Histórias de Amor Liquido

  • View
    226

  • Download
    4

Embed Size (px)

DESCRIPTION

Texto de Walter Daguerre

Text of Histórias de Amor Liquido

  • HISTRIAS DE AMOR LQUIDO

    Texto Teatral de Walter Daguerre

  • NOVASDRAMATURGIAS.COM

    HISTRIAS DE AMOR LQUIDO

    Texto Teatral de Walter Daguerre

    4 tratamento Julho de 2010

    BREVE NOTA DO AUTOR Este texto nasceu de uma inspirao: a leitura de Amor Lquido sobre a fragilidade dos laos humanos, de Zygmunt Bauman. Mas Histrias de Amor Lquido no uma adaptao do livro desse respeitado e cada vez mais admirado pensador polons. A rea de atuao de Bauman a sociologia, e seu livro se inscreve nesse gnero. Esta pea uma reunio de trs histrias originais, de fico, que buscam formar um panorama contemporneo sobre afetos humanos.

    O que de Zygmunt Bauman permanece neste texto teatral , em primeiro lugar, a explorao de um conceito: a idia de lquido, de liquefao. Para Bauman, o mundo ps-moderno, globalizado, marcado por relaes que se estabelecem com extraordinria fluidez, que se movem e escorrem sem muitos obstculos, marcadas pela ausncia de peso, em constante e frentico movimento. E essas caractersticas sero encontradas, tambm, nos relacionamentos amorosos.

    As histrias deste texto Rua Sem Sada, A Corretora e A Casa da Ponte possuem ao todo 13 personagens, mas foram escritas para serem encenadas por apenas cinco atores. Elas possuem outra caracterstica importante: esto fragmentadas ao longo do texto. Essa dinmica foi proposta com o objetivo de aproximar a forma do contedo, porque a liquefao das relaes contemporneas estar exposta tambm no fato de uma histria se misturar com a outra, obrigando os atores que dobram papis a passarem de um personagem para outro com extrema rapidez e desenvoltura. Rapidez e desenvoltura estas que parecem igualmente caracterizar os relacionamentos amorosos em nossos dias.

    Walter Daguerre

  • NOVASESCRITASCENICAS.COM

    RUA SEM SADA Personagens: Graa (ATRIZ 1) Z Carlos (ATOR 1 ) Marcus (ATOR 2 ) Teresa (ATRIZ 2) Raquel (ATRIZ 3) A CORRETORA Personagens: Antonio (ATOR 1 ) Maritza (ATRIZ 2) Rudson (ATOR 2 ) Michele (ATRIZ 3) A CASA DA PONTE Personagens: Ricardo (ATOR 2 ) Sofia (ATRIZ 1) Pai (ATOR 1 ) Me (ATRIZ 2)

  • NOVASESCRITASCENICAS.COM

    CENA 1

    Madrugada. Na esquina de uma rua sem sada encontra-se uma cabine, dessas usadas como abrigo para vigias.

    Z Carlos, 50 anos, caminha vagarosamente vestido de jeans, camisa branca e um colete preto em cuja parte de trs est escrito Apoio. Z Carlos carrega um radinho de pilha colado orelha. Do rdio mal sintonizado sai uma msica romntica, americana, dos anos 80. O rdio falha. Z Carlos tenta sintoniz-lo, at que desiste e o desliga. nesse momento que ele ouve um choro de mulher, baixinho, vindo de dentro da cabine. Z Carlos tira uma lanterna do bolso de trs da cala e a aponta para a cabine. O choro desaparece, engolido. Graa, 30 anos, vestida como se estive acabado de desembarcar dos anos 50, sai de dentro da cabine, lentamente e de cabea baixa. Ela funga sem parar. Z Carlos guarda a lanterna e tira do bolso um leno. Oferece o leno Graa. Ela pega o leno, enxuga as lgrimas e limpa o nariz. O leno se mancha de sangue. Graa fica constrangida. Guarda o leno na bolsa. Ele permanece ao seu lado, simplesmente olhando pra ela. Graa recomea a chorar. Ela tira o leno da bolsa e o recoloca no nariz. Z Carlos vai at a cabine, pega sua cadeira e a coloca do lado de fora. Ele faz com que Graa se sente com a cabea pra cima. Ele volta cabine e pega uma garrafa trmica. Ele tira a tampa da garrafa e despeja caf ali mesmo. Bebe num gole s. Olha para Graa. Sai da cabine com a garrafa trmica na mo. Oferece o caf a Graa. Enquanto sua mo permanece esticada pode-se ver a fumaa que sai do lquido. Graa guarda novamente o leno na bolsa. Olha para a tampa cheia de caf e para Z Carlos antes de aceitar a bebida. Ela bebe em pequenos goles, porque o caf est bastante quente. Ele s a observa.

    GRAA

  • NOVASESCRITASCENICAS.COM

    To cansada...

    Graa termina de beber e estica a mo devolvendo a tampa da garrafa trmica. Z Carlos vai por mais caf na tampa, mas ela faz um gesto com a mo dizendo no querer mais. Ele despeja mais caf na tampa e bebe.

    GRAA O leno. Z CARLOS No importa. GRAA Lavo e devolvo. Z CARLOS Trabalho todas noites nessa rua. GRAA Talvez eu s possa vir no sbado, ou no domingo. Z CARLOS Todas as noites.

    Graa se levanta. Sorri nervosa para Z Carlos. Caminha em direo ao lado oposto da cabine.

    Z CARLOS Essa rua sem sada.

    Graa pra. Olha para Z Carlos. Caminha na direo contrria. Pra. GRAA Tem uma garrafa dgua na cabine. Gelada. Pode ficar.

    Z Carlos a acompanha com o olhar at que ela saia definitivamente. Ento, pe mais caf na tampa e bebe.

    CENA 2

    Maritza, 40 anos, est em seu home office, sentada em frente ao laptop, vestindo apenas um roupo de seda. Ela abre um dos inmeros frascos que tem sobre a mesa

  • NOVASESCRITASCENICAS.COM

    e toma um comprimido com goles de ch de ervas. Antonio, 45 anos, levanta-se no meio da madrugada. Olha o corpo da mulher que dorme em sua cama. Acende um cigarro sentado na ponta da cama. Cata seu celular e faz uma ligao.

    MARITZA Sim. ANTONIO Te acordei? MARITZA So quatro e meia da manh de uma tera-feira. ANTONIO Ligo depois. MARITZA Eu estava acordada. ANTONIO Acompanhada? MARITZA No costumo dividir minha vida pessoal com meus clientes. ANTONIO Eu s queria... MARITZA Nesse momento eu estou na companhia de pessoas do mundo todo, acompanhando o movimento das bolsas asiticas. o que eu chamo de long after market. ANTONIO Trabalhando s quatro e meio da manh? MARITZA Me ligando s quatro e meia da manh? ANTONIO Nem sei por onde comear.

  • NOVASESCRITASCENICAS.COM

    MARITZA Pelo comeo. ANTONIO a Viviane. MARITZA Como est a relao de vocs? ANTONIO Muito bem mesmo. MARITZA Ento? ANTONIO Esse o problema. MARITZA Entendo. Onde ela est agora? ANTONIO Aqui no quarto. MARITZA Quer me ligar de um outro cmodo? ANTONIO Depois que ela toma um Diazepan dorme profundamente at bem tarde. Ainda mais depois de trepar. MARITZA Vocs esto num timo momento da relao, tiveram uma intensa noite de amor e ela ainda consegue dormir com um simples Diazepan. Foi por isso que voc me procurou? No era melhor voc ligar para sua analista? ANTONIO Ela me diria o oposto do que eu acho que voc vai me dizer. MARITZA Provavelmente. ANTONIO

  • NOVASESCRITASCENICAS.COM

    A Viviane, ela... Ela est muito envolvida na nossa relao. MARITZA Esse tipo de coisa acontece. ANTONIO Essa noite ela falou que quer ser me. Ela quer ter um filho meu. MARITZA As pessoas dizem coisas muito estranhas entre um orgasmo e outro. ANTONIO Ela quer largar a carreira de modelo pra ser me me do meu filho. MARITZA Parece srio. ANTONIO Eu sei que srio. MARITZA Um instante. Deixa eu acessar sua ficha.

    Maritza abre um arquivo do computador. MARITZA E se eu te disser que nesse momento um filho pode representar uma alavancagem para os seus negcios? ANTONIO Alavancagem? MARITZA Um financial leverage. uma operao de risco, mas se utilizada na hora certa promove altos ganhos. Para alguns empreendimentos um filho a prpria salvao dos negcios. Mesmo que Viviane desista agora da carreira, seu patrimnio lquido se manter acima dos oito dgitos, em Euros. ANTONIO No estou preocupado com dinheiro. MARITZA S estou eliminando as possibilidades de perdas. Como voc ainda no pai, um filho agora

  • NOVASESCRITASCENICAS.COM

    um ativo que renderia excelente retorno de mdia, principalmente no nascimento do menino melhor que seja menino, voc sabe. E esse retorno autossustentvel, j que uma simples ida ao cinema pode render uma foto numa revista, ou at um destaque no caderno de cultura de um grande jornal. ANTONIO , eu sei. MARITZA Sem contar que um filho com uma modelo internacional pode ser uma janela pra voc se expandir nos mercados onde suas empresas ainda no tm penetrao. ANTONIO Eu sei de tudo isso. MARITZA Ento qual o problema? Um filho s um filho, Antonio. o fruto de uma aquisio horizontal. Voc vai poder tocar seus negcios normalmente mesmo depois que voc e Viviane se separarem. As suas futuras obrigaes de pai desquitado podem at gerar ganhos ainda no previstos, se voc quiser eu posso fazer uma prospeco desses ganhos, s preciso que voc me d uma ou duas semanas pra analisar... ANTONIO O problema, Maritza, que eu no penso em ser um pai separado.

    Maritza toma um gole de seu ch. MARITZA Se apaixonar faz parte do jogo, afinal somos apenas seres humanos. por isso que nos meus contratos existe aquela clusula que me exime de toda e qualquer responsabilidade se por um acaso o cliente se apaixona. Eu o felicito, voc tirou a sorte grande. Assim que amanhecer, eu peo pro meu advogado lhe encaminhar uma resciso contratual. Evidentemente que h uma multa, mas nada que se compare aos ganhos que voc obteve enquanto fui sua corretora. ANTONIO Eu no quero rescindir contrato nenhum! MARITZA Ento...? ANTONIO Eu no quero sair do mercado. por isso que eu preciso da sua ajuda e no da ajuda da minha analista.

  • NOVASESCRITASCENICAS.COM

    MARITZA No h muito o que dizer. Me parece que est bem evidente o que preciso ser feito.

    Pausa. ANTONIO Viviane? MARITZA Viviane. CENA 3

    Uma velha casa de veraneio que fica s margens de um lago. Porque a casa est fechada h muitos anos, h um aspecto de abandono, muita umidade, pouca luz e mveis cobertos com lenis brancos. fim de tarde quando Ricardo e Sofia, ambos com 33 anos, entram na casa de mochilas. Eles tiram as mochilas das costas e olham tudo ao redor.

    SOFIA A Casa da Ponte! RICARDO A Casa da Ponte.

    Ricardo e Sofia vo at a mesa, que est coberta por um lenol branco. Eles retiram o lenol e abr