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Guia metodologico para o acesso das pessoas com deficiências e incapacidades ao processo de reconhecimento, validação e certificação de competências - nível básico

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  • GuiaMetodolgicopara o Acesso das Pessoas com Deficincias e Incapacidades

    ao Processo de Reconhecimento, Validao e Certificao

    de Competncias NVEL BSICO

  • Ficha tcnica

    Ttulo:

    Guia Metodolgico para o Acesso das Pessoas com Deficinciase Incapacidades ao Processo de Reconhecimento, Validao e Certificaode Competncias - Nvel Bsico

    Editor:

    Agncia Nacional para a Qualificao, I.P.(1 edio, Maio 2009)

    Autoria:

    Jernimo de Sousa (coord.)Caroline BinCristina CrisstomoCristina RodriguesMarina MartinsMnica CorreiaPedro MateiroSrgio FabelaSofia Cruz

    Comisso de Acompanhamento:

    Agncia Nacional para a Qualificao, I.P.- Helena Oliveira (coord.)- Maria Teresa Gonalves- Michle Fernandes

    Instituto Nacional para a Reabilitao, I.P.- Isabel Felgueiras- Maria do Carmo Medeiros

    Direco-Geral de Inovao e de Desenvolvimento Curricular- Filomena Pereira- Cristina Miguel

    Instituto do Emprego e Formao Profissional, I.P.- Ftima Alves

    Colaborao:

    Centro Novas Oportunidades da Casa Pia de Lisboa - Colgio Antnio Aurlio da Costa FerreiraCentro Novas Oportunidades do Agrupamento de Escolas Lima de Freitas - ArrbidaCentro Novas Oportunidades do Centro de Reabilitao Profissional de GaiaCentro Novas Oportunidades da Associao de Sade Mental do AlgarveCentro Novas Oportunidades da Associao de Paralisia Cerebral de CoimbraCentro Novas Oportunidades do Centro de Educao e Formao Profissional Integrada - Porto

    Concepo Grfica e Paginao:

    Bluetwo, Design e Comunicao, Lda.www.bluetwo.pt

    ISBN978-972-8743-55-0

    Agncia Nacional para a Qualificao, I.P.Av. 24 de Julho, n 138 1399-026 LisboaTel.: 21 394 37 00 www.anq.gov.pt

  • NDICE

    1. INTRODUO

    2. PRESSUPOSTOS CONCEPTUAIS

    2.1. Princpios orientadores

    2.2. Pessoas com deficincias e incapacidades - diversidade funcional2.2.1. Evoluo dos modelos conceptuais e de poltica2.2.2. O modelo biopsicossocial ou relacional2.2.3. A Classificao Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Sade

    _ Instrumento de Operacionalizao do Modelo Biopsicossocial

    3. RECURSOS E ESTRATGIAS PARA A INCLUSO

    3.1. Acessibilidade como requisito para a incluso da diversidade funcional3.1.1. Ajudas tcnicas/produtos de apoio3.1.2. Atitudes e pessoas significativas3.1.3. Servios, sistemas e polticas

    4. CENTROS NOVAS OPORTUNIDADES E GESTO DA DIVERSIDADE FUNCIONAL

    4.1. Alteraes das funes e impactos no sistema nacional de RVCC

    4.1.1. Alteraes das funes da viso4.1.1.1. Impactos das alteraes das funes da viso na operacionalizao

    do RCC-NB4.1.1.2. Impactos das alteraes das funes da viso no processo de

    diagnstico e encaminhamento e no processo de RVCC4.1.1.3. Exemplos de percursos de pessoas com alteraes das funes da

    viso num Centro Novas Oportunidades

    4.1.2. Alteraes das funes auditivas4.1.2.1. Impactos das alteraes das funes auditivas na operacionalizao

    do RCC-NB4.1.2.2. Impactos das alteraes das funes auditivas no processo de

    diagnstico e encaminhamento e no processo de RVCC4.1.2.3. Exemplos de percursos de pessoas com alteraes das funes

    auditivas num Centro Novas Oportunidades

    4.1.3. Alteraes das funes mentais - intelectuais4.1.3.1. Impactos das alteraes das funes mentais - intelectuais na

    operacionalizao do RCC-NB4.1.3.2. Impactos das alteraes das funes mentais - intelectuais no

    processo de diagnstico e encaminhamento e no processo de RVCC4.1.3.3. Exemplos de percursos de pessoas com alteraes das funes

    mentais - intelectuais num Centro Novas Oportunidades

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  • NDICE

    4.1.4. Alteraes das funes mentais - doena mental4.1.4.1. Impactos das alteraes das funes mentais - doena mental na

    operacionalizao do RCC-NB4.1.4.2. Impactos das alteraes das funes mentais - doena mental no

    processo de diagnstico e encaminhamento e no processo de RVCC4.1.4.3. Exemplos de percursos de pessoas com alteraes das funes

    mentais - doena mental num Centro Novas Oportunidades

    4.1.5. Alteraes das funes neuromusculoesquelticas e relacionadas com o movimento e das funes da voz e fala4.1.5.1. Impactos das alteraes das funes neuromusculoesquelticas e

    relacionadas com o movimento e das funes da voz e fala na operacionalizao do RCC-NB

    4.1.5.2. Impactos das alteraes das funes neuromusculoesquelticas e relacionadas com o movimento e das funes da voz e fala no processo de diagnstico e encaminhamento e no processo RVCC

    4.1.5.3. Exemplo de um percurso de pessoas com alteraes das funes neuromusculoesquelticas e relacionadas com o movimento e das funes da voz e fala num Centro Novas Oportunidades

    Referncias Bibliogrficas

    Anexo I - Lista de centros especializados

    Anexo II - Lista de entidades especializadas na interveno com pessoas com deficinciase incapacidades

    Anexo III - Matriz Relacional entre Referencial de Competncias-Chave e Funes da Viso

    Anexo IV - Matriz Relacional entre Referencial de Competncias-Chave e Funes Auditivas

    Anexo V - Matriz Relacional entre Referencial de Competncias-Chave e FunesMentais - Intelectuais

    Anexo VI - Matriz Relacional entre Referencial de Competncias-Chave e FunesMentais - Doena Mental

    Anexo VII - Matriz Relacional entre Referencial de Competncias-Chave e Funes Neuromusculoesquelticas e Relacionadas com o Movimento e Funes da Voz e Fala

    Anexo VIII - Legislao e documentos de referncia

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  • INTRODUO

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    1. INTRODUO

    A qualificao dos cidados constitui-se hoje como um desafio nacional fundamental, entendida comouma dinmica que integra as aprendizagens e competncias escolares e profissionais, adquiridasnos diversos contextos em que podem ocorrer, ao longo da vida.

    Configura-se como uma estratgia fundamental da cidadania, como um desafio e oportunidade paratodos, num quadro de desenvolvimento de competncias, de aprofundamento da democratizaodo acesso qualificao, promovendo oportunidades de reconstruo e reparao de um direitosocial fundamental, o direito educao e formao.

    No mbito da nova abordagem poltica que define e consagra os direitos das pessoas com deficinciase incapacidades como um imperativo social e poltico, e que contempla os mecanismos jurdicos degarantia do seu projecto _ vertidos desde logo na Conveno sobre os Direitos das Pessoas comDeficincia e no Decreto-Lei n. 34/2007, de 15 de Fevereiro _ impe-se a todas as polticas e a todosos sistemas que sejam de facto abertos e inclusivos, assegurando a efectiva implementao dessesdireitos. Tal imperativo encontra justificao redobrada num domnio, o da educao-formao, comgrande tradio e potencial de inovao nesta matria.

    As pessoas com deficincias e incapacidades colocam ao sistema de qualificao um duplodesafio. Por um lado, uma abertura e flexibilidade para que as suas circunstncias particulares,a sua diversidade, seja acolhida e gerida no quadro da sua interveno. Por outro, uma atenoe esforo acrescidos face aos seus mais baixos nveis de qualificao relativamente populaoem geral.

    A Iniciativa Novas Oportunidades constituindo-se como uma estratgia decisiva para todos os cidados,assume uma relevncia muito especial para as pessoas com deficincias e incapacidade, muitas vezesremetidas para dinmicas e estratgias margem dos sistemas, com carcter algo remediativo.

    luz de um dos princpios fundamentais das sociedades modernas, o da educabilidade universal, ouda capacidade universal de aprendizagem, coloca-se o desafio de desenhar sistemas capazes deassegurar a promoo dessa capacidade, de forma efectiva, permitindo a todos desenvolver eoptimizar os seus potenciais.

    Neste enquadramento, e tendo em conta a matriz ideolgica e organizacional do dispositivo NovasOportunidades, atravs da rede nacional de Centros Novas Oportunidades, importa organizar ascondies para que seja ainda mais aberto e flexvel nas suas dinmicas e processos deoperacionalizao, mantendo como referencial geral e universal os princpios, regras e critrios geraisque o enformam, nomeadamente no plano das competncias que permite verificar, reconhecer ecertificar, num quadro de interveno que assegure apoios personalizados e eventualmenteespecializados a quem deles necessite, permitindo a gesto da diversidade funcional das pessoasem percursos de qualificao.

  • INTRODUO

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    Aos Centros Novas Oportunidades coloca-se, assim, o desafio de se constiturem como uma redeinclusiva, capaz de atender e trabalhar tambm as pessoas com deficincias e incapacidades, comdiversidade funcional, permitindo que essas pessoas se integrem nas estruturas gerais, abertas atodos os cidados, num contexto de mxima participao possvel, articulando e complementando--se com os recursos especializados, quando pertinente.

    O presente guia metodolgico identifica os ajustamentos a introduzir nas dinmicas dos processosde reconhecimento, validao e certificao de competncias de acordo com o Referencial deCompetncias-Chave de Educao e Formao de Adultos - Nvel Bsico (RCC-NB), para, no quadrodos princpios e metodologias institudos, apoiar uma operacionalizao individualizada e flexvel domesmo, que tenha em conta as especificidades funcionais de cada pessoa. Pretendefundamentalmente apoiar as equipas tcnico-pedaggicas dos Centros Novas Oportunidades aidentificar em que situaes so necessrias adaptaes aos processos de RVCC e como procederem situaes concretas, face a candidatos com deficincias e incapacidades.

    Num primeiro momento do documento so explicitados os elementos conceptuais de referncia naabordagem da diversidade funcional, bem como os princpios fundamentais que devem estruturaros sistemas de educao e formao, vlidos universalmente para todos os aprendentes.

    No captulo seguinte so apresentadas as condies e desafios para a concepo, organizao efuncionamento dos sistemas, de forma, a que sejam acessveis a todos.

    Por fim so apresentadas as circunstncias particulares que justificam adaptaes nas dinmicas dereconhecimento, validao e certificao de competncias, no quadro dos processos de nvel bsico,bem como as estratgias de abordagem ajustadas a cada uma das circunstncias referidas, numquadro de apoios personalizados/especializados.

    Mantendo-se como referencial permanente o RCC-NB, pretende-se adoptar uma estratgia deindividualizao e flexibilidade nas abordagens e nos processos, para que os Centros NovasOportunidades possam ser verdadeiramente Inclusivos, abertos a todos, capazes de gerir adiversidade funcional, incluindo desta forma aqueles cidados que tradicionalmente eram esquecidosou remetidos para sistemas paralelos aos sistemas gerais.

  • PRESSUPOSTOS CONCEPTUAIS

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    2. PRESSUPOSTOS CONCEPTUAIS

    Este guia metodolgico tem como objectivo apoiar os Centros Novas Oportunidades napromoo da qualificao de pessoas com deficincias e incapacidades, atravs daoperacionalizao RCC-NB, por via de eventuais alteraes nos seus critrios de evidncia e doseu processo, de forma a adequar o dispositivo a todos as pessoas, independentemente da suadiversidade funcional.

    As orientaes enquadradoras do guia metodolgico baseiam-se nos princpios subjacentes aoRCC-NB e nas linhas de aco da incluso social, a seguir descritas, uma vez que possuir um quadrogeral de incluso no implica diferenciar as prticas de individualizao e contextualizao, mas antespotenciar estratgias e prticas de gesto da diversidade, incentivando a autonomia e a participaode todos e permitindo o dilogo e entendimento dos diversos actores, enquanto agentes de umarede de trabalho integrada.

    A operacionalizao do RCC-NB, no quadro definido, tem como ponto de partida princpios e modelosconceptuais que norteiam uma prtica orientada para a equidade, cujos pressupostos passam a estardescritos nos pontos que se seguem.

    2.1. Princpios orientadores

    Uma estratgia de apoio qualificao, perspectivada de forma inclusiva, apoia-se num conjunto deorientaes fundamentais, norteadoras de opes e de prticas de trabalho dos agentes que aspromovem.

    Abertura e flexibilidadeAdaptao do processo de reconhecimento, validao e certificao de competncias aos perfis daspessoas, no quadro de uma gesto diversa das pessoas, da formao e da validao decompetncias, com flexibilidade nos tempos, nas formas de acesso e nas estratgias de interveno.

    Pluralidade e diversidadeConsiderao da histria e projecto de vida das pessoas, condicionadas pelo seu contexto pessoal,familiar e social, da sua funcionalidade e sade, para a definio de estratgias plurais para oreconhecimento, validao e certificao de competncias.

    Abrangncia das intervenesAs necessidades ao nvel da qualificao so de natureza diversa e articulam-se com as outrasdimenses de vida. Por consequncia, requerem intervenes de natureza diversa e integrada,capazes de atender complexidade dos problemas a resolver, atravs de uma abordagem conjuntae multidisciplinar.

  • PRESSUPOSTOS CONCEPTUAIS

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    Promoo da qualidade de vidaConsiderao pela promoo de objectivos que integram o modelo de qualidade de vida ao nveldo desenvolvimento pessoal, relacional, da autodeterminao, do bem-estar emocional, fsico ematerial, da incluso social, da empregabilidade, da cidadania e dos direitos.

    Individualizao do processo de reconhecimento e certificaoConsiderao pelo perfil individual das pessoas promovendo no desenho do seu plano pessoal dequalificao, e de integrao na vida activa e profissional, oportunidades de participao social.

    Modularizao dos saberes e capitalizao dos adquiridosO desenvolvimento pessoal e profissional ocorre ao longo da vida, atravs de um processocontinuado de aprendizagem e consequente desenvolvimento de competncias. As intervenesorganizam-se de modo a favorecer percursos de desenvolvimento baseados em unidades decompetncia/unidades de formao de curta durao, permitindo a sua capitalizao em favor daspessoas, medida que ocorra essa aquisio.

    Valorizao dos adquiridos e das competncias disponveisOs processos de reconhecimento, validao e certificao de competncias contemplam os saberesescolares e profissionais que as pessoas possuem, adquiridos em contextos formais, no formais einformais, e procura envolv-las e articul-las com as suas expectativas e aspiraes.

    Participao activa dos indivduosOs processos de reconhecimento e validao de competncias promovem a participao activados indivduos e valorizam a sua contribuio atravs de estratgias adequadas. Numa perspectivade desenvolvimento da sua capacidade de controlo e de deciso sobre tudo o que lhes diga respeito,participam no diagnstico e encaminhamento, na definio da resposta adequada, tm papel activoao longo do processo de reconhecimento, validao e certificao de competncias, e so actoresprincipais na implementao do seu plano de desenvolvimento pessoal.

    Apoio e mobilizao dos indivduosOs processos de reconhecimento, validao e certificao de competncias contm um grau dedesafio e exigncia que implicam as pessoas no processo de desocultao e organizao dosadquiridos, mas ao mesmo tempo possibilitando-lhes as condies necessrias e suficientes, querintelectuais quer emocionais, que permitem enfrentar essas exigncias e desafios.

    Mobilizao de parcerias e do trabalho em redeSempre que se revelem necessrias para a implementao do RCC-NB, fundamental a participaoda comunidade, das organizaes de pessoas com deficincias e incapacidades e das famlias ououtros elementos significativos, atravs do estabelecimento de parcerias que potenciem o trabalhoem equipa.

    Atitude dos agentes que intervm no processoAs equipas tcnicas que intervm nos processos de reconhecimento, validao e certificao decompetncias, tm uma atitude colaborativa para com as pessoas, encarando-os como elementos

  • PRESSUPOSTOS CONCEPTUAIS

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    1 Fonte: Centro de Reabilitao Profissional de Gaia e Instituto Superior de Cincias do Trabalho e da Empresa (2007). Mais Qualidadede Vida para as Pessoas com Deficincias e Incapacidades - Uma Estratgia para Portugal. Adaptado (2008).

    centrais de todo o processo e no como recipientes passivos de informao, reconhecendo-lhesdesta forma os seus direitos e a sua autonomia.

    Igualdade de oportunidades, igualdade de participao e igualdade de condioAs pessoas com deficincias e incapacidades tm direito igualdade de oportunidades no acessos diversas respostas de educao-formao, o que implica que as transformaes dos mecanismosem que assentam essas respostas devem ser destinadas a esse fim e colocar como objectivo aigualdade de facto no acesso aos certificados escolares e profissionais.

    Os princpios aqui elencados esto vertidos ao longo de todo o guia metodolgico, nomeadamenteao nvel do processo de RVCC, das competncias da equipa tcnico-pedaggica e das estratgiasa mobilizar, de forma a garantir quer a promoo do acesso das pessoas com deficincias eincapacidades, quer a qualidade do servio prestado no mbito dos Centros Novas Oportunidades.

    2.2. Pessoas com deficincias e incapacidades - diversidade funcional

    O guia metodolgico, enquanto estratgia de apoio gesto da diversidade das pessoas emqualificao, tem como alicerces os modelos conceptuais de gesto da diversidade funcional, osquais conheceram uma evoluo substantiva nos tempos modernos.

    2.2.1. Evoluo dos modelos conceptuais e de poltica1

    At ao final da dcada de 50 do sculo passado, a deficincia era equacionada pelos agentes sociaiscomo um problema das prprias pessoas, directamente causado por doena, acidente ou outracondio de sade, passvel de melhorar atravs de intervenes exclusivamente centradas noindivduo, consignadas como reabilitao. A literatura no domnio de referncia enuncia o modelomdico enquanto momento socio-histrico de abordagem do problema da deficincia centradanos aspectos individuais da pessoa (cf. Quadro 1).

    Se o problema residia nas caractersticas especiais das pessoas, ento a perspectiva das polticasde interveno centrava-se no reconhecimento de necessidades especiais, a satisfazer atravs deservios especiais. Estes servios integravam uma rede de cuidados especfica e segregada paraas pessoas com deficincias e incapacidades, favorecendo mecanismos de institucionalizao, noquadro de um modelo orientado para a assistncia.

    A institucionalizao baseava-se na premissa de que as pessoas com deficincias e incapacidadesnecessitavam de um conjunto de medidas e servios diferentes. O poder e o controlo da interveno

  • PRESSUPOSTOS CONCEPTUAIS

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    dependia exclusivamente dos tcnicos e profissionais de sade.

    Do ponto de vista social, reforava-se a estigmatizao e os preconceitos em relao s pessoascom deficincias e incapacidades, atravs da mensagem de impossibilidade de integrao dasdiferenas, ao nvel das estruturas sociais e dos servios disponibilizados pelos sistemas regulares.

    No incio da dcada de 60, os documentos internacionais provenientes da Organizao Mundialde Sade (OMS) e os prprios documentos de poltica europeia, comeam progressivamente aconsiderar a deficincia no como um atributo inerente pessoa, mas como um resultado dainteraco entre a pessoa e o ambiente, incluindo as suas estruturas fsicas (o design dos edifcios,os sistemas de transporte, etc.), as relaes sociais e as construes sociais e crenas, as quaislevam discriminao das pessoas _ perspectiva designada como modelo social (cf. Quadro 1).

    Deste modo, a deficincia torna-se um desafio relevante para as polticas sociais, em consequnciada adopo de um modelo que privilegia a adequao dos contextos s pessoas, fazendo comque o seu focus se descentre nica e exclusivamente da componente individual, para passar acontemplar a relao da pessoa com os seus ambientes, com os contextos de vida e os obstculose barreiras sociais que emergem nesta interaco. Neste enquadramento, a participao de todosos cidados nos mais diversificados contextos da vida social passa a constituir uma questo dedireito e de igualdade de oportunidades.

    reconhecida pela primeira vez a possibilidade das pessoas com deficincias e incapacidadesbeneficiarem de resposta nos servios e estruturas regulares da sociedade. Este facto assenta nareconfigurao dos modelos de incluso e de capacitao colectiva de todos os actores sociaisque, directa ou indirectamente, contribuem para a excluso/incluso das pessoas com deficinciase incapacidades.

    Deste modo, promove-se o acesso das pessoas com deficincias e incapacidades aos contextose servios regulares, movimento designado de mainstreaming, complementadas com respostasespecializadas, facilitadoras do acesso s estruturas e servios da comunidade.

    Do ponto de vista do ambiente cultural, comea a emergir o reconhecimento das diferenas e arelevncia de adoptar polticas que promovam a gesto da diversidade.

    O quadro seguinte pretende colocar em evidncia os principais pontos de ruptura entre o modelomdico e o modelo social, sendo certo que a adopo predominante de um ou outro, implica umaconcepo radicalmente diferente das diversas polticas, bem como a definio de diferentesobjectivos e resultados ao nvel da incluso das pessoas.

  • PRESSUPOSTOS CONCEPTUAIS

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    Quadro 1 - Anlise comparativa modelo mdico / modelo social

    Modelo Mdico

    Incapacidade / dependncia daspessoas

    Nas pessoas

    Na pessoa, nas suas limitaes

    Assistncia

    Reabilitar, curar, tratar

    Necessidades especiaisServios especializados

    InstitucionalizadosRede de cuidados

    Profissionais

    DisablingManuteno e reforo da deficincia

    Compensar os indivduos pelas suasincapacidadesAliviar a situao

    Nos indivduosNas pessoas com deficincias

    Poltica socialWelfare provision

    Modelo Social

    Inadequao dos contextos spessoas

    Na sociedade

    Nas barreiras sociais

    DireitosIgualdade de oportunidades

    HabilitarEliminar barreiras / promover acompatibilidade

    Necessidades diferentesServios regulares

    De apoio, baseados na comunidade

    Clientes

    Reconhecimento e incluso dadiversidade

    Promover direitosProver recursos e competncias paraidentificar e eliminar barreiras sociais

    No grupo socialNa populao global

    Polticas transversaisPolticas sociais activas

    Problema

    Origem

    Focalizao

    tica

    Objectivos

    Perspectiva

    Servios

    Poder, controle

    Cultura

    Objectivos das polticas

    Focalizao das polticas

    Responsabilidade

    Fonte: Sousa, 2005 (adaptado)

  • PRESSUPOSTOS CONCEPTUAIS

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    2.2.2. O Modelo biopsicossocial ou relacional

    O modelo biopsicossocial emerge no quadro do reconhecimento das limitaes dos modelosbiomdicos e da nova viso integrada e holstica do funcionamento humano, no quadro das suasrelaes com os contextos de vida.

    O quadro seguinte apresenta as principais diferenas entre o modelo mdico e o modelobiopsicossocial, colocando em evidncia os diferentes impactos ao nvel da forma como a sadee a funcionalidade da pessoa so perspectivadas.

    No mbito da reabilitao, o modelo biopsicossocial promove a mudana dos servios centradosinstitucionalmente, para os servios especializados em articulao com apoios centrados nacomunidade. A nfase colocada na integrao das pessoas com deficincias e incapacidadesnas estruturas e instituies sociais comuns.

    Os Padres para a Equalizao das Pessoas com Incapacidades (1993) emanados pelas NaesUnidas (ONU) explicitam que todos os Estados devem providenciar servios de reabilitao. Masesta orientao recomenda que se v alm do cuidado mdico inicial para incluir uma amplagama de medidas e actividades, desde a reabilitao bsica e generalista, at actividades orientadaspor objectivos (ONU, 1993:11). Ainda mais significativo, todos os servios de reabilitao: Deveroestar disponveis nas comunidades locais, nas quais as pessoas com incapacidades se movem.No entanto, em determinadas circunstncias e, para que se reforcem os objectivos de qualificaoe aprendizagem, podero ser organizados cursos localizados nas organizaes prestadoras deservios, com um quadro temporal o mais reduzido quanto possvel (ONU, 1993: 19).

    Quadro 2 - Anlise comparativa modelo mdico / modelo biopsicossocial

    Modelo Mdico

    Modelo fechado e linear

    A sade humana perspectivada privilegiadamentena sua componente biolgica

    A sade tem impacto na pessoa

    O estado de sade passvel de ser objecto dediagnstico e tratamento

    Mdicos, profissionais de sade e outros terapeutas

    Sistema autnomo centrado em instituieshospitalares e respostas de especialistas

    Modelo Biopsicossocial

    Modelo aberto e interaccional

    A sade resulta da interaco complexa entre mltiplosfactores: orgnicos, psicolgicos e sociais.

    A sade tem impacto na pessoa, famlia, significativos,comunidade e Estado.

    A qualidade do funcionamento humano requer umaabordagem continuada e holstica: da preveno reabilitao.

    Profissionais especializados e todos os actoresrelevantes para a qualidade do funcionamento humanoenvolvidos no sistema de relaes do indivduo.

    Sistema aberto e interdependente com a comunidade.

  • PRESSUPOSTOS CONCEPTUAIS

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    2.2.3. A Classificao Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Sade_ Instrumento de Operacionalizao do Modelo Biopsicossocial

    O modelo biopsicossocial encontra-se expresso no ltimo corpo de trabalhos da OMS para redefinira incapacidade, nomeadamente a Classificao Internacional de Funcionalidade, Incapacidade eSade - CIF2 (OMS, 2001), a qual proporciona uma linguagem unificada e padronizada, assim comouma estrutura de trabalho para a descrio da funcionalidade humana, integrando elementos dosdois modelos referidos: o modelo mdico e o modelo social.

    A anlise estrutural da funcionalidade abrange as componentes das funes3, das estruturas docorpo4, e da actividade e participao nos diferentes contextos de vida. A funcionalidade usadano aspecto positivo, sendo que o aspecto negativo corresponde incapacidade. No quadro domodelo biopsicossocial incorporado pela OMS, a funcionalidade/incapacidade resulta da interacoentre as caractersticas individuais (alteraes da funo e/ou estruturas do corpo), e os factoresambientais5, os quais podem actuar como facilitadores (promovendo a funcionalidade) ou comobarreiras (promovendo a incapacidade), para o desempenho do indivduo no quadro do seuprojecto de vida. Nesta perspectiva atente-se no seguinte diagrama que pretende explicitar ainteraco entre os diferentes componentes constituintes do processo da funcionalidade.

    2 A CIF constitui-se como uma perspectiva de sntese entre o modelo mdico e o modelo social que, ao incorporar os componentesde sade nos nveis corporais e sociais, prope uma viso integrada e interaccional da funcionalidade humana. Assim, na avaliaode uma pessoa com deficincia, a CIF destaca-se do modelo biomdico, baseado no diagnstico etiolgico da disfuno, e evoluipara um formato que incorpora as trs dimenses: a biomdica, a psicolgica (dimenso individual) e a social. Neste modelo cadadimenso age sobre e sofre a aco das demais, sendo todas influenciadas pelos factores ambientais.

    3 As funes do corpo so as funes fisiolgicas dos sistemas orgnicos (incluindo as funes psicolgicas), por exemplo: viso,auditivas, voz e fala, entre outras. (CIF, 2004)

    4 As estruturas do corpo so as partes anatmicas do corpo, tais como, rgos, membros e seus componentes (CIF, 2004).5 Os factores ambientais constituem o ambiente fsico, social e atitudinal no qual as pessoas vivem e conduzem a sua vida (CIF, 2004).

    Condies de Sade(perturbao ou doena)

    Figura 1 - Interaco entre os componentes do processo da funcionalidade

    Funese estruturas

    do corpoActividade Participao

    Factores ambientais Factores pessoais

    Fonte: CIF, Incapacidade e Sade - OMS, 2000

  • PRESSUPOSTOS CONCEPTUAIS

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    Os conceitos apresentados introduzem um novo paradigma para pensar e trabalhar a deficincia e aincapacidade: estas no so apenas uma consequncia das condies de sade/doena, mas sodeterminadas tambm pelo contexto do meio ambiente, fsico e social, pelas diferentes percepesculturais e atitudes em relao deficincia e pela disponibilidade de servios e de legislao.

    Atendendo a que a conceptualizao da incapacidade equacionada como o produto de uma interacoentre as caractersticas individuais e os obstculos/barreiras do ambiente social, importa perceber quaisos factores ambientais que podem intervir positiva ou negativamente no desempenho da pessoa comdeficincias e incapacidades, no caso em concreto, ao nvel dos sistemas de educao e formao.

    Os factores ambientais integram o ambiente fsico, social e atitudinal no qual as pessoas vivem econduzem a sua vida e podem ter um impacto distinto sobre o mesmo indivduo, com uma determinadaalterao da funo.

    Sempre que a interaco de um factor ambiental com uma pessoa com deficincias e incapacidades,no seu contexto de vida, resultar numa interaco positiva, estamos perante um facilitador. Sempreque a interaco de um factor ambiental com uma pessoa com deficincias e incapacidades, no seucontexto de vida, resultar numa interaco negativa, estamos perante um obstculo.

    Importa igualmente reter que um determinado dispositivo pode ser um facilitador para uma pessoae uma barreira para outra (por exemplo, uma actividade suportada em gravao udio pode ser umfacilitador para uma pessoa com alteraes nas funes da viso e ser um obstculo a uma pessoacom alteraes nas funes auditivas).

    Exemplo 1:Uma pessoa com alteraes das funes auditivas, tem uma entrevista agendada num CentroNovas Oportunidades; nesse momento, o tcnico de diagnstico e encaminhamento faz-seacompanhar de um intrprete de Lngua Gestual _ a comunicao entre o tcnico de diagnsticoe a pessoa com alteraes na funo auditiva foi possvel uma vez que o Interprete de LnguaGestual desempenhou o papel de facilitador da interaco.

    Exemplo 2:Uma pessoa com alteraes das funes mentais - doena mental dirige-se a um Centro NovasOportunidades, fazendo-se acompanhar de um amigo. No momento da inscrio, o amigo sobrepe--se na prestao de informao sobre os dados pessoais, querendo prestar toda a informao,no permitindo a autonomia e apostando na dependncia _ ao sobrepor-se, o amigo exerceu umainfluncia negativa na interaco entre a pessoa com alterao das funes mentais - doenamental e o seu interlocutor, constituindo-se como um obstculo.

  • PRESSUPOSTOS CONCEPTUAIS

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    Assim, no mbito do guia metodolgico, ao nvel da funcionalidade/incapacidade, so consideradasas seguintes alteraes das funes do corpo:

    Funes da viso. Funes auditivas. Funes mentais - intelectuais. Funes mentais - doena mental. Funes neuromusculoesquelticas e relacionadas com o movimento. Funes da voz e fala.

    Ao nvel dos factores ambientais, so equacionados como relevantes para a adequao das prticasde interveno no contrato dos Centros Novas Oportunidades e de modo mais amplo, nos sistemasde educao-formao:

    As ajudas tcnicas/produtos de apoio; As atitudes e pessoas significativas; Os servios, sistemas e polticas.

  • RECURSOS E ESTRATGIAS PARA A INCLUSO

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    3. RECURSOS E ESTRATGIAS PARA A INCLUSO

    De acordo com os desafios colocados pelo modelo biopsicossocial, importa ento considerar devidamentea relevncia dos contextos, na medida em que estes se podem constituir como facilitadores ou comobarreiras, reduzindo ou ampliando a funcionalidade das pessoas com deficincias e incapacidades,facilitando ou obstaculizando a sua actividade e participao, a sua incluso.

    Para serem inclusivos, os contextos devero ser alvo de anlise, avaliando a interaco da pessoa comfunes alteradas com os mesmos, no sentido de potenciar as suas capacidades e o seu desempenho,mobilizando ajudas tcnicas/produtos de apoio, atitudes e pessoas significativas, servios de apoio,bem como outros facilitadores.

    3.1. Acessibilidade como requisito para a incluso da diversidade funcional

    A filosofia de base ao conceito europeu de acessibilidade o reconhecimento, aceitao e promoo_ a todos os nveis da sociedade _ dos direitos de todos, incluindo as pessoas com limitaes nasactividades, num contexto que assegure elevados nveis de proteco da sade, segurana, confortoe ambiente.

    A acessibilidade6 constitui um critrio objectivo de qualidade do meio edificado, dos espaospblicos/comuns, e das tecnologias de informao e de comunicao. No contexto do presentetrabalho, sero considerados os recursos e estratgias para a incluso, nas dimenses de produtosde apoio, de normas/boas prticas para a acessibilidade do ambiente edificado, dos espaoscomuns, da informao e comunicao, das atitudes dos agentes que conduzem e participam nosprocessos de desenvolvimento (acessibilidade atitudinal) e de servios, sistemas e polticas(acessibilidade programtica).

    Acessibilidade para todos ou inclusiva um atributo essencial de um ambiente construdo de formasustentvel e numa abordagem de orientao para as pessoas.

    Um ambiente inclusivo, sem barreiras arquitectnicas, origina ganhos de funcionalidade, autonomia,maior segurana e consequentemente melhor qualidade de vida para todos os cidados,independentemente da sua funcionalidade, favorecendo prticas inclusivas para todos mas principalmentepara as pessoas com deficincias e incapacidades.

    6 Plano Nacional de Promoo da Acessibilidade (PNPA), Resoluo n 9/2007, Dirio da Repblica, 1 srie, n 12, de 17 Janeiro 2007,disponvel em:http://www.portugal.gov.pt/Portal/PT/Governos/Governos_Constitucionais/GC17/Ministerios/MTSS/Comunicacao/Programas_e_Dossiers/20070117_MTSS_Prog_Acessibilidade.htm

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    3.1.1. Ajudas tcnicas/produtos de apoio

    As ajudas tcnicas/produtos de apoio, de forma mais abrangente, produtos e tecnologias, constituem--se como facilitadores na eliminao de barreiras participao das pessoas. Embora os produtose tecnologias no possam eliminar as deficincias e incapacidades, podem remover eventuais limitaesda funcionalidade, bem como favorecer a acessibilidade dos ambientes.

    As ajudas tcnicas/produtos de apoio existentes no mercado, e para efeitos de atribuio e financiamento,constam de uma Lista Homologada pelo Instituto Nacional para a Reabilitao (INR), e esto classificadassegundo a Norma Internacional ISO 9999, denominada Assistive Products for persons with disability:Classification and Terminology 7. Esto sistematizadas segundo uma linguagem unificada e padronizadainternacionalmente, com a finalidade de facilitar a comunicao entre os vrios actores _ entidadesprescritoras, entidades financiadoras e entidades reguladoras.

    Na Classificao da Norma ISO 9999, ajudas tcnicas/produtos de apoio so definidas como qualquerproduto (incluindo dispositivos, equipamento, tecnologias e software) especialmente produzido ougeralmente disponvel, para prevenir, compensar, monitorizar, aliviar ou neutralizar qualquer incapacidade,limitao de actividade ou restrio de participao.

    A ISO 9999 classifica ajudas tcnicas/produtos de apoio por conjuntos de 3 (trs) pares de dgitos _

    Classe (rea da funo em causa, por exemplo comunicao e informao), Subclasse (rea da funoespecial, por exemplo ler, escrever) e Diviso (produto em si, por exemplo apoio para livros, computador,etc.). Por exemplo, uma ajuda tcnica/produto de apoio classificada como Classe ISO 22 ser paraapoiar a pessoa a receber, enviar, produzir e/ou processar informao em diferentes formatos(equipamentos para ver, ouvir, ler, escrever, telefonar, e equipamento informtico); uma ajudatcnica/produto de apoio classificada como Classe ISO 12 ser para mobilidade pessoal (canadianas,adaptaes de viaturas, cadeiras de rodas, entre outros).

    Exemplo:22 12 12 Equipamento para escrita Braille manual _ trata-se de equipamento para apoiar a pessoana comunicao e informao, ao nvel da escrita, em formato Braille (Rgua e Pauta Braille, Pautacom puno manual).

    Uma ajuda tcnica/produto de apoio, por definio, desenhada para um fim especfico. Assim, a fasedo processo determinante no sucesso da sua utilizao a identificao das actividades que se pretenderealizar, sendo que a ajuda tcnica/produto de apoio deve permitir desempenhar a actividade coma mxima autonomia e eficcia.

    7 Norma Internacional ISO 9999, 4 edio de 2007, ltima edio, disponvel em http://www.iso.org/

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    As ajudas tcnicas/produtos de apoio necessrias para as actividades com pessoas com deficinciase incapacidades num Centro Novas Oportunidades podero:

    estar disponveis no mesmo, quando se trate de ajudas tcnicas/produtos de apoio passveisde utilizao repetida ao longo do tempo por diferentes pessoas com o mesmo tipo de altera-es das funes (ex: mesas e cadeiras regulveis em altura, ecr tctil, folheador electrnico,entre outros);

    estar atribudos a uma pessoa em concreto, quando por fora das alteraes das funestenha necessidade de ajudas tcnicas/produtos de apoio, os quais, no caso de noestarem ainda atribudos podero s-lo atravs do recurso aos centros especializados(cf. Anexo I), os quais so responsveis pela prescrio, atribuio e financiamento dasmesmas.

    Os centros especializados dispem de equipas tcnicas que realizam avaliaes especializadas aonvel da funcionalidade, pesquisam e identificam solues de ajudas tcnicas/produtos de apoio ajustadass limitaes funcionais de cada pessoa, incluindo a experimentao, e so responsveis pela prescrioda ajuda tcnica/produto de apoio ajustada necessidade da pessoa. Quando se trate de ajudastcnicas/produto de apoio destinadas a viabilizar o acesso formao, manuteno e progresso noemprego _ situao em que se enquadram normalmente os candidatos aos Centros Novas Oportunidades_ podero as mesmas ser objecto de um apoio financeiro para a sua aquisio por parte dos cidadosque delas carecem, pelos centros credenciados para o financiamento8.

    As dinmicas de prescrio, atribuio e financiamento atrs referidas integram entre outras o Sistemade Atribuio de Produtos de Apoio9.

    Os Centros Novas Oportunidades podem assim articular com os centros especializados para:

    avaliar as condies de acessibilidade dos Centros Novas Oportunidades e recomendareventuais equipamentos adaptados facilitadores do acesso das pessoas com deficinciase incapacidades;

    avaliar a necessidade de ajudas tcnicas/produtos de apoio e prescrever as mesmas, noscasos em que os candidatos tenham alteraes das funes que provoquem limitaes nasactividades inerentes ao processo RVCC, passveis de resoluo via ajudas tcnicas/produtosde apoio, nos casos em que ainda no estejam atribudas.

    8 Despacho anual do INR, I.P., Lista dos centros especializados; Despacho n 2600/2009, de 20 Janeiro.9 Sistema de Atribuio de Produtos de Apoio: Decreto-Lei n 93/2009, de 16 de Abril.

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    Ao nvel da necessidade de criao e/ou adaptao de materiais de trabalho acessveis s pessoascom deficincias e incapacidades, inerentes ao trabalho desenvolvido pelo Centro Novas Oportunidades,podem as equipas tcnico-pedaggicas articular com os Centros de Recursos para a Incluso (CRI)10.Por exemplo, a traduo do RCC-NB em formato Braille, acessvel pessoa com alteraes das funesvisuais, pode ser equacionada em articulao com um CRI, promovendo assim a adaptao e acessibilidadeinstrumental s pessoas com deficincias e incapacidades.

    Importa contudo salientar que o primeiro responsvel e interessado neste processo de articulao a pessoa com deficincias e incapacidades pelo que todo o processo de atribuio de ajudas tcnicasou eventual necessidade de adaptao dos materiais de apoio passar pelo seu envolvimento,protagonismo e deciso, cabendo aos Centros Novas Oportunidades a informao e o apoio no acessoaos dispositivos atrs referidos, nos casos em que os cidados no os conheam ainda.

    Apresentam-se dois casos-tipo de articulao possvel:

    Caso - tipo 1: Pessoa com Baixa Viso

    Qual a actividade que necessita realizar? Ler documentos no computador (por exemploa Ficha de Inscrio).

    Onde devo dirigir-me ou encaminhar a pessoa para avaliao das necessidades e dassolues? Aos Centros Especializados, com equipa tcnica multidisciplinar.

    Como devo contactar e com quem vou identificar e seleccionar a(s) ajuda(s) tcnica(s)/pro-duto(s) de apoio mais adequadas? Marcao de consulta no Centro Especializado de acordocom a tipologia da deficincia, com a equipa constituda pelo Mdico da especialidade(Oftalmologia, neste caso), Terapeuta e Tcnico Informtico.

    Existem outros locais com equipa mdica de especialidade? Nos Hospitais Distritais e Centrais,para as ajudas tcnicas/produtos de apoio que constam da Lista Homologada11.

    10 Os Centros de Recursos para a Incluso tm como objectivo geral apoiar a incluso das pessoas com deficincias e incapacidades, atravsda facilitao do acesso ao ensino, formao, ao trabalho, ao lazer, participao social e vida autnoma, promovendo o mximopotencial de cada indivduo, em parceria com as estruturas da comunidade. A lista das instituies acreditadas consta no Anexo II.

    11 Instituto Nacional para a Reabilitao, www.inr.pt ; Acessibilidades - Lista Homologada.

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    Como posso realizar a actividade e qual a ajuda tcnica/produto de apoio que facilitaa sua realizao?Ler no ecr com software de ampliao de caracteres e condies de acessibilidadeadequadas ao utilizador, como por exemplo, alterao das cores do fundo do ecr, dotipo e cor de letra, imprimir em formato caracteres ampliados ou em Braille e ler empapel. Utilizar um computador com software de ampliao de caracteres e uma impressoraBraille.

    Caso - tipo 2: Pessoa com mobilidade reduzida (utilizador de cadeira de rodas)

    Qual a actividade que necessita realizar? Preencher documento no local de atendimentodo Centro Novas Oportunidades (por exemplo a Ficha de Inscrio) e deslocar-se nasinstalaes. Quais as dificuldades encontradas? Entrada no edifcio, acesso ao local deatendimento e preenchimento do documento de forma autnoma. A cadeira de rodasapresenta-se desgastada e com dimenses no ajustadas ao ocupante.

    Onde devo dirigir-me ou encaminhar a pessoa para avaliao das necessidades e dassolues? Aos Centros Especializados, com equipa tcnica multidisciplinar.

    Como devo contactar e com quem vou identificar e seleccionar a(s) ajuda(s)tcnica(s)/produto(s) de apoio? Marcao de consulta mdica da especialidade (nestecaso Fisiatria, em articulao com Terapeuta e fornecedores para experimentao) eavaliao da acessibilidade dos edifcios, pela Terapeuta em articulao com fornecedores(caso seja necessrio).

    Existem outros locais com equipa mdica de especialidade? Nos Hospitais Distritais eCentrais, para a avaliao e prescrio das ajudas tcnicas/produtos de apoio queconstam da Lista Homologada12. No caso de acessibilidade de espaos, a equipa mdicaser necessria para a prescrio das ajudas tcnicas/produtos de apoio no caso deserem necessrias (por exemplo rampas amovveis ou plataformas elevatrias).

    Como posso aceder a um Centro Novas Oportunidades e quais as ajudas tcnicas/produtosde apoio que podem facilitar a minha participao?O acesso ao Centro Novas Oportunidades e local de atendimento faz-se por entradade edifcio sem escadas ou com rampas, com larguras adequadas, portas com largurasuficiente para a cadeira de rodas; corredor com largura adequada e espao para

    12 Instituto Nacional para a Reabilitao, www.inr.pt; Acessibilidades - Lista Homologada.

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    manobra da cadeira de rodas, ou elevador (para edifcio com vrios andares) com largurade porta adequada e localizao dos comandos acessvel a ocupante de cadeira derodas; o balco de acesso ao atendimento dever ter uma altura ajustada cadeira derodas que permita falar com o tcnico e espao suficiente para preencher o documento.A cadeira de rodas dever apresentar condies de segurana e ter as medidasnecessrias para o correcto posicionamento do ocupante.

    3.1.2. Atitudes e pessoas significativas

    As atitudes das pessoas que interagem com as pessoas com deficincias e incapacidades tm umpeso muito significativo nos processos de incluso social; detalhes de linguagem, posturas, comportamentosou atitudes desadequadas, podem activar mecanismos de negao/rejeio da pessoa com deficinciase incapacidades, uma vez que na interaco que a incluso se proporciona.

    O objectivo deste ponto potenciar a compreenso da equipa tcnico-pedaggica dos CentrosNovas Oportunidades de que a linguagem, o estilo de comunicao, a postura e as atitudesem geral se podem constituir como facilitadores ou como obstculos, dependendo da adequaoda relao que estabelece com a pessoa com deficincias e incapacidades; outro pontoconsiderado como relevante est relacionado com a participao/colaborao de pessoassignificativas da pessoa com deficincias e incapacidades no processo, as quais tambm sepodem constituir como um facilitador ou como um obstculo.

    Atitudes

    O primeiro desafio que se coloca equipa tcnico-pedaggica ser capaz de percepcionar a pessoacom deficincias e incapacidades como a protagonista de todo o processo de trabalho, sendo por issoa primeira responsvel e interessada, a quem cabe o direito de escolha sobre o seu projecto de vida.Sendo esta postura aconselhada em todos os processos de RVCC, -o de forma redobrada no caso destaspessoas. Esta compreenso potenciar o seu envolvimento e participao activa ao longo do processo,quer ao nvel da definio de objectivos e resultados a alcanar, quer ao nvel da elaborao do seu planode desenvolvimento pessoal, promovendo o empowerment da pessoa com deficincias e incapacidades.

    Esta relao, se assente num patamar de colaborao/cooperao, traduzir-se- numa experinciapositiva para ambos, e poder garantir maiores nveis de participao e de co-responsabilizao.Para tal, fundamental que a equipa tcnico-pedaggica proporcione oportunidades para agir,explorar e integrar as pessoas com deficincias e incapacidades de forma reflexiva e apoiada apartir das suas expectativas. Assim potencia-se a capacidade de analisar, compreender, mobilizar,

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    resolver, isto , de gerir a prpria vida agindo sobre o mundo (Rappaport, 1987; Zimmerman, 1995).

    Nesta perspectiva, a equipa tcnico-pedaggica deve estar sensibilizada para adoptar eevidenciar as seguintes atitudes e competncias relacionais e sociais:

    Ter capacidade de adaptao s situaes, s pessoas e aos contextos. Utilizar uma linguagem adequada e de compreenso fcil. Demonstrar esprito de iniciativa, criatividade e inovao. Reflectir de uma forma crtica permanente sobre o seu trabalho e desempenho. Demonstrar auto-regulao e autocontrolo, exigncia pessoal, e conscincia dos

    limites. Estabelecer relaes interpessoais empticas, securizantes e desafiadoras. Encorajar o desenvolvimento pessoal da pessoa com deficincias e incapacidades

    e a promoo da sua autonomia. Trabalhar em equipa, aceitando novas ideias e outras formas de actuao. Demonstrar sensibilidade e abertura a situaes pessoais complexas, com controlo

    do envolvimento afectivo. Evidenciar atitudes pro-activas, que mobilizem assertivamente os recursos que a

    pessoa com deficincias e incapacidades necessita de forma a assegurar a sua parti-cipao.

    Conhecer e aplicar princpios ticos e deontolgicos que presidem sua prticaprofissional.

    De forma a ilustrar outras atitudes que por vezes se constituem como dvida na interaco, seguem--se alguns exemplos orientadores13:

    Deve interagir-se directamente com a pessoa com deficincias e incapacidades em vez de se dirigirao seu acompanhante.

    Deve cumprimentar-se a pessoa da mesma forma que faria com uma pessoa sem deficincia. Antes de a ajudar, deve-se perguntar pessoa se precisa de ajuda. No se devem tirar concluses sobre as (in)capacidades da pessoa s pela sua aparncia fsica. No confundir deficincia com doena. No se deve presumir que uma pessoa com deficincias e incapacidades s se interessa por

    assuntos relacionados com a deficincia. No se deve ter uma preocupao extremada em dizer algo que parea incorrecto, como por

    exemplo, dizer a uma pessoa que utiliza cadeira de rodas s um passinho at ali.

    13 Fonte: IEFP (2004) Interaco com a Pessoa com Deficincia - Manual de Etiqueta. Adaptado (2008), disponvel em http://www.iefp.pt

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    No se deve dramatizar a histria de vida da pessoa ou expressar reaces emocionas de penaou compaixo.

    Deve evitar-se atribuir caractersticas de super-heri pessoa com deficincias e incapacidades.

    Em resumo, deve enfatizar-se a pessoa e no a deficincia

    Neste sentido, importante que a equipa tcnico-pedaggica identifique e perceba quais as atitudesindividuais14 mais adequadas, compreendendo que estas influenciam o comportamento e as acesindividuais das pessoas com deficincias e incapacidades assim como as atitudes sociais15 e normas,prticas e ideologias sociais16 facilitadoras da imerso da pessoa com deficincias e incapacidades no seuprocesso de educao e formao.

    Pessoas significativas

    As dificuldades com as quais as pessoas com limitaes da actividade e restries na participaodecorrentes de alteraes das estruturas e funes e da existncia de barreiras no ambiente se deparam,vo muito para alm das barreiras arquitectnicas, que podem ser eliminadas recorrendo a produtos etecnologias. As atitudes no contexto da sociedade em geral, associadas forma de pensar ou agir, podemoriginar barreiras, limitativas do potencial das pessoas na sua actuao autnoma. A participao de umapessoa significativa pessoa com deficincias e incapacidades, ou de um tcnico especializado que seconstitua como suporte individualizado, pode potenciar a operacionalizao do processo de RVCC,promovendo efectivamente a sua participao.

    Assim, na promoo da actividade e participao, pode ser necessria a incluso de um agente externos equipas tcnico-pedaggicas, que potencie/estimule/facilite as actividades e a participao, de formadirecta ou indirecta ao processo.

    14 Atitudes individuais de outros profissionais - Opinies e crenas gerais ou especficas de outros profissionais e os relacionados coma sade, sobre a pessoa ou sobre outras questes (e.g., questes sociais, polticas e econmicas) (CIF, 2004).

    15 Atitudes sociais - opinies e crenas gerais ou especficas mantidas em geral pelas pessoas de uma cultura, sociedade, agrupamentossubculturais ou outros grupo sociais, sobre outros indivduos ou sobre outras questes sociais, polticas e econmicas que influenciamo comportamento e as aces dos indivduos ou dos grupos (CIF, 2004).

    16 Normas, prticas e ideologias sociais - costumes, prticas, regras e sistemas abstractos de valores e crenas normativas (e.g.,ideologias, vises normativas do mundo, filosofias morais) que surgem dentro dos contextos sociais e que afectam ou criam prticase comportamentos sociais e individuais, tais como normas sociais de moral, etiqueta e comportamento religioso; doutrina religiosae normas e prticas resultantes; normas que regulam os rituais ou as reunies sociais (CIF, 2004).

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    As mltiplas e especficas necessidades das pessoas com deficincias e incapacidades, podem sersistematizadas nas seguintes dimenses:

    necessidade de incluso no processo de uma pessoa significativa externa ao Centro NovasOportunidades, com relacionamento continuado com a pessoa com deficincias e incapacidades,caracterizado pela confiana e apoio mtuo, cujo objectivo seja o apoio relacional e singular. Algunsexemplos:

    Famlia prxima17. Famlia alargada18. Amigos19. Conhecidos, pares, colegas, vizinhos e membros da comunidade20.

    s pessoas significativas mobilizadas no domnio da rede de relaes da pessoa com deficincias eincapacidades, e com os quais haja uma interaco continuada no processo, a equipa tcnico-pedaggicadever garantir uma definio clara do seu papel e objectivos, esclarecendo o mbito e o formato daarticulao, evitando laos de dependncia que obstaculizem uma efectiva participao no processo.

    necessidade de incluso ou parceria estreita com tcnicos especializados, que prestam serviospara apoiar as pessoas com deficincias e incapacidades no desenvolvimento das suas actividadese participao, que se constituam como recursos directos ou indirectos equipa tcnico-pedaggica

    Prestadores de cuidados pessoais e assistentes pessoais21, p. ex.: tcnico de apoio para prestaode ajuda de 3 pessoa, que apoie nas actividades de higiene pessoal, alimentao, etc.

    Profissionais de sade22, p. ex.: psiclogos clnicos, terapeutas. Outros profissionais23, p. ex.: professor, monitor; intrprete de Lngua Gestual Portuguesa.

    17Famlia prxima - indivduos relacionados por nascimento, casamento ou outro relacionamento reconhecido pela cultura como famlia prxima, tais como, cnjuges, parceiros, pais, irmos, filhos, pais de acolhimento, pais adoptivos e avs (CIF, 2004).18Famlia alargada - indivduos aparentados atravs de laos de famlia ou pelo casamento ou outros relacionamentos reconhecidos pela

    cultura como parentes, tais como tias, tios, sobrinhos e sobrinhas (CIF, 2004).19Amigos - indivduos que so conhecidos prximos, com relacionamento continuado caracterizado pela confiana e apoio mtuo (CIF, 2004)20Conhecidos, pares, colegas, vizinhos e membros da comunidade - indivduos com relaes de familiaridade entre si, tais como, conhecidos, pares,

    colegas, vizinhos e membros da comunidade em situaes relacionadas com o trabalho, escola, tempos livres, ou outros aspectos da vida, e quecompartilham caractersticas demogrficas, tais como idade, sexo, religio ou etnia ou envolvimento em interesses comuns (CIF, 2004).

    21Prestadores de cuidados pessoais e assistentes pessoais - indivduos que prestam os servios necessrios para apoiar as pessoas nassuas actividades dirias e na manuteno do desempenho no trabalho, na educao ou em outras situaes da vida e que so pagosatravs de fundos pblicos ou privados ou trabalham numa base de voluntariado, tais como pessoas que apoiam na construo e namanuteno das casas, que do assistncia pessoal, assistncia nos transportes, ajudas remuneradas, amas de crianas e outras pessoasque prestam cuidados ou do apoio (CIF, 2004)

    22Profissionais de sade - todos os prestadores de cuidados que trabalham no contexto do sistema de sade, como por exemplo mdicos,enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, terapeutas da fala, tcnicos de audiometria, ortticos, protsicos, profissionais narea mdico-social e outros prestadores destes servios (CIF, 2004)

    23Outros profissionais: todos os prestadores de cuidados que trabalham fora do sistema de sade, mas que proporcionam servios que tmimpacto na sade, tais como assistentes sociais, professores, arquitectos ou projectistas/desenhadores (CIF, 2004).

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    Caso sejam mobilizados tcnicos especializados, remete-se especial ateno para algumasatitudes/competncias a garantir por parte destes:

    Identificar estratgias de actuao ajustadas s necessidades decorrentes da falta de autonomiagerada pelos diferentes tipos de deficincia.

    Identificar, seleccionar e aplicar procedimentos relativos a cuidados humanos bsicos (higienepessoal, alimentao).

    Identificar e aplicar tcnicas adequadas mobilidade e acessibilidade das pessoas com deficinciase incapacidades a espaos/equipamentos.

    Identificar e aplicar tcnicas de posicionamento e transferncias. Manusear as ajudas tcnicas/produtos de apoio utilizadas pela pessoa com deficincias e inca-

    pacidades. Detectar sinais ou situaes anmalas referentes a situaes de sade e higiene da pessoa com

    deficincias e incapacidades, comunicando-as a outros elementos da equipa tecnico-pedaggica. Identificar e cumprir regras de higiene, sade e segurana, prevenindo situaes de risco de aciden-

    tes e promovendo a adopo de medidas de segurana adequadas. Garantir comunicao simples e acessvel entre os interlocutores.

    O apoio tcnico especializado pode ser mobilizado em articulao com as entidades especializadasna interveno com pessoas com deficincias e incapacidades, nas quais se incluem as entidadesacreditadas enquanto Centros de Recursos para a Incluso (CRI) (cf. Anexo II). Esta articulaodever ser pautada por uma postura cooperante, uma vez que a aliana entre competnciasespecializadas ao nvel das deficincias e incapacidades e competncias tcnicas ao nvel daconstruo de projectos de qualificao e reconhecimento dos adquiridos, promover e facilitara incluso das pessoas com deficincias e incapacidades no contexto dos sistemas de educao-formao e o desenvolvimento dos seus percursos de qualificao.

    De seguida esquematiza-se um processo de tomada de deciso sobre qual o recurso a mobilizarno apoio promoo na actividade e participao, directamente associada necessidade especficada pessoa com deficincias e incapacidades:

    Quem o agente do pedido? Profissional de RVC ou pessoa com deficincias e incapacidades?Qual a necessidade/pedido?Profissional de RVC: necessidade de informao complementar; necessidade de apoio face s estratgiase actividades a desenvolver com a pessoa com deficincias e incapacidades (acessibilidade metodolgica);necessidade ao nvel da comunicao (intrprete de Lngua Gestual Portuguesa, p. ex.), etc.Pessoa com deficincias e incapacidades: apoio na interaco; segurana na relao; suporteemocional; apoio face integrao da informao; apoio tcnico especializado.

    A quem recorrer?Tcnicos: articulao com escolas, centros e entidades de reabilitao profissional, de educaoespecial, etc.Pessoas prximas: sinalizao pela prpria pessoa com deficincia, no mbito dos seus contextosde vida.

  • RECURSOS E ESTRATGIAS PARA A INCLUSO

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    Qual o formato da articulao?Participao directa nas actividades, podendo a presena do recurso ser ocasional ou permanentenas actividades, ao longo do processo de RVCC.Participao indirecta nas actividades, podendo o recurso ser activado pelo seu carcter deconsultoria especializada, sendo a articulao efectuada pelo profissional de RVC.

    3.1.3. Servios, sistemas e polticas

    Para alm das dimenses atrs analisadas, de acordo com os desafios colocados pelo modelobiopsicossocial, os servios, sistemas e polticas tambm se constituem como uma das dimensesque facilita ou cria barreiras, ampliando ou reduzindo a funcionalidade das pessoas com deficinciase incapacidades.Os sistemas so mecanismos de controlo e de superviso organizativa estabelecidos por autoridadesgovernamentais para garantir servios que proporcionam benefcios e programas estruturados, emvrios sectores, com o objectivo de satisfazer as necessidades da pessoa com deficincias e incapacidades.As polticas englobam as regras, regulamentos e normas estabelecidas por autoridades nacionais ouinternacionais que regem ou regulam os sistemas que controlam os servios e programas.Com o objectivo de constituir um instrumento estruturante das medidas para promoo da melhoriada qualidade de vida de todos os cidados, a Presidncia do Conselho de Ministros, atravs daResoluo n 9/2007, Dirio da Repblica, 1 srie, n 12, de 17 Janeiro 2007, publicou o PlanoNacional de Promoo da Acessibilidade (PNPA).

    A elaborao do PNPA assentou nos princpios da igualdade de oportunidades, de vida independente,de participao e de integrao. De acordo com os princpios em que assenta o PNPA, as medidasnele propostas pressupem que transversalmente seja contemplada a acessibilidade: ao meiofsico edificado, aos transportes, s tecnologias da informao e das comunicaes, a par dasmudanas de atitude da populao em geral face s pessoas com deficincias e incapacidades,a qual constitui uma condio indispensvel para o exerccio dos seus direitos de cidadania.Neste mbito, e inscrevendo-se as ajudas tcnicas/produtos de apoio no quadro das garantias deigualdade de oportunidades, o Sistema de Atribuio de Produtos de Apoio (SAPA)24 constitui umsistema facilitador da autonomia das pessoas com deficincias e incapacidades para assegurar aplena participao e incluso.

    Ainda, a Lei de Bases da Preveno, Habilitao, Reabilitao e Participao das Pessoas comDeficincia (Lei n 38/2004, de 18 de Agosto), que determina a promoo de uma sociedadepara todos atravs da eliminao de barreiras e da opo de medidas que visem a plena participaoda pessoa com deficincia conduziu regulao normativa em matria de acessibilidades, sendopublicado o Decreto-lei n 163/2006, de 8 de Agosto, que tem como objecto a definio dascondies de acessibilidade a satisfazer no projecto e construo de espaos pblicos, equipamentoscolectivos e edifcios pblicos e habitacionais.

    24 Sistema de Atribuio de Produtos de Apoio: Decreto-Lei n 93/2009, de 16 de Abril.

  • RECURSOS E ESTRATGIAS PARA A INCLUSO

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    Instrumentos reguladores fundamentais:

    Plano Nacional de Promoo da Acessibilidade (PNPA), (Resoluo n 9/2007, Dirio daRepblica, 1 srie, n 12, de 17 Janeiro 2007)

    o Sistema de Atribuio de Produtos de Apoio (SAPA), (Decreto-Lei n. 93/2009, de 16 deAbril)

    Lei de Bases da Preveno, Habilitao, Reabilitao e Participao das Pessoas comDeficincia, (Decreto-Lei n 38/2004, de 18 de Agosto e Decreto-lei n 163/2006, de 8de Agosto)

  • CENTROS NOVAS OPORTUNIDADESE GESTO DA DIVERSIDADE FUNCIONAL

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    4. CENTROS NOVAS OPORTUNIDADES E GESTO DA DIVERSIDADE FUNCIONAL

    O guia metodolgico constitui-se como um guia de apoio operacionalizao do modelo deinterveno inclusivo ao nvel da actuao dos Centros Novas Oportunidades, disponibilizando aosprofissionais que nele intervm orientaes e suportes de natureza metodolgica que os apoiemna interaco com pessoas com diversidade funcional. Reconhecer diferentes funcionalidades,agir de forma diversa, numa lgica de individualizao e flexibilidade, constituem condiesfundamentais para assegurar a participao de todos os cidados, garantindo igualdade deoportunidades, de participao e de condio, numa lgica de sociedade cidad, assegurandoa plena incluso social de todos, independentemente da condio funcional.

    O modelo conceptual adoptado neste domnio advoga os seis requisitos bsicos definidos porSassaki (2003) para o desenvolvimento de uma sociedade inclusiva, onde as estruturas e sistemasgerais da comunidade evidenciam a capacidade de reconhecer e gerir a diversidade, ao contrriodos modelos segregados, onde se organizam sistemas e estruturas especiais para trabalhar o que diferente, considerado como especial.

    Constituem requisitos essenciais para a incluso, a assegurar pelas estruturas gerais da comunidade:

    Acessibilidade arquitectnica: inexistncia de barreiras ambientais fsicas nas casas, nos edif-cios, nos espaos ou equipamentos urbanos e nos meios de transporte individuais ou colectivos.

    Acessibilidade comunicacional: inexistncia de barreiras na comunicao interpessoal, escritae virtual (acessibilidade digital).

    Acessibilidade metodolgica: inexistncia de barreiras nos mtodos e tcnicas de estudo, detrabalho, de aco comunitria e familiar.

    Acessibilidade instrumental: inexistncia de barreiras nos instrumentos, utenslios e ferramentasde estudo de trabalho e de lazer ou recreao.

    Acessibilidade programtica: inexistncia de barreiras invisveis integradas em polticas pblicas(leis, decretos, portarias) e normas ou regulamentos (institucionais, empresariais etc.).

    Acessibilidade atitudinal: inexistncia de preconceitos, estigmas, esteretipos e discriminaespor parte dos intervenientes.

    O presente captulo encontra-se estruturado da seguinte forma:

    num primeiro momento, so identificadas as alteraes das funes que tm impactos no acessodas pessoas com deficincias e incapacidades ao processo de reconhecimento, validao ecertificao de competncias - nvel bsico, bem como as dimenses do sistema a considerarpara efeitos de adaptao;

    num segundo momento, so identificadas as alteraes a introduzir no RCC-NB, por tipo de alte-raes das funes entretanto identificadas e apresentadas algumas orientaes metodolgicasa adoptar no mbito de uma interveno individualiza e adaptada;

    num terceiro momento, sero consideradas as adaptaes de mbito geral e especficas de

  • CENTROS NOVAS OPORTUNIDADESE GESTO DA DIVERSIDADE FUNCIONAL

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    cada uma das alteraes das funes, relativas ao processo de trabalho; finalmente, so abordadas as adaptaes a considerar ao nvel da equipa tcnico-pedaggica.

    4.1. Alteraes das funes e impactos no sistema nacional de RVCC

    No quadro dos princpios e objectivos referidos, o primeiro desafio que se coloca o de verificar deque modo e em que circunstncias o sistema nacional de RVCC25 se ajusta diversidade funcional doscidados, isto , se pode ser mobilizado e participado por todo e qualquer cidado, independentementedas suas estruturas e funes, e qual o modo de operacionalizao mais adequado.

    Da anlise realizada, concluiu-se que, para que tal ocorra, necessrio assegurar as condiesde acessibilidade necessrias, introduzindo nos contextos de educao-formao, adaptaes quefacilitem a participao das pessoas com deficincias e incapacidades, desde o meio fsico atao relacional, emocional, entre outros. No que diz respeito ao RCC-NB, concluiu-se tambm quea mobilizao de facilitadores adequados s caractersticas especficas da pessoa permite, de ummodo geral, a sua operacionalizao.

    Nas situaes em que os facilitadores do meio fsico/ambiental no so suficientes para a promooda participao das pessoas com deficincias e incapacidades, esto identificados para situaesespecficas critrios de evidncia adaptados que configuram uma orientao para o potencialmximo das pessoas com deficincias e incapacidades, sem contudo influenciar os nveis deexigncia e/ou de complexidade do RCC-NB.

    Para a definio das situaes que podero requerer os tipos de adaptaes referidas, foramidentificadas como alteraes das funes a considerar: Viso. Auditivas. Mentais - intelectuais. Mentais - doena mental. Neuromusculoesquelticas e relacionadas com o movimento e da voz e fala.

    Para cada uma das alteraes das funes atrs referidas, sero equacionadas as adaptaes aconsiderar na operacionalizao do processo de reconhecimento, validao e certificao decompetncias, segundo trs eixos de anlise:

    Referencial de Competncias-Chave de Educao e Formao de Adultos _ Nvel Bsico (RCC-NB).

    Processo de Reconhecimento, Validao e Certificao de Competncias (RVCC). Equipa Tcnico-Pedaggica.

    25 Portaria n. 230/2008. Dirio da Repblica, 1. srie - N. 48 - 7 de Maro de 2008

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    Referencial de Competncias-Chave de Educao e Formao de Adultos _ Nvel Bsico(RCC-NB)

    A determinao das condies de operacionalizao do RCC-NB junto das pessoas com deficinciase incapacidades dever ser equacionada tomando em considerao duas questes fundamentais:

    Exemplo:LC-1A _ Expressar-se com fluncia, articulando ideias e justificando opinies

    Quais os Critrios de Evidncia que estaro comprometidos nas situaes em que existamalteraes numa determinada funo?

    Por requerer fluncia, o Critrio de Evidncia pode constituir-se como um obstculo spessoas com alteraes das funes de voz e fala, no significando no entanto que dentrodo seu quadro funcional a pessoa no possa expressar-se com a devida fluncia.

    Quais as estratgias (facilitadores) a mobilizar de forma a ultrapassar o(s) obstculo(s)?No exemplo atrs referido, o recurso a ajudas tcnicas para a comunicao face a face,poder ser um facilitador a considerar no processo de reconhecimento, validao e certificaode competncias, constituindo-se ento como um facilitador participao _ passa a serpossvel evidenciar a competncia, recorrendo a facilitadores que assegurem a comunicao.

    A anlise do RCC-NB foi realizada segundo Matrizes Relacionais entre o Referencial de Competncias--Chave e Funcionalidade26 (em anexo), construdas para cada uma das alteraes das funesconsideradas no mbito deste guia metodolgico. As matrizes referidas encontram-se estruturadasa partir de trs eixos de anlise:

    identificao dos critrios de evidncia cuja operacionalizao pode estar comprometidaem caso de alteraes das funes em causa;

    identificao das funes que so mobilizadas pelos critrios de evidncia identificados, cujaalterao pode suscitar a necessidade de interveno nos contextos;

    identificao dos facilitadores (ajudas tcnicas/produtos de apoio, atitudes e pessoas significa-tivas) a mobilizar de forma a tornar as prticas de operacionalizao do RCC-NB acessveiss pessoas com deficincias e incapacidades.

    26 As reas de Competncias-Chave, Unidades de Competncia e os Critrios de Evidncia sem impacto na operacionalizao dosprocessos RVCC junto de pessoas com deficincias e ou incapacidades, no so referenciados nas Matrizes.

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    As matrizes visam assim apoiar a identificao de desafios na interveno com pessoas comdeficincias e incapacidades, no tendo todavia qualquer carcter prescritivo. A articulao einteraco com as pessoas com deficincias e incapacidades ser sempre singular, sendo necessrioencontrar em cada caso as solues mais ajustadas, aquelas que melhor se adequam situaoconcreta, aplicando o princpio da individualizao e da flexibilidade, sempre presente nos processosde reconhecimento, validao e certificao de competncias.

    Das Matrizes Relacionais entre Referencial de Competncias-Chave e Funcionalidade conclui-seque, de uma forma geral, as quatro reas de Competncias-Chave colocam transversalmentedesafios manifestao das competncias das pessoas com deficincias e incapacidades e sestratgias utilizadas pela equipa tcnico-pedaggica. Efectivamente, um determinado Critrio deEvidncia pode mobilizar de forma mais ou menos explcita funes que podero estar alteradasnuma dada situao, no pondo no entanto essa diversidade funcional em causa a real competnciaadquirida por parte da pessoa. Atravs da mobilizao de facilitadores adequados, perspectiva-se a operacionalizao do RCC-NB, promovendo assim o acesso dessas pessoas ao sistema normalde RVCC dinamizado nos Centros Novas Oportunidades.

    De forma exemplificativa, para a validao de competncias relacionadas com a interpretao detabelas e grficos (rea de Competncia-Chave Matemtica para a Vida), a pessoa com alteraesdas funes da viso (cegueira total) mobiliza o seu sistema tctil, pelo que a equipa tcnico-pedaggica dever disponibilizar material em relevo. Para uma pessoa com alteraes das funesneuromusculoesquelticas e relacionadas com o movimento e das funes da voz e fala, comdificuldade na estabilizao dos movimentos, a disponibilizao de uma prancha de grafismos(tbua que fixa o papel em actividades de escrita e desenho) permitir uma melhor estabilizaono desenvolvimento de actividades em papel, de forma a que a pessoa evidencie algumas dascompetncias relacionadas com a escrita (rea de Competncia-Chave Linguagem e Comunicao).

    Assim, a promoo do acesso das pessoas com deficincias e incapacidades ao processoRVCC nos Centros Novas Oportunidades, agindo numa perspectiva inclusiva, mobilizarsobretudo a equipa tcnico-pedaggica, a qual, atravs do seu saber tcnico e repertriode atitudes e competncias relacionais e sociais e da mobilizao de facilitadores,adequar os processos de trabalho a cada pessoa em concreto, tendo em conta a suafuncionalidade e o seu modo particular de interaco.

    Pelas especificidades dos impactos das alteraes das funes auditivas e dos impactos dasalteraes das funes mentais - intelectuais, na operacionalizao do RCC-NB o profissional deRVC poder mobilizar critrios de evidncia adaptados que facilitem a evidenciao das competncias--chave, uma vez que estes se encontram orientados para os potenciais e contextos de vida daspessoas com alteraes das funes referidas.

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    Adaptao27 do RCC-NB s pessoas com alteraes das funes auditivas

    A operacionalizao do RCC-NB pode requerer a mobilizao de critrios de evidncia que estejamadaptados s caractersticas singulares das pessoas com alteraes das funes auditivas.

    No quadro do modelo conceptual adoptado e da anlise efectuada ao RCC-NB, a adaptao atrsreferida remete para as questes relacionadas com a aquisio da Lngua Portuguesa e a formacomo as pessoas cuja lngua materna a Lngua Gestual Portuguesa se integram numa sociedadede ouvintes, colocando desafios transversais a todo o RCC-NB. Desafios que se prendem com oreconhecimento e proteco da Lngua Gestual Portuguesa consagrados na 4 Reviso daConstituio da Repblica Portuguesa, em Setembro de 1997, Artigo 74 (Ensino) alnea h), protegere valorizar a Lngua Gestual Portuguesa, enquanto expresso cultural e instrumento de acesso educao e da igualdade de oportunidades e na alterao das prticas educativas em Portugal.

    Acresce ainda que a necessidade de adaptao do RCC-NB se justifica pelo facto de as competnciasde linguagem e comunicao serem adquiridas pelas pessoas com alteraes das funes auditivasatravs da Lngua Gestual Portuguesa (L. G. P.) ou da Lngua Portuguesa escrita (L. P. escrita),sendo possvel aceder aos seus saberes atravs de uma e de outra, bem como pela observaode modelos exemplificadores que permitam associar aco/conceito/resultado, e que privilegiema imagem.

    Como exemplo, atente-se no seguinte Critrio de Evidncia:

    LC-1A _ Identificar as intenes e caractersticas genricas de um enunciado oral com vista auma retroaco adequada

    Uma vez que a pessoa com alteraes nas funes auditivas no percepciona um enunciadooral, o Critrio de Evidncia dever assumir a seguinte formulao:

    LC-1A _ Identificar as intenes e caractersticas genricas de um enunciado lingustico comvista a uma retroaco adequada

    Ou seja, no suprimida qualquer complexidade ao Critrio de Evidncia; o impacto daadaptao tem apenas a ver com a forma de interaco entre o contexto e a pessoa,sem prejuzo da sua participao.

    27 Por adaptao entende-se como ajustar; adequar; apropriar - Dicionrio da Lngua Portuguesa Contempornea da Academia dasCincias de Lisboa, 2001.

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    No que diz respeito manifestao de saberes ao nvel das reas de Competncias-ChaveMatemtica para a Vida, Tecnologias de Informao e Comunicao e Cidadania e Emprega-bilidade, dever-se- atender s duas orientaes metodolgicas a seguir apresentadas, ao longodo processo de RVCC:

    A compreenso das situaes problemticas/problemas deve ser apoiada por exemplificaes,dramatizaes e/ou esquemas, uma vez que a comunicao dos saberes ser feita atravsda L.G.P, Lngua Portuguesa escrita e/ou ainda pela realizao de tarefas prticas, que adiantese ilustraro, as quais permitem pessoa evidenciar os seus saberes.

    Os critrios de evidncia que referenciem a interaco/comunicao via lngua portuguesa(por exemplo: MV-3B _ Comunicar processos e resultados usando a linguagem matemticae a lngua portuguesa) devem ser entendidos como passveis de manifestao atravs deformas diversas de comunicao, como LGP, Lngua Portuguesa escrita, expresso dramtica,plstica, vdeo, apresentaes em PowerPoint, esquemas e imagens, como alternativas forma de comunicao prevista.

    O RCC-NB a considerar para as pessoas com alteraes das funes auditivas o RCC-NB28 queconstitui a referncia do sistema nacional de RVCC para este nvel de escolaridade, com asadaptaes necessrias e pertinentes de modo a permitir o seu acesso. Os critrios de evidnciaadaptados so apresentados a bold e referem-se a adaptaes na sua formulao, sem prejuzodo seu grau de complexidade e/ou exigncia. So ainda acrescidos outros critrios de evidnciaque podem concorrer para determinada Unidade de Competncia, apresentados em itlico. A estesacrescem todos os restantes critrios de evidncia em cada uma das Unidades de Competnciado RCC-NB.

    28 ANEFA (2002). Referencial de Competncias-Chave de Educao e Formao de Adultos (Nvel Bsico), disponvel emhttp://www.anq.gov.pt.

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    ADAPTAO DO RCC-NB S PESSOAS COM ALTERAES DAS FUNES AUDITIVAS

    LINGUAGEM E COMUNICAO (LC)

    ACompreender eproduzir discursosorais em situaesdiversificadas

    BInterpretar textossimples, deinteresse para a vidaquotidiana.

    CProduzir textos comfinalidadesinformativo -funcionais

    B1

    - Utilizar adequadamente o cdigo lingustico, evitando o uso excessivo de repeties.

    - Acompanhar o discurso de ritmo (pausas, hesitaes, digresses, vocativos, )e postura adequados situao e audincia.

    - Retirar dos discursos percepcionados as ideias essenciais.

    - Reconhecer palavras e expresses simples relativas ao prprio e aos contextos em que est inserido.

    - Estabelecer relaes familiares, afectivas e profissionais.- Exprimir gostos, preferncias e rotinas.- Compreender palavras e frases muito simples, por exemplo, em avisos, cartazes ou

    folhetos.

    - Identificar-se a si prprio e aos outros.- Descrever pessoas, fsica e psicologicamente.- Preencher uma ficha com dados pessoais, por exemplo, com nome, morada,

    nacionalidade.- Situar-se, situar os outros e objectos.- Descrever objectos.- Escrever um texto simples e curto sobre assuntos conhecidos ou relativos a reas de

    necessidade imediata.

    ADAPTAO DO RCC-NB S PESSOAS COM ALTERAES DAS FUNES AUDITIVAS

    LINGUAGEM E COMUNICAO (LC)

    BInterpretar textos decarcter informativoe reflexivo

    CProduzir textos deacordo com tcnicase finalidadesespecficas

    B2

    - Compreender frases simples isoladas e expresses frequentes relacionadas comreas de prioridade imediata.

    - Compreender textos curtos e simples relacionados com aspectos de interesse pessoal.- Identificar o essencial num anncio e em mensagens simples, curtas e claras.- Encontrar informao previsvel e concreta em textos simples de uso corrente (anncios,

    folhetos, ementas, horrios, ).- Compreender informao sobre vrios tipos de comrcio, caractersticas e preos de

    produtos.- Compreender informao sobre horrios, meios de transporte e sua utilizao.- Compreender cartas pessoais curtas e simples.- Seguir instrues (servios).

    - Elaborar pedidos e transmitir informaes de interesse imediato.- Estruturar uma carta pessoal muito simples, por exemplo, para agradecer alguma

    coisa a algum.- Participar por escrito, numa breve troca de palavras.- Descrever lugares.- Pedir e dar informaes.

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    ADAPTAO DO RCC-NB S PESSOAS COM ALTERAES DAS FUNES AUDITIVAS

    LINGUAGEM E COMUNICAO (LC)

    ACompreender eproduzir discursosorais, com recurso aestruturasLingusticas e nolingusticas,adequadas expressividadedos mesmos

    BInterpretar textos decarcter informativo-reflexivo,argumentativo eliterrio

    CProduzir textosinformativos, reflexivose persuasivos

    B3

    - Identificar as intenes e caractersticas genricas de um enunciado lingusticocom vista a uma retroaco adequada.

    - Distinguir factos de opinies, ao nvel da interpretao e da produo lingustica.- Planear a produo lingustica de acordo com a intencionalidade do discurso e

    a audincia.

    - Compreender textos simples e curtos em que predomine uma linguagem corrente dodia-a-dia ou relacionada com o trabalho.

    - Compreender as ideias principais de textos relativamente complexos sobre assuntosconcretos.

    - Interpretar descries de acontecimentos, sentimentos e desejos, em cartas pessoais.- Seguir o encadeamento de legendagens de programas televisivos, sobre assuntos

    correntes.

    - Elaborar textos simples e curtos, atendendo sua funo e ao destinatrio.- Elaborar textos, em contextos diversificados, articulando informao de modo lgico

    e coerente.- Descrever rotinas, hbitos e interesses.- Descrever experincias, reaces e impresses.- Exprimir sentimentos, gostos, preferncias e rejeies.

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    Adaptao do RCC-NB s pessoas com alteraes das funes mentais - intelectuais

    A operacionalizao do RCC-NB pelas pessoas com alteraes das funes mentais - intelectuaispode requerer a mobilizao de critrios de evidncia adaptados no mbito da rea de Competncias-Chave Matemtica para a Vida. Este enfoque justifica-se pelo facto das pessoas com alteraesdas funes intelectuais - mentais poderem apresentar limitaes considerveis ao nvel das funesmentais complexas, sobretudo ao nvel do raciocnio abstracto, o que coloca desde logo dificuldadesna evidenciao de competncias nesta rea de Competncias-Chave em concreto.

    O objectivo da adaptao de alguns critrios de evidncia da rea de Competncias-ChaveMatemtica para a Vida est estritamente relacionado com a necessidade da maior focalizaodos saberes manifestos aos contextos de vida das pessoas com alteraes das funes mentais- intelectuais. O resultado da adaptao tem a ver directamente com a forma de interaco entreo contexto e a pessoa, no suprimindo qualquer complexidade ao Critrio de Evidncia e semprejuzo da sua participao.

    Como exemplo, atente-se no seguinte Critrio de Evidncia:

    MV-1B _ Em contexto de vida [do(s) formando(s)] resolver problemas que envolvam nmerosdecimais

    Para as pessoas com alteraes das funes mentais - intelectuais, a resoluo de problemasest muito orientada para o seu contexto de vida, para os problemas concretos do dia-a-dia,pelo que surge a seguinte formulao:

    MV-1B _ Em contexto de vida [do(s) formando(s)] resolver problemas que envolvam nmerosdecimais nomeadamente com recurso unidade monetria - euro

    O acrscimo de informao na formulao do Critrio de Evidncia permite uma melhor incidnciasobre os contextos de vida da pessoa e da utilizao desta competncia em concreto, evitandouma abstraco que se poderia manifestar como um obstculo manifestao da competncia.

    Transversalmente ao RCC-NB, a pessoa com alteraes das funes mentais - intelectuais, podemanifestar dificuldades na demonstrao de competncias que apelem a um sentido mais abstractoou reflexivo, pelo que se sugerem duas orientaes metodolgicas, ao longo do processo de RVCC:

    desconstruir o RCC-NB, tornando a sua formulao mais aproximada das pessoas em causae mais facilmente entendvel por elas;

    permitir que a pessoa evidencie as suas competncias atravs do seu modo particular deestar, de agir e de comunicar, (por exemplo, permitir que a pessoa demonstre por imagenspictricas o Critrio de Evidncia MV-3C _ Comunicar os resultados de trabalhos de projectousando a lngua portuguesa).

  • CENTROS NOVAS OPORTUNIDADESE GESTO DA DIVERSIDADE FUNCIONAL

    41

    O RCC-NB a considerar para as pessoas com alteraes das funes mentais - intelectuais, o RCC-NB29 que constitui a referncia do sistema nacional de RVCC para este nvel de escolaridade,com as adaptaes necessrias e pertinentes de modo a permitir o seu acesso. Os critrios deevidncia adaptados so apresentados a bold e referem-se a adaptaes na sua formulao, semprejuzo do seu grau de complexidade e/ou exigncia. So ainda acrescidos outros critrios deevidncia que podem concorrer para determinada Unidade de Competncia, apresentados emitlico. A estes acrescem todos os restantes critrios de evidncia em cada uma das Unidades deCompetncia do RCC-NB.

    29 ANEFA (2002). Referencial de Competncias-Chave de Educao e Formao de Adultos (Nvel Bsico), disponvel emhttp://www.anq.gov.pt.

    ADAPTAO DO RCC-NB S PESSOAS COM ALTERAES DAS FUNES MENTAIS - INTELECTUAIS

    MATEMTICA PARA A VIDA (MV)

    AInterpretar, organizar,analisar e comunicarinformao utilizandoprocessos eprocedimentosmatemticos

    BUsar a matemticaparaanalisar e resolverproblemas esituaesproblemticas

    CCompreender e usarconexesmatemticasem contextos de vida

    B1

    - Efectuar medies de grandezas de natureza diversa, utilizando instrumentosadequados: rgua/fita mtrica, balana digital, termmetro digital, relgio digital,etc.

    - Ler tabelas, por exemplo: de relao peso/idade, de peso/tamanho de pronto--a-vestir.

    - Ler grficos (de barras, pictogramas).- Comunicar resultados usando a lngua portuguesa.

    - Em contextos de vida do(s) formando(s) resolver problemas de contagem,utilizando, entre outros, o princpio da multiplicao (dobro, triplo e qudruplo)que o princpio fundamental das contagens.

    - Em contextos de vida do(s) formando(s) resolver problemas que envolvamnmeros decimais, nomeadamente, com recurso unidade monetria - euro.

    - Em contextos de vida do(s) formando(s) resolver problemas que envolvam oconceito de permetro de figuras planas regulares.

    - Indicar elementos de uma sequncia simples de figuras.- Indicar regularidades com base em sequncias de cores.- Indicar regularidades em situaes de vida real (horrios de transportes pbicos

    e de servios).

    DRaciocinarmatematicamente deforma indutiva e deforma dedutiva

    - Relacionar diferentes formas de representar um nmero natural na recta numrica.- Detectar eventuais erros em operaes aritmticas simples.- Comunicar resultados usando a lngua portuguesa.

  • CENTROS NOVAS OPORTUNIDADESE GESTO DA DIVERSIDADE FUNCIONAL

    42

    - Utilizar a moeda nica em actividades do dia a dia, nomeadamente em aquisiesdirectas e em actividades que requeiram a escrita de informao numrica(preenchimento de documentos, cheques, etc.).

    - Efectuar medies de grandezas de natureza diversa, utilizando unidades einstrumentos de medida adequados: rgua/fita mtrica, balana digital, termmetrodigital, relgio digital, etc.

    - Ler tabelas de relao peso/idade, de peso/tamanho de pronto-a-vestir, defrequncias absolutas e de frequncias relativas.

    - Ler e apresentar horrios, dirios, semanais ou outros, de uma forma organizadae clara.

    - Ler grficos (de barras, pictogramas).- Completar tabelas e grficos de barras relativos a situaes de vida pessoal,

    profissional, social.- Ordenar dados, utilizando medidas de localizao modal.- Comunicar resultados usando a lngua portuguesa.

    - Comunicar resultados usando a lngua portuguesa.- Em contextos de vida do(s) formando(s) resolver problemas de contagem, utili-

    zando, entre outros, o princpio da multiplicao que o princpio fundamentaldas contagens (dobro, triplo, qudruplo).

    - Em contextos de vida do(s) formando(s) ordenar nmeros racionais no intei-ros (recorrendo unidade monetria - euro).

    - Em contextos de vida do(s) formando(s) resolver problemas que envolvam osconceitos: permetro e rea.

    - Operar com percentagens utilizando a calculadora.- Decidir sobre o uso de algoritmo de papel e lpis ou de calculadora.

    ADAPTAO DO RCC-NB S PESSOAS COM ALTERAES DAS FUNES MENTAIS - INTELECTUAIS

    MATEMTICA PARA A VIDA (MV)

    AInterpretar, organizar,analisar e comunicarinformao utilizandoprocessos eprocedimentosmatemticos

    BUsar a matemticaparaanalisar e resolverproblemas esituaesproblemticas

    CCompreender e usarconexesmatemticasem contextos de vida

    B2

    DRaciocinarmatematicamente deforma indutiva e deforma dedutiva

    - Identificar e completar uma sequncia simples de figuras ou de nmeros naturais.- Justificao, na lngua portuguesa, do(s) critrio(s) utilizado(s) para completar

    sequncias simples de figuras ou de nmeros naturais.- Detectar erro em sequncias simples de figuras ou de nmeros naturais.- Usar as definies como critrios necessrios, embora convencionais e de

    natureza precria, classificao de figuras geomtricas, nomeadamente, quantoao seu nmero de lados.

    - Detectar erro em sequncias simples de figuras ou de nmeros naturais.- Usar as definies como critrios necessrios, embora convencionais e de

    natureza precria, classificao de figuras geomtricas, nomeadamente, quantoao seu nmero de lados.

  • CENTROS NOVAS OPORTUNIDADESE GESTO DA DIVERSIDADE FUNCIONAL

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    - Realizao de tarefas com base num guio de trabalho.- Analisar e interpretar grficos relativos a situaes do dia-a-dia do formando.- Comparar conjuntos de dados utilizando contagens.- Analisar e comparar distribuies estatsticas utilizando medidas de localizao(moda, mdia aritmtica).

    - Identificar o mximo e o mnimo num conjunto de dados numricos.- Comunicar resultados usando a linguagem matemtica e a lngua portuguesa.

    - Usar criticamente as funes de uma calculadora cientfica.- Interpretar graficamente relaes funcionais de proporcionalidade directa.- Seleccionar escalas adequadas representao de modelos da realidade,

    recorrendo a mapas e plantas.- Estabelecer a ligao entre conceitos matemticos e conhecimento de procedi-

    mentos na realizao de construes geomtricas, recorrendo s suas propriedadesgeomtricas.