imagens da mulher nos jornais caricatos rio-grandinos do século xix

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Da abbaDa celeste s profunDezas Do averno: imagens Da mulher nos jornais caricatos rio-granDinos Do sculo XiX

Francisco das neves alves*

resumo

Estudo das imagens criadas acerca da mulher nos textos dos jornais caricatos rio-grandinos no sculo XIX, com nfase s diferenciaes entre as vises anteriores e posteriores ao casamento.

Palavras-chave: mulher, imagens, imprensa, caricatura, casamento.

abstract

Study of images created about the woman in the texts of newspapers caricatured rio-grandinos in the nineteenth century, with emphasis on the differences between the views before and after the wedding.

Key-words: woman, images, press, caricature, wedding.

* Professor de Histria da FURG. Doutor em Histria PUCRS. Ps-Doutorado junto ao ICES (Portugal).

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O anjo que se amou at a loucura, torna-se s vezes com o tempo um velho demnio que se detesta (Marui. Rio Grande, 13 de novembro de 1881. p. 8.).

Ao longo do sculo XIX a imprensa viria a constituir o mais importante meio de divulgao de informaes e opinies, ficando demarcadas nas pginas impressas, as mais variadas formas de sociabilidade presentes nas vivncias humanas. Dentre os diversos tipos de jornal poca existentes, cada qual refletia nuances e facetas inerentes s sociedades nas quais circulavam ou quelas que faziam referncias, reproduzindo assim expressivos fragmentos de tais coletividades. Em tal cenrio, as mulheres viriam a constituir uma das protagonistas, embora, em grande parte, suas atuaes fossem descritas pelo prisma masculino. Nesse sentido, o feminino foi retratado das mais diversificadas maneiras, mas, notadamente, as abordagens se voltavam a duas direes essenciais. De um lado uma perspectiva altamente positiva, que qualificava a mulher como a companheira ideal, retirada diretamente do paraso para ser colocada ao lado do homem. De outro, uma verso bastante desqualificativa, elegendo a mulher como um ser malfico, de origem obscura e infernal, que s servia para arruinar o sexo masculino. O fator primordial para a edificao de tais prismas diferenciados foi, em geral, o casamento.

Essas duas verses antagnicas de uma mulher paradisaca ou infernal, por vezes atingia o nvel de uma interpretao algo maniquesta e dicotmica, vislumbrando um mal e um bem em torno do ente feminino. Dentre os vrios gneros jornalsticos ento em voga, um daqueles em que mais ntidas ficavam tais impresses era o da imprensa caricata. Manifestando em suas pginas um jornalismo essencialmente crtico-opinativo, as folhas caricatas eram tpicas representantes da pequena imprensa que visavam oferecer um produto alternativo em relao imprensa denominada sria. Nesse sentido, os caricatos apresentavam uma linguagem bem mais direta, incisiva e prxima do prprio leitor, usando um palavreado menos rebuscado e mais comum s

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conversas cotidianas. Em tais peridicos, aquela viso bipolar em relao mulher ganhava contornos ainda mais evidenciados, notadamente pelo uso do humor e da ironia.

No Brasil, os jornais dedicados caricatura atingiram extraordinrio sucesso entre o pblico, notadamente na segunda metade do sculo XIX, quando se espalharam pelo territrio nacional. Muitas dessas folhas eram editadas no centro do pas e distribudas em vrios lugares, mas, ao mesmo tempo, nas mais importantes localidades em termos regionais, comeariam a surgir peridicos de tal gnero. No Rio Grande do Sul, esse processo se repetiria, surgindo vrios semanrios caricatos na capital, Porto Alegre, na cidade que enriquecera a partir da produo pecurio-charqueadora, Pelotas, e no mais importante entreposto comercial sul-rio-grandense, a cidade do Rio Grande. Nessa ltima circularam publicaes caricatas desde os anos setenta e de forma praticamente ininterrupta at quase o final daquela centria. Dentre tais hebdomadrios, foram editados nessa cidade porturia o Diabrete (1875-1881), o Marui (1880-1882) e o Bisturi (1888-1893)1.

Tais peridicos estiveram fortemente ligados crtica poltica, mas tambm dedicaram muito de seu espao crtica social e de costumes. No exerccio de tais prticas, os semanrios caricatos, s vezes com humor, em outras com uma propalada seriedade, destinavam a si mesmos uma funo moralizadora, chegando a denunciar possveis desvios e mazelas de natureza social ou no que tange moralidade, civilidade e aos bons hbitos. Foi na realizao da crtica social e de costumes que esses jornais mais retrataram a figura feminina, estabelecendo um amplo horizonte de interpretaes acerca das mulheres. Em linhas gerais, atravs de estratgias discursivas diversificadas, como anedotas, jogos de palavras, versos, estrias, narrativas, dilogos, entre tantas outras, essas publicaes traziam ao pblico verses variadas sobre as

1 Acerca de tais jornais caricatos, ver: FERREIRA, Athos Damasceno. Imprensa caricata do Rio Grande do Sul no sculo XIX. Porto Alegre: Globo, 1962. p. 160-195.; ALVES, Francisco das Neves. Uma introduo histria da imprensa rio-grandina. Rio Grande: FURG, 1995. p. 125-148.; ALVES, Francisco das Neves. A pequena imprensa rio-grandina no sculo XIX. Rio Grande: FURG, 1999. p. 170-243.; e ALVES, Francisco das Neves. O discurso poltico-partidrio sul-rio-grandense sob o prisma da imprensa rio-grandina (1868-1895). Rio Grande: Ed. da FURG, 2002. p. 393-465.

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mulheres e suas pginas reproduziam muito daquilo que estava presente nas conversas cotidianas nas ruas, nos estabelecimentos pblicos e privados e nos lares, de modo que, caricaturalmente, elas refletiam formas de agir e pensar das sociedades retratadas.

Desse modo, imagens das mulheres foram construdas, reproduzidas e estereotipadas a partir de vises discrepantes e, por vezes, antagnicas entre si. Os responsveis pelos jornais na maioria homens levaram ao pblico leitor vrias facetas acerca do sexo frgil que traziam a lume alguns dos horizontes mentais poca reinantes. O feminino visto por tal prisma foi muitas vezes matizado a partir de uma viso que variava desde a de uma mulher ideal, alvo de todos os tipos de afeies e/ou desejos, at a de um ente extremante nocivo, causador de todas as desgraas humanas2. Tais perspectivas estiveram profundamente ligadas ao papel social esperado de parte da mulher, como aquela dedicada exclusivamente ao casamento, ao lar e ao cuidado extremoso do marido e dos filhos, ainda que novas realidades viessem surgindo e alterando as vivncias femininas3. A no concretizao de tais expectativas acabaria por motivar interpretaes pouco favorveis para com a figura feminina, como bem traduziram as folhas caricatas.

Durante o sculo XIX, cada sexo tinha sua funo, seus papis, suas tarefas, seus espaos e seus lugares quase predeterminados, at em seus detalhes, cabendo mulher o papel de esposa e me, uma verdadeira divindade do santurio domstico, sendo igualmente investida de um imenso poder social, para o melhor e para o pior4. A preservao de prticas culturais e representaes simblicas femininas indicava que a construo da santa-me como um arqutipo para melhor submeter a mulher vida domstica foi um fenmeno de longa

2 ALVES, Francisco das Neves. De anjo a demnio, de musa bruxa: vises do feminino na imprensa rio-grandina do sculo XIX. In: Anais da XXV Reunio da Sociedade Brasileira de Pesquisa Histrica. Curitiba: Sociedade Brasileira de Pesquisa Histrica, 2005. p. 513.

3 FRAISSE, Genevive & PERROT, Michelle. Ordens e liberdades. In: DUBY, Georges & PERROT, Michelle (dirs.). Histria das mulheres no Ocidente - o sculo XIX. Porto: Afrontamento, 1991. v. 4. p. 9.

4 PERROT, Michelle. Os excludos da Histria: operrios, mulheres e prisioneiros. 2.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. p. 178-179.

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durao histrica5. Tal perspectiva deitaria razes atravs do tempo e, j nos Oitocentos, ainda era firme a imagem da mulher como virtuosa no ambiente de sua casa, onde era alocada por entre os sinais de uma vida domstica respeitvel6. Aps o casamento, a mulher no teria diminuio das restries sociais a que estava sujeito seu comportamento de solteira, chegando, inclusive de deixar de praticar certos atos proibidos pelos tabus vigentes para todas as mulheres, qualquer que fosse seu estado civil, devendo at ser eliminadas de seu comportamento atitudes inocentes que poderiam permitir ilaes prejudiciais sua reputao de senhora casada7.

Os jornais caricatos reproduziam os diversos papis que a mulher desempenhava, nas diferentes faixas de idade e os padres de comportamento dentro e fora da famlia8 e buscavam refletir a imagem de honradez e decncia femininas que vigorou durante um longo tempo, quando respeitvel era sinnimo de recatada9. Nas pginas dos hebdomadrios ficava registrado tambm todo o esforo feminino, mormente no que tange aparncia no intento de chegar ao casamento, numa ampla valorizao da beleza como fator para conquistar o sexo forte10. O pouco conhecimento entre as duas partes, a quase nenhuma intimidade e a predominncia dos fatores materiais sobre os sentimentais, j que o matrimnio era considerado assunto por demais importante para ser deixado ao capricho dos noivos e a atrao amorosa

5 PRIORE, Mary del. Ao sul do corpo: condio feminina, maternidades e mentalidades no Brasil Colnia. Braslia: Ed. da UnB; Rio de Janeiro: Jos Olympio, 1993. p. 19.

6 HIGONNET, Anne. Mulheres e imagens. Representaes. In: DUBY, Georges & PERROT, Michelle (dirs.). Histria das mulheres no Ocidente - o sculo XIX. Porto: Afrontamento, 1991. v. 4. p. 327-328.

7 SAFFIOTI, Heleieth Iara Bongiovani. A mulher na sociedade de classes: mito e realidade. So Paulo: Quatro Artes, 1969. p. 192.

8 LEITE, Miriam Lifchitz Moreira; MOTT, Mar