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Intervenções Psicossociais No Sistema Carcerário Feminino

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  • IntervenesPsicossociais no

    Sistema CarcerrioFeminino

    Art

    igo

    558

    MarcelaAtaide Guedes

    Psychosocial interventions in the female prison system

    PSICOLOGIA CINCIA E PROFISSO, 2006, 26 (4), 558-569

  • Resumo: Um dos meios de percepo do crescimento da violncia nasociedade atual pode ser mensurado pelo aumento da populaocarcerria, o que pode favorecer a violao dos direitos humanos.Considerando os poucos dados disponveis, o presente trabalho buscouinvestigar essa populao, visando a contribuir para a produo deconhecimento sobre esse grupo. Por meio do planto psicolgico, realizadonuma delegacia de Belo Horizonte/MG, acolhemos demandasespontneas de sessenta e sete mulheres, de agosto de 2004 a julho de2005. A faixa etria das mulheres variou de dezoito a quarenta e doisanos, e o tempo de priso, de um a trinta e seis meses. A anlise temticados assuntos abordados pelas mulheres aprisionadas salientoucaractersticas como o cotidiano prisional, a maternidade/relaesfamiliares, as vivncias amorosas internas/externas e as relaes de gnero.Foram apontadas estratgias individuais e coletivas que visam a facilitar adinmica interna cotidiana: o apego aos filhos/familiares, as prticasreligiosas, as oficinas de artesanato, o trabalho na limpeza e as relaesamorosas internas.Palavras- chave: sistema prisional feminino, excluso social, Psicologiasocial.

    Abstract: One of the means of perception of the increase of violence inthe current society can be measured by the growth of the incarceratedpopulation, what possibly contributes to the breaking of human rights.Singularities have already been observed in relation to female inmates,what makes the matter still more difficult to be faced due to few availabledata. The present study aimed to investigate this population in order tocontribute to the knowledge about this group. Through the psychologicalshift in a police station in Belo Horizonte we received spontaneousstatements from 67 women from August 2004 to July 2005. The womensage ranged from 18 to 42 and the sentence length from 1 to 36 months.An analysis of the themes for the issues brought by the inmates showedcharacteristics such as everyday life in prison, maternity/family relationships,internal and external love relationships and gender relationships. Individualand group strategies were listed to facilitate the everyday internal dynamic:family / parental attachment, religious practice, handicraft workshops,cleaning work and inmates love relationships.Keys word: female prison system, social exclusion, Social Psychology.

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  • abusos que ocorrem em seu interior, pareceser apenas mais um elo na cadeia de mltiplasviolncias que conformam a trajetria de umaparte da populao feminina. Na melhor dashipteses, ela no favorece em nada ainterrupo da violncia e da criminalidade. Napior, ela refora e contribui para que a violnciase consolide como a linguagem predominantena vida das presas e daqueles que as cercam.O ciclo da violncia, que se inicia na famlia enas instituies para crianas e adolescentes,perpetua-se no casamento, desdobra-se na aotradicional das polcias e se completa napenitenciria, para recomear, provavelmente,na vida das futuras egressas (p. 126).

    A partir do exposto, um aspecto fundamentala ser ressaltado diz respeito ao contexto deviolncia que muitas dessas mulheresvivenciaram e continuam a vivenciar, que inclui,alm das agresses fsicas, sexuais epsicolgicas diretamente sofridas ao longo daexistncia, perdas violentas de parentesprximos e/ou de parceiros conjugais.

    Destacamos ainda outras especificidades docrcere feminino. Assis e Constantino (2001)descrevem que existe um imaginrio socialconstrudo em torno da criminalidade feminina,que acolhido inclusive por autoridades comojuzes, delegados, carcereiros, advogados, etc.Concebe-se que as mulheres so fortementeinfluenciadas por estados fisiolgicos e que seuscrimes so, em grande escala, cometidos noespao privado, j que o espao pblico aindalhes muito negado. Muitas vezes seenvolvem em crimes passionais ou naquelescometidos sob violenta emoo. Quandocometem crimes de outra natureza, como aparticipao no trfico de drogas, esses estovinculados a uma posio subalterna justificadacomo uma extenso natural de suas relaesafetivas. Acredita-se que participem dos delitosem nmero menor que os homens e sejampostas margem das atividades importantes.So consideradas perigosas e no confiveis,capazes de traio, com exceo das que

    Intervenes Psicossociais no Sistema Carcerrio Feminino

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    O presente trabalho baseia-se em um projetoque integrou atividades de ensino, pesquisae extenso.

    Teve incio em agosto de 2004, como atividadede pesquisa e interveno, atravs daaproximao com o sistema prisional de BeloHorizonte/MG, que nos apresentou umarealidade que demandava e permitia odesenvolvimento de um projeto de extenso

    1

    que incluiu uma interveno teraputica atravsdo atendimento de planto psicolgico,orientado e supervisionado pela Prof Dr IngridFaria Gianordoli-Nascimento.

    2

    Tal demanda surge de uma delegacia situadana Capital mineira, que solicitou nossaparticipao junto a um projeto que buscavacontribuir para o processo de incluso,recuperao e construo de cidadania dasmulheres que se encontram detidas, atravsdo trabalho em atividades internas e cursosde trabalhos manuais, o que permitiu umaprofissionalizao, j que visava reinserosocial e no mercado de trabalho.

    A articulao entre a vivncia do plantopsicolgico e a reviso da literatura nospermitiu descrever algumas dasparticularidades da realidade institucional e davida dessas mulheres, que se revelaraminformaes fundamentais para acompreenso deste trabalho

    3.

    consenso entre especialistas, opinio pblicae o prprio governo que o sistemapenitencirio do Pas vive uma crise aguda,seja pelas pssimas condies de vida nospresdios e carceragens, seja em decorrnciados casos de corrupo que envolvempoliciais, funcionrios e juzes e que aparecemfreqentemente nos jornais.

    No que tange carceragem feminina, Soarese Ilgenfritz (2002) apontam:

    (...) o que os dados mostram que a priso,tanto pela privao de liberdade quanto pelos

    1 CENEX/UFMG.

    2 Professora doDepartamento dePs ico log ia /FAFICH/UFMG.

    3 O presente tra-balho,tambm orien-tado pelaProf Dr Ingrid FariaGianordoli-Nascimento(Dep.de Psicologia/FAFICH/UFMG), contoucom a colaborao dopsiclogo AlessandroVincius de Paula(mestrando do Programade Ps-graduao emPsico log ia /FAFICH/UFMG), que participouativamente dasatividades de co-orientao e interveno.

    (...) o que osdados mostram

    que a priso, tantopela privao deliberdade quantopelos abusos queocorrem em seu

    interior, parece serapenas mais um

    elo na cadeia demltiplas violnciasque conformam atrajetria de uma

    parte dapopulao

    feminina.

    PSICOLOGIA CINCIA E PROFISSO, 2006, 26 (4), 558-569

  • passam por provas especiais de valor. Exceose faz somente quando se trata de lsbicas ouprostitutas, que so identificadas como maisparecidas com os homens, mais machonas emais habituadas rua e delinqncia.

    No que tange ao estudo desse fenmeno,concordamos com Frinhani (2004), queenfatiza o excesso de tematizao porprogramas televisivos que tratam de assuntoscomo violncia, direitos humanos ecriminalidade, o que possibilita a construode um imaginrio, muitas vezes de formapreconceituosa e estigmatizante, dessasquestes.

    Dessa forma, a mdia acaba por contribuir, deforma macia, para a manuteno de umaideologia opressora e comprometida com osinteresses da classe dominante. Assim, apequena importncia dada criminalidadefeminina se deve, entre outros fatores, faltade dados objetivos, que responde pelodesinteresse em aprofundar a discusso atravsde uma investigao cientfica rigorosa.

    Este trabalho pretende oferecer a possibilidadede se empreender um estudo sobre a vida demulheres encarceradas, a partir do que elaspensam, agem e falam de forma sistematizada,o que permite, alm de compreender aspectosrelevantes a esse respeito, compreendertambm as relaes estabelecidas com suasdiferentes redes de relacionamento social,incluindo o ambiente prisional, com o objetivode elaborar polticas pblicas.

    Atravs do planto psicolgico, visamos afornecer um espao de ateno psicossocial sade dessas mulheres, buscando contribuirpara a produo de conhecimentos especficossobre essa realidade to pouco estudada ato momento.

    Sendo assim, Menandro (1998) menciona doispontos chave no processo de valorizao doindivduo como ator social e que tmimplicaes metodolgicas em nosso trabalho:

    a relevncia de se ouvir as explicaes dosujeito, no restringindo a anlise observaoda ao, e a valorizao de quaisquerinformaes que possam ser extradas dasaes ou de produtos das aes dos indivduos.Percebe-se, dessa forma, a importnciarecentemente dada pelas cincias sociais vida cotidiana e a sua aplicabilidade nestaexperincia em particular.

    Procedimentos metodolgicos

    O atendimento na modalidade plantopsicolgico visa ao atendimento individual ede emergncia s presas alocadas nainstituio, e tem como objetivos acolher suasdemandas emocionais e contribuir parafornecer ateno psicossocial sade dessasmulheres. Por ser mais conveniente dinmicado estabelecimento, o planto psicolgicoocorreu regularmente, no turno da manh,cinco vezes por semana, e foram atendidas,em mdia, trs mulheres por turno.

    Antes de comear cada atendimento, explicou-se detalhadamente s detentas quais eram osobjetivos do mesmo, com garantia deanonimato e sigilo. Todos os atendimentosforam individuais, com durao mdia decinqenta minutos, e realizados em espaoprivado, sem a presena de outras detentasou membros do DI (agentes penitencirios e/ou policiais).

    O atendimento foi baseado numa propostaterico-metodolgica desenvolvida peloaconselhamento psicolgico, qu

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