, os poderes institudos,

    atuam sobre os quadrinhos atravs da legislao, da censura, da presso, da interveno direta.

    Outra face dessa relao a influncia dos quadrinhos nas lutas polticas e at mesmo na vida

    poltica nacional.13 Waldomiro Vergueiro apresenta vrios exemplos de governos que

    utilizaram quadrinhos na sociedade: a China usou quadrinhos a servio da propaganda

    ideolgica no governo de Mao Tse-Tung: os Estados Unidos utilizaram quadrinhos com a

    colaborao do desenhista Will Eisner para elaborar manuais para treinamento de suas tropas.

    Segundo o autor essas obras eram publicadas visando atingir o grande pblico. Demonstrando

    a possibilidade de utilizar os quadrinhos de uma forma mais ampla que o simples

    entretenimento.

    11CALAZANS, Flvio. Op.cit.,p.15.12DUTRA, Joatan Preis. Histria & Histria em Quadrinhos: A utilizao das HQS como fonte histrica poltico-social. Santa Catarina: Universidade Federal de Santa Catarina, 2002.p.6. 13 VIANA, Nildo. Quadrinhos e poltica. Dsponvel em acesso em 14 junho de 2013.p.2.

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    Bem vindo ao ano de 2099 As histrias em quadrinhos dos X-MEN 2099 e Homem Aranha 2099 foram

    produzidas na dcada de 1990 pela Marvel Comics. No Brasil foram traduzidas e distribudas

    pela editora Abril. A revista do Homem Aranha foi escrita por Peter David e desenhada por

    Rick Leonardi. Os X-MEN tiveram como criadores John Francis e Rom Lim. Com uma

    sucesso de decises editoriais, a linha 2099 foi cancelada. De 1992 at 1998 possvel

    acompanhar as aventuras do Homem Aranha e vrios outros representantes do universo

    Marvel 2099.

    As duas sries apresentam os Estados Unidos fragmentado e controlado por grandes

    corporaes, como Alchemax, Sopro dos Anjos, StarkFujikawa, entre outras. As histrias se

    passam em um universo futurista de cultura cyberpunk e grandes avanos tecnolgicos. O

    dinheiro existe apenas na forma de cartes de dbito. A criminalidade continua to intensa,

    quanto a cem anos, e as pessoas s tem proteo policial se pagarem. Sair noite no

    recomendvel. H grande chance de ser assaltado e no dinheiro que assaltantes querem, e

    sim os seus rins, corao, pulmo e fgado.

    Segundo Francisco Uribam Xavier de Holanda, Para acabar com os monoplios industriais, a receita a no interveno do Estado; para acabar com os monoplios trabalhistas, a receita a interveno estatal atravs das reformas constitucionais na eliminao de medidas que garantam direitos aos trabalhadores.14

    O Estado por meio da constituio acabaria com os direitos trabalhistas. E os

    trabalhadores ficaram a merc dos seus padres, pois no teriam leis que os protegessem. Essa

    falta de direitos trabalhistas bem evidente na imagem abaixo, que tem o Hulk como um dos

    personagens principais. O historiador Leandro Karnal corrobora com o argumento de

    Holanda. Para Karnal com a crise e as desregulamentaes por parte das polticas do governo,

    as corporaes se aproveitaram para acabar com os direitos trabalhistas e os sindicatos.

    14HOLANDA, Francisco Uribam Xavier de. Do liberalismo ao neoliberalismo: o itinerrio de uma cosmoviso impenitente. 3.ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004. p, 77

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    Figura 1-X-Men 17. p, 47

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    O personagem Hulk aps adquirir seus poderes com uma exploso de uma bomba gama, passa a combater os abusos dos empregadores, que a sua vontade elimina seus funcionrios. O personagem junto com seu grupo utiliza os meios de comunicao para passar mensagens a populao e combater os empregadores. Para Nilson Arajo de Souza, a falncia do Estado outro importante dogma dos

    neoliberais, e propem como remdio a privatizao. Portanto, h o interesse na quebra dos

    monoplios pblicos sobre o petrleo, as telecomunicaes e a energia eltrica. As

    privatizaes so evidentes nos quadrinhos que estamos analisando. A privatizao bem

    explicita a da segurana. Jake Gallows um policial que trabalha para o olho pblico,

    uma empresa de segurana privada e controlada pela corporao Alchemax. Ao ter a sua

    famlia assassinada por um louco, filho do diretor da Alchemax e v-lo sair impune aps

    pagar fiana decide fazer justia com as suas prprias mos e, ao encontrar o material do

    antigo Justiceiro nos arquivos da polcia, deu prosseguimento ao trabalho do antigo heri,

    tornando-se assim o novo Justiceiro.

    O economista argumenta que,

    Em defesa de suas posies, os apologistas da privatizao e da quebra dos monoplios pblicos tm argumentado, basicamente, que, sendo o Estado ineficiente e estando ademais falido, portanto, sem recursos para cumprir suas antigas funes, deve ele sair de cena a fim de abrir caminho para a iniciativa privada, que, alm de eficiente, estaria com elevado grau de liquidez, ou seja, disporia de recursos para realizar os investimentos to necessrios retomada do desenvolvimento.15

    Ao analisarmos o fragmento da HQ, apresentada pela figura2, podemos perceber que a

    segurana est nas mos da iniciativa privada. E apenas possuem segurana aqueles que

    podem pagar por ela.

    15SOUZA,Nilson Arajo. O colapso do Neoliberalismo. So Paulo: Global, 1995. p, 69

    Figura 2- Homem Aranha 2. p,26

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    O trecho acima mostra como a polcia esta nas mos das corporaes. o primeiro aparecimento do novo Justiceiro que faz justia com as prprias mos e sem cobrar nada, o que uma preocupao para a polcia, pois tem um concorrente que no necessita ser pago.

    O Homem Aranha,16 um geneticista que trabalha na mega corporao Alchemax com

    o intuito de criar super seres com base nos super heris do sculo XXI, usando humanos

    como cobaias para seus testes. Depois de se arrepender de ter usado um criminoso em seu

    experimento e o levado a morte, decide ser a prpria cobaia. No momento do teste, o invejoso

    Aaron17 tenta mat-lo, reprogramando os comandos. Miguel Ohara acaba se transformando

    em um super humano com grande fora, agilidade, presas e garras que saem das mos e dos

    ps, que o assemelha a uma Aranha.

    Vale ressaltar que durante a dcada de 1990, iniciaram-se vrias pesquisas genticas.

    Podemos destacar o Projeto Genoma Humano que tinha como objetivo decifrar o cdigo

    humano e suas alteraes. E a clonagem da ovelha Dolly.18

    X-Men 2099 um grupo formado pelo lder Xian xi Chan, mutante que segue a

    mesma filosofia de Charles Xavier, antigo mentor dos X-Men originais. Tanto os mutantes

    quanto os humanos que no portam o Fator X podem viver em igualdade, harmonia e paz. O

    grupo formado por Asa Sangrenta, Metlico, Krystalin, Dinmo, Shakti, Furaco,

    Serpentina19 e posteriormente Luntica.

    Ao analisar as duas sries de quadrinhos podemos associar ao arcabouo terico do

    imaginrio social em questes trabalhadas por Bronislaw Baczko. possvel verificar

    questes como o simbolismo, o poder e a representatividade.

    Baczko argumenta que as aes dos homens so guiadas pelas representaes que

    esto a sua volta, pois modelam o comportamento, legitimam a violncia. Nas palavras do

    autor, Em qualquer conflito social grave uma guerra, uma revoluo no sero as imagens exaltantes e magnificentes dos objetivos a atingir e dos frutos da vitria procurada uma condio de possibilidade da prpria ao das foras em presena? Como que se podem separar, neste tipo de conflitos, os agentes e os seus atos das imagens que aqueles tem de si prprios e dos inimigos, sejam estes inimigos de classe, religio, raa, nacionalidade, etc.? no so as aes

    16Miguel Ohara seu verdadeiro nome17Cientista que trabalha com Miguel Ohara no mesmo programa.18LUNA, La Alexandre. A IMPORTNCIA DO ENSINO DE GENTICA PARA O MUNDO ATUAL. Disponvel em acesso em 24 de Maio de 2104.19 Morre logo nos primeiros captulos.

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    efetivamente guiadas por estas representaes; no modelam ele os comportamentos;no mobilizam elas as energias; no legitimam elas as violncias?.20

    O autor aponta que o poder simblico no consiste em acrescentar o ilusrio a um

    potencial real, e sim em duplicar esta dominao pela apropriao dos smbolos para

    garantir a sua obedincia.

    Para Baczko est na moda a associao entre imaginao e poltica, imaginrio e

    social. So essas associaes presentes nas histrias em quadrinhos dos X-Men e Homem

    Aranha 2099. Os que esto no poder neste universo futurista se utilizam de tais mecanismos,

    apresentados na obra de Baczko, para legitimar os seus poderes, e utilizam o poder como

    instrumento de dominao. O autor argumenta, As cincias humanas punham em destaque o fato de qualquer poder designadamente o poder poltico, se rodear das representaes coletivas. Para tal poder, o domnio do imaginrio e do smbolo um importante lugar estratgico.21

    Exercer o poder simblico consiste, segundo o autor em reforar a dominao das

    classes baixas, por meio dos smbolos. Esses smbolos so potencializadores do real.

    Baczko argumenta o poder apodera-se do controle dos meios que formam e guiam a

    imaginao coletiva. A fim de impregnar as mentalidades com novos valores e fortalecer a

    sua legitimidade.22

    Com base nesses argumentos, possvel pensar que as histrias em quadrinhos

    construram um imaginrio, uma realidade de uma guerra que se concretizou e que no ficou

    apenas no discurso. E ambos os lados empregavam mecanismos para autenticarem o seu

    poder.

    As duas revistas apresentam um futuro alternativo com relao aos eventos histricos

    do sculo XX. Os X-Men e Homem Aranha trabalham com uma viso negativa sobre o

    neoliberalismo, a guerra entre duas potncias, uma capitalista e a outra socialista. Apresenta

    um quadro da poltica neoliberal e as suas consequncias para a sociedade. A guerra entre os

    Estados Unidos, neoliberal, controlados pelas corporaes, e Latvria de Destino, que

    representa o socialismo.

    20BACZKO, Bronislaw. A imaginao social In: Leach, Edmund et Alii. Anthropos-Homem.Lisboa, ImprensaNacional/Casa da Moeda, 1985.p, 298.21Idem. p, 297.22Idem .p, 302.

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    O preconceito contra os mutantes, a questo racial levaram a um grande extermnio

    dos mutantes, ficando, conhecido como O Expurgo.23 As duas revistas apresentam uma

    sociedade muito desigual, contudo com uma viso mais exacerbada. Os ricos tm o controle

    das cidades. Os pobres, ditos sem crditos so explorados, mortos (assassinados), vivem

    isolados em um local chamado de submundo. Os ricos matam por prazer, pois podem pagar

    fiana. Os pobres que no tem condies de pagar pela proteo da polcia, ou pagam milcias

    ou tem grandes chances de serem assassinados.

    A figura abaixo apresenta o Homem Aranha demonstrando que o controle das

    corporaes sobre a cidade est com seus dias contados. um soco representativo no controle

    dessas empresas sobre a populao. Nas palavras do personagem, eu prometo enquanto eu

    no encontrar uma cura pra minha condio, vou tentar transformar esse mundo no que eu

    gostaria que ele fosse.24

    23Uma possvel referncia ao extermnio de judeus nas dcadas de 1930 e 1940 do sculo XX.24HOMEM ARANHA 2099. Estados Unidos. Ed. Marvel Comics. Edio 7.1992.p, 49

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    A histria do Homem Aranha comea com sua luta contra a polcia (o olho

    pblico). Aps ter conhecido o submundo e ter visto as condies em que as pessoas vivem e

    a influncia de sua me, que f do Homem Aranha, pois ela acreditava que ele poderia fazer

    a diferena ele decide lutar em favor dos oprimidos contra as corporaes que controlam a

    cidade. Figura 4- Homem Aranha 7. p 48 O Homem Aranha um empregado da corporao Alchemax, que aps se submeter a testes genticos

    ganha poderes similar a uma aranha. Vendo tanta desigualdade comea a combater as corporaes para acabar com o controle sobre a populao.

    Podemos perceber, na fala do Homem Aranha a mudana do seu pensamento, em

    relao ao incio das suas aventuras. Os super-heris Homem Aranha, Justiceiro, Os X-men,

    Hulk e Doom ou Destino,25surgiram em reposta a um mundo desigual, a injustia, ao

    preconceito e a um cataclismo ambiental.

    25Este no apresentado como um vilo como costumamos a v-lo.

    Figura 3- Homem Aranha 7. p 48

    Figura 5- Homem Aranha 13 p.50

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    Com o surgimento de vrios heris, o AVATAR26 se v ameaado no poder. Com o

    intuito de acabar com a popularidade desses heris e fortalecer o seu poder, ele cria super

    seres tecnologicamente modificados, que dizem serem os deuses Asgardianos. O Avatar em

    um dilogo com Destino argumenta, Heris so perigosos inspiram independncia! Criei

    meus prprios heris revolucionrios para anular essas influncias.27

    Esses falsos deuses foram criados apenas com o intuito de combater os super heris que esto ganhando

    notoriedade entre a populao. A figura 4 mostra o suposto Deus, passando a mensagem que os super-heris so

    26Um dos diretores das corporaes.27X-MEN 2099.Estados Unidos. Ed. Marvel Comics. Edio 4. p, 38

    Figura 6- Homem Aranha 13

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    aberraes e merecem ser eliminados, validando assim seus argumentos.

    Holanda esclarece que o estado um aparato social de coero que deve utilizar seu

    poder exclusivamente (...) para evitar que as pessoas causem aes lesivas preservao e o

    funcionamento da economia de mercado.28 Ou seja, o personagem Avatar se utiliza desses

    super seres para proteger o seu poder, a sua prosperidade. Assim como o Estado faz para

    proteger o mercado segundo os preceitos neoliberais. Por que os super heris podem incitar a

    independncia? Por que as incitaes podem lesionar o seu controle sobre a populao?

    Porque sem as incitaes o Avatar pode administrar a sua empresa com segurana. Alm

    disso, pode manter o seu controle sobre a populao.

    Bronislaw Baczko, utilizando o pensamento de Ansart, esclarece que uma

    coletividade, atravs do imaginrio social, estabelece sua identidade, seus cdigos de conduta

    e as posies sociais. Nas palavras de Ansart, Atravs dos seus imaginrios sociais, uma coletividade designa a sua identidade; elabora uma certa representao de si; estabelece a distribuio dos papis e das posies sociais; exprime e impe crenas comuns; constri uma espcie de cdigo de bom comportamento, designadamente atravs da instalao de modelos formadores como o do chefe, o bom sdito, o guerreiro corajoso.29

    Segundo Baczko, A funo do smbolo no apenas instituir uma classificao, mas tambm introduzir valores, modelando os comportamentos individuais e coletivos e indicando as possibilidades de xito dos seus empreendimentos.30

    So esses valores que o Avatar quer passar atravs dos seus heris. A imagem

    difundida como o guerreiro corajoso apontado por Ansart. Podemos analisar uma mensagem

    de um salvador, de um heri que veio ajudar a populao, e acabar com as aberraes. Esses

    supostos deuses apareceram para modelar a mentalidade, os valores dessa populao e

    fortalecer o poder do Avatar, o chefe que controla esses falsos deuses.

    28HOLANDA, Francisco Uribam Xavier de. Op. Cit., p, 6329ANSART, P. Lesideologiespolitiques.Presses Universitaires, Paris. 1974. p, 14. In Baczko, Bronislaw. Op.cit.,p, 30930BACZKO, Bronislaw. Op. cit.,p, 311

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    DESTINO O ARQUITETO DO FUTURO

    Escrita pelo britnico Warren Girard Ellis,31 essa figura misteriosa de fundamental

    importncia para o contexto poltico dessas duas sries de quadrinhos. Um homem reaparece

    na antiga Latvria, dizendo ser Destino, que havia desaparecido misteriosamente. Sem

    memria e com a Latvria dominada por um cyborgue chamado Tiger Wilde, esse suposto

    Destino se alia aos rebeldes ciganos para reaver o seu governo. Com o desenrolar da histria e

    confirmado que esse homem o verdadeiro Destino, que foi rejuvenescido por Margaretta,32

    Destino derrota Tiger Wilde e retoma o governo de Latvria. Aps a retomada do seu pas, ele

    se volta para os Estados Unidos com a inteno de conquist-lo. Nas palavras do personagem,

    voltei para um mundo beira da anarquia graas o corporativismo.33 Para evitar isso, o

    planeta deve ser reestruturado. E eu serei o arquiteto deste futuro.34

    importante ressaltar que os Estados Unidos na dcada de 1990 tinham acabado de

    sair da Guerra Fria como os vitoriosos. E a Guerra Fria entre Estados Unidos e a URSS

    tinham dominado o cenrio internacional na segunda metade do sculo XX. A URSS tinha se

    demolido por causa dos problemas internos. Segundo Eric Hobsbawm, No foi o confronto hostil com o capitalista, o seu superpoder que solapou o socialismo. Foi mais a combinao entre seus prprios defeitos econmicos, cada vez mais evidentes e paralisantes, e a acelerada invaso na economia socialista pelo muito mais dinmica, avanada e dominante capitalista mundial.35

    Podemos entender que a Unio Sovitica no foi derrotada pelos Estados Unidos e sim

    pelos prprios problemas internos que acabou deixando-a fraca para manter a sua competio

    com os Estados Unidos.

    Com a Guerra Fria o mundo se polarizou em dois blocos, um comunista e outro

    capitalista. Para Hobsbawm quase de imediato, ela polarizou o mundo controlado por

    31http://actionsecomics2.blogspot.com.br/2014/01/mega-pack-especial-warren-ellis_12.html.consulta dia 12 de Abril de 2014.32Uma adversria de Destino.33O Corporativismo uma doutrina que propugna a organizao da coletividade baseada na associao representativa dos interesses e das atividades profissionais (corporaes). Prope, graas solidariedade orgnica dos interesses concretos e s frmulas de colaborao que da podem derivar, a remoo ou neutralizao dos elementos de conflito: a concorrncia no plano econmico, a luta de classes no plano social, as diferenas ideolgicas no plano poltico.34HOMEM ARANHA 2099. Estados Unidos.ed.MarvelComics.11 vol.1992.p.49

    35HOBSBAWM, Eric J. Era dos Extremos: o breve sculo XX: 1914-1991 So Paulo: Cia das Letras, 1995 p. 247

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    superpotncias em dois campos marcadamente divididos.36 Analisando passagens desses

    quadrinhos observamos a diviso entre duas formas de governo, o governo de Destino

    (socialista) e o governo das corporaes (capitalista).

    Eric Hobsbawm argumenta que a peculiaridade da Guerra Fria era a de que no

    existia perigo de uma iminente guerra. Esse confronto se concentrava no campo da retrica.

    Nos quadrinhos apresentados o conflito entre as duas foras no apenas no campo

    discursivo. A Guerra Fria acabou, mas os seus reflexos ainda so vistos nas expresses

    culturais, como os quadrinhos.

    Nos quadrinhos analisados, apresentada uma invaso de Latvria aos Estados

    Unidos. Destino com o intuito de governar os estadunidenses por meio de um golpe, pretende

    retirar as corporaes do controle do governo. importante ressaltar que Latvria ou

    "Latvia", cuja traduo correta para o portugus Letnia, na poca uma das repblicas que

    compunham a URSS.37 Podemos verificar que as HQs dos X-Men e Homem-Aranha ainda

    apresentavam resqucios da Guerra Fria. O socialismo ainda era apresentado no campo

    ideolgico como o inimigo dos Estados Unidos. Segundo Bronislaw Baczko, Os imaginrios sociais intervem continuamente ao longo dos motins e a diveros nveis. As suas funes so mltiplas, designar o inimigo no plano simblico, mobilizar as energias e representar as solidariedades, cristalizar os temores e esperanas difusos.Todos convergem para a legitimao da violncia popular.38

    Para Baczko, uma das funes do imaginrio apontar o inimigo no campo simblico.

    Assim, as HQs continuaram a apresentar os comunistas como inimigos. O objetivo, muito

    provavelmente, era de continuar utilizando as energias da sociedade norte americana contra as

    pases que fizeram parte da ex- URSS e cristalizar os temores acerca do comunismo mundial

    e do prprio ser comunista.

    Desse modo, que podemos interpretar o quadrinho baixo. Observamos que a imagem

    do ser comunista apresentado como autoritario, que priva a populao de sua liberdade, dos

    seus direitos.

    36HOBSBAWM, Eric J. Op. cit., p, 235.37http://gibitecacom.blogspot.com.br/2008/09/uma-dica-para-se-trabalhar-guerra-fria.html. Acesso em 28 de Maio de 2014.38BACZKO, Bronislaw. Op. cit., p, 316

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    Figura 7- Homem Aranha. 28, p 36 Destino faz um comunicado a populao decretando leis mais duras. A Inteno que podemos perceber de passar a mensagem de ditador, lembrando que Destino governante da Latvria um pas fictcio, no entanto sua traduo da nome a Estonia Pas que j fez parte da ex-Unio Sovitica.

    possvel verificar, assim, que os comunistas ainda mobilizam temores por diveros

    grupos sociais nos Estados Unidos, mesmo aps o fim da Guerra Fria.

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    E nos quadrinhos analisados, com o decorrer das histrias, ocorre uma detonao de

    uma bomba gama na Califrnia. Destino manda sua equipe de salvamento e de primeiros

    socorros para a regio, pensando em se tratar de um terremoto. Com toda aquela agitao, o

    noticirio anunciou que o Capito Amrica foi encontrado congelado na Antrtica.

    Observando e analisando o discurso do suposto Capito Amrica, percebemos que coloca

    Destino como o vilo grande inimigo, que derrotou os Vingadores como tambm teria sido

    por causa dele o fim do sonho americano.

    Analisando a figura 6, percebemos que a imagem do Capito Amrica ressaltada,

    passando uma mensagem de liberdade.

    Figura 6- Homem Aranha. 32 s/p

    O Capito Amrica smbolo dos Estados Unidos. A imagem ressalta sua posio como se fosse a estatua da Liberdade.

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    Segundo Leandro Karnal, a crise econmica mundial de 1973 provocou a mudana

    rpida de economistas, polticos e jornalistas americanos em fortes defensores da economia

    livre. E governantes como Ronald Reagan utilizaram do discurso de liberdade americana

    para criticar gastos pblicos.39 Podemos entender que a liberdade representada pelo Capito

    Amrica, a liberdade econmica das empresas, tanto defendida pelo governo dos EUA, para

    conter a crise que se iniciou nos anos de 1970.

    A imagem vem reforar a argumentao de Baczko, que os imaginrios mobilizam e

    ampliam temores e esperanas neste caso ampliando a esperana em torno do Capito

    Amrica, representando a liberdade.

    Segundo Baczko os conflitos entre poderes rivais estimulam a inveno de novas

    tcnicas de combate no campo do imaginrio. Nas palavras do autor, Estas visavam aconstituio de uma imagem desvalorizada do outro adversrio, procurando em especial invalidar a sua legitimidade, por outro lado, exaltavam atravs de representaes engrandecedoras o poder cuja causa defendiam e para o qual pretendiam obter maior nmero de adeses.40

    Assim, o Capito Amrica representa um smbolo de valores desejos e esperanas,

    enquanto que a imagem de Destino de um ditador, inimigo da Amrica.

    Segundo Eric Hobsbawm, A cruzada contra o Imprio do Mal a que pelo menos em pblico o governo do presidente Reagan dedicou suas energias destinavam-se assim a agir mais como uma terapia para os EUA.41

    Podemos observar que a URSS vista como o Imprio do Mal, o inimigo. E os

    propagandistas americanos apontavam que os EUA tinham travado e ganho a Guerra Fria e

    destrudo o inimigo.

    Steve Rogers colocado como presidente, e as corporaes comeam a colocar o seu

    plano em prtica. O objetivo principal era o de extrair os recursos minerais e riquezas do pas

    e do planeta, quando no restar mais nada, deixariam a terra em busca de novos planetas para

    consumirem. E tambm planejavam o incio do extermnio dos super-heris e dos mutantes de

    Halo City.

    39KARNAL, L. Estados Unidos: a formao da nao. So Paulo: Contexto, 2001. p, 258.40BACZKO, Bronislaw. Op. Cit.p,300 41HOBSBAWM, Eric J. Op. cit., p, 245.

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    Observamos uma guerra de duas formas de governos diferentes. Uma tenta

    reestruturar socialmente, ecologicamente e encontrar a paz entre mutantes e humanos nos

    Estados Unidos, e outra procura construir um governo liderado pelas corporaes apenas

    almejando a extrao dos recursos da terra de forma descontrolada. Os roteiristas exibiram

    uma guerra em que no eram as bombas atmicas as armas mais poderosas e sim a

    nanotecnologia. A tecnologia que destri tudo ao seu caminho, apenas com o comando de um

    computador. Nenhum dos dois governos saiu vitorioso, nenhum predominou. Destino foi o

    ltimo a ficar de p, porm no pde governar por muito tempo.

    possvel interpretar que para os autores das referidas HQs que nenhum dos governos

    (neoliberal ou socialista) benfico populao. Mesmo querendo a unio das classes,

    mutantes e humanos, o governo proposto por Destino leva a ditadura. Por outro lado, o

    governo das grandes corporaes, neoliberal, tambm, segundo os roteiristas pode levar o

    mundo runa.

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    REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

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