Identidades Profissionais, Trabalho Tأ©cnico e ... CD.pdfآ  primeiro, na disciplina de Sociologia Rural

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  • Identidades Profissionais, Trabalho Técnico e Associativismo Agrário em Trás-os-Montes e Alto Douro

    Fernando Pereira

    Colecção

    Análise Social das Profissões

    em Trabalho técnico-intelectual

    Coordenação Científica: Telmo H. Caria

    Apoio:

  • PERCURSO AUTOBIOGRÁFICO RELACIONADO COM O ASSOCIATIVISMO E COOPERATIVISMO AGRÁRIO

    Revejo, amiúde, os episódios da infância e da adolescência vivida na zona agrícola do Vale do Sousa, em Penafiel. Sinto como esse tempo de descoberta me marcou decisivamente no que respeita à relação que mantenho com a actividade agrária. A marca mais decisiva é a de que, tal como agora, já nessa altura, era um observador próximo (às vezes participante) da agricultura, sem todavia chegar a ser agricultor ou filho de agricultor, como eram o Nando, a Luísa e o Chico, filhos do Sr. António, lavrador-rendeiro, cuja exploração ficava do outro lado da rua, em frente à minha casa. Todos os dias “disputava” com o Sr. António os filhos dele; eu para brincar, ele para o ajudarem nas tarefas agrícolas (apanhar batatas, segar erva para o gado, pôr cebolo, desfolhar milho, apanhar os vagos das uvas que caíam das vindimas, entre outras). Umas vezes ganhava eu, outra ganhava ele. Quando ganhava ele, eu passava de observador a participante, pois também ajudava naquelas tarefas. Tal como hoje na pele de investigador já então me aproximava do mundo da agricultura, mas podia sair (afastar-me) quando quisesse. Acredito que jamais deixei de ser influenciado por esta proximidade voluntária, e que isso determina em boa parte as opções profissionais tomadas e as referências filosóficas que privilegio.

    A primeira decisão na construção deste percurso é a de escolher os episódios biográficos que devem ser incluídos e os que devem ser excluídos. Defini dois critérios: o primeiro, é o de ter por limite temporal a memória e o segundo, o de me cingir à relação com o associativismo/cooperativismo, sem excluir os contextos que ajudem a esclarecer essa relação. Para ajudar, estabeleci quatro períodos espaço-temporais que marcam vivências biográficas distintas: familiaridade, redescoberta (conflito), de consolidação (equilíbrio) e, por último de alargamento dos horizontes (conflito).

    Neste ponto contrario a ortodoxia científica e escrevo esta nota auto-biográfica na primeira pessoa do singular, por achar que ela é francamente pessoal. Algo que só voltarei a fazer em alguns pontos relativos a experiência etnográfica que vivi, exactamente pela mesma razão.

    1. Vivências de infância e pré-adolescência

    Penafiel, 1964 a 1974. Vale do Sousa, extenso e fértil, coberto de vinhas, azevém castelhano em rotação com o milho híbrido ou batata de consumo. Na altura, o vale era dominado por duas casas agrícolas fidalgas, a Casa de Vinha e a Casa do Rival, e albergava ainda meia dúzia de quintas, arrendadas por gente importante do Porto ou Lisboa a outros tantos caseiros lavradores.

    Desse tempo guardo a memória da expressão “Grémio da Lavoura”. O Sr. António pertencia ao Grémio e nele se abastecia de adubo e de batata-de-semente, pelo menos. Na altura, a ida ao Grémio implicava alguma solenidade, não se podia ir com a roupa de trazer no campo. Na altura

  • não percebia a razão da solenidade. Talvez fosse como ir à missa. Hoje interpreto isso como uma relação de subserviência em relação àquela instituição.

    Desse tempo recordo ainda, de forma muito viva, a cooperação entre lavradores-rendeiros do vale. A entreajuda estava presente em muitas situações, nomeadamente: nas vindimas, na sementeira e colheita da batata e do milho e na roça do mato para as camas dos animais. Em todas estas ocasiões juntavam-se os seis lavradores para levar a cabo a tarefa. Não havia remuneração monetária, o pagamento era a oferta de comida e bebida e a devolução da ajuda para tarefa análoga. Nem sempre era pacífico. Por exemplo, lembro que havia tensão em relação à marcação da data das vindimas, pois todos a queriam fazer a sua no dia que consideravam mais conveniente. Lembro também de azedumes porque, por vezes, alguém faltava aos compromissos assumidos o que era eticamente intolerável, carecendo de regulação posterior.

    Recordo ainda a rígida divisão de classes: Os proprietários, conhecidos por senhorios, a quem o Sr. António entregava parte da produção e dois perus criados na quinta por altura do Natal; Os lavradores-rendeiros, como o Sr. António, que se esmeravam por manter pelo menos uma junta de bois (capados) como garantia de acesso a esse estatuto; E os jornaleiros, como o Constantino, jornaleiro permanente do Sr. António, que em vez de vacas e sonhos, guardava amarguras e rancores. Pertencia à classe de menor prestígio social do vale, trabalhava como um “galego” e vingava-se assustando-me e aos filhos do patrão e dando pontapés no Fadista, o cão da quinta que morreu quando eu tinha uns doze anos e foi substituído pelo STOP.

    A lavoura (assim se designava) e a ruralidade (da qual não se falava) impregnavam o meu quotidiano, eram familiares. A cooperação entre lavradores parecia tão natural como lavrar a terra...

    Estudante (Licenciatura e Mestrado) e Investigador

    Vila Real, 1991-1996. Entre o período anterior e este há um lapso de tempo de cerca de quinze anos. Claramente no período da minha adolescência, no pós-25 de Abril, noto uma aproximação nítida aos padrões e referências urbanas. Porém, no final deste período e falhada a primeira escolha profissional, que era as artes plásticas, enveredei pela segunda, que era o gosto pelos animais (1985-1991). Foi uma escolha errada pois o curso de Zootecnia não é de modo algum aquilo que eu procurava. Por isso, na impossibilidade de mudar de curso, tive que descobrir nele um motivo de interesse e de realização profissional. Esse motivo apareceu em dois momentos. O primeiro, na disciplina de Sociologia Rural em que percebi que tinha algum jeito para as questões sociológicas porque, sem esforço de maior, e poupado às angústias da maioria dos meus colegas, obtive uma classificação aceitável na disciplina. O encontro com as Professoras Manuela Ribeiro e Amélia Frazão, docentes da disciplina, foi providencial. O segundo momento teve lugar na disciplina de Extensão Rural, a qual proporcionou o espaço que precisava para a realização pessoal e profissional que procurava. E, claro, tal como no caso precedente, foi o momento de encontro com o Professor Artur Cristóvão, que se viria a tornar no meu Mestre do

  • ofício de professor e investigador. Sob a sua orientação realizei o estágio de final de licenciatura intitulado "Conceitos e Metodologias no Estudo dos Sistemas Agrários: Uma Introdução", que inicia um certo gosto pelo estudo das metodologias sociológicas e pela criatividade do uso das mesmas (tendo em vista a sua adaptação ao contexto rural transmontano).

    Já como licenciado e investigador do DES, tenho novo encontro com o tema do associativismo e cooperativismo, no âmbito de uma linha de investigação do Projecto CAMAR, dedicada ao estudo do sistema institucional de apoio ao desenvolvimento agrário de Trás-os-Montes. Pude, em colaboração com os restantes elementos da equipa de investigação, contactar os dirigentes de diversas organizações associativas e cooperativas, assim como com os técnicos e associados das mesmas. O retrato que traço no ponto 1.1 emana directamente dessa experiência e dos relatórios de investigação então produzidos.

    Durante a frequência do curso de Mestrado em Extensão e Desenvolvimento Rural, aproveito a experiência e espólio empírico do projecto CAMAR e produzo um a série de ensaios não publicados (para as disciplinas curriculares) onde a questão do apoio institucional está sempre presente, facto que me permitiu o contacto com a bibliografia relativa ao tema. No trabalho de investigação para a Tese de Mestrado, dedicado ao estudo da diversificação das actividades da agricultura transmontana, volto a abordar a questão do associativismo, embora ela não representasse um dos objectivos centrais do estudo. Em termos metodológicos ensaiei algumas “inovações” não tanto ao nível das técnicas e dos métodos mas sim do texto final produzido, mesclando momentos de descrição próxima do texto etnográfico, com momentos de exposição e reflexão dos dados “nua e crua”. A ideia era introduzir ritmo ao texto e deixá-lo transparecer as vivências e sensibilidades experimentadas pelo investigador ao longo do processo de investigação. Tal como agora o trabalho de campo fez-me cruzar Trás-os-Montes de lés-a-lés; do Palaçoulo, no Planalto de Miranda ao Outeiro, nas serras esquecidas do Gerês. Ficou o gosto por viajar em trabalho: na ida, lendo a paisagem e “antecipando” a conversa (entrevista); na volta, reflectindo sobre o que vimos e ouvimos1.

    Deste período guardo uma ideia francamente negativa de associativismo e cooperativismo e a sensação de que jamais poderá funcionar como um verdadeiro pilar do desenvolvimento agrário transmontano, a menos que sejam tomadas medidas de correcção muito drásticas, como a extinção de muitas organizações que, claramente, não funcionam e a aposta na educação e

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