Huberman , Palais de Tokyo, Paris, 2014 em tramas esgar§ .176 ArtCultura, Uberl¢ndia, v. 16, n

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  • Osvaldo Fontes FilhoDoutor em Filosofia pela Universidade de So Paulo (USP). Professor do Departamento de Histria da Arte da Escola de Filosofia, Letras e Cincias Humanas e do Mestrado em Histria da Arte da Universidade Federal de So Paulo (Unifesp). Autor do livro Merleau-Ponty na trama da experincia sensvel. So Paulo: Fap-Unifesp, 2012. osvaldo.fontes@unifesp.br

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    4.Vista da exposio Nouvelle Histoires de fantmes (curadoria de Georges Didi-Huberman), Palais de Tokyo, Paris, 2014

  • ArtCultura, Uberlndia, v. 16, n. 28, p. 175-193, jan-jun. 2014176

    Filosofia e Histria da Arte em tramas esgaradasPhilosophy and Art History in thinned out weft

    Osvaldo Fontes Filho

    resumoA historiografia de arte tem sido nos ltimos tempos objeto de revises metodolgicas de peso que repensam o estatuto da Histria como narrativa, descrio ou anlise estrutural de um fenmeno. Este estudo tece algumas ponderaes sobre o papel da Filosofia no mbito institucional e intelectual em que uma Histria Visual, afeita s composies heterclitas das obras de arte contemporneas, solicita a interdisciplinaridade como modo preferencial de integrao de contextos culturais antagnicos, anacrnicos ou heterotpicos.Na infindvel trama dos enunciados voltados aos fatos da vi-sualidade, o pensamento especulativo a sobretudo aquele de extrao fran-cesa, com Georges Didi-Huberman e Jacques Rancire, entre outros pare-ce particularmente propenso a assumir questes de metodologia historiogrfi-ca suscitadas por uma arte conectada ao bazar contemporneo do grande continuum das formas metamrficas.palavras-chave: histria da arte, filo-sofia, interdisciplinaridade.

    abstractHistoriography of art has lately undergone considerable methodological revisions in order to rethink the status of history as nar-rative, description or structural analysis of phenomena. This text reflects on the role of philosophy in the institutional and intel-lectual context in which a Visual History, accustomed to heteroclitic compositions of contemporary art, evokes interdisciplina-rity as its preferred mode of integration of antagonistic, anachronistic or heterotopian cultural contexts. Among endless theories concerning visuality, speculative thought especially French, with Georges Didi-Huberman and Jacques Rancire, among others seems particularly prone to tackle issues of historiographical methodology raised by a by an art connected to contem-porary continuum of metamorphic forms.

    keywords: art history, philosophy, inter-disciplinarity

    Dobra contra dobra: a tarefa da filosofia, a mesma da arte, seria hoje a de propor ao esprito outra dobradura, de lhe impor outras novas e antagnicas, para que ao final seu territrio esteja povoado de mil circuitos, redes, pregas, rachaduras, fendas, sulcos, caminhos fundos, plissados de toda espcie. assim que se pode imaginar uma filosofia que saberia tirar vantagem da elasticidade dos conceitos e noes de que faz uso e de sua natureza espon-josa, e que se daria por objeto constituir [...] certo nmero de constelaes no interior das quais tais dentre esses conceitos no assumiriam sentido

  • ArtCultura, Uberlndia, v. 16, n. 28, p. 175-193, jan-jun. 2014 177

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    osseno por referncia totalidade dos outros a natureza, por exemplo,

    em relao cultura, mas tambm em relao arte, e filosofia: e, por sua vez, a filosofia em relao arte, natureza, cultura , todo o trabalho do esprito desejoso de reflexo sendo o de mensurar, atravs de uma srie de fices e variaes, a resistncia prpria de cada um desses conceitos, sua necessidade, sua elasticidade e sua capacidade de reteno, para experimentar os mecanismos de suas oposies e combinaes, para multiplicar entre eles as linhas de partilha e de comunicao.

    (Hubert Damisch. Ruptures, cultures)

    O estilo filosfico em histria [...], arte do descontnuo, por oposio cadeia das dedues.

    (Walter Benjamin. Origem do drama barroco alemo)

    Recentemente, um autor de linhagem filosfica, empenhado em re-censear questes tericas representativas de campos de investigao pro-dutores de conceitos cuja circulao desejvel para fortalecer a pesquisa sobre e em artes, no mediu palavras para criticar o que passaria por ser uma postura ainda majoritria na corporao dos historiadores da arte, qual seja, aquela de uma desconfiana profunda em relao a tudo o que terico.1 A palavra teoria, estima o autor, que deveria funcionar como agenciadora de mltiplos aspectos e aberturas epistemolgicas profcu-as reverberados pela histria, pela crtica, pela filosofia da arte, tem sido comumente identificada como um suprfluo que desvia a historiografia de sua pretensa pureza metodolgica. Tal perspectiva, redutora de per si em termos intelectuais, permite apontar para um lamentvel prejuzo institucional prontamente caracterizado nos seguintes termos:

    Anualmente, os colquios brasileiros de Histria da Arte confirmam a existncia de certa linha de fratura entre histria e crtica, os dois campos no se entendendo nem escutando muito um ao outro. Ora, no se concebe historiografia da arte que no seja tambm crtica e teoria tanto de seu objeto quanto de seus mtodos. Reciproca-mente, no pode existir crtica sem que se integre a seu arcabouo um domnio srio da histria. Tampouco existe esttica que possa ignorar como a ideia e o conceito de arte evoluram historicamente. Nesse sentido, o termo teoria permite aos ir-redutveis transitarem e convergirem para melhor catalisar as linhas de fuga das disciplinas que compem o amplo leque integrado daquilo que nas universidades francesas chamado de cincia da arte. Para toda cincia, so precisos o espao prtico, laboratorial, experimental e o espao propriamente epistemolgico, o da formalizao da experincia e de sua projeo conceitual.2

    A superao de tenses que intensificam divises estanques entre as experincias e disciplinas voltadas s artes, condio sine qua non para desenvolver uma teorizao no predicativa, mas amplamente avaliativa do plurissmico cenrio artstico contemporneo, envolve um esforo por rebater o que passa por ser uma renitente contraposio por parte dos historiadores da arte a todo ato que coloque em causa seus contextos de inteligibilidade, assim como o velho vocabulrio dos estilos e das condu-tas. Uma freqentao das tradies historiogrficas, crticas e filosficas, desimpedida das convenincias institucionais, seria capaz, faa-se aqui

    1 HUCHET, Stphane (org.). Fragmentos de uma teoria da arte. So Paulo: Edusp, 2012, p. 10.2 Idem.

  • ArtCultura, Uberlndia, v. 16, n. 28, p. 175-193, jan-jun. 2014178

    a hiptese, de produzir um pensamento de convergncia discursivo, ou de cruzamento metodolgico, ciente de como englobar novas dimenses discursivas quer advenham da filosofia, da antropologia ou das cincias humanas em geral e projetar seu aparato conceitual.

    O texto que se segue revela-se a esse respeito interrogativo, portanto implicitamente irresoluto, como que condicionado s mltiplas vozes que evoca, suspenso s transversalidades que preconiza a partir de injunes esttico-filosficas e metodolgicas. Modo obrigatrio de se haver, a partir de certo substrato especulativo, com disciplinas que preconizam diferen-tes abordagens do fenmeno artstico em sua realidade processual e/ou procedural.

    A histria desagrega-se em imagens

    Aquele que aprendeu a tecer escrupulosamente as ligaes (crono)lgicas, a desconfiar das aproximaes precipitadas, dos anacronismos, do trabalho de uma imaginao por vezes aleatria, aquele que ainda concebe a construo dinmica da histria como narrativa, descrio ou anlise estrutural de um fenmeno no deixar de estranhar uma recente perspectiva historiogrfica, reticente quanto ao sentido de continuidade das formas, atenta s imagens em seu surgimento no prescritvel, im-pondervel, paradoxal. Essa perspectiva aparece afianada pela figura do historiador Aby Warburg, ele que apregoa em sua introduo ao Atlas mnemosine a insuficincia de um evolucionismo descritivo, impeditivo de toda imerso na profundidade da tessitura (Verflochtenheit) que liga o esprito humano matria estratificada acronologicamente (achronologisch geschichteten Materie). Tal imerso nas tramas das vicissitudes imagticas sucede, na teoria e na prtica historiogrficas, ruptura com a cronologia asmtica perpetrada pela rumorosa performance de 1979 de Herv Fischer, em que o artista literalmente anunciou o fim da histria da arte.3 O que ontem era provocao hoje parece motivar o esgaramento judicioso do tecido dos acontecimentos e de suas representaes, a desmontagem e a remontagem da histria segundo uma razo mais ldica admita-se o termo, em razo da desenvolta asistematicidade de que se falar que propriamente lgica.

    A pauta de tal operao est literalmente jogada sobre a mesa do historiador e filsofo da arte que maior empenho demonstra na empreitada. Imensa mesa, aquela de Georges Didi-Huberman, na realidade uma ban-cada de costureira, ressalta o historiador-filsofo, isto , um instrumento de artesanato sobre o qual ele afirma espalhar textos e imagens, sem ordem prvia e sem escolha pr-determinada. Trabalho subseqente aquele seu de reagrupamento, de constelao, como se dispusesse as cartas ou como um tar tirado por uma vidente de parque de diverso. Por fim, advm a afirmao de um peculiar modus operandi: Um futuro um desejo se configura e se encarna quando percebo que as afinidades se organizam por elas mesmas, pensam por si s, concatenam-se elas prprias. No tenho ento seno que tomar da caneta para interpretar essa partio.4