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SET ilumina incertezas na comunicação Páginas 10 e 11 t hi per exto Porto Alegre, agosto/setembro 2010, Ano 12 – Nº 81 Jornalismo da Famecos 5 estrelas no Guia do Estudante A CIDADE NO PALCO PORTO ALEGRE EM CENA Página 8 Professor da PUCRS é presidente da Fenaj Schröder em aula no curso de Jornalismo Samuel Maciel/ Hiper Os 75 anos da Associação de Imprensa gaúcha Ercy Torma preside ARI Bolívar Abascal Oberto/ Hiper Página 7 Eles chegaram no mercado Página 4 Camila, Vinícius e Pedro Elson Sempé Pedroso/ Hiper O 23º SET Universitário, um dos principais eventos de comunicação do Brasil, promovido anualmente pela Famecos/PUCRS, trouxe este ano a inquietação que domina a mídia no mundo: os tempos de incertezas, ou “certezas provisórias”, como definiram os organizadores. Durante três dias, de 21 a 23 de setembro, o tema foi debatido em palestras e oficinas. Luzes surgiram na discussão: as convergências de conteúdos e plataformas, novos formatos na televisão, a cobertura dos grandes eventos esportivos, a igualdade racial na pauta da imprensa, o jornal popular, o real e a ficção na narrativa contemporânea, relações públicas embala as redes sociais, a estimulação dos sentidos, boas idéias na pro- paganda, inovações, sucesso e ambientes digitais. Centenas de alunos, professores e profissionais participaram do SET, entre eles, os jornalistas Marcelo Canellas e Marcelo Barreto, os publicitários Maurício Mota e João Levi, e o escritor Daniel Galera. Marcelo Barreto, uma das estrelas presentes Lívia Stumpf/ Hiper Página 6 Guilherme Santos/ Hiper

Hipertexto Agosto/Setembro 2010

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Edição de agosto e setembro de 2010 do jornal Hipertexto, produzido pelos alunos de Jornalismo da Famecos (Faculdade de Comunicação Social - PUCRS).

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SET iluminaincertezas na comunicação

Páginas 10 e 11

thiperexto Porto Alegre, agosto/setembro 2010, Ano 12 – Nº 81

Jornalismo da Famecos5 estrelas no

Guia do Estudante

A CIDADENO PALCO

PORTO ALEGRE EM CENA

Página 8

Professorda PUCRSé presidenteda Fenaj

Schröder em aula no curso de Jornalismo

Samuel Maciel/ Hiper

Os 75 anosda Associaçãode Imprensagaúcha

Ercy Torma preside ARI

Bolívar Abascal Oberto/ Hiper

Página 7

Eles chegaramno mercado

Página 4

Camila, Vinícius e Pedro

Elson Sempé Pedroso/ Hiper

O 23º SET Universitário, um dos principais eventos de comunicação do Brasil, promovido anualmente pela Famecos/PUCRS, trouxe este ano a inquietação que domina a mídia no mundo: os tempos de incertezas, ou “certezas provisórias”, como definiram os organizadores. Durante três dias, de 21 a 23 de setembro, o tema foi debatido em palestras e oficinas. Luzes surgiram na discussão: as convergências de conteúdos e plataformas, novos formatos na televisão, a cobertura dos grandes eventos esportivos, a igualdade racial na pauta da imprensa, o jornal popular, o real e a ficção na narrativa contemporânea, relações públicas embala as redes sociais, a estimulação dos sentidos, boas idéias na pro-paganda, inovações, sucesso e ambientes digitais. Centenas de alunos, professores e profissionais participaram do SET, entre eles, os jornalistas Marcelo Canellas e Marcelo Barreto, os publicitários Maurício Mota e João Levi, e o escritor Daniel Galera. Marcelo Barreto, uma das estrelas presentes

Lívia Stumpf/ Hiper

Página 6

Guilherm

e Santos/ Hiper

eleições

hipersider

Porto Alegre, agosto/setembro 20102 hiperextot

Por Patricia Jardim e Débora Fogliatto

Três perguntas para... Luciano Alabarse* Como surgiu a ideia de criar o Porto Alegre em Cena? O festival foi um pedido do Sindicato dos Artistas ao então

prefeito Tarso Genro. O prefeito me chamou e tive três meses para organizar a primeira edição do festival.

Dezessete anos depois, Porto Alegre pode ser consi-derada um pólo importante de teatro e dança no Brasil e na América do Sul?

Não há a menor dúvida. As estreias locais atestam isso de modo inconfundível.

Como funciona o processo de premiação dos espetá-culos locais concorrem?

O Troféu Braskem tem um júri formado exclusivamente por jornalistas atuantes nos veículos da Capital. Eles se reúnem em sessão secreta, eu nunca participei de nenhuma, e decidem. São os jurados que podem responder sobre suas decisões. Minha função é que todos assistam a todos os espetáculos para julgarem democraticamente quem merece o prêmio.

* Luciano Alabarse é diretor de teatro e coordenador do Porto Alegre Em Cena.

Uma japaguria

Kana é aluna de intercâmbio que veio do Sul do Japão para o Sul do Brasil. Ela diz que se iden-tifica muito com o Rio Grande do Sul e gosta bastante da cultura local, que é parecida com a da sua cidade. Ela se sente tão bem que já se intitula uma “japa gu-ria” e tem planos de morar em Porto Alegre quando terminar a faculdade no Japão.

Infelizmente, a japonesa foi assaltava em uma esquina da avenida Bento Gonçalves. Isso a deixou bastante abalada, principalmente pela perda do dicionário. “Para eles pode não ser nada, mas para mim, meu dicionário é muito precioso”, lamenta Kana. Menos mal que roubaram só a cópia de seus documentos. O susto foi grande, mas nada que a impeça de voltar a Porto Alegre no futuro. “Sinto medo, mas ainda quero voltar e morar aqui!”, declara.

Astral elevado

O tédio pode se abater sobre os mineiros que estão há mais de um mês presos em uma mina no Chile. Há três sondas em operação para o envio de produ-tos básicos, uma para oxigênio e outras duas para alimentos, remédios, produtos de higiene pessoal e mudas de roupa. Uma das sondas é aproveitada pelo governo do Chile para enviar, aos 33 mineiros, objetos de en-tretenimento, como videogames, DVDs e tocadores de música em MP3. Os aparelhos ajudam a evi-tar que eles tenham sintomas de depressão. Segundo o ministro da Saúde, Jaime Manalich, cinco mineiros já apresentaram sinais depressivos. Também pretendem aumentar o diâmetro da sonda de 10,2 centímetros para 30,5 e assim enviar objetos maiores.

Promessa à noiva

Os mineiros chilenos, mes-mo presos e preocupados não deixam de sonhar alto e fazer planos.Um deles enviou, pela sonda, um bilhete à noiva que dizia: “Pode escolher o vestido, quando eu sair daqui iremos nos casar”.

Coisa séria

Pela primeira vez, essas auto-ras enfrentam o desafio de serem responsáveis por uma coluna em um periódico mais sério do que “jornalzinho do colégio”. Espe-ramos que nossas notas façam alguma diferença no universo de informações que circulam.

Exigidos dois documentos

Por Bruna Suptitz, Isabele Sonda e Fernanda Keller

O BRASIL escolhe seu futuro através das eleições – dia 3/10, em primeiro turno e dia 31/10, em segundo, se houver necessidade. Neste ano, o processo democrático no país apresenta mudanças que vi-sam dar mais segurança à votação, como a obrigatoriedade de apre-sentar o título eleitoral no ato de votar e mais outro documento com foto para confirmar a identidade.

Em 2010, a internet tem parti-cipação fundamental na divulgação dos candidatos e serve como uma extensão das propagandas na televisão e no rádio, cujo tempo é limitado. Para não ocorrerem abu-sos, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) foi obrigado a criar uma regulamentação para as campa-nhas eleitorais online. Diferente

dos outros meios de comunicação, é proibida a veiculação de propa-ganda eleitoral paga, assim como campanhas em sites de pessoas jurídicas ou entidades públicas. Para Josemar Riesgo, assessor-chefe da Corregedoria Eleitoral, a internet ainda não é bem explorada pelos promotores de comunicação, podendo se tornar uma ferramenta interessante. “A rede pode ser um poderoso instrumento para promo-ver debates entre os candidatos”, sugere Riesgo, “pois são os próprios organizadores que decidem as re-gras, diferente dos outros veículos de comunicação.”

Outra novidade nessas eleições é a Lei da Ficha Limpa, de autoria do juiz Marlon Reis, que tem como objetivo melhorar o perfil dos can-didatos a cargos eletivos do país. A lei torna os critérios de inelegibi-lidade dos políticos mais rígidos.

Para serem avaliados e figurarem na lista dos “ficha limpa”, os can-didatos precisam prestar contas sobre a sua campanha eleitoral, informando a origem do capital obtido e os gastos que foram feitos.

Aqueles condenados por um ór-gão colegiado (por mais de um juiz) ficam impedidos de se candidatar a qualquer cargo, ainda que a causa tenha direito a recurso. Basta o can-didato estar envolvido em algum tipo de especulação ou crime polí-tico, como abuso de poder público, formação de quadrilha, racismo, tortura, improbidade administrati-va, entre outros, para sofrer impe-dimento. Também ficam impedidos de concorrer postulantes que forem cassados durante o período de seu mandato ou renunciaram para evitar a cassação. Para saber quem teve seu direito cassado pelo Ficha Limpa basta acessar o site do TRE.

Justiça Eleitoral reforça cuidados para evitar fraudes em 2010

Josemar Riesgo acredita que a internet pode ser um instrumento interessante para debates

Aroldo Medina (PRP)

Formação: Jornalista e major da Brigada

Militar.

Participação na política: Exerceu a chefia da

Defesa Civil no Estado (2003/2006), durante

o governo de Germano Rigotto.

Vice: João Carlos Rodrigues (PTC).

Carlos Schneider (PMN)

Formação: Contabilista e advogado.

Participação na política: Concorre pela pri-

meira vez.

Vice: Maximiliano Andrade (PMN).

José Fogaça (PMDB)

Formação: Advogado e professor de Literatura

e de Direito Constitucional na FARGS. Foi

também apresentador de televisão e rádio.

Participação na política: Prefeito de Porto

Alegre (2005 a 2010), senador (1987 a 2002),

deputado federal (1982 a 1986) e deputado

estadual (1978 a 1982).

Vice: Pompeo de Matos (PDT).

Humberto Carvalho (PCB)

Formação: Procurador de Justiça aposentado.

Participação na política: Concorre pela pri-

meira vez.

Vice: Nubem Medeiros.

Júlio Flores (PSTU)

Formação: Professor de escola pública.

Participação na política: Candidato em várias

eleições.

Vice: Vera Rosane (PSTU).

José Guterres (PRTB)

Formação: Professor.

Participação na política: Candidato a vereador

em Sapucaia do Sul em 2004.

Vice: Sueli Domingues

Montserrat Martins (PV)

Formação: Médico.

Participação na política: Concorre pela pri-

meira vez.

Vice: Luis Carlos Evangelista (PV).

Pedro Ruas (PSOL)

Formação: Advogado trabalhista.

Participação na política: Ex-presidente

regional do PDT e vereador de Porto Alegre

pelo PSOL.

Vice: Marliane Ferreira dos Santos (PSOL).

Tarso Genro (PT)

Formação: Advogado.

Participação na política: Exerceu o cargo de

prefeito de Porto Alegre por duas vezes, ex-

deputado federal, ministro da Educação, da

Justiça e das Relações Institucionais durante

o governo de Lula.

Vice: Beto Grill (PSB).

Yeda Crusius (PSDB)

Formação: Economista e professora uni-

versitária.

Participação na política: Governadora do RS

(desde 2007), foi ministra do Planejamento e

deputada federal.

Vice: Berfran Rosado (PPS).

DISPUTAM O PALÁCIO PIRATINI

Jonathan Heckler/ Hiper

Arquivo Pessoal

Porto Alegre, agosto/setembro 2010 3hiperextot

eleições

Arquivo Pessoal

Por Daniela Boldrini

A FAUNA toda está à solta e decidida a ficar. Mais do que isso, eles querem seu voto. As eleições de 2010 trazem um leque de opções de candidatos bizarros. Humoristas, cantores, jogadores, nem todos com promessas e novos ideais, mas em comum a ideia de conquistar vaga na política através da fama.

Francisco Everaldo Oliveira Silva, o Tiririca (PR), humorista e cantor de sucesso na década de 90, disputa uma vaga na Câmara Federal por São Paulo. Debocha-do, usa o slogan “Vote no Tiririca,

pior que tá não fica” e afirmou que não sabe o que faz um deputado federal e que “de cabeça, assim” não consegue pensar em nenhuma proposta. Jeferson Camillo (PP), por outro lado, tem a sua frase: “Experimente algo novo. Com certeza, você vai gostar”, um bor-dão que acompanha uma série de propagandas que fazem apologia ao sexo em pleno hilário eleitoral, como diz José Simão.

Como se não bastasse, a modelo Mulher Pêra (PTN), Suellen Aline Mendes Silva, também se candi-datou, mas para deputada federal e ganhou as recomendações do

senador Eduardo Suplicy (PT). Sua ficha de inscrição no TSE indica seu grau de instrução: lê e escreve. Uau! O mínimo, caro leitor, você já tem. Mas a disputa está concorri-da e não para por aí. Tatiana dos Santos Lourenço, a Tati Quebra Barraco (PTC), está nessa briga e honrando seu bordão de funk “sou feia, mas tô na moda”. Afinal, está na moda se candidatar.

Cacareco era um rinoceronte do zoológico de São Paulo que, em 1958, recebeu 100 mil votos para vereador e que provavelmente soa-ria menos absurdo nos dias de hoje. Entre os famosos do esporte, Popó

(PRB), do boxe, Romário (PSB) e Vampeta (PTB), do futebol; Kiko do KLB (DEM), Reginaldo Rossi (PTB) e Netinho (PCdoB), todos da música. E ainda tem gente do pomar: a Mulher Melão (PHS) e a Mulher Pêra. O rinoceronte, que tanto sucesso fez há 52 anos, cria-ria uma categoria à parte.

As propagandas eleitorais insistem para o eleitor votar com consciência. Mas o que isso sig-nifica, exatamente? Escolher um ex-jogador de futebol, uma mulher fruta ou um cantor que já não está mais nas paradas de sucesso? A tarefa não é fácil.

Vêm aí os cacarecos 2010

Netinho, do PC do B

Por Pedro Henrique Tavares

A tão almejada interação dos políticos com jovens teve alguns obstáculos superados. Foi o que o Diretoria Kzuka, uma sabatina reunindo oito candidatos ao Palácio Piratini, proporcionou a estudantes de 16 a 21 anos no Salão de Atos da PUCRS. Os adolescentes ficaram frente a frente com os concorrentes ao governo do estado e mostraram consciência política e social.

Realizado no dia 10 de setem-bro, o evento teve a presença de Aroldo Medina (PRP), Carlos Sch-neider (PMN), Ivan Pinheiro (PCB), José Fogaça (PMDB), Júlio Flores (PSTU), Montserrat Martins (PV), Pedro Ruas (PSOL) e Tarso Genro (PT). A governadora Yeda Crusius não compareceu. Os concorrentes ao mais importante cargo executivo do estado foram cerceados por ado-lescentes ávidos pela resolução dos problemas que mais atormentam a faixa etária: educação e segurança.

Os jovens mostraram que políti-ca se faz para todas as idades e exige uma linguagem universal. A estu-dante Larissa Ely, de 16 anos, reve-

lou que não vai votar nesta eleição, no entanto salientou a importância de estabelecer uma consciência política. “Quero ter uma noção do que se passa no Rio Grande do Sul, saber o qual a realidade política do estado”, observou.

Quem vai votar na eleição de 3 de outubro teve oportunidade de escolher a melhor opção. O grande número de candidatos presentes possibilitou uma intensa gama de opiniões. Segundo Thomaz Zan-donotto, de 16 anos, é importante prestar atenção nos pontos de con-traste. “É fundamental visualizar as diferentes opiniões, saber qual a diferença na fala de cada candida-to”, argumentou.

Não houve nenhum embate entre os políticos, o que tornou o clima ameno e possibilitou um melhor esclarecimento das dúvidas. O estudante Heitor Américo, de 17 anos, confidenciou que as respos-tas dos postulantes a governador lhe fizeram formular uma opinião. “Agora ficou tudo mais claro para mim, já tenho condições de decidir em quem votar”, assegurou na saída do Salão de Atos.

Jovens cobram educaçãoe segurança em debate

Novos eleitores estiveram diante dos candidatos na PUCRS

Isabela Sander/ Hiper

A segurança do sistema eleitoral na hora de votar também é uma preocupação este ano. Pensando nisso, o Tribunal Superior Eleitoral adotou o uso de urnas biométricas em alguns municípios do país. No Rio Grande do Sul, a cidade escolhida para usar a biométrica é Canoas. Com nova tecnologia, o aparelho reconhece o eleitor por meio da impressão digital.

Nos testes ocorri-dos em 21 de agosto, algumas urnas de-moraram na leitura das digitais e preocu-param quem partici-pava da simulação. Os voluntários achavam que se ocorresse a mesma situação no dia das eleições, filas seriam formadas e atrasariam o processo, podendo ultrapassar às 17h, tempo limite

para votação. Segundo Daniel Wobeto, secretário de Tecnologia da Informação do TRE-RS, não há expectativa de atraso.

Para quem ainda vai votar por meio do título, a segurança também estará mais rigorosa em 2010. Ao

contrário dos pleitos anteriores, o eleitor só poderá votar apre-sentando o título de eleitor e um docu-mento com foto. Tais medidas facilitam o reconhecimento do eleitor e evitam que alguém vote no lugar de outra pessoa.

O procurador re-gional eleitoral do Rio

Grande do Sul, Carlos Augusto da Silva Cazarré, acredita que, de um modo geral, os candidatos estão comprometidos com as novas exigências da lei. Contudo, diaria-

mente são recebidas pelo Ministério Púbico denúncias de irregularida-des praticadas pelos candidatos. “A Procuradoria Regional Eleitoral já recebeu centenas de denúncias, por telefone e por nosso site da internet (www.prers.mpf.gov.br). A maioria relata casos de propaganda eleito-ral irregular. Muitos expedientes ainda estão em andamento, mas já foram ajuizadas mais de 40 repre-sentações desde o início do período eleitoral”, revela Cazarré.

Quando ocorre alguma irregu-laridade em época de eleição, os prazos são curtos. O julgamento deve se acontecer com rapidez. Se-gundo o procurador, muitas vezes a Justiça Eleitoral decide em caráter de liminar, a fim de impedir que a conduta irregular continue sendo executada. Contudo, cada julga-mento depende da particularidade do caso, podendo variar entre 24 horas e três dias.

Impressão digital reconhece eleitor de Canoas

Secretário de Tecnologia do TRE-RS, Daniel Wobeto, confia na eficiência do sistema

Jonathan Heckler/ Hiper

“A Procuradoria Regional

Eleitoral já recebeu centenas

de denúncias, por telefone e

por nosso site da internet.”

ARTIGO

EDITORIAL ARTIGO

4 Porto Alegre, agosto/setembro 2010hiperextot

Opinião

hiper extot

O horror, o horror*Uma escola de fotografiaHow many ears must one man have before he can hear people cry?How many deaths will it take ‘till he knows that too many people have died?

Bob Dylan

Por Guilherme Dal Sasso

A Guerra do Iraque não foi cor-reta e não foi bem-sucedida. Digo isto do ponto de vista humanitário, e em resposta ao artigo Guerra em nossos tempos, de Tomás Adam, publicado na edição de junho/julho do Hipertexto. Para aqueles que não tiveram a oportunidade de lê-lo, basta saber que se trata de uma defesa incondicional da in-vasão norte-americana ao Iraque, e o (in)consequente conflito que perdurou sete anos.

Não é possível t ranscrever aqui tudo que já foi dito em prol da paz, pois não são poucas as obras humanas que visam expor o absur-do da guerra. Tam-bém não são poucas as personalidades que se dedicaram a narrar as atroci-dades cometidas pelo homem, a fim deste nunca repeti-las. Mes-mo assim, a história se repete, e traz junto de si a morte, o luto, a tragédia.

No entanto, o que motiva este texto não é o repúdio à guerra em si, mas sim o artigo do Adam, uma ode à carnificina travestida de cântico de louvor à democracia. Curioso o conceito de democracia do autor. Será que este acredita em contos de fada e se dispõe a enxer-gar nas tropas norte-americanas a encarnação d’O Grande Paladino da Liberdade? Ou prefere sim-plesmente ver-se como Arauto do Mundo Civilizado (que é como o articulista se refere ao Ocidente),

capaz de julgar o que é bom e o que não é para os “bárbaros” do Orien-te Médio? Seria ele um apreciador das teorias em voga na Europa do século XIX, que defendiam a nobre missão do homem branco de levar a civilização aos “povos atrasados”? São perguntas que não querem calar. Em meio a loas à De-mocracia, esquece de citar que em momento algum o povo iraquiano foi consultado sobre querer ou não a guerra. Tampouco se desejava ou não ter seu território ocupado por tropas estrangeiras e o banho de sangue durante sete anos de não-escolha.

O entusiasta econômico-be-licista passa longe dos temas humanos intrínsecos a qualquer conflito. A fim de defender sua furada tese, o apologista do caos

passa longe da autodetermina-ção dos povos, as Convenções de Genebra e Di-reitos Humanos. Não é apenas um manifesto a fa-vor do genocídio, mas também uma peça de louvor ao Deus Mercado. Além das incli-

nações de direita que trespassam o texto, a intrépida retórica visa legitimar o sacrilégio humano com dados econômicos. Os órfãos e as viúvas, os refugiados e os mutila-dos, e quem sabe até mesmo os defuntos devem estar muito con-tentes por saber da mais nova taxa de inflação! As mães americanas que perderam seus filhos também devem estar saltitando de alegria pelo sucesso da fábrica do Sr. Al-Beldawi. O manifesto belicista do colega é um deboche às reações ao horror.

* em resposta ao artigo “Guerra em nossos tempos”, de Tomás Adam.

Da Redação

O ESTÁGIO em jornalismo grá-fico proporcionado pelo Hipertexto, na produção e edição de um jornal mensal, permite reflexão sobre con-ceitos e o aprimoramento de técnicas apresentadas em aula, no Curso de Jornalismo da Famecos, e se subli-ma quando seus diagramadores, repórteres, editores e fotógrafos, com a formação recebida na faculdade, conquistam espaços no mercado de trabalho. Um dos vetores do Hiper que se consolidou foi o de fotojor-nalismo. Sob a responsabilidade do professor Elson Sempè Pedroso, tornou-se em uma verdadeira Escola de Fotografia.

Três jornalistas, diplomados em 2008 e 2009, foram estrelas do Hipertexto durante a faculdade, as-sinando fotos nas reportagens. Com o portfólio das publicações embaixo do braço e a chancela de suas capaci-dades e responsabilidades conferidas pelo professor Sempè, saíram em busca de emprego. O esguio Vinícius Roratto, 24 anos, a suave Camila Domingues e o truculento por opção Pedro Revillion, ambos de 23 anos, hoje são repórteres fotográficos do

Correio do Povo, contratados pelo premiado Ricardo Gusti, também ex-alunos da Famecos.

A passagem de Camila pelo curso iniciou em março de 2005. Ainda no primeiro semestre, já era estagiária do Hipertexto, e seu primeiro texto relatou as obras do Camelódromo. Em 2007, voltou para o jornal como fotógrafa e permaneceu como editora até sua formatura, em julho de 2009. Dias antes de defender a monografia, assumiu vaga aberta no Correio. Sua foto mais dramática foi o resgate de um alpinista no cânion de Maquiné, mas considera como maior façanha emplacar na capa a foto de um homem de sunga, na praia. “Só sai mulher”, ri. “Chegaram a me telefo-nar de madrugada para contar que a foto estava na primeira página.”

Frilas foi a porta encontrada pelo Pedro. No ano passado, fotografou a Expointer para O Sul e a Feira do Livro para o Jornal do Comércio. Em novembro, entrou no Correio. Tem feito mais futebol. Inter e Flamengo na chuva, pelo Brasileiro de 2009, foi sua primeira capa. Este ano, quando o Inter conquistou a Libertadores, emplacou de novo. Ele não esquece sua foto mais dramática: a morte de

uma família inteira, cinco pessoas, em acidente na faixa entre Taquara e Gramado.

No Hipertexto, Vinícius teve oportunidade de fazer reportagens fotográficas de futebol e política. Cobriu a vitória do Inter de 8 a 1 sobre o Juventude, na conquista do Campeonato Gaúcho de 2007, e conseguiu a imagem do contido José Fogaça “comemorando alegremente” a reeleição a prefeito de Porto Alegre, no comitê do PMDB, em outubro de 2008. Após a formatura, trabalhou como freelancer do Diário Gaúcho durante seis meses e em junho foi contratado pelo Correio do Povo. Na chegada dos animais para a Expoin-ter 2010, meteu sua primeira capa.

Os três novos fotógrafos da im-prensa gaúcha não cansam de elogiar o professor Sempè. “É maravilhoso”, resume Camila. “Para mim, é como se fosse um pai, me pegou pela mão e me fez repórter fotográfico”, emociona-se o durão Pedro. “Quan-do entrei no estágio, ele disse: sairão daqui prontos para o mercado, e cumpriu.” Vinícius lembra das aulas: “Fotografar a esmo não serve, preci-samos desenvolver a capacidade de bater fotos informativas.”

“Em meio a loas à Democracia, esquece

de citar que em momento algum o povo iraquiano foi consultado sobre querer ou não a

guerra.”Elson Sempé Pedroso/Hiper

Pedro, Vinícius e Camila eram fotógráfos do Hiper e foram contratados pelo Correio do Povo

Jornal mensal dos alunos do Curso de Jornalismo da Faculdade de Comunicação Social (Famecos), da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).Avenida Ipiranga 6681, Jardim Botânico, Porto Alegre, RS, Brasil. Site: http:// www.pucrs.br/ famecos/ hipertexto/ 045/ index.php

Reitor: Ir. Joaquim ClotetVice-reitor: Ir. Evilázio TeixeiraDiretora da Famecos: Mágda Cunha

Coordenador de Jornalismo: Vitor NecchiProdução dos Laboratórios de Jornalismo Gráfico e de Fotografia.Professores Responsáveis: Celso Schröder, Elson Sempé Pedroso, Ivone Cassol, Juan Domingues, Luiz Adolfo Lino de Souza e Tibério Vargas Ramos.Estagiários matriculados e voluntáriosEdição e diagramação: Fernanda Grabauska, Leonardo Pietrowski, Luísa Silveira e Marja Camargo.

Editores de Fotografia: Bolívar Abascal Oberto, Bruno Todeschini e Lívia Stumpf.Redação: André Vitor Pasquali, Bruna Suptitz, Brunna Weissheimer, Cairo Fontana, Carolina Beidacki, Caroline Michaelsen, Clareana Ferreira, Daniela Boldrini, Fernanda Keller, Fernando Severo, Gabriela Sitta, Júlia Magalhães, Marco Antônio de Souza, Mariana Soares, Natália Otto, Patrícia Jardim, Pedro Henrique Tavares, Rafael Sanchez, Sabrina Ribas, Suzy Scarton e Walter Ferrera.Repórteres Fotográficos: Aya Kishimoto,

Bolívar Oberto, Bruno Todeschini, Camila Cunha, Daniela Grimberg, Daniela Kalicheski, Fábio Henrique Gonçalves, Felipe Dalla Valle, Gabriel Ludwig, Gabrielle Toson, Guilherme Santos, Isabella Sander, Jéssica Barbosa, Jonathan Heckler, Julia Ramos, Júlia Tarragó, Lívia Auler, Lívia Stumpf, Luiza Lorentz, Mariana Amaro, Mariana Fontoura, Mauricio Krahn, Maria Helena Sponchiado, Nicole Pandolfo, Pedro Sampaio, Raquel Damo, Samuel Maciel, Thiago Couto, Vanessa Freitas e Vivian Lengler.

Apoio cultural: Zero Hora. Impressão: Pioneiro, Caxias do Sul. Tiragem 5.000

5Porto Alegre, agosto/setembro 2010

Tradição

hiperextot

Congresso dos sem-teto em hotel quatro estrelasPor Gustavo Schwetz, Olinda

PORTO DE GALINHAS e os subúrbios recifenses: com certeza, um bom exemplo das diferenças gritantes presentes em território pernambucano. Entretanto, há outras situações, mais sutis, mas igualmente preocupantes, en-volvendo os cidadãos do estado nordestino.

Wagner Bernardo: garoto sor-ridente, morador de Olinda, cidade histórica, atração turística. Aos 10 anos, começou a trabalhar pela Associação dos Condutores Nati-vos de Olinda. Sua função: guiar os turistas pelos locais da cidade onde a história segue viva.

A inteligência do menino e a sua persistência impressionam. Ao perceber um veículo com placa de outra cidade, insiste em conversar com os turistas, que o ignoram e seguem o seu caminho até o próxi-mo semáforo. Wagner acompanha, correndo. Tenta a comunicação novamente. Os turistas desistem, baixam o vidro e o garoto começa a sua aula de história.

Mar Hotel: localizado prati-camente à beira-mar de Recife, o hotel quatro estrelas recebeu uma convenção entre os dias 26 e 29 de agosto. Trezentos membros do MTST (Movimento dos Trabalha-dores Sem-Teto), hospedaram-se com o objetivo de discutirem a

reforma urbana, escolherem seus novos líderes que comandarão o movimento nos próximos dois anos, e elegerem os representan-tes de Pernambuco no Congresso Nacional do movimento, evento que acontecerá em Minas Gerais.

Os integrantes do MTST usu-fruíram dos luxos do hotel durante os quatro dias. Os gastos foram patrocinados pelo Ministério das Cidades. Entre uma passeata e outra, uma palestra e outra, po-diam-se observar os participantes na piscina, nas mesas de sinuca e em seus aposentos, descansando.

Wagner, assim como os idea-listas, é de origem humilde. Hoje, aos 13 anos, divide a sua vida entre os estudos e o trabalho. Metade do que ganha, 25 a 30 reais por grupo de turistas, contribui para as despesas de sua família. A outra metade é direcionada para a asso-ciação em que trabalha.

Os membros do MTST orga-nizam convenções e passeatas. Presenteados com os quatro dias de estada em um lugar luxuoso, frequentado pela alta sociedade, os sem-tetos vivem a utopia de que a bandeira da reforma urbana pos-sa garantir a eles um lugar como aquele para morar. Enquanto esse dia não chega, o pequeno Wagner corre atrás dos turistas para ga-nhar algum dinheiro, real, e ajudar na sobrevivência de sua família.

A bandeira do MTST desfraldada ao lado da piscina

Fotos Gustavo Schwetz/ Especial Hiper

Por Julia Finamor e Schariane Kozak

RÉPLICA DAS ESTÂNCIAS gaúchas em meio à arquitetura urbana da capital, o Parque Har-monia é um abrigo da cultura e da história do povo sul-rio-grandense desde a sua inauguração, em 1982. A cada mês de setembro, milhares de gaúchos exibem pelos corredo-res do Acampamento Farroupilha o lenço vermelho, a bombacha e o chimarrão, e revivem dentro dos piquetes um pouco da rotina bucólica presente nas raízes do seu povo. Entretanto, o ritual que marca o início da Revolução Farroupilha propõe a comemoração de um even-to histórico mal interpretado por muitos gaúchos, que se aproximam da tradição apenas por apreço, sem compreender o valor simbólico da celebração.

Em meio aos acampados, entre a Ponta da Cadeia e a margem do Arroio Dilúvio, o cheiro de churras-co é um convite para quem passeia pelo local. Centenas de entidades, famílias e Centros de Tradições Gaúchas (CTGs) desfrutam da comida típica ao ritmo dançante da música gaudéria. Os diversos galpões de madeira, o chimarrão nas rodas de amigos, as costelas assadas sobre o chão, os fogões a lenha e os galos que cantam o início do dia encenam a vida campeira que muitos gostariam de ter. Com a cuia na mão, Luiz Antônio Cordeiro Oliva revela que, contagiado pelo

som da vaneira, buscou no CTG Descendência Farrapa os costumes e valores que acredita serem únicos daqui. “Os gaúchos são diferencia-dos pela inteligência, pelos senti-mentos, pela visão política. Somos pioneiros na agricultura e temos gado na fronteira. Somos privilegia-dos”, orgulha-se. Além disso, Oliva lamenta que a República Rio Gran-dense não tenha se consolidado de forma permanente. Segundo ele, a dimensão do Brasil não permite que o governo federal dê a atenção necessária a todos os estados: “Sou separatista”, confessa.

Na porta do piquete Para-Boi surge um senhor grisalho, de cha-péu, lenço e bombacha, com o aperto de mão firme de um típico campeiro. Seu Elder Fontela de Paula, 80 anos, cresceu em cima do cavalo, em meio à lida campei-ra. Aproveita a semana de festa e o espaço do seu galpão para oferecer almoços a idosos e crianças carentes - mais uma maneira de vivenciar os valores adquiridos dos antepassa-dos farroupilhas. Fontela conhece pouco sobre a história do estado:

“Leio sobre o Rio Grande do Sul de vez em quando, mas na minha idade é difícil gravar muita coisa”, brinca. Foram as músicas e os costumes que lhe despertaram o orgulho e o amor pelas tradições do sul.

Os críticosAlguns, porém, são mais críticos

quanto à trajetória dos farrapos e às comemorações que envolvem o dia 20 de setembro. Zenildo Rodrigues, que há duas décadas largou a vida urbana para se dedicar ao mundo rural, destina suas energias ao trabalho de artesanato em couro. Rodrigues relata que sempre levou a vida inspirado na tradição sul-rio-grandense, buscando sua iden-tidade nas músicas, no campo e na história gaúcha, a qual demonstra conhecer por inteiro.

Zenildo avalia os milhares de tradicionalistas que celebram o 20 de Setembro no Acampamento Farroupilha. Para ele, algumas pessoas vão ao parque brincar de ser gaúcho, uma vez que festejam o que, supostamente, desconhecem. “Como vamos comemorar uma vitória que não aconteceu e uma guerra onde morreram milhares de pessoas?”, questiona. O gaúcho esclarece que foi uma disputa de interesses e não ideológica, como todos acreditam. Repudia o ideal dos separatistas de emancipar o Rio Grande do Sul: “Manter a união é o certo. Nós queremos viver com respeito a todos”, contrapõe.

Gaúcho celebra farraposcom churrasco e música

Acampamento Farroupilha celebra o 20 de Setembro, mas muitos não compreendem o passado rio-grandense

O lado bucólico do parque

Guillherme Santos/Hiper

Guilherme Santos/Hiper

Acampamento parece dia de folga na campanha: o peão apeia no povoado para se divertir

6 Porto Alegre, agosto/setembro 2010hiperextot

comunicação

Show de ideias no SET UniversitárioPor Clareana Kunzler Ferreira

A abertura do 23º Set Univer-sitário ampliou os horizontes dos estudantes para uma nova tendên-cia na comunicação. Com o tema Narrativa transmídia: o poder das histórias na era da convergência, o RBS Debates trouxe para falar ao público presente no Centro de Eventos do prédio 41, o publicitário e co-fundador da empresa Os Al-quimistas, pioneiro em transmedia storytelling, Maurício Mota.

Para explicar o que faz, Mota usou o exemplo do clássico Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. Segundo ele, ao cair na toca do coelho, Alice entra em uma nova dimensão, repleta de possi-bilidades. “O que nós fazemos é desenvolver essas tocas de coelhos”, conta. Storytelling indica que eles auxiliam marcas a encontrar e produzir suas histórias. Já o termo transmedia sugere que as histórias sejam contadas através de diferen-tes plataformas midiáticas.

O publicitário enfatizou a im-portância de seu trabalho ao desta-car a história milenar de Xerazade como exemplo do poder de uma narrativa. Como diz a lenda, an-tes de ser morta pelo rei Xariar, a princesa pediu para contar-lhe uma última história. Somente mexendo com a curiosidade do rei, ela acabou vivendo por mil e uma noites, até convencê-lo de que merecia viver. Para Mota, os contos de Xerazade são os primeiros registros do hiper-link, pois, para permanecer viva, a cada história ela “clicava” sobre personagens, oferecendo detalhes que prolongassem sua narrativa.

Após mais de uma hora de pa-lestra, ilustrada com cases transmi-diáticos, que foram de Tropa de Eli-te a Heroes, Mota passou a dividir o palco com o também publicitário Mauro Dorfman, presidente da Dez Comunicação, e com o jornalista e doutor em comunicação André Pase. Sob mediação de Alice Urbim, jornalista e responsável pela área de entretenimento da RBS TV e da TVCOM, eles deram contribuições à temática e responderam perguntas feitas pela plateia.

“Olhando do ponto de vista comercial, que visa conectar as mar-cas ao seu público, a storytelling é uma evolução natural dos esforços de comunicação, não uma ruptura”, afirma Dorfman. “Hoje não adianta mais colocar um produto ao lado de uma modelo e dizer: comprem!”, conclui. Pase acredita que o papel do transmídia é “saber conectar histórias paralelas, onde uma serve de isca para a outra”. E isso se torna ainda mais importante ao passo em que a audiência está mais exigente e sedenta por novos conteúdos.

Ao final, apesar da expectativa em torno do tema, Mota declarou que não existem profissionais pre-parados no momento para traba-lhar com transmedia storytelling. “As faculdades não ensinam os alunos a pensar a comunicação de forma integrada”, sentencia. O publicitário também alertou que chegou a hora de prestar atenção nesse nicho de mercado em expan-são. “Vocês tem a oportunidade de estar em um País onde haverão duas plataformas narrativas únicas: a Copa do Mundo e as Olímpiadas”, indicou.

SOM DE MESTREPor Suzy Scarton

O saguão do prédio 7 fervilhou com o show da Banda dos Professores da Famecos, no segundo dia do Set. O grupo, que foi revelação na edição anterior, é composto por Sérgio Stosch e Miguel Neves nos teclados e voz, Vanessa Purper no vocal, Alberto Raguenet no baixo, Elson Sempé no saxofone, Ticiano Paludo, João Guilherme Barone e Zé Carlos nas guitarras, e por Rafael Becker na bateria. A banda animou o público com de hits de Beatles, AC/DC, The Doors e Jimi Hendrix. A apresentação teve participação especial da aluna Caroline Corso de Carvalho.

Palestras, debates, oficinas, música e mostra competitiva movimentaram alunos da FamecosBruno Todeschini/ Hiper

Por Bruna Suptitz

O jornalista Marcelo Canellas, da Rede Globo, ini-ciou sua palestra apresentando seu principal trabalho na televisão, a série de reportagens Fome, que foi ao ar em 2001, no Jornal Nacional. “A série está comple-tando dez anos. Muitos de vocês provavelmente nem acompanharam ao vivo”, declarou. No no mesmo dia em que foi ao ar, também foi noticiado o aniversário do então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso. “A ligação entre os fatos foi contrastante e certamente impactou o telespectador”, comentou.

O que faz um fato ser notícia? Com essa pergunta, o jornalista instiga os estudantes a repensar certos con-ceitos criados em torno do “fato jornalístico”. Canellas foge do senso comum e acredita que, mais importante que o furo, é divulgar em primeira mão com um olhar diferente ao que é comum. “Somente a grande reporta-gem é capaz de aprofundar temas importantes”, afirma. Assim Canellas cria o antifuro de reportagem.

São 23 anos atuando, desde sua formação até o recente projeto Brasileiros, que foi ao ar pela Rede Globo neste ano. Ao ser cobrado, pelos participantes do evento, de publicar um livro sobre suas experiências profissionais, Canellas desconversa, e diz que ficará para mais tarde. Ele se despediu da plateia dizendo que o jornalista é um ser humano livre e pensante. O bom trabalho depende da qualidade do profissional, que jamais pode perder sua capacidade de indignação.

Fotos: Lívia Stumpf/ Hiper

Canellas: a grande reportagem na TV

Banda dos professores faz seu show no saguão

Por Brunna Weissheimer e Fernanda Keller

As adversidades da cobertura internacional foram os principais pontos abordados por Marcelo Barreto, editor-chefe e âncora do SporTV News, e José Alberto Andrade, repórter da Rádio Gaúcha, na palestra do dia 22, no auditório do prédio 40 da PUCRS. Uma cobertura como a Copa do Mundo de 2010 não é feita só de glamour. Eles frisaram a importância de conhecer o local e da montagem de uma estrutura por parte do veículo de comunicação para os profissionais.

Questionado sobre o “clubismo” na profissão, Barreto afirmou que o gosto pelo futebol acontece inicialmente através da paixão por um time, mas que é possível sim trabalhar com isenção. A atuação da jornalista mulher nos esportes, especialmente no futebol, também entrou em pauta. O comentarista do canal SporTV alegou que, em números, a proporção de mulheres na área é a mesma dentro e fora do Brasil. No país, o motivo para reduzida atuação de jornalistas nes-se meio é cultural. O homem tem apego às informações esportivas logo na infância, enquanto a mulher adquire interesse mais tarde. Isso gera falta de repertório.

No Brasil, esportes que não são futebol, não têm espaço. Segundo Barreto, é falsa a premissa de que mostrar o esporte na televisão vai atrair o interesse do público. “Audiência é dinheiro. Por isso esportes que dão menos audiência acabam tendo pouca visibilida-de”, explica Zé Alberto Andrade.

Barreto e a cobertura de eventos esportivos

Bruno Todeschini/ Hiper

Mota utilizou exemplos que foram de Calypso a Xerazade

O olhar do repórter Bastidores da Copa

comunicação

7hiperextotPorto Alegre, agosto/setembro 2010

Por Gabriela Dal Bosco Sitta

EM UMA SALA no oitavo andar do número 915 da avenida Borges de Medeiros, no início da escadaria do viaduto Otávio Rocha, jornalis-tas se reúnem há mais de 70 anos para mudar o mundo. Reuniões semanais com violões, cerveja e um ideal em comum eram frequentes nos anos 1960 no bar da Associa-ção Riograndense de Imprensa (ARI), que há 75 anos faz defesa do jornalismo e da democracia. Apesar das dificuldades financeiras que enfrenta hoje, a ARI é uma septuagenária de respeito. Com uma história de lutas, a entidade abrigou os embriões das grandes instituições de comunicação social de Porto Alegre.

Desde a fundação, em 1935, a ARI trava batalhas contra a censura. No ano da sua criação, os brasileiros enfrentavam um momento conturbado. Intelectuais e escritores foram presos após a Intentona Comunista e o direito à livre expressão ficou prejudicado. Assim, as primeiras iniciativas da Associação incluíram a liber-tação dos jornalistas detidos e a liberação, na alfândega, do papel importado para a impressão dos periódicos.

“Todos os homens têm direito a um lugar ao sol”. A frase do discur-

so de posse do primeiro presidente da entidade, Erico Verissimo, ainda é orgulhosamente repetida por Ercy Pereira Torma, atual dirigente. Para ele, o jornalista representa a sociedade, de forma que não con-quista os direitos apenas para si, mas para todo o cidadão.

Em 1938, quando Veríssimo já havia deixado a presidência, era iniciado um movimento pela cons-trução de uma sede própria para a Associação, ao menos no papel. Com a doação de um terreno da Avenida Borges de Medeiros pelo então prefeito Loureiro da Silva, as forças se revigoraram. Em 1942, foi obtido um financiamento com o Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Comerciários, um dos muitos fundos de trabalhadores que formaram o INSS.

Depois de alguns anos de cons-trução e dificuldades financeiras, a Casa do Jornalista seria final-mente ocupada em 1944, ainda sem a conclusão total das obras. O edifício tinha quatro apartamen-tos por andar e dois pavimentos, o sétimo e o oitavo, reservados à Associação. Nas décadas de 60 e 70 funcionou, no quarto andar, a então pujante sucursal do Jornal do Brasil (extinto em 2010) e agências JB e AP, com mais de uma dezena de funcionários e alguns repórteres como Eunice Jacques, Alexandre

Garcia, José Mitchell e Joseph Adam Zukauskas, liderados por Lucídio Castello Branco.

Ao longo da sua história, a entidade foi foco de resistência em favor dos direitos humanos no pe-ríodo da ditadura militar, quando jornalistas foram presos, e parti-cipou de campanhas comunitárias e culturais. Contribui para criação do Museu de Comunicação Hipólito José da Costa e a restauração do Hotel Majestic, hoje Casa de Cul-tura Mário Quintana. A Câmara do Livro e o Sindicato dos Jornalistas também nasceram na avenida Borges de Medeiros, esquina rua Fernando Machado.

Hoje, para se manter, a Associa-ção conta com a contribuição men-sal dos associados e o patrocínio de eventos. São realizadas palestras e seminários. O presidente pretende deixar a casa com as contas em dia. Com idealismo nos olhos, Torma segue crendo no jornalismo. “Eu me vejo muitas vezes sozinho aqui”, ele desabafa, se referindo não ape-nas à sala que o rodeia, na diretoria da ARI, mas também ao lugar de sonhador que ocupa no jornalismo atual. Às quintas-feiras, depois da reunião semanal, os membros da diretoria sobem ao oitavo andar para conversar. Nos sábados, a par-tir das 12h, a conversa é transmitida pela Rádio da UFRGS.

Ele para bruscamente e as grades azuis se abrem, lentas. O elevador gradeado, hoje repleto de rangidos, transportou nomes célebres do jornalismo no sobe e desce pelos oito andares da Casa de Imprensa em Porto Alegre, sede da ARI. O edifício já teve serviços médicos e odontológicos para associados, quartos de hotel para os jornalistas que vinham do interior do Estado e apartamentos alugados. Ao assumir a presidência em 1996, Ercy Torma recorda que alguns velhos jornalistas ainda moravam no prédio. Pagavam aluguéis simbólicos, algo que hoje seriam apenas R$ 15, calcula. Os inquilinos morreram e o edifício ficou desocupado.

Hoje, os antigos apartamen-tos são alugados como salas co-merciais para ampliar a renda mensal. O prédio, deteriorado pela passagem dos anos, tem um ar nostálgico que os móveis do bar, no oitavo andar, os mesmos desde a inauguração, só acentuam. Contudo, nem tudo é saudade. No quarto andar, onde funcionou a sucursal do JB, alunos da UFRGS realizam pesquisas sobre Alberto André, que presidiu a instituição de 1956 a 1990. Um memorial está sendo organizado.

ARI completa 75 anos em 2010 O nostálgico prédio na escadaria do viaduto guarda a história dos jornalistas

O elevador do tempo

Os 75 da Associação Rio-grandense de Imprensa foram homenageados pela Faculdade de Comunicação Social da PUCRS, em 23 de agosto. No auditório da Famecos, estiveram o presidente da ARI, Ercy Torma, o reitor Joaquim Clotet, a pró-reitora de Graduação, professora Solange Medina Ketzer e a diretora Mágda

Rodrigues Cunha. O evento teve também o apoio do Instituto de Pesquisa Delfos.

Além da comemoração do aniversário da ARI, a mesma ce-rimônia teve também a assinatura do termo de doação do acervo de jornais literários do professor An-tonio Hohfeldt para a Biblioteca Irmão José Otão.

Homenagem na PUCRS

Mágda Cunha e reitor Clotet parabenizam Ercy Torma

Elson Sempé Pedroso/ Hiper

Bolívar Abascal Oberto/ Hiper

A liturgia do cargo e a solidão de Ercy Torma na presidência da Associação dos Jornalistas, sob o olhar de Alberto André

comunicação

8 Porto Alegre, agosto/setembro 2010hiperextot

Professor da Famecos éeleito presidente da Fenaj

Schröder lidera a reafirmação profissional do jornalismo brasileiro

Fotos: Samuel Maciel/Hiper

Por Carolina Beidacki

CELSO AUGUSTO SCHRÖDER cresceu em Santo Ângelo, no interior do Rio Grande do Sul, era meio moleque, meio brigão, mas tinha um lado que tentava esconder: o intelectual. Ele vivia às voltas com os livros, sempre aprendendo mais. Mas quando se mudou para Porto Alegre, às portas do vestibular, não tinha tanta confiança na bagagem adquirida na biblioteca de Santo Ângelo. Ele tinha a sensação de que seria “massacrado pela capital, pelas pessoas cosmopolitas que tinham conhecimento”, mas percebeu que estava pronto, que seu nível de lei-tura superava o de muitos.

Ainda indeciso quanto ao rumo de sua carreira profissional, fez um teste vocacional, que era costume na época. O gosto pelo desenho e pela arte, combinados à facilidade em matemática, apontaram para a arquitetura. Ele gostava da ideia de ter uma profissão séria desenhando. Schröder fez dois vestibulares. Na segunda tentativa, foi aprovado para o curso de Arquitetura, na Unisinos, em 1972. Durante a faculdade, fazia jornalismo sem perceber. Escrevia jornais com os amigos, tinha proje-tos de livros.

Logo começou a militar politi-camente com amigos. Acreditavam que faziam revolução, que estavam mudando o mundo. O hoje presi-dente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) lembra daquela época com certa nostalgia: “Eu era, de alguma maneira, politizado, mas era hippie também. Um hippie muito

peculiar. Não bebia, não fumava e não me drogava. Era ideologicamen-te hippie”.

Quase tudo aconteceu muito rápido na vida do rapaz das Missões. Em meio à militância precoce, se ca-sou jovem e logo aos 22 anos era pai da primeira filha – mais dois filhos viriam depois.

Como boa parte da juventude dos conturbados anos 70, Schröder também era influenciado pelo O Pasquim – jornal-ícone da resis-tência ao regime militar. Ele se identificava com a publicação porque “era desenho, humor e renovação do jornalismo”. Aos poucos, as páginas do Pasquim o afastaram da arquitetura e o aproximaram do jornalismo, especialmente o trabalho de Henfil – cartunista mineiro que tinha um desenho rápido, humor cáustico, crítico e político. E Paulo Francis, grande intelectual da época que publicou O massacre de My Lai. O teor urgente do assunto e o poder de denúncia chamaram a atenção do universitário, que a esta altura já tinha decidido cursar jornalismo, nem chegou a concluir o curso de Arquitetura.

Antes de entrar na Famecos, em 1979, Schröder já respirava o ambiente de redação de jornal. Era cartunista da Folha da Manhã. Tinha desenhos publicados em livros e havia participado de exposições de arte. Ao ingressar no prédio 7 da PUCRS, para aprender a diagramar, não se sentiu muito à vontade. Era mais velho e mais experiente que seus colegas de aula. “Eu queria ser, profissionalmente, um jornalista”.

Na Famecos, no entanto, descobriu que podia ir além do desenho. Deu-se conta que também podia escrever e sabia fazê-lo. Deixou de lado o preconceito inicial e se apaixonou “pela ideia e pela função social do jornalismo”.

A política, no entanto, sempre o acompanhou. E para não perder o costume, começou a militar na área do jornalismo e aprendeu a

usá-lo como instrumento de luta pela democracia no país. Seis meses após seu ingresso na militância jornalística já era vice-presidente do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul. Em seguida, assumiu a presidência. Depois de se formar jornalista, ingressou na redação do Correio do Povo e começa a virar sua lente para a vida acadêmica. Em 1986, se tornou professor da PUCRS.

A rotina de viagens e aulas na PUCRS

Jornalista atuante na política pública e sindical, Celso Schroder foi eleito presidente da Fenaj em agosto.

O primeiro contato que Schröder teve com a Fenaj foi em um congresso em Santa Cata-rina, em 1992, quando assistiu à apresentação de uma tese sobre a democratização dos meios de comunicação no Brasil, feita por Daniel Herz, Bety Costa e Sérgio Murilo. “Essa tese mudou minha vida”, confessa o jornalista. A

partir daí, trabalhou com Daniel no Sindicato e construiu seu espaço dentro da entidade.

Com aproximadamente um mês de presidência, Schroder já teve que se adaptar ao ritmo de trabalho. O professor e presiden-te se divide entre as aulas e as viagens semanais. Mas não abre mão da dedicação à família, es-pecialmente ao filho mais novo, de nove anos. “Reservo um tem-po para o futebol e outras coisas que ele gosta de fazer”, conta.

COMO ENFRENTARUM MOMENTO

CRÍTICO

Schröder assumiu a entidade num momento crítico da história do jor-nalismo. No entanto, acre-dita em um processo de reafirmação da profissão:

Autoestima “Primeiro temos que reverter

esses dez anos de estragos que a descrença e o questionamento causaram. Esquecer essa ideia de que a atividade jornalística pode ser realizada por qualquer pessoa, que é uma ameaça à liberdade de expressão. Isso tudo causou um dano social muito caro. Em segundo lugar, é preciso recuperar a autoestima, a opinião pública e convencer (novamente) a sociedade de que o trabalho do jornalista é importante, sim. E então, con-solidar o jornalismo de maneira que ninguém, nem nenhuma organização pública, nunca mais questione a importância da profissão”.

O mediador“A profissão vive um mo-

mento crítico não só no Brasil, mas no mundo todo. Na Europa, por exemplo, a discussão mais urgente é de abertura e aceitação de blogs e redes sociais como jornalismo. Essa confusão do jornalismo com as plataformas de comunicação já foi resolvida aqui no Brasil, enquanto lá ainda é pauta de debates calorosos. O jornalismo não foi superado his-toricamente, com essa quantida-de infinita de informação na rede existe uma tendência à entropia e ao caos, e, mais do que nunca, precisa-se de um profissional que faça a mediação disso, que selecione, organize e edite”.

O professor divide-se entre os compromissos da Fenaj e as aulas na Famecos

Schröder assumiu a presidência da Fenaj em agosto

Fotos Samuel Maciel/ Hiper

esporte

9Porto Alegre, agosto/setembro 2010 hiperextot

O libertador colorado Nome, liderança e personalidade de general, o zagueiro

Bolívar foi um dos destaques da conquista do bi da América

Por Fernando Soares

PRIMEIRO JOGO da final da Copa Libertadores da América. O Internacional empata com o Chivas em 1 a 1 e pressiona em busca do segundo gol. Os mexicanos resis-tem como podem. Aos 31 minutos do segundo tempo, D’Alessandro lança para Índio, que escora o cruzamento para o meio da área. A bola encontra Bolívar, que mergu-lha na grama sintética do Estádio Omnilife, em Guadalajara, e acerta um cabeceio certeiro, superando o goleiro adversário. É o gol da vitória. Na semana seguinte, após novo triunfo, Bolívar ergue a taça mais desejada do continente e con-suma a libertação da América para o Internacional.

A contribuição do General, como é chamado pelos torcedores, na segunda Libertadores obtida pelo colorado não se restringe ao tento decisivo. O zagueiro exerceu um papel chave na reorganização do time após a contratação do técnico Celso Roth, em julho. “A troca de comissão técnica nos ajudou bas-tante. O Celso Roth chegou e mudou todo o discurso anterior, conseguiu implantar seu método de trabalho e nós acatamos da melhor maneira possível”, afirma Bolívar.

As mudanças realizadas por Roth foram além da troca de esque-ma tático. Com o novo comandante, Bolívar passou a ser o capitão da equipe. A posse da braçadeira, antes pertencente a Guiñazu, ratificou seu status de homem de confiança do

treinador. Em sua segunda passagem pelo

clube, Bolívar consolidou-se como a principal liderança do grupo. “Os jogadores aceitam e concor-dam com o que ele diz”, relata o vice-presidente de futebol do In-ternacional, Fernando Carvalho. O zagueiro é o porta-voz dos atletas, sendo o intermediário das relações com a direção e o técnico. Quando um atleta necessita de dispensa para tratar assuntos particulares, primeiro ele consulta Bolívar, que comunica aos superiores. Questões como o pagamento de bichos e a redução do tempo de concentração antes dos jogos também passam pelo aval do capitão.

Mesmo sendo um dos expoentes do time campeão continental em 2006, foi no retorno do futebol francês, dois anos depois, que a condição de líder foi forjada. “Ele não tinha essa liderança antes. Ele foi crescendo como jogador e pes-soa dentro do ambiente”, destaca Carvalho, que o contratou em 2003, quando era presidente.

Em um Grenal de juniores, anos antes, um lateral-direito cabeludo havia despertado a atenção do dirigente. Era Bolívar, que atuava na base do Grêmio e era o capitão do time. Na época, a diretoria do tricolor optou por não comprar seus direitos federativos e, após o térmi-no do contrato, ele rodou por clubes do interior até parar no Inter, onde se consagrou no futebol e ganhou seus principais títulos.

“Pela estrutura do clube e as

condições de trabalho proporcio-nadas, eu não me vejo jogando em outro lugar. Quando você consegue um status dentro de um clube, você não quer sair. Você rende mais onde todo mundo te admira”, garante Bolívar, que transita pelo Beira-Rio com a desenvoltura de quem está em casa. É uma figura benquista e respeitada por todos no clube, des-de funcionários a dirigentes.

A admiração é mútua. Antes dos treinos, os jogadores chegam a formar fila para cumprimentar o capitão. Ele recebe um aperto de mão, um abraço e um beijo na face de cada um. “O Bolívar é uma liderança aglutinadora. Os jogado-res gostam de estar com ele, não temem sua presença. Alguns líderes geram temeridade, principalmente nos mais jovens”, destaca Carvalho.

A fala calma e o sotaque com o “r” carregado entregam as origens interioranas do gaúcho nascido há 30 anos em Santa Cruz do Sul. Líder, mas nunca intransigente. O estilo Bolívar de comandar baseia-se no diálogo e na mobilização do grupo em torno dos objetivos propostos. As constantes brincadeiras fazem com que os mais novos fiquem ao seu redor. Durante os exercícios físicos, colegas e preparadores divertem-se ao escutarem Bolívar narrando as peripécias do filho mais velho, Tales, de 10 anos. Quando o meia Giuliano vê o capitão conce-dendo uma entrevista na porta do vestiário profissional, com o rosto rijo e falando sério, passa rindo, tentando desconcertá-lo.

O NOME DO PAI

Fabian Guedes de nascimen-to, Bolívar por obra do destino. O nome, assim como a perso-nalidade exibida em campo, é herança do pai, seu maior ídolo. “Fabian não é nome de jogador. Tu vais ser Bolívar, como o teu pai”, sentenciou um treinador, ainda na infância. Ele referia-se a Bolívar Modualdo Guedes, ex-lateral do Grêmio nos anos 70 e campeão paulista com a In-ternacional de Limeira em 1986, registrado desta forma em ho-menagem ao general Simón Bo-lívar, caudilho que lutou contra o domínio espanhol na América Latina no início do século XIX e

participou da independência de seis países.

O garoto que, no princípio da carreira, assistia às partidas dos grandes clubes na televisão e sonhava com uma oportunidade na Capital, manteve a tradição libertadora do nome. Com lugar cativo na história colorada, Bo-lívar ainda não se dá por satis-feito: “Eu não quero descansar ainda. Temos o Mundial pela frente e, ano que vem, tem mais uma Libertadores. Tudo o que aconteceu em 2010, eu preten-do retomar em 2011”, promete. Melhor não duvidar da palavra de um General.

Bolívar Abascal Oberto/Hiper

Bolívar Abascal Oberto/Hiper

Memória Grêmio

Zagueiro se prepara para o Mundial Interclubes da Fifa

Bolívar concede entrevista ao Hipertexto no vestiário do Inter

10 Porto Alegre, agosto/setembro 2010

Cultura

hiperextot

Por Cairo Fontana

UM QUARTETO DE CORDAS sobe no palco pela esquerda e toca alguns compassos de um tema tris-te. No primeiro instante de silêncio, um quinteto de sopros entra pela di-reita ao nível da plateia e responde num tom de alegria. As cordas re-plicam, os sopros debocham (musi-calmente, é claro). De repente, duas cantoras vestidas na tradição bósnia tomam seus lugares, seguidas por cinco cantores entoando um coro. Por fim, o percusionista-cantor se aproxima do centro do palco e cada timbre acha seu lugar, porém nada toma o fôlego final até Goran Bregovic pegar a guitarra e gritar:

— Putan! Aí sim, a abertura oficial do 17°

Porto Alegre Em Cena toma corpo.Nascido e criado na Bósnia, Bre-

govic assimila facilmente a mistura de vertentes complexas que existem longe da mídia. O folclore cigano e árabe, muitas vezes misturado com batidas pop e arranjos modernos, é intercalado durante as mais de duas horas e meia de espetáculo apresen-tado nas noites de 8 e 9 de setembro no Teatro do Bourbon Country.

Antes que se perceba, o primeiro e segundo números interpreta-

dos pela Weddings and Funerals Orchestra alegraram o público e um pequeno exemplo de como a reclusa música dos Bálcãs soa foi oferecida. Alternando composições que vão desde o som fúnebre a mais inebriante explosão de danças, Goran canta pouco e toca menos, mas deixa claro que é o mentor de todo instante criado no palco. A sabedoria com que intercala as vozes femininas e mascul inas juntamente com um quinteto de sopros poderoso (mais um grupo de cordas sutil) torna a experi-ência de ouvi-los numa força mais pulsante do que estamos acostumados. Através do vasto repertório do líder e compositor de 60 anos, a sensação de estar num espetáculo para se ouvir ou dançar muda a cada abertura. Enquanto o contraponto entre poesia e farra se alterna, a plateia reage fisicamente à música. Em mais de uma ocasião, o público jovem levantou, gritou e

dançou bem perto do palco as can-ções mais aliadas ao pop, enquanto em outros momentos a contempla-ção imperava.

A iniciativa do POA Em Cena em trazer espetáculos diversos não falhou na escolha de Bregovic. Pela segunda vez no Brasil (a primeira foi na edição do Em Cena de 2001), ele

bebericou uísque durante todo o show, tocou um x i l o f o n e c o m naturalidade e não deixou sua orquestra sozi-nha um minuto sequer. A escolha de instrumentos tão dissonantes quanto violino, trompete e canto lírico trouxeram um senso de rit-mo que é tradi-

ção no seu país de origem, já em solo americano se torna novo e exótico. As roupas típicas das cantoras e do quinteto de sopros chamaram a atenção diante do terno branco e crucifixo no bolso de Bregovic. Co-letes negros e sapatos rústicos nos homens e flores típicas na cabeça das mulheres (também vestidas em

trajes do Leste Europeu) ajudam a elaborar a sensação de que a cultura inerente ao trabalho da orquestra é fundamental para trazer a realidade deles à nossa. Apesar de todos os integrantes serem de origem bós-nia, a demanda de influências que o concerto abrange exige uma forte identificação com as raízes artísticas do grupo.

Assim que a canção Kalash-nikov termina de debochar do serviço militar e de seus soldados, cinco minutos de palmas e pedidos fazem a orquestra voltar ao palco aos poucos. Primeiro um dueto de flautas piccolo dá o ar de aparente simplicidade que permeia toda a imaginação de Goran. As tubas, as cantoras e a percussão se aconche-gam e o impacto contagia a ponto de um fã subir na margem do palco e pular, tentativa frustrada pelos seguranças.

Um dos momentos mais envol-ventes da noite foi quando o lado co-mediante do compositor veio à tona. Entre frases como “Nós podemos nos apresentar em funerais de um político ou de gente comum. Mas não morra. Nosso cachê é mais alto em funerais”, Bregovic deu espaço para tangos introspectivos como In A Deathcar (“Por favor, não mar-

quem com palmas agora, fico um pouco confuso com elas em músicas lentas”) e uma canção dos tempos da Primeira Guerra Mundial, onde todos eram convidados a cantar junto a única palavra inteligível: artilheria (artilharia em português).

Os músicos riem, relaxam e dançam sem timidez, o cômico combina com o ritmo assim como as bebidas fortes que são recomen-dadas aos que ouvem o gênero. A Sljivovica, uma espécie de conhaque de ameixa, batiza a primeira parte do projeto Alkohol, a ser seguido por Champagne, que será gravado ainda este ano na Europa. Entre as 14 faixas, o destaque fica com Jere-mija e Gas Gás, bastante dançantes e que inspiram o espírito soviético da comemoração. Além destas, outras harmonias apareceram, entre elas trechos da ópera Kar-men with a Happy End, a liturgia My Heart Has Become Tolerant e Margot, Memories of an Unhappy Queen, sua última obra. Suas tri-lhas sonoras para filmes e peças de teatro também foram executadas, muitas delas fruto da parceria com o cineasta bósnio Emir Kusturica, que produziu Tempo de Ciganos (1989), Arizona Dream (1992) e Underground (1995).

Goran Bregovic e sua Wedding & Funerals Band misturam uísque com música cigana, árabe e pop em show

Som dos bálcãs abre o Em Cena

“Nós podemos nos apresentar em funerais de um

político ou de gente comum. Mas não

morra. Nosso cachê é mais alto em

funerais”, brinca Bregovic

Lívia Stumpf/ Hiper

Por Natasha Centenaro

AS CORTINAS estão abertas. Os atores se preparam para entrar em cena. O teatro está iluminado. Cená-rio ou ausência deste ocupa o palco. A plateia acomoda-se nos assentos. Apagam-se as luzes. Silêncio. Pri-meiro ato. Música. Dança. Palavra. Ação. Corpo. Sincronizados em busca do que nos transforma em ho-mens, a linguagem. E foram muitas as linguagens que se manifestaram na 17.ª edição do Porto Alegre em Cena, que reuniu 70 espetáculos, entre internacionais, nacionais e locais durante 20 dias.

Prólogo: o ato de representar é tão antigo quanta a própria lin-guagem verbal. Para Aristóteles, o ser humano tem a necessidade de imitar, como forma de (re)co-nhecimento e aprendizagem, e as construções miméticas se baseiam nas ações. O ator entra no palco e compõe a tríade essencial do teatro, juntamente com o texto e o público. Desde a Grécia antiga, porém, estes três elementos são acrescidos de outros, tais como cenário, figurino, iluminação, trilha sonora, recursos que constituem a linguagem cênica.

Silêncio. A primeira frase vai ser dita.

Em Hamelin, a quarta parede é transposta e não existem mais barreiras entre o que o autor quer dizer, como o ator vai falar e a pla-téia perceber. O texto do espanhol Juan Mayorga propositalmente chama o espectador a conceber o seu espetáculo, e estabelecer os não-limites. Com exceção do Juiz Monteiro, os demais personagens transitam entre a ação, narrar os

fatos, questionar, indicar o que deveria estar presente como móveis no cenário substituídos por cadeiras e uma mesa, atrás a parede preta. Silêncio. É o próprio personagem que pronuncia a rubrica, apontando o momento de pausa. No movimen-to de acender e apagar, luminárias auxiliam nos cortes e passagens de cenas. Linguagem cênica. Olhe para o lado. O espetáculo também trouxe a discussão da linguagem verbal, essa que estamos habituados todo o dia, em família, no trabalho, perante a sociedade. Mas e quando não conseguimos nos comunicar? E quando cada um tem a sua lingua-gem, restrita aos outros?

O tema é a pedofilia. Tratado de maneiras diferentes, tanto nessa, que no título faz alusão ao Flautista de Hamelin dos Irmãos Grimm, quanto em Anatomia Frozen, que disseca três narrativas entrelaçadas: um serial killer condenado a prisão perpétua, uma médica psiquiatra que estuda a mente assassina e a mãe de uma das vítimas que vai visitá-lo na prisão. No palco, apenas dois atores, um deles interpreta as duas mulheres, enquanto o outro dá forma ao pedófilo. O estranhamento acontece de imediato, o figurino nada mais é do que um avental branco de açougueiro por cima de uma camisa e cueca samba-canção. O assassino aparece vestido com um saco plástico branco – lixo humano? Toucas de látex na cabeça, botas de abatedouros nos pés, máscara cirúrgica – prontos para assepsia.

O texto é deixado de lado para privilegiar a ação em As Troianas – Vozes da Guerra. A tragédia grega de Eurípedes encontra-se com a

situação de flagelo e sofrimento das mulheres judias nos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. Quando o pertur-bador som do vagão de trem alcança o palco, o público se depara com a submissão de Hécuba, Cassandra e as mulheres que cantam para se expressar. Helena é a única que se dirige com palavras a Menelau, agora um comandante do exército nazista. Sem entender o que se quer dizer – os homens falam, mas em alemão e sem legendas – o drama se intensifica nos rostos desampa-rados.

Outra tragédia, esta de Sófocles, presente no nome Antigonas, tam-bém surge em outro contexto, na verdade, em quatro situações que colocam as irmãs Antígona e Ismê-nia na pele de diferentes mulheres, revelando a condição feminina. No cenário, um objeto desencadeia a mudança na narrativa – é uma cama de massagem, um banco para sentar-se, um barco navegan-do, uma maca de consultório. Do mesmo modo, em Na solidão dos campos de algodão, a ação está cen-trada em cinco imensas gangorras fixadas lado a lado e que obrigam os dois personagens, o cliente e o vendedor, a movimentarem-se num jogo em que um está em cima e o outro embaixo. A peça foi encenada no Cais do Porto e para o público se reservou o espaço de duas arquibancadas em volta. O que atrapalhou a compreensão dos diálogos consistentes, que eram legítimos solilóquios, foi a utilização pelos atores de microfones.

O Porto Alegre em Cena apre-senta algumas espécies peculiares

de linguagem. No início, corpos se amontoam em filas para garantir os ingressos. Durante, os mesmos permanecem nas filas para assegu-rar seus lugares. Depois, relaxados, os corpos tendem a manterem-se juntos para discutir, compartilhar impressões do que se viu, do que se pretende ver, em seguida que aca-bar aqui e correr acolá para o pró-ximo. Linguagens que independem de língua, pois não existe um idioma oficial, com ou sem legenda, em espanhol ou português, alemão ou francês, inclusive em lituano, o pú-blico comparece e lota as salas, seja palco italiano, arena, na rua, ou de improviso. Nesse roteiro contudo, é preciso ressaltar em Coro, ainda falta a cultura do bom espectador, aquele que desliga o celular e todos os aparelhos barulhentos antes de começar. Ainda mais, podem fazer careta para o vizinho que não para de tossir, mexer em bolsa ou abrir

pacotes com guloseimas e comestí-veis. Assim sendo, aplausos no final.

A pluralidade de linguagens acontece em ressonância com a platéia, eis o ponto forte. É possível escolher entre linguagem corporal, movimento e música em harmonia com as apresentações de dança; linguagem sonora e visual com os shows de música; linguagem ver-bal e cênica nas peças. Desta vez, a lírica se fez presente com maestria, se pensarmos as representantes da poesia Ana Cristina César e Hilda Hist. A montagem que tinha Paulo José como timoneiro e Ana Kutner como a poeta brilhante que preferiu navegar em outras águas, em Um navio no espaço ou Ana Cristina César, foi a síntese das linguagens que fizeram parte deste festival, desde o verbo, o silêncio, a ação, a imagem, a música, o movimento... o espetáculo. Fecham-se as cortinas. Até o ano que vem.

11Porto Alegre, agosto/setembro 2010 hiperextot

Lobão volta a criticar ‘jabá’ cobrado no rádio

As linguagens no palco Da palavra ao silêncio, do corpo à ação

Guilherme Santos/ Hiper

A força cênica em Los Padres

Por Caroline Michaelsen

Ora rebelde sem causa, ora argumentador ímpar. Lobão alcança os contrastes de ponta a ponta, e seus fãs o acompanham. No dia 1º de setembro, o Opinião abrigou um de seus públi-cos mais abrangentes, composto por aqueles de cabelo já grisalhos e por outros moicanos que não viram o primeiro disco do cantor ser lançado em 1982. Para uma plateia tão distinta, repertório idem. Lobão usou e abusou da autonomia para a escolha das canções iniciais, como “O Jogo Não Valeu” e “Canos Silenciosos”, mas a segunda parte do show foi um banquete para os presentes mais tietes. Foram emendadas as músicas “Vida

Louca Vida” e “Me Chama”, seus grandes hits. O show foi um passeio pela sua discografia, junto à banda formada por Duda Lima (baixo), Armando Jr (bateria) e André Caccia Bava (guitarra). Em entrevista para o Hipertexto, Lobão falou sobre a indústria fonográfica brasileira e sobre seu disco acústico.

Hipertexto: Antes do bis, foi tocada “Rádio Blá” numa versão um pouco mais ácida (a letra foi alterada para “Eu ligo o rádio e jabá, jabá, jabá”, dinheiro pago ilegalmente às rádios para que toquem determinadas músicas). Você tentou combater esse suborno por muito tempo. Há quantas anda essa batalha?

Lobão: Sabia que ainda tem gente que não

acredita nisso? Ficam falando que eu tô viajando, que tudo não passa de um grande delírio desse grande maluco que sou. Eu revido questionan-do: “como uma rádio se sustenta tocando horas de músicas sem propaganda? E como ela tem coragem de repetir uma música dez vezes por dia?”. O jabá não prejudica só a classe artística, mas também a cultura nacional, além de atrofiar a publicidade. Então, a meu pedido, o deputado Fernando Ferro fez a lei da criminalização do jabá em 2007, mas nunca teve ninguém pra fazer pres-são. Nunca cobraram tanto jabá quanto agora, prova disso é que só tocam emo e sertanejo. As pessoas têm medo de radioatividade, monóxido de carbono e não sei mais o quê.Lobão volta às guitarras

Bruno Todeschini/ Hiper

Porto Alegre, agosto/setembro 201012 ponto final hipertexto

Patrícia Dyonísio/Arquivo

Por Rafael Marantes

JOVENS DE TODAS AS IDADES estão formando um novo grupo. Depois dos hip-pies, punks, góticos, metaleiros, emos, entre outros, surgem agora os puros. Indo contra a atual corrente de sexo sem compromisso, os puros prometem se casar virgens. Mas a pureza não está em apenas guardar-se para a pessoa certa, é um amplo processo de mudan-ça, começando pelos pensamentos, a maneira como estes veem a sociedade que os cerca. Simbolizando o compromisso assumido com Deus, usam um anel onde se lê 1ª Ts 4:3-4, em referência ao trecho bíblico que trata da pureza, mas jovens dizem que o anel é apenas um objeto para que se lembrem da promessa.

Nos Estados Unidos, a ideia de pureza ganhou uma grande mídia quando as es-trelas da Disney, como os Jonas Brothers, disseram fazer parte do programa True Love Waits (Verdadeiro Amor Espera), mantido pelo grupo Life Way, ligado à Igreja Batista americana. Outros famosos também esperam a pessoa certa, como as estrelas da Disney, Selena Gomez e Demi Lovato, e a modelo da Victoria’s Secret Adriana Lima. Os fãs brasi-leiros apoiam, mas poucos seguem os ídolos.

O pastor Leandro Devincenzi da Igreja Batista Mont’Serrat, que também é um puro e um dos coordenadores do grupo Amontoado, diz que não é ruim se alguém resolver fazer parte do grupo por moda, mas é preciso que esta pessoa entenda o por quê. E para au-xiliar os jovens que querem levar uma vida mais pura, eles realizam um retiro chamado Atitude 434. Neste acampamento fala-se sobre o que é e como levar uma vida pura. É

lá também que recebem o anel.Ao voltar para o que consideram uma

despudorada sociedade, os novos puros en-contram apoio e ajuda no grupo Amontoado, onde eles falam sobre suas angústias, dúvidas e dificuldades com relação ao estilo vida que escolheram ter. Para auxiliá-los na missão de permanecerem virgens, estes jovens também contam com um mentor, uma pessoa mais velha em quem confiam e que os aconselha, mas sem controlá-los. “O nosso lema é: sozi-nho, não dá” diz o pastor André Castanheiras.

O dia-a-dia dos puros acaba sendo um pouco diferente do que se espera de pessoas entre 13 e 23 anos. Eles evitam assistir à te-levisão e ouvir rádio, preferindo ler ou baixar músicas que os agrade mais. Eles também evitam ir a boates, optando por fazer festas na casa de amigos. E quando namoram, pla-nejam casamento.

Nos Estados Unidos, o ideal de pureza toma grandes proporções. Existem um amplo mercado de objetos com o lema True Love Waits, incluindo aplicativo para iPhone, pro-gramas de rádio e bailes. No Brasil, em geral, e em Porto Alegre, em particular, os grupos de puros ainda não têm tanta força, mas não acham que seja impossível que esta ideia vire uma nova revolução sexual.

Já a antropóloga Valéria Aydos vê a situa-ção de maneira diferente. Ela crê que não há e não haverá uma revolução de pureza. “Houve uma grande liberação sexual nos últimos tem-pos. As pessoas começaram a se apaixonar pelo indivíduo e não por rótulos de hétero, homo, bi, pan, ou transexual.” E completa: muitos podem até entrar nessa por moda, mas não será nada que irá mudar o mundo.

Puros pregam vida sem sexo

Puros pregam uma juventude sem sexo

A ideia é esperar o amor verdadeiro

A vida em 140 caracteresPor Suzy Scarton

Ao sermos embalados pelo andar nada suave do T9, do T1 ou de qualquer outro T, nossa mente viaja. Vai a muitos lugares em poucos segundos, e em uma tarde qualquer entre tantas outras, tão ordinária quanto ou até mais, fui despertada dos meus deva-neios por uma voz desolada que falava ao celular, no lugar em minha frente, contando a alguém seu grande problema daquele dia – ela havia perdido sua senha do Twitter. Simplesmente não lembrava, não conseguia pensar em nada. A senha havia desaparecido do seu cérebro, como se o próprio Dom Cobb e sua equipe de ladrões da mente o tivessem vasculhado a procura dela.

O desespero da menina era tão con-tagiante que eu esqueci meus próprios pensamentos e fui invadida por uma dú-vida terrível. Por que, afinal, o Twitter faz

tanto sucesso? E pergunto, desviando-me do óbvio – que é uma ótima fonte de infor-mações instantâneas ou um lugar gratuito para divulgar serviços. Não, quanto a isso, estamos todos esclarecidos. Espanta-me o porquê de nós, pessoas comuns, reles mor-tais, completamente anônimos, sentirmos necessidade de expor nossos pensamentos e indignações – principalmente indigna-ções – e compartilhá-los com outras pessoas igualmente comuns. E, muitas vezes, com pessoas que não conhecemos.

Imagine o seguinte cenário. Muitas pes-soas reunidas em uma festa. Festinha, dessas feitas para conversar e esfriar a cabeça em meio a comes e bebes. Enquanto todos con-fraternizam, há aquele ser que não para de mexer no celular. “Esse sim vai ser alguém na vida”, os outros pensam. “Não se desliga do trabalho nem durante a festa. Que exemplo!” Eis que o pressuposto empregado do mês

está twittando sobre a festa. Esfregando na cara de seus queridos followers como ele é legal por estar em uma festa tão divertida. O motivo pelo qual alguém discorreria sobre a festa antes de ela terminar é um pouco nebuloso. Talvez tenhamos pressa de viver, pressa de ter as memórias registradas, pressa de sermos lidos e notados. Ou talvez a festa esteja realmente um pouco entediante e tweetar parece ser uma ideia mais atraente naquele momento.

Outra finalidade para o Twitter é recla-mar. Muitas pessoas insatisfeitas se iludem pensando que algo vai mudar por reclama-rem que está muito frio, ou muito calor, ou que o ônibus está muito lotado – os twitteiros mais dedicados não esquecem seus 140 ca-racteres nem dentro do ônibus.

O Twitter é apenas mais uma maneira de disfarçar a solidão de um mundo globalizado e cada vez mais interligado e, ao mesmo

tempo, cada vez mais excludente. Contamos aos outros como estamos nos

divertindo para que ninguém possa ter a ideia de que sofremos, seja por tédio, por tristeza genuína ou por estarmos em casa em um sábado à noite. Temos a necessidade de nos incluirmos em um mundo pretensiosa-mente hedonista. Mesmo que talvez nossos apelos fiquem perdidos em meio a tantos outros, mesmo que quem nos segue apenas passe os olhos por aquilo que postamos. Trata-se de um grito silencioso em meio a tantos outros. Reclamamos porque alguém ouvirá. E para esse efeito, nada melhor que o Twitter, que valoriza o agora, interessa-se apenas pelo o que a pessoa faz naquele exato momento, sem se apegar a detalhes. Deixa o passado ser o passado e o futuro permanecer a incógnita com a qual estamos acostuma-dos. Torna público o conto de uma vida brevemente resumida em 140 caracteres.

Crônica

Jovens do grupo têm a ajuda de pastores para permanecerem virgens

Felipe Dalla Valle/ Hiper