Instituicoes de Direito Do Trabalho - Arnaldo Sussekind

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Direito do Trabalho - Arnaldo Sussekind

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A C R D O

14146

INSTITUIES DE DIREITO DO TRABALHO

20 Edio Atualizada por

ARNALDO SUSSEKIND

LIMA TEIXEIRA

ORGANIZAO SINDICAL

por Segadas Vianna

1 - UM POUCO DE HISTRIA DO SINDICALISMO

No caberia no mbito deste livro e nos limites restritos de um captulo proceder a um completo estudo da histria do sindicalismo. Consoante a lio de Ren Maunier, antigo professor da Universidade de Paris, sendo quase infinitas as variedades de grupos concretos na sociedade, so poucos, porm, os princpios segundo os quais podem os mesmos ser classificados e, na verdade, se resumem a trs: "Se se procura o que faz a unidade e a durao de um grupo humano; se se observa o motivo pelo qual os membros de um determinado grupo so ligados entre si; se se quer saber em virtude de que permanecem unidos, concluir-se- que tal se d, ou pelo parentesco, ou pela localidade, ou ainda pela atividade"'.

Verificamos que a atividade cria laos mais profundos entre os homens do que os decorrentes da localidade e, em certos casos do parentesco, porque o exerccio de uma atividade, e especialmente de uma profisso, cria caractersticas das quais o indivduo jamais se liberta e que at transmite a seus descendentes. E isso aconteceu, nas pocas mais primitivas, nos povos ainda nas suas fases de formao social, unindo em grupos ou castas guerreiros, sacerdotes, pastores.

Permitisse a angstia do espao a que estamos submetidos e teramos de ir procurar na histria do antigo Egito a coalizo de trabalhadores, unidos pelas condies profissionais semelhantes, fazendo verdadeiras greves, provocadas por interesses idnticos em atividades comuns. Velhas de milhares de anos, acharamos na ndia e na China certas instituies que marcaram, na sua constituio, na sua formao, a maneira que poderia levar a confundi-las com as instituies sindicais, se no fizssemos uma melhor anlise de suas origens. Mas, como afirmamos, tudo isso no se justificaria dentro de um captulo.

Caberiam tais pesquisas melhor, entretanto, num estudo de sociologia do que em uma histria do sindicalismo, que, para muitos, apenas nasceu com a Idade Moderna e conseqncia da Revoluo Industrial com a mquina e a fbrica.

A Colgios romanos. Apenas pela sua semelhana com alguns sistemas sindicais e com as corporaes, poderemos ir buscar na Antigidade as origens do sindicalismo nas instituies romanas, distribuindo o povo segundo artes e ofcios, numa organizao com certos pontos formais semelhantes aos sindicatos modernos. Mas, enquanto estes foram uma conseqncia do individualismo liberal, levando os trabalhadores, em face da absteno do Estado, a se unir para a defesa de seus direitos e reivindicaes, os colgios romanos nasceram por uma determinao da autoridade.

Uns atribuem a Srvio Tlio a criao dos colgios romanos, dissolvidos oficialmente no ano 64 a.C. e mantidos realmente at o ano 56 da era crist, mas Jos Nart Rodes da sua paternidade a Numa (763-671 a.C.) e nos explica as causas de sua instituio: "Entre todas as instituies que se devem a Numa, a que se aprecia mais e a distribuio do povo segundo as artes e ofcios, pois a cidade ento o Estado se compunha de duas naes, ou melhor, se dividia em duas faces que de modo algum queriam unir-se nem pagar as diferenas, causa diria de disputas e debates entre elas. Pensou que, similarmente aos corpos slidos, que, no se podendo misturar previamente enquanto se encontram inteiros, se incorporam com facilidade desde que so triturados e reduzidos a p, de vez que a pequenez das partes facilita a mistura, era, outrossim, necessrio dividir o povo em vrias partes diminutas, levando-o, com isto, para os interesses particulares que desapareceriam e trariam consigo o interesse geral, o qual j no significava nada, uma vez debilitado e dividido em tantas partes diferentes. Dividido, pois, o povo por ofcios, tais como msicos, ourives, carpinteiros, tintureiros, sapateiros, curtidores, ferreiros, oleiros e outros, colocando os artesos de cada um em um s e mesmo corpo, ordenando confrarias, festas e assemblias, e assinalando o culto que deviam tributar aos deuses, segundo a dignidade de cada ofcio"

B Corporaes e similares. Criados com o objetivo de dividir o povo, evitando o choque entre sabinos e romanos, os colgios tiveram, entretanto, como conseqncia, dar forma ao esprito de classe, a mentalidade grupal, que iria, sculos mais tarde, irmanar os trabalhadores oprimidos e desprezados.

Mil anos depois, em poca no exatamente determinada, mas que, segundo Levasseur, foi entre os sculos XII e XIII, surgiram, na Franca e na Alemanha, quando se construam as catedrais de Notre Dame e as de Colnia, as Bruderschaften e as Fraternits. Talvez mais antigos ainda, existiam os corps de mtiers dos fabricantes de velas (1061), dos carniceiros (1134) e dos padeiros (1162).

Tambm no se pode afirmar, com exatido, quando esses grupos profissionais receberam sua primeira regulamentao, mas Hekscher, com fundamentadas razes, afirma que foi no ano de 1351, com a Ordenana de Joo II, o Bom, e como conseqncia da peste que assolou o pas. Mais ou menos pela mesma poca, na Inglaterra, Eduardo III expedia os Statutes of Labourers. Mas o domnio e a organizao do trabalho j estavam nas mos da corporao, que constitua uma organizao com o privilgio de determinada atividade ou produo, e se apoiava em uma "carta-privilgio" dada pelo imperador, pelo senhor feudal ou pela cidade. Apoiadas pela Igreja, pois tinham finalidades tambm religiosas, as corporaes faziam do seu monoplio um meio de explorao dos trabalhadores, e, para isso, os mestres obtinham o apoio das autoridades porque se encarregavam de arrecadar os impostos e pagavam grandes quantias pela obteno dos privilgios.

Mas no s na Frana e na Inglaterra o sistema das corporaes dominava. Elas existiam tambm na Alemanha, na Itlia e na Espanha. Nesse ultimo pas, sua organizao tinha caractersticas marcantes: "Os manuais de Ben Abdum e Al Sagati nos ensinam que os artesos hispano-muculmanos estavam grupados em corporaes de ofcio, ou grmios, dirigidos por um sndico, a quem denominavam amin fiel e tambm arig pertencente ao ofcio. 0 amin era designado pela autoridade e tinha, perante esta, a responsabilidade do cumprimento das ordenanas do grmio e da observncia, entre seus membros, das regras de probidade comercial. Os artesos de um mesmo grmio costumavam agrupar-se formando ncleos de populao e seus estabelecimentos ocupavam toda uma rua e, s vezes, um bairro que recebia seu nome".

Com o mesmo sentido foram as primeiras sociedades portuguesas de ofcio, como nos conta Vieira Fazenda: "Segundo as tradies dos antigos grmios da Idade Mdia, os artistas eram, segundo sua profisso, divididos em 24 corporaes, cada uma das quais elegia o seu juiz, cuja reunio constitua a referida Casa dos 24.

Estes, dentre si, elegiam um presidente, chamado Juiz do Povo, e um escrivo, os quais tomavam assento no Senado. Cada um desses grmios tinha seus estatutos e regulamentos aprovados pelo Governo, debaixo da inspeo do Senado.

No Brasil tambm tivemos grmios, mas jamais atingiram o desenvolvimento que tinham em Portugal e Espanha. Imitaes determinadas pelos governadores quase no tiveram outra atuao que no fosse nas festas religiosas; deles temos notcia em 1693, quando o Conselho determinou, no Rio de Janeiro, que nas procisses os juzes de ferreiro e sapateiro apresentassem a imagem de So Jorge, que os alfaiates dariam a serpe, os dos marceneiros a imagem do Menino Deus, os dos ourives e pedreiros acompanhassem somente com suas tochas, e os taverneiros e mercadores apresentariam uma dana, para cujo fim se deveriam pintar". De idntica determinao temos notcia, em 1704, na Cmara do Maranho, da Bahia e de Pernambuco.

Em 1624, por intermdio de "misteres" ou "mesteres", faziam-se ouvir na Cmara da Cidade do Rio de Janeiro dois deles, eleitos pelos "oficiais mecnicos", e em 1736 a mesma Cmara informa ao Governador Silva Pais que nela se costumava ouvir o povo atravs de procuradores de "mercancia e mecnica". Infelizmente o incndio da Cmara, em 1790, destruiu seus arquivos, impedindo um estudo mais completo sobre os grmios, no Rio de Janeiro, dos quais s temos notcias esparsas.

Gilberto Freyre, no seu "Nordeste", tambm nos d notcia da unio dos negros escravos em Pernambuco: "No Recife, os negros dos prprios armazns de acar foram formando uma espcie de aristocracia de escravos, superiores em prestgio, embora nem sempre em condies materiais de vida, aos escravos das plantaes de cana. No ambiente da cidade, menos impregnado da autoridade dos senhores de engenho, eles formavam uma corporao parte e tinham o seu governador especial, como se v da Proviso de 18 de setembro de 1776, passada pelo Governador Jos Csar de Menezes, pela qual foi nomeado o preto crioulo Manuel Nunes da Costa governador dos pretos mercadores de caixas de acar desta praa".

Igualmente no pode ser esquecida, neste rpido esboo histrico do sindicalismo, a Deciso n. 17, do Conde de Aguiar, em 1812, estabelecendo em Pernambuco uma "companhia de pretos", com direitos e deveres especiais, "para fazer todo o trabalho que for necessrio ao bem comum do comrcio, fazendo arrumar e separar a carga de cada um dos navios", porque sua organizao foi, sem dvida, a primeira experincia da disciplinao das atividades de uma classe, com certas prerrogativas que ainda existem nos sindicatos de estivadores.

Por outro lado, como conseqncia do esprito de resistncia ao meio, fora criadora do sindicalismo de luta, devemos lembrar as confrarias de escravos que, a par de finalidades religiosas, visavam amealhar recursos para comprar sua carta de alforria, sendo de grande relevo a de Chico Rei, em Minas Gerais, no comeo do sculo XVII, que chegou a adquirir uma mina de ouro, em Vila Rica, usando sua produo para pagar a liberdade de outros escravos. E muitas outras existiram, com o nome