HISTÓRIA DA ÁFRICA ATLÂNTICA, OS AFRICANOS E ...· 691 HISTÓRIA DA ÁFRICA ATLÂNTICA, OS AFRICANOS

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    HISTRIA DA FRICA ATLNTICA, OS AFRICANOS E AFRODESCENDENTES NO BRASIL

    Maria Cecilia Barreto Amorim Pilla Wilson Maske

    INTRODUO

    A Lei Federal n. 10.639/2003 alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educao Nacional (LDB Lei n. 9.394/96) e tornou obrigatrio o estudo sobre a cultura e Histria da frica, dos africanos e afrodescendentes no Brasil nas instituies pblicas e privadas de ensino. O principal intuito dessa Lei foi estabelecer formas de combater o racismo. Diante dessa tarefa, os meios escolares foram tomados por muitas dvidas e inquietaes. O que sabemos sobre a frica? O que sabemos sobre a histria do negro e dos afrodescendentes no Brasil? Por que estudar tais temticas?

    Pesquisadores e educadores passaram ento a pensar estratgias de estudos para que muitos dos questionamentos sobre esses temas pudessem ser abordados e colocados em prtica. Este artigo que ora apresentado representa uma partcula da busca em trazer ferramentas e suscitar novas abordagens para o estudo da Histria da frica, dos africanos e dos afrodescendentes no Brasil, especialmente em seus aspectos polticos, sociais e culturais. Nesse sentido tambm possvel reconhecer essa temtica relacionada a outros temas emergentes no momento, principalmente a sustentabilidade de maneira abrangente, ou seja, sustentabilidade social, econmica, cultural, poltica, ambiental e espacial.

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    A sala de aula no pode ser o lugar no qual as desigualdades sociais e raciais sejam perpetuadas. Os professores tm a responsabilidade de romper com os parmetros sociais estabelecidos desde o perodo colonial e que podem ser sentidos ainda claramente no incio do sculo XXI. Pois, as prticas de excluso, arraigadas na sociedade podem marcar a subjetividade de alunos de diferentes estratos sociais. Alm disso, estas prticas podem ser reforadas em vrios outros ambientes sociais, alm da prpria instituio escolar.

    Cada dia os meios de comunicao, apresentam novos episdios sobre discriminao racial que ocorrem no pas. A par disso, qualquer um de ns poderia relatar um evento que ocorreu consigo ou que lhe fora relatado por outrem.

    A prtica da discriminao racial faz parte do cotidiano e, muitas vezes, no ambiente escolar que podemos verificar essas ocorrncias. De qualquer forma, a discriminao racial decorrncia, como a maior parte dos preconceitos, de um ignorar e de uma falta de conhecimento acerca das condies que fundamentam aquele encontro com o diferente e o desconhecido, que muitas vezes o excludo como no caso do negro, da mulher, do homossexual, entre outros.

    A escola em seu papel de formadora para a vivncia na sociedade e para a prtica plena da cidadania poder ajudar na adoo de posturas polticas contra a discriminao das minorias tnico-raciais e sociais, pois somente assim poder ser oferecida uma educao verdadeiramente de qualidade para toda a sociedade brasileira.

    A ideia de incluso, no Brasil, da Histria e da Cultura da frica, dos afrodescendentes e africanos, no visa a uma substituio de uma viso eurocntrica por uma afrocntrica, mas sim ampliar a base de conhecimentos, que permitam identificar e valorizar o papel que as minorias, no caso a africana, tiveram na formao da sociedade brasileira. Somente assim o preconceito e a discriminao histricas no Brasil podero ser superados.

    A partir dessa premissa, escolheu-se estruturar este estudo da seguinte forma; num primeiro momento, apresentar a legislao brasileira sobre o tema, abordando tambm sua urgncia e necessidade de aplic-la; num segundo momento, partir para uma viagem ao grande continente africano; e, por fim, chegar ao Brasil para conhecer um pouco mais sobre a chegada dos primeiros africanos no nosso pas, e o regime de escravido a que foram submetidos.

    A LEI N. 10.639/03: UM MARCO HISTRICO

    A Lei n. 10.639/2003 alterou a Lei de Diretrizes e Bases (LDB 9.394 / 1996), que estabelece as diretrizes e bases da educao nacional, para incluir no currculo oficial da rede de

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    ensino a obrigatoriedade da temtica Histria e Cultura Afro-Brasileira e d outras providncias, como incluir o dia 20 de novembro como Dia Nacional da Conscincia Negra; prev expressamente no caput do artigo 26-A que Nos estabelecimentos de ensino fundamental e mdio, oficiais e particulares, torna-se obrigatrio o ensino sobre Histria e Cultura Afro-Brasileira. O pargrafo primeiro afirma que: O contedo programtico a que se refere o caput deste artigo incluir o estudo da Histria da frica e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formao da sociedade nacional, resgatando a contribuio do povo negro nas reas social, econmica e poltica, pertinentes Histria do Brasil. No segundo pargrafo consta que: Os contedos referentes Histria e Cultura Afro-Brasileira sero ministrados no mbito de todo o currculo escolar, em especial nas reas de Educao Artstica e de Literatura e Histria Brasileiras.

    Na sequncia, a Lei n. 10.639/2003, por meio da Resoluo CNE/CP 1/2004, publicada no Dirio Oficial em 22/06 do mesmo ano, foram institudas as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educao das Relaes tnico-raciais e para o ensino da Histria e Cultura Afro-Brasileira e Africana. As Diretrizes devem ser desenvolvidas por instituies em todos os nveis de ensino, tanto pblicas como privadas, tornando obrigatrio o ensino sobre a histria e cultura afro-brasileira e africana em todo o territrio nacional.

    Visando ao cumprimento pleno do Art. 205 da Constituio Federal de 1988, que ressalta o dever de o Estado garantir indistintamente, por meio da educao, iguais direitos para o pleno desenvolvimento de todos e de cada um, como pessoa, cidado ou profissional, a Lei n. 10.639/2003 e as Diretrizes Nacionais sobre o tema, pretendem proporcionar meios para a superao dos resultados histricos nefastos oriundos do regime escravista. Querem tambm essas medidas que se concretizem aes para o combate ao racismo e a toda sorte de discriminaes.

    importante frisar que a Lei n. 10.639/2003 e todos os instrumentos legais que a ela se referem, reforam e proporcionam meios para o seu cumprimento, no tem somente o intuito de combater a discriminao, mas, devem ser considerados tambm como medidas formais afirmativas, no sentido de que reconhecem a escola como lugar da formao de cidados e, afirmam a relevncia de a escola promover a necessria valorizao das matrizes culturais que fizeram do Brasil o pas rico, mltiplo e plural que somos. (Plano Nacional de Implementao das diretrizes curriculares nacionais para educao das relaes tnico-raciais e para o ensino da histria e cultura afro-brasileira e africana. MEC 2009).

    Cabe tambm destacar a Lei n. 11.645/2008 que, nesse contexto de viabilizaes para a aplicabilidade da legislao, tornou obrigatrio o ensino da histria e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas, pblicas e particulares, do Ensino Fundamental e Mdio.

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    UMA VIAGEM AO CONTINENTE AFRICANO

    O Continente Africano, apesar de sua antiguidade de povoamento, e de ter sido base ou parte de civilizaes antigas, como o Egito, Cartago ou Roma, um continente cuja histria ainda demanda pesquisas bsicas, em especial na regio subsaariana. No entanto, h um avano bastante considervel nos tempos atuais acerca da evoluo e da construo da trajetria histrica do homem na frica.

    Para tal, faz-se necessrio construir uma noo das condies geogrficas gerais do Continente Africano, que o terceiro maior continente1, pois possui uma rea de cerca de 30 milhes de quilmetros quadrados, 20,3% da terra firme do planeta, e com populao de 1 bilho de habitantes em 2005, alm de possuir 54 pases independentes.

    A frica pode ser dividida de duas formas: a) Critrio regional que divide a frica de acordo com as caractersticas regionais: frica

    Setentrional, frica Ocidental, frica Oriental, frica Central e frica Meridional.b) Critrios tnicos e culturais que divide a frica em frica Branca ou setentrional

    (formada por oito pases da frica do Norte mais a Mauritnia e o Saara Ocidental); e a frica Negra ou subsaariana, composta pelos outros 44 pases.

    Fonte: www.informetop.com Acesso em: 28/02/2013

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    Os africanos que moram ao norte do Saara so predominantemente brancos, e os que vivem no Sul so negros. Mas tanto ao Sul quanto ao Norte os povos so bastante diferentes entre si. Segundo Costa e Silva (2008, p.16), uma amara da Etipia to distinto de um ambundo de Angola, quanto, na Europa, um escandinavo de um andaluz. E um jalofo do Senegal diferente de um xona de Zimbabu como um russo de um siciliano. E ainda na regio meridional africana h os bosqumanos e os hotentotes, muito diferentes de outros africanos.

    O maior pas da frica a Arglia e o menor Seichelles. As religies principais so: a islmica, predominante da chamada frica Branca e nos pases da frica Subsaariana prximos ao deserto do Saara; a crist, distribuda em grandes grupos esparsos por todo o continente ao Sul do Saara; e o animismo, composto por religies politestas tradicionais espalhadas por todo o continente.

    Em termos lingusticos, a frica pode ser caracterizada por trs reas; aquelas onde predomina o rabe; as regies onde predominam as lnguas africanas; e as regies nas quais predominam as lnguas introduzidas pelos colonizadores europeus, como o ingls, o francs, o portugus e o africner2.

    Apesar de vrios conflitos polticos que assolaram e assolam o continente africano ao longo de sua histria, atualmente grande parte de seus pases possui governos relativamente democrticos com eleies regulares, ainda que muitas vezes haja suspeitas em relao sua idoneidade. Os pases em sua maioria so repblicas presidencialistas, mas existem alguns que adotam o parlamentarismo, assim como permanecem ainda algumas pequenas e poucas monarquias3.

    Contudo, importante ressaltar q