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15 ALCEU - v.2 - n.4 - p. 15 a 35 - jan./jun. 2002 P elas manhãs, se não tivermos sido acordados por um despertador, nor- malmente nos preocupamos em saber a hora. Durante o dia, numero- sas vezes consultamos o relógio para nos situar no tempo e no espaço. Carregamos agendas, muitas vezes, para nos tranqüilizar de que estamos ou de que estaremos no lugar certo no momento correto. Submetemo-nos a horári- os que nos ditam ao corpo quando dormir, comer, ter relações sexuais. Apesar da aceleração de quase tudo, permitida pelo progresso da informatização, não passamos a ficar menos ansiosos nas filas. Vivemos sob o temor latente de que um atraso de poucos minutos possa destruir esperanças de toda uma vida. Vibramos, celebrando com veemência as glórias da nacionalidade, sob o efeito de quase qualquer ação que possa ser cronometrada e usada para estabele- cer um recorde - em competições que nos nossos tempos se decidem por déci- mos ou por centésimos de segundo. Todos sabemos quantos anos já vivemos e manifestamos espanto ou incredulidade quando ouvimos falar de épocas e de sociedades em que homens e mulheres ignoram suas idades (Elias, 1989:15). O tempo engloba e aprisiona de tal maneira as nossas vidas, que não é sem razão que com freqüência as revoltas ocorrentes no nosso mundo ocidental, in- Imagens do tempo José Carlos Rodrigues José Carlos Rodrigues José Carlos Rodrigues José Carlos Rodrigues José Carlos Rodrigues

Imagens do tempo - revistaalceu.com.puc-rio.brrevistaalceu.com.puc-rio.br/media/alceu_n4_Rodrigues.pdf · Hoje a etnografia e a história nos ensinam de modo bastante claro o

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  • 15ALCEU - v.2 - n.4 - p. 15 a 35 - jan./jun. 2002

    Pelas manhs, se no tivermos sido acordados por um despertador, nor-malmente nos preocupamos em saber a hora. Durante o dia, numero-sas vezes consultamos o relgio para nos situar no tempo e no espao.Carregamos agendas, muitas vezes, para nos tranqilizar de que estamos ou deque estaremos no lugar certo no momento correto. Submetemo-nos a horri-os que nos ditam ao corpo quando dormir, comer, ter relaes sexuais. Apesarda acelerao de quase tudo, permitida pelo progresso da informatizao, nopassamos a ficar menos ansiosos nas filas. Vivemos sob o temor latente de queum atraso de poucos minutos possa destruir esperanas de toda uma vida.

    Vibramos, celebrando com veemncia as glrias da nacionalidade, sob oefeito de quase qualquer ao que possa ser cronometrada e usada para estabele-cer um recorde - em competies que nos nossos tempos se decidem por dci-mos ou por centsimos de segundo. Todos sabemos quantos anos j vivemos emanifestamos espanto ou incredulidade quando ouvimos falar de pocas e desociedades em que homens e mulheres ignoram suas idades (Elias, 1989:15).

    O tempo engloba e aprisiona de tal maneira as nossas vidas, que no semrazo que com freqncia as revoltas ocorrentes no nosso mundo ocidental, in-

    Imagens do tempo

    Jos Carlos RodriguesJos Carlos RodriguesJos Carlos RodriguesJos Carlos RodriguesJos Carlos Rodrigues

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    dustrial e capitalista, como a dos bomios, a dos hyppies ou a dos beatniks, semesquecer algumas manifestaes de loucura ou de rebeldia de crianas e jovens,tm assumido a forma de um certo desdm contra a urgncia do tempo e contraa tirania dos cronmetros. Estamos to habituados a idias como as de tempo,histria, progresso, evoluo... que tendemos a esquecer que estas noes nemsempre tiveram a importncia que lhes dedicamos hoje.

    Tempo algo to onipresente na nossa maneira hodierna de agir, depensar e de sentir, que compreender nossos modos de ser em grande medidaexige conhecer como esta presena avassaladora veio a ocorrer. O relgio, porexemplo, tornou-se to visceral, que muitos no se sentem inteiros sem ele:da o seu uso freqente durante o sono, no banho, nas praias, nas frias, nasaulas de ginstica, nas relaes sexuais. Esquecem-se de se separar dosmarcadores de tempo at mesmo os que, para exprimir algum protesto, se apre-sentam completamente nus em ambientes pblicos, como temos testemunha-do em eventos transmitidos em escala global por redes de televiso. que otempo e seu instrumento de medio aderiram aos corpos e praticamente sevisceralizaram nas subjetividades contemporneas.

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    Uma das mais marcantes contribuies histria do pensamento oci-dental e ao entendimento de nossa prpria sociedade veio da escola sociolgicafrancesa e residiu no redirecionamento da problemtica da noo de tempo. Aliteratura etnogrfica do sculo XIX estava repleta de informaes relativas aculturas em que se destacavam celebraes rituais de movimentos dos corposcelestes, de processos peridicos da existncia humana, de mudanas sazonais,de ritmos de vida de animais e de plantas. Mas foi com Algumas formas primitivasde classificao, em 1903, e com Formas elementares da vida religiosa, em 1912, deEmile Durkheim, que se inaugurou a mais influente teoria sociolgica do tempoe de sua relatividade cultural. Nestes trabalhos, Durkheim desenvolveu todoum raciocnio no sentido de demonstrar que a vida social o fundamento dascategorias lgicas e que o ritmo da vida social constitui o fundamento da noode tempo. Chamou a ateno, por exemplo, para o fato de que as divises dotempo em dias, semanas, meses, anos, etc. - to naturais para ns -correspondem recorrncia peridica dos ritos, das festas e das cerimniascoletivas.

    Em Um estudo sumrio da representao do tempo na religio e na magia, de1909,Marcel Mauss e Henri Hubert, da mesma forma que Durkheim, posicionaram-

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    se contra os pensadores que viam o tempo como uma caracterstica objetiva pr-pria do universo. Discordaram dos que entendiam o tempo como uma unidadenatural, como uma propriedade fsica do cosmos, como algo de naturezamensurvel, verdadeira e absoluta - afastando-se, portanto, da concepo de queNewton foi o representante mais eminente. Relativizando a noo de tempo,Hubert e Mauss sustentaram que a religio e a magia constituem uma espcie demoldura dentro da qual o tempo pode ser experimentado de modo mais qualita-tivo do que quantitativo. Assim, a escola francesa inaugurou no pensamento so-ciolgico a idia de que o fluir temporal poderia se dar tambm de maneiraheterognea, descontnua, expansvel, reversvel, espasmdica...

    Ao localizar o fundamento da noo de tempo na organizao social,Durkheim e seus seguidores afastaram-se tambm da concepo subjetivistade Kant que, diferente dos newtonianos, via o tempo como um dado intrnse-co ao esprito, como uma propriedade imanente e necessria ao aparato inte-lectual e perceptual do indivduo humano - como um a priori, segundo a termi-nologia do grande filsofo. Isto significa que Kant colocava em segundo planoa questo da existncia objetiva do tempo, o problema de sua existncia realcomo uma propriedade emprica do mundo exterior ao ser humano. Durkheime seus seguidores distanciaram-se de Kant tambm no que diz respeito ao car-ter absoluto que este via no tempo: um dado natural, igual para todos os sereshumanos, em todas as circunstncias, posto que desde sempre uma condiopreliminar do pensamento.

    Adotando uma posio apenas parcialmente kantiana, Durkheim sus-tentou que as categorias lgicas fundamentais (tempo, espao, causa, efeito,substncia...) existiam primeiramente na organizao social, como um a priori,realizando-se em seqncia nos indivduos, como um a posteriori. Para a escolafrancesa, tempo seria antes de tudo um sistema de classificao, um meio colo-cado pela sociedade disposio dos homens para se orientarem no mundo.Tempo seria tambm um instrumento para regular a convivncia humana, coi-sa dependente e decorrente da experincia social dos indivduos, mediada pelaeducao. Seria, portanto, varivel com referncia s diferentes organizaessociais.

    Vale a pena observar que tal polmica sobre a relatividade do tempo nose limitava s cincias humanas e sociais da passagem entre os sculos XIX eXX. As posies da escola sociolgica francesa se aproximavam de modo bas-tante interessante do que mais ou menos no mesmo momento principiava aser sustentado no domnio da fsica terica, com o advento da teoria da relati-vidade especial de Einstein, em 1905. Tambm no foi simples coincidncia

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    que a parte da teoria de Einstein que encontrou maior dificuldade em se fazeraceitar foi a que reivindicava a relatividade do tempo, argumentando que noera mais possvel admitir a concepo newtoniana de um tempo sempre nicoe uniforme atravs de todo o mundo fsico. Assim como a dos durkheimianos,a teoria de Einstein contraditava premissas muitssimo arraigadas nos meiosleigo e cientfico (Kern, 1983: 18-9).

    Em ambos os casos, para o universo fsico ou social, comeava-se a des-cobrir que, do mesmo modo como no existe obrigatoriamente uma geome-tria nica para descrever o espao, no haveria o mesmo tempo em todos oslugares e em todos os momentos; o mesmo tempo sem relao a qualquercoisa externa, fluindo incessantemente com a mesma velocidade. Em umdomnio como no outro, nas cincias sociais e na fsica, comeava-se a com-preender que no h tempo universal correndo como um rio absoluto. Aquicomo l admitia-se a constatao relativista de que, de acordo com a posio doobservador, tempo tambm pode ser oceanos intransponveis, riachosramificados, poos profundos, crregos desencontrados, lagos, poas estagna-das, corredeiras, cachoeiras...

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    Hoje a etnografia e a histria nos ensinam de modo bastante claro ocarter social e relativo do tempo. No Egito antigo, por exemplo, os calendri-os so trs, associados aos movimentos do Nilo e a suas conseqncias para asatividades agrcolas (Attali, 1982: 43; Whitrow, 1993: 38-43). Nesse calendrio,os anos so numerados, no de acordo com uma sucesso linear, mas segundoo reinado dos faras e a arrecadao de impostos. Como em toda parte, terpoder controlar o tempo prprio e o alheio, o do presente e o do futuro, o dopassado e o dos mitos. Os calendrios egpcios tinham um carter poltico,embora contivessem tambm as antecipaes dos orculos e as decises dossoberanos estipulando os dias nefastos durante os quais seria inconvenientepraticar atos como viajar, sair de casa, acender fogueiras, banhar-se ou manterrelaes sexuais.

    As relaes entre o tempo e foras sociais bem especficas so tambmevidentes no antigo imprio chins (Attali, 1982: 44). Os dias se decompemem horas de durao varivel: seis noturnas, seis diurnas; as primeiras come-am com o nascer do sol, as segundas com o crepsculo. A capital possui umacasa do calendrio, que representa uma imagem reduzida do universo. Acada ano, em datas regulares, o soberano nela se hospeda a fim de fixar os

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    detalhes do calendrio, cuja promulgao uma prerrogativa sua, semelhante cunhagem da moeda nas sociedades modernas.

    Com indumentrias de cores associadas s diferentes estaes, o impe-rador ocupa ritualmente um canto da casa do calendrio de cada vez, de modoa mimetizar a marcha do sol. O incio do ano determinado por cada impera-dor, que faz valer sua autoridade ao fixar as horas, os dias e os meses iniciais decada ano. Por este caminho - mas no arbitrariamente, pois deve respeitar al-guns limites fixados pelo poder da tradio - o imperador inventa o seu prpriocalendrio e singulariza o seu prprio tempo. Como ocorre tantas vezes nahistria de povos os mais diversos, tambm no antigo imprio chins a decre-tao do calendrio o gesto fundador do reinado.

    Os Nuer, que vivem s margens do Nilo, no tm palavra para designaro que chamamos de tempo. Seus pontos de referncia temporal so atividadessociais concretas, no parmetros genricos e autnomos a que tais atividadesdevam estar subordinadas. Esse povo no conhece unidades abstratas comohoras ou minutos, codificando o tempo com base na sucesso das inmerasatividades prticas e concretas relacionadas ao gado, a mais relevante das suasocupaes econmicas. O principal marcador de distncia temporal entre oseventos a posio que ocupam relativamente s diferentes categorias de pes-soas que foram iniciadas mais ou menos conjuntamente quando crianas, ouseja, a posio com respeito aos diversos grupos de idade. Para os Nuer, naspalavras de Evans-Pritchard, tempo menos um meio de coordenar eventosdo que de coordenar relaes; por isso sobretudo um olhar para trs, pois asrelaes devem ser explicadas em termos de passado (1972: 108).

    Mais ao sul, nas lnguas de cultura banto, de um modo geral, no exis-tem substantivos para se referir ao que chamamos de tempo (Kagame, 1975:102-135). Tambm aqui o importante o tempo disso ou daquilo, deste oudaquele ancestral, propcio a esta ou quela atividade. Diferente do tempo abs-trato, que existe paralelamente aos existentes, enquadrando vidas e aconteci-mentos e lhes atribuindo sentido e direo, que nossos pensadoresproblematizam desde a filosofia grega, o tempo entre os bantos sempre loca-lizado, marcado e individuado pelos acontecimentos. Aqui ele est semprereferido a um terremoto, a uma inundao, a um eclipse, ao aparecimento deum cometa, ao reinado de determinado chefe. Tempo, na cosmologia banto, uma entidade incolor, indiferente, enquanto um fato concreto no sobrevmpara sel-lo (Kagame, 1975: 115). Seu entendimento ser incompleto se nolhe estiver associada alguma noo de lugar.

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    A idia de hora, evidentemente, no concebida na cultura banto tra-dicional, pois esta teria aspecto mais curto ou mais longo de acordo com adurao dos eventos. No obstante, algo semelhante pode ser formulado a par-tir da posio do sol e com base nas diversas ocupaes cotidianas. Um exem-plo disso a sucesso das ordenhas que desempenha este papel em povos cria-dores de vacas, como entre os Bahima, de Uganda, lembrados por John Mbiti,que tm nessas atividades um ponto de referncia para o enquadramento dasaes e dos acontecimentos. Entre os Batutsi, de Ruanda (Kagame, 1975: 115),um dos marcadores de horas o efeito do sol sobre a paisagem, o que elescombinam com atividades e eventos cotidianos. Assim, um dia transcorre en-tre eles do sorridente (aurora), ao canto dos passarinhos, passando ao ca-lor solar, ao momento em que as nuvens so varridas, volta dos campos, hora de dar de beber s vacas, ao pr-do-sol...

    Estamos hoje to habituados a imaginar que o futuro esteja nossa fren-te, to seguros de que caminhamos para ele, que temos dificuldade de compre-ender concepes variantes, mas bastante parecidas e aparentadas, que imagi-nam o futuro como aquilo que vem, como aquilo que chega, depois deviajar na direo do presente. Nem sempre percebemos que concepes comoesta esto atuando em alguns anncios de computadores e de produtos dealtssima tecnologia, que so variaes em torno do tema o futuro presente,ou o futuro chegou. Tambm no temos muita facilidade de entender comoalgumas lnguas entendem por futuro apenas algo a muito longo prazo: umfuturo distante, aquilo que acontece muito depois de ns, muito alm denossas existncias; futuro como posteridade muito profunda.

    preciso relativizar bastante nossa prpria concepo de tempo paracompreender outras que discrepam da que julgamos natural. Entre os povosbantos, a importncia dos antepassados os situa sempre em viva e estreita cor-relao com a vida atual de seus descendentes. Os homens do presente voltam-se constantemente para os ancestrais, a fim de ter certeza de que suas aes seorientam na direo das metas desejveis, que em ltima instncia se materia-lizam na perpetuao da linhagem. Na cosmologia banto as aes presentesdirecionam-se para o passado, com a finalidade de garantir o futuro. Mas aidia de futuro acaba sendo bastante especial, uma vez que, ao eleger comometa a perpetuao, a cosmologia banto implicitamente supe que o prpriopassado o que se dever encontrar reeditado no futuro. Disso resulta que otempo de certa maneira corre para trs.

    Na direo proposta por esta idia de tempo carimbado pelos aconteci-mentos, eis o que afirma, sobre a idia de futuro, um importante estudioso dopensamento africano tradicional, John Mbiti:

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    O futuro est virtualmente ausente, pois os eventos que nele residem no acon-teceram; no se realizaram e, portanto, no podem constituir tempo. Todavia,se os eventos futuros so seguros de ocorrer, ou se se enquadram no ritmoinevitvel da natureza, constituem na melhor das hipteses tempo potencial,no tempo real (1970: 17).

    Este , em geral, o sentido com que se realizam as cerimnias cclicas,como ritos de iniciao ou de entronizao. Embora efetivadas no presente evoltadas para o futuro, tais solenidades reproduzem gestos do passado, visandoa garantir a permanncia indefinida do grupo.

    Dessa ambivalncia resulta que as interpretaes da concepo de tem-po na frica tm um carter polmico. Alguns tericos, como Mbiti, tendendoa negar a existncia de qualquer idia de futuro no pensamento africano, con-sideram que na frica o tempo cclico. Outros, mas no de modo comple-tamente antagnico e inconcilivel com a interpretao dos primeiros, comoKagame, afirmam existir neste pensamento uma concepo de um futuro sem-pre balizado pelo passado. Estes preferem caracterizar o tempo africano comoespiralado.

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    A valorizao do tempo tem uma histria na tradio ocidental. Nosidos medievais, exceto talvez para instituies de poder, como a Igreja, adesimportncia da preciso cronolgica era a regra geral. Esta afirmativa valeespecialmente se compararmos as concepes ento vigentes com o que o temporepresenta para ns, hoje em dia. Para termos uma idia inicial, o relgio mec-nico foi uma inveno do sculo XIV, mas a idia de hora s se generalizou naEuropa depois do sculo XVI. Embora estes fossem os mecanismos mais com-plexos conhecidos e embora se tivessem multiplicado por todo o continente, amaioria ainda no possua agulha de minutos antes dos anos 1700. Compreen-sivelmente, o mesmo ocorreu com a idia de segundo, que s comeou a teralguma importncia social na segunda metade do sculo XX.

    O hbito de datar correspondncias sempre foi rarssimo. Quando ocor-ria de registrarem alguma data, normalmente os medievais faziam-no com baseno ano de reinado do soberano, conjugado com a qualificao do dia pelo nomedo santo correspondente. Este sistema foi longamente preferido ao da nume-rao de dias e anos, que certamente soaria excessivamente neutra s menta-lidades de ento. Dentro da mesma lgica, no provvel que durante a IdadeMdia o ser humano comum estivesse a par da numerao dos anos correntes

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    da era crist - anos estes que recebiam nmeros diferentes segundo os diversoslugares. Alis, esta uma das razes pelas quais muitas das nossas especulaesde oportunidade atual sobre a passagem entre o primeiro e o segundo milniosda era crist resultam anacrnicas e etnocntricas: simplesmente porque noano mil quase ningum sabia em que ano estava (Duby, 1986).

    Durante o medievo os homens e mulheres raramente sabiam a idadeque tinham, mesmo quando ocupavam posies sociais de destaque, como foio caso de Guilherme, o Marechal (Duby, 1988: 7). Este tipo de desconheci-mento, como se sabe, permaneceu por muito tempo no Ocidente, sobretudoentre as populaes rurais. Nos tempos medievais a vida humana ainda no eraconcebida como um fluxo contnuo, como o fazemos. Preferia-se entend-lacomo passagens ritualizadas mais ou menos abruptas entre conjuntos de direi-tos e deveres - passagens que ficaram conhecidas na literatura como as idadesdo homem (Whitrow, 1993: 90; Aris, 1978). A prpria obrigatoriedade legalde indicao da data de nascimento nos registros paroquiais no foi institudade maneira generalizada na Europa antes do sculo XVII. Na Inglaterra, sem-pre pioneira no desenvolvimento da cultura individualista, a lei de 1538.

    A relativa desimportncia do tempo medieval se refletia no ciclo irre-gular da semana de trabalho. Dados alguns parmetros de convenincia naturalou coletiva, a norma era que se alternassem ciclos de labuta intensa com ocio-sidade, cada pessoa controlando sua prpria vida com respeito a assuntos comohorrio e durao do trabalho. Idealmente, incio e fim submetiam-se ao quese fizesse necessrio para terminar um produto com perfeio. Adicione-se aisso o fato de os calendrios da produo serem sempre interrompidos pornumerosos feriados e dias festivos. Para termos idia aproximada da dimensodessas interrupes e da relao do homem medieval com o tempo de traba-lho, basta lembrar que em 1703 os dias livres ainda representavam cerca demetade do ano para um tecelo parisiense (Burke, 1989: 239; Attali, 1982: 143;Thompson, 1978: 261-267).

    A Idade Mdia foi poca em que era possvel levar muitas dcadas, atmesmo sculos, erguendo um nico edifcio, como foi o caso de algumas cate-drais e castelos. Isto se entende porque no passado o tempo exigido por umamudana de vulto era consideravelmente maior que o de uma vida humanasingular e porque naqueles idos os homens aprendiam a viver sob condiesmais ou menos fixas. Geraes e geraes de pessoas se sucediam em um cen-rio mais ou menos estvel de objetos.

    No se vivia o tempo como hoje, quando imaginamos que seja sbiopreparar as crianas e jovens para enfrentar profundas modificaes das condi-

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    es de existncia dentro de intervalos muito menores que uma vida humana.Sobretudo, importante lembrar que tambm na economia os valores comu-nitrios, em que as pessoas so obrigadas a fazer dom de si, preponderavamsobre os individualistas. Vivendo sob esses valores, um homem podia aceitarcom mais tranqilidade a idia de no ver pessoalmente o resultado pronto deseu trabalho.

    * * *

    A maneira mais radical pelo qual a burguesia difundiu sua viso de mundotalvez tenha sido a verdadeira revoluo que ela lentamente praticou sobre ascategorias intelectuais do homem medieval. Uma dimenso das mais espeta-culares e profundas dessa revoluo sem dvida atingiu os modos at entoimperantes de conceber e de medir o tempo.

    Aprendemos nos livros didticos de histria que a Igreja medieval seopunha cobrana de juros. Porm, raramente esses livros nos ensinam queesta oposio estava associada a uma concepo de tempo incompatvel com aque os capitalistas comeavam a colocar em prtica. Do ponto de vista da Igrejamedieval, a usura envolvia venda de tempo, comrcio de coisa que pertenciaa todas as criaturas. Os agiotas vendiam o que na filosofia agostiniana pertenciaa Deus; algo que os usurrios usurpavam, conseqentemente. Comerciavamo dia e a noite, segundo a expresso do filsofo medieval Duns Scott, lem-brada por Jacques Le Goff (1980: 43-4).

    Apropriar-se do tempo, tornar-se milimetricamente proprietrio do pr-prio e do alheio, sintetizam o sonho burgus. Como observou o historiadorLucien Febvre (1987: 81), comparado ao mercador, o homem comum da Ida-de Mdia, e mesmo do Renascimento, no sabia calcular, contar, pesar ou me-dir. No seu mundo no havia nem instrumentos de preciso, nem nomencla-turas bastante definidas, nem padres universais de medida que todos conhe-cessem bem e que soubessem utilizar com fluncia. Coerentemente, as pri-meiras mquinas, que vo surgindo ainda no final de Idade Mdia, no eramdotadas de preciso e se destinavam aos trabalhos mais grosseiros. Tudo o queexigisse mincia deveria ser feito pela mo humana, o mais preciso instrumen-to disponvel.

    Ns, que j superamos a rotao da Terra como critrio de exatido dosrelgios, substituindo-a por vibraes de tomos de csio contadas na escalamilhes/segundo, teremos dificuldade de compreender esta poca em que oquantitativo apenas comeava a aparecer, mas de modo muito inseguro, nas

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    estruturas administrativas e mentais. Vemos como j muito distantes este mundoem que um atirador com pontaria excepcional ainda podia ser acusado de bru-xaria. No temos mais quase qualquer familiaridade com aquele tempo emque os relgios mecnicos ainda eram acertados pelos hidrulicos, que eramregulados pelos quadrantes solares. Estranhamos, compreensivelmente, o tempoem que pululavam lendas sobre construtores de relgios como sendo pessoasfabulosas, que pactuavam com o diabo.

    Por isso preciso lembrar que a medieval era uma cultura do mais-ou-menos, do quase-quase: cultura de uma sociedade em que raramente eranecessrio marcar encontros. Nela a impossibilidade de ser exato no decorriaapenas de uma questo de inviabilidade material de ser milimetricamente pre-ciso, em virtude de carncia dos equipamentos adequados. Mais radicalmente,a impossibilidade de preciso era funo da ausncia quase absoluta da idia deque exatido fosse uma coisa possvel, necessria ou mesmo desejvel. Comoregistrou Lucien Febvre, no faltavam o termmetro, a balana e o relgio exa-tos; faltava a prpria concepo de que o calor, o peso e o tempo fossem pass-veis de medio rigorosa (1987:79-80).

    A diferena entre a concepo de tempo medieval e esta que os merca-dores inauguram um dos traos mais fundamentais para se compreender aconstituio do mundo moderno e a emergncia das nossas mentalidades esensibilidades atuais. medida que triunfa a perspectiva dos comerciantes,com a descoberta de que tempo mercadoria e tem preo, os acusados deserem preguiosos ou de desperdiar tempo passam a ser comparveis a ani-mais. Com o crescimento desse modo de pensar, muitas vezes nem mesmomerecem mais ser considerados plenamente humanos.

    A hegemonia do tempo burgus faz com que a vida cotidiana principie aser marcada menos pelos ritmos naturais de rotao do sol e da lua, a ser caden-ciada menos pelas festas e rituais. Com a circulao crescente do dinheiro, queequivale a tempo, e com a expanso das redes comerciais, a vida cotidiana co-mea a ser cada vez mais governada por um sistema cronolgico abstrato e friodentro do qual tudo necessariamente dever se aprisionar - que hoje conhece-mos bem.

    Decaem as cosmovises em que o tempo brincava e ria, segundo afeliz expresso de Mikhail Bakhtin (1987: 71). A vida no mais est centradaem primeiro lugar nos grupos humanos. Impera agora um tempo uniforme eabsoluto, que o nosso. Vigora uma linearidade irreversvel. Reluz um pro-gresso infinito. Tudo isso prprio a uma sociedade que se quer fundada naacumulao de bens e mais tarde na industrializao e no consumo. O mundo

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    pode a partir de agora ser pensado como anlogo a um mecanismo de relgio,em que tudo est exatamente ordenado. Deus se transforma em uma espciede artfice-relojoeiro do universo e o tempo dos fsicos triunfa paulatinamentesobre o dos astrnomos, sobre o das folhas que caem, sobre o do gelo quederrete... Cada vez mais se viver como se no fosse necessrio contemplar asestrelas.

    Os homens da sociedade burguesa se tornaram senhores do tempo quepertencia a Deus. J no vigoram mais como outrora os ciclos biocsmicos deincios e de fins, que incessantemente se interpenetravam e se confundiam(nascimento & morte, apodrecimento & germinao, origem & destino...).Ofuscaram-se assim as concepes que tiveram grande presena pelo menosat o sculo XVII nas culturas populares medievais, sempre inundadas de pa-ganismo. Desbotaram lentamente as representaes que - apesar da viso dis-cordante da Igreja, para quem o tempo se estendia desde a criao at o fim domundo - tiveram vigncia muito mais do que milenar no Ocidente.

    Apropriado pelos homens, o tempo foi deixando de ser pensado e senti-do como abundante. Paradoxal e ironicamente, todos foram se transformandoem escravos do tempo, na medida em que foi triunfando o modo de vida bur-gus.

    * * *

    Os relgios comunais proliferaram nas torres das igrejas e nas fachadasdos edifcios pblicos. Instrumentos prticos e simblicos de domnio econ-mico, social e poltico dos comerciantes que governavam as cidades, esses apa-relhos expandiram o novo tempo tambm para os campos. Associaram-se aossinos, muito anteriores, que j faziam reverberar pelas zonas rurais o ritmocadenciado pelas cidades.

    O tempo novo que os relgios comunais contm e que os campanriosdifundem no apenas mensurvel. orientado, previsvel, racionalizado,laicizado, profano. Ope-se ao do meio natural, eternamente recomevel, mastambm imprevisvel - tempo ritmado pelas estaes que se sucediam, pelosquadrantes solares sempre imprecisos, pelos ofcios religiosos rotineiros comseus sinos anunciadores. No futuro, o tempo cclico ser quase uma reminis-cncia, talvez fadada a ser superada, presente em rituais cada vez menos nume-rosos de nossa sociedade; um arcasmo que sobrevive nos meses e dias da se-mana de nosso calendrio - talvez por enquanto.

    Uma espcie de fita mtrica ininterrupta e uniforme passa a ser a novaimagem do tempo. Como todos sabemos muito bem hoje em dia, na nova

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    concepo preciso que o tempo renda. Portanto, ela logo se tornou visvelnos estatutos das corporaes e nos documentos comerciais sob a forma declculos contbeis, relatrios de viagens, letras de cmbio, que indicam que ajusta medio do tempo comeava de modo cada vez mais intenso a fazer partedo bom andamento dos negcios. Entretanto, nesses novos tempos, justo cada vez mais um sinnimo de exato.

    No incio foi necessrio aos defensores dessa nova concepo de tempoimp-la s demais pessoas. Assim, educadores juntaram-se na tarefa - nadafcil, alis - de ensinar s crianas que o trabalho o que dignifica o ser huma-no e de persuadi-las das virtudes da pontualidade. Moralistas cerraram fileirasem torno da misso de convencer as pessoas a julgar os resultados do trabalhosegundo o critrio da quantidade. Sacerdotes armaram-se de todos os recursosem funo do objetivo de disseminar temor contra os perigos da preguia,doravante considerada a me de todos os vcios.

    * * *

    No despertar da Idade Moderna os sentidos do tempo so ainda mais com-plexos do que se mostram no quadro que acaba de ser esboado. Como obser-vou Jacques Le Goff (1980: 43-61), o mercador, artfice do novo tempo, estsubmetido simultaneamente ao ritmo da natureza, cadncia do mercado e temporalidade da religio. Estes tempos no existem em sua vida particular ape-nas como matria de especulao terica. Pelo contrrio, eles se encontram asso-ciados a questes prementes da vida prtica. Esto na oscilao das safras e dasentressafras segundo as estaes. Figuram na preocupao com o tempo de tra-balho enquanto fator de composio dos preos das mercadorias. Presidem oincessante pensar sobre seu destino individual aps a morte. Compatibilizar es-tes tempos em uma mesma vida tarefa muito difcil para o burgus.

    O comerciante desta poca quer simultaneamente salvar-se na eternidadee obter lucro aqui. Em muitos casos, tanto entre reformistas protestantes comoentre testadores catlicos mais generosos, o burgus tenta fundir ganho materialcom salvao espiritual. Nesta direo, o burgus inaugura uma nova tica, base-ada no ascetismo mundano, para empregar a expresso celebrizada por MaxWeber. Esta tica, como se sabe, baseia-se na decncia, na diligncia, na gravida-de, na modstia, na prudncia, na razo, na sobriedade, na frugalidade, na ordem,no autocontrole, na disciplina - virtudes que so tambm de natureza econmi-ca. O fator complicador para os burgueses que esta nova tica ainda por algunssculos coexistir com a tica tradicional que, menos apropriada ao progresso

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    econmico, envolvia nfase muito maior nos valores de generosidade e esponta-neidade, ao mesmo tempo em que exibia tolerncia muito mais vasta com res-peito ao que para a nova soar crescentemente como desordem.

    Durante muito tempo nem mesmo os puritanos conseguiram emanci-par-se por inteiro da suposio de que o tempo fosse desigual na qualidade. Noentanto, como testemunhamos hoje, aos poucos foi triunfando a viso de mundodaqueles que queriam abolir os feriados religiosos e as festividades; lentamentefoi ganhando espao a cosmoviso daqueles que se opunham tanto quaresmaquanto ao carnaval; gradativamente foi tornando-se dominante o ponto de vis-ta daqueles que rejeitavam todos os dias santos que no fossem domingo. Es-tes, como os livros de histria nos ensinam, em geral eram protestantes. Masno eram os nicos. De sua parte, os reformadores catlicos se mostravamapenas um pouco menos radicais pois no atacavam o culto aos santos, as festase os feriados em si, mas somente os excessos. Protestavam exatamente contraaqueles exageros que a revoluo industrial e o sculo XX viriam a abolir,inclusive nos pases catlicos.

    Por conseqncia, o tempo livre tendeu historicamente a diminuir. En-tretanto, esta tendncia geral no pode ser considerada de modo simplista. Emprimeiro lugar, ser sempre necessrio considerar a presso exercida em dire-o oposta pelos efeitos do desemprego estrutural, pela industrializao e pelaformao dos exrcitos de reserva necessrios manuteno da massa dos sal-rios em patamares rasteiros. Alm disso, a formao de uma sociedade de con-sumo e de lazer, mais voltada para a reproduo do que para a produo e maisbaseada em mquinas do que em msculos, tambm no estimulou a dedica-o quase total do tempo ao trabalho, como sonhavam os reformadores. Final-mente, apesar de as modernssimas tecnologias prometerem aumento do tem-po livre, nessa promessa no conseguem acreditar os que so conscientes deviverem em uma sociedade baseada na competio.

    * * *

    Apesar da inveno do relgio mecnico, os homens do Renascimentocontinuavam a viver um tempo impreciso, incerto, no-unificado, ainda urba-no e no-nacional. A diversidade de pontos de partida dos relgios ainda era arealidade. No havia concordncia sobre a hora de comeo do dia nas diversascidades e aldeias. Embora quase sempre fosse o nascer ou o pr-do-sol quemarcasse o incio das horas, algumas vilas partiam do meio-dia, outras da meia-noite. Acontece, como se sabe, que aurora e crepsculo se do em horas dife-

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    rentes segundo as estaes e as posies geogrficas. Por conseguinte, mesmoj ingressado na era do relgio, por muito tempo ainda o homem pr-industri-al ter dificuldade de abandonar inteiramente o tempo natural. E ainda demo-rar a dizer, com a facilidade com que ns o fazemos, que o nascer do solocorre em tal ou tal hora.

    Os relgios mecnicos comeam a aparecer no meio do sculo XIV nasprimeiras cidades mercantis e progridem sem que desaparea a tecnologia an-terior. Um significativo avano na preciso dos relgios s se conseguiu com aaplicao do pndulo, a partir de 1658, quando a impreciso dos aparelhos, noscasos mais felizes, passa de cerca de uma hora para alguns minutos por dia. Atento, sem autonomia, os relgios precisam ser vigiados por pessoas ou porinstrumentos que acompanhem o seu funcionamento e que corrijam seus er-ros sistemticos.

    Assim, quadrantes solares, ampulhetas e clepsidras ainda permanecempara um nmero crescente de usurios, apesar de todos os seus velhos incon-venientes. Respectivamente, no servem para os dias nublados, absorvem umi-dade que reduz o escoamento da areia, congelam no inverno. Mas agora estesinstrumentos imemoriais acumulam a funo nova de controladores dos rel-gios mecnicos e figuram lado a lado de profissionais inditos que vo surgin-do, relacionados manuteno dos mecanismos.

    Desse modo, embebidos ainda da cosmoviso de antes, os inventos re-centes fazem quase tudo, salvo marcar as horas com exatido. Bem ao estilo daantiga cultura, os primeiros relgios dizem o ano, o ms, o dia da semana e ashoras. Astrolbios, eles oferecem os movimentos do sol, as fases da lua e asposies dos planetas. So tambm calendrios, que marcam as festas religio-sas e os ofcios de cada dia. Ao anunciar a hora, alguns engenhos chegam mes-mo a emitir msicas e a exibir representaes de cenas do Novo Testamento.Assim, ao mesmo tempo em que so anunciadores da nova, que tende para asespecializaes, os relgios so documentos da antiga cosmologia, em que tudose superpunha e interpenetrava.

    O tempo marcado pelos primeiros relgios mecnicos sobretudo umtempo pblico e ritual. Mais do que um utenslio para regular de modo prticoa vida quotidiana, o relgio durante muito tempo ser principalmente um ins-trumento simblico, um monumento, uma pea da decorao urbana, de quetoda cidade se ufana como smbolo de seu poder e de seu progresso. Osmarcadores mecnicos de tempo por muito tempo concernem mais ao prest-gio da cidade que utilidade pragmtica. com este sentido que, a partir dofinal do sculo XIV, assiste-se a uma verdadeira corrida, em todas as vilas de

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    alguma importncia, para construir ou para equipar com os novos engenhos asedificaes antigas. Por este caminho, ao menos em pases como a Inglaterra, amaioria das parquias j possuir um relgio de igreja nos fins do sculo XVI(Thompson, 1978: 249).

    Essas cidades pretendiam expressar simbolicamente o domnio que ar-voravam possuir sobre o tempo dos habitantes. Signos de poder, os relgiospassaram a figurar em praas, em catedrais, em fachadas de palcios e de prdi-os comunais. A partir dessas posies, exteriorizavam uma mensagem que sedirigia a uma coletividade muito ampla. Difundiam uma mensagem aberta,que convidava as populaes a um tipo de regularidade de vida que at entoera desconhecida. Intensificando uma tradio anterior inveno do relgiomecnico, a informao sobre o fluir do tempo disseminada com o auxlio desinos. Mas estes adicionais j no objetivam apenas incorporar os que estolonge: querem igualmente envolver seus destinatrios pelas horas noturnas,alm de atingir os cada vez mais raros que no sabem ler os mostradores.

    Dificilmente se poderia imaginar no final do sculo XVIII o quo longepoderia ir a irradiao do novo tempo. Com objetivos pragmticos e comoexpresso simblica de seu poder, o nacionalismo nascente incentivou a unifi-cao da hora de modo sempre mais intenso e tanto quanto possvel sobre oconjunto do territrio de cada Estado. Mas no foi apenas isso: habituadosdesde o sculo XVI a datar com exatido crescente os eventos importantes desuas vidas privadas e pblicas, comerciantes, que acertam seus relgios emuma cidade e que podem medir a durao de suas viagens em veculos sempremais rpidos, esperam cada vez mais encontrar horrios coerentes em seusdestinos - porque se fossem acertar seus relgios em cada cidade por que pas-sassem em uma viagem longa teriam que o fazer algumas dezenas de vezes.

    Apesar desses fatores, que ditaro os desdobramento da histria, at oincio do sculo XIX ainda existem at cem horas locais diferentes em ummesmo pas e a hora nacional ainda faz parte das utopias pouco viveis. Talsituao se deveu principalmente a que no havia meios suficientemente rpi-dos para transmitir a informao da hora oficial por todo o territrio. Somentepor volta de 1850 isso comear a ocorrer, com a utilizao do telgrafo eltricopara comunicar s estaes ferrovirias de cidades diferentes a hora da cidadeprincipal a que estivessem ligadas por trilhos. Por esse caminho, no final dosculo XIX, as companhias de trem, talvez tanto ou mais que os governos,foram as primeiras a adotar o tempo standard.

    No incio do sculo XX, expressando o movimento tentacular de expan-so do capitalismo tambm na esfera poltica, esta mesma lgica levar fixao

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    da hora internacional, permitindo colocar em prtica os acordos do final do s-culo XIX que elegeram o meridiano de Greenwich como referncia mundialpara os tempos dos diversos pases. Apesar das resistncias das comunidades lo-cais e nacionais em aceitar o horrio englobante de Londres, viabilizado agorapela utilizao de sinais de rdio, dividiu-se o globo em vinte e quatro zonashorrias com defasagem de uma hora entre cada uma e fixou-se o incio precisodo dia universal. Nos tempos modernos, este talvez seja o smbolo mais clara-mente representativo da autoridade poltica centralizada e globalizadora.

    * * *

    Os primeiros relgios mecnicos, como se sabe, eram enormes epesadssimos. Marcadores do tempo do Estado, eles constituam pontos dereferncia fixos que tentavam magnetizar a ateno das coletividades. Foramnecessrios alguns sculos para que mecanismos menores e mais facilmentetransportveis viessem luz do dia. Alguns sculos de progressos tcnicos, semdvida; mas tambm, e principalmente, de transformaes na direo de men-talidades e de sensibilidades que fizessem da indicao do novo tempo algomais intensamente desejado pelos homens. Mudanas culturais que fizessemdo relgio algo a ser possudo privativamente em casa e a ser portado individu-almente na roupa ou sobre o corpo.

    Com os pequenos aparelhos, o novo tempo se insinua por novos territ-rios. Estendendo tentculos, expande-se e se apossa primeiro dos cmodos dasresidncias particulares. Materializando-se nos relgios de pequenas dimen-ses, nos de parede, nos de pedestal, nos de mesa e nos portteis, o novo tempose capilariza atravs da sociedade, privatizando-se, individualizando-se e au-mentando em eficcia o seu controle sobre as rotinas de cada um. Seguindo algica j mencionada, essa capilarizao comea pelos cmodos mais pblicos,como salas e corredores das casas dos mais ricos. Mas gradativamente vai seestabelecendo nos mais privados, individuais, ntimos. No limite, estacapilarizao resultar em uma penetrao quase visceral em outros objetos eno prprio corpo humano.

    O tempo novo se capilariza, mas muito lentamente. Por exemplo, osrelgios de parede s comearam a se difundir nos fins do sculo XVII, masainda sem o ponteiro de minutos. O ponteiro de segundos, teoricamente cogi-tado pelos matemticos desde o sculo XIV, s se tornar realidade social ver-dadeira entre nossos contemporneos. Assim, foram necessrios alguns scu-los para que os relgios pessoais e domsticos se difundissem pelas popula-

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    es. Sobretudo, foram necessrios sculos para que se transformassem emsonho vivel de cada homem. Depois disso, o relgio individual passou a serexpresso de normalidade social e se tornou produtor de subjetividades: cons-tituiu doravante um presente quase obrigatrio na educao das crianas, comsentido exemplar - um presente sutil e insidioso, que faz a criana fruir comosendo desejvel e agradvel aquele modo de ser que, na biografia dela ou nahistria de sua sociedade, ser estritamente obrigatrio.

    No entanto, durante a maior parte desse processo, pelo menos at o inciodo sculo XX, a propriedade de um relgio particular ficou restrita aos ricos, queem geral os compravam diretamente de relojoeiros ou em joalherias.Analogamente ao que havia acontecido com os comunais, no incio os relgiosprivados funcionavam muito mais como signos de posio hierrquica, comoindicadores de exatido burguesa e como smbolos de adeso a um estilo de vidapuritanamente disciplinado, do que como resposta a exigncias prticas gerais davida social. Para burgueses e aristocratas, o relgio de reduzidas propores ainda principalmente uma pea da decorao domstica, muitas vezes uma jia pes-soal, s vezes um brinquedo. Mas sempre um smbolo de poder.

    * * *

    De cima para baixo, depois de conquistar os poderosos, ser a vez dosmais pobres. No extremo oposto da hierarquia social as concepes novas detempo vo adquirindo uma materialidade bastante distinta. Uma diferena for-temente contrastante aparece entre o tempo dos patres e o dos trabalhadores.

    A formao de uma sociedade industrial pressups da parte dos podero-sos uma severa reestruturao dos antigos hbitos de trabalho de seus empre-gados. Este remodelamento se deu sobretudo nos locais de trabalho, na direode coibir desatenes, negligncias e faltas de cuidado. Tambm afetou os esti-los de ser, no sentido de impedir gestos deslocados, descorteses e desobedien-tes. Modificou os discursos e os modos de conversao. Desenvolveu posturase atitudes corporais corretas. Fez observar parmetros morais, higinicos,produtivos, etc. (Foucault, 1975: 180-2).

    Essa doutrinao se materializou sobretudo pela disseminao de novasdisciplinas e vigilncias, que passaram a dispor operrios e equipamentos emuma ordenao estrita, designando um lugar e um tempo para cada homem epara cada mquina. A disciplina e a vigilncia se tornaram totalmente indispen-sveis na sociedade industrial. Primeiro, porque as mquinas, as mercadorias,os estoques e as matrias-primas so capital valioso nas mos dos trabalhadores

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    e preciso se prevenir contra descuidos, saques e sabotagens. Segundo, por-que, diferente do que acontece na economia artesanal, em uma sociedade in-dustrial a diviso de trabalho exige padres de controle e de coordenao extre-mamente complexos entre os vrios segmentos. Finalmente, porque, sendo otempo dos trabalhadores a verdadeira matria-prima do sistema capitalista e acondio primeira do lucro, resulta necessrio vigi-lo com mincia e cuidardo seu correto investimento.

    Transformar tempo em tempo de trabalho, evitando que os empregados odesperdicem: este o quadro de interesses em que surge toda uma arte dasreparties, para lembrar a expresso de Michel Foucault (1975: 143-151). Nasfbricas, nos hospitais, nas escolas, nas casernas, nas cidades, uma estratgia depoder se materializa em recluses, em localizaes funcionais, em hierarquias,em decomposies, em taxinomias, em esquadrinhamentos, em mensuraes,em clculos, em codificaes e tambm em controles e policiamentos do tempocada vez mais detalhados. Toda esta parafernlia tem o sentido de minimizaratrasos, de impedir faltas e de evitar interrupes de tarefas.

    Em um tempo, que o nosso, em que os tericos sustentam que vive-mos em uma sociedade ora individualista, ora de massa, em que os socilo-gos polemizam entre a cultura particularizante e a globalizadora, seria inte-ressante observar como estes procedimentos resultam em dispositivos de po-der ao mesmo tempo individualizadores e totalizadores. Seria esclarecedorcolocar em evidncia como eles configuram uma estratgia ao mesmo tempomassificante e particularizante, molar e molecular. Dessa estratgia de poder,a disseminao dos relgios individuais - veculos de uma mensagem globale coletiva mas simultaneamente individual e particularizada - constitui umacristalina ilustrao.

    H, pois, toda uma micropoltica, todo um conjunto de sub-poderes(Foucault, 1996: 125), envolvidos nesse cenrio. No foi um aspecto politica-mente irrelevante que os relgios particulares comeassem a se difundir e a semultiplicar, apesar da desconfiana de patres com respeito aos trabalhadoresque os portassem freqente e das no-raras proibies da parte de patres, comrespeito aos trabalhadores que os portassem (Attali, 1982: 216). No mbitodessa micropoltica, os relgios se popularizaram em modelos mais simples,mais baratos e mais democraticamente acessveis s pessoas comuns. Estasos adquirem cada vez mais facilmente de comerciantes ou mascates, que seabastecem em fbricas e atacadistas (Attali, 1982: 188). A conseqncia a for-mao de um mercado popular de relgios usados, roubados, penhorados,contrabandeados... E o dia vir em que, ainda conservando o passado luxuoso,

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    os relgios sero tambm objetos descartveis, praticamente sem valor materi-al, vendidos por camels, ao alcance inclusive de mendigos e passveis de se-rem encontrados at mesmo no lixo.

    A disseminao do relgio se deve ao fato de que em torno do tempocomeam a ter curso severas lutas cotidianas s quais cada vez menos pessoaspuderam permanecer indiferentes. Estes embates se materializaram, de um lado,em trabalhadores vagabundeando, fazendo corpo-mole, inventando meios deresistir e de burlar o controle do tempo de trabalho, tentando escapar dos pa-tres, de seus cronmetros, de seus vigilantes e de seus capatazes, procurandomeios de medir e de valorizar por si mesmos o tempo-mercadoria de que sovendedores.

    De sua parte, os empregadores, mais interessados no valor do temporeduzido a dinheiro do que na perfeio dos produtos, fraudam relgios e ro-tinas de trabalho, editam regulamentos, decretam penalidades sempre mais ri-gorosas, que tm por objetivo o controle do tempo de seus empregados. Pormeio de dispositivos arquitetnicos e de artifcios administrativos especiais, deque o taylorismo foi uma clssica ilustrao, os patres procuram fazer comque os trabalhadores no tenham plena conscincia do escoamento do tempo(Attali, 1982: 215; Thompson, 1978: 278-9). Na encruzilhada desse embate,resulta o relgio de ponto: ao mesmo tempo instrumento de controle de pon-tualidade, utilizado pelos patres, e estratgia defensiva, reivindicada pelos tra-balhadores contra os roubos de tempo perpetrados pelos primeiros.

    Nos sculos XIX e XX, a difuso dos relgios constituiu um processo detal maneira caudaloso, que, salvo alguns poucos locais que mereceriam umestudo especfico, eles acabaro presentes nas esquinas, nas casas comerciais,nas mesas de trabalho, embutidos nos telefones, nos painis dos automveis,nos eletrodomsticos e literal (marca-passos, etc.) ou metaforicamente embu-tidos nos corpos humanos... Sero tambm assduos nos imaginrios, como nodas crianas entrevistadas por Simone Valladares (1989), que fabulam o futurocomo um tempo em que os homens nascero com relgios implantados nocrebro, de modo a jamais se atrasarem e de maneira a estarem sempre dispen-sados de se dirigir a outras pessoas para perguntar as horas!

    * * *

    Este foi o processo que acabou fazendo do relojoeiro, desde o final dosculo XIV, o tcnico-chave da engenharia mecnica: aquele que veio a possi-bilitar materialmente a sociedade industrial. Este tcnico foi o criador de quasetodas as mquinas da indstria txtil - inventando, deduzindo ou adaptando

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    ncoras, molas, juntas, engrenagens, rolamentos, pinhes, balanos, mostra-dores... peas que originalmente eram destinadas relojoaria. Alm disso, orelojoeiro tambm foi um especialista crucial para a fabricao de armas depreciso - para no esquecermos a observao de Jacques Le Goff de que osculo do relgio foi tambm o da profundidade visual e o do canho e (1980:70-1). Mais tarde, a primeira greve na histria da Frana, talvez no por acaso,foi a dos relojoeiros, em 1724 - quando a corporao, talvez tambm no poracaso, pediu ao rei a condenao dos prprios lideres (Foucault, 1996: 78).

    Assim, a relojoaria foi desde sempre uma indstria de ponta (Attali, 1982:181). E o relgio constituiu o primeiro objeto industrial produzido em srie paraconsumo em massa (Thompson, 1978: 256-8). Representou sempre uma esp-cie de mquina prototpica, da qual descenderam as demais. Mais do que isso,mesmo na poca dos computadores extremamente sofisticados, o relgio cons-titui a razo de ser dos mesmos. Inapelavelmente a mquina-crebro, de cujofuncionamento depende o andamento e a coordenao das demais.

    Alm de um utenslio, pouco a pouco o relgio foi se transformando ememblema da sociedade industrial. Foi se metamorfoseando em smbolo quecondensa toda uma estrutura de pensamentos, de sentimentos e de comporta-mentos, que devemos observar. Esta a razo por que, tanto para burguesescomo para trabalhadores, na medida em que foi tomando corpo a sociedade debase capitalista e industrial, os relgios transitaram de luxo de alguns para ne-cessidade sempre mais e mais premente de quase todos.

    Jos Carlos Rodrigues Professor da PUC-Rio

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    ResumoRelativizao da noo de tempo. Tempo e poder. O tempo ocidental capitalista e aproduo da subjetividade contempornea. Macro e micropoltica do tempo.

    Palavras-chaveTempo, poder, subjetividade, sociedade industrial.

    RsumRelativization de la notion de temps. Temps et pouvoir. Le temps occidental-capitalisteet la production de la subjectivit contemporaine. Macropolitique et micropolitiquedu temps.

    Mots-clsTemps, pouvoir, subjectivit, societ industrielle.

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