Introdução ADOI 10.1590/S0103- ?· ESTUDOS AVANADOS 29 (83), 2015 183 Introdução saga humana de…

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  • estudos avanados 29 (83), 2015 183

    Introduosaga humana de produo de alimentos para a sobrevivncia levou a Cincia e a Tecnologia (C&T) a dedicarem-se a sistemas agrcolas inten-sivos em insumos e capital sob a premissa do princpio da familiaridade,

    segundo o qual se avana at que se encontrem problemas. Houve de fato um aumento na produtividade dos cultivos. Entretanto, essa estratgia resultou em externalidades negativas que a C&T no conseguem mitigar e mesmo os avan-os tecnolgicos, como a produo de organismos geneticamente modificados ou transgnicos, no conseguiram diminuir esses efeitos adversos ao meio am-biente e sade humana.

    So muitas as ameaas agrobiodiversidade, conceituada como a parte da biodiversidade utilizada pela humanidade. No s as prticas utilizadas na agri-cultura industrial ou qumica, como tambm as mudanas climticas contribuem para a extino de espcies e para minar os processos ecolgicos. As variedades transgnicas ameaam sobremaneira a agrobiodiversidade pela contaminao por transgenes, bem como a diversidade cultural das comunidades tradicionais.

    Surgem ento preocupaes e propostas para que sistemas agrcolas sus-tentveis possam ser utilizados na produo de alimentos e outras necessidades humanas. Trata-se agora da saga pela sobrevivncia no s da espcie humana, como da maioria das espcies. Uma metodologia milenar a conservao pelo uso, na qual os agricultores de todo o mundo cultivam, conservam, produzem alimentos, fibras e outras necessidades de forma sustentvel.

    A agroecologia um dos sistemas agrcolas mais sustentveis sob todos os aspectos e prope-se a resgatar a dignidade humana dos agricultores que ao lon-go da histria domesticaram plantas e animais e mantiveram grande parte da di-versidade gentica utilizada pela espcie humana. Alm disso, ao conservarem a agrobiodiversidade, esses agricultores promoveram prticas e inovaes que so agora reconhecidas pela comunidade cientfica e pelos tomadores de decises.

    Assim, este artigo trata das ameaas agrobiodiversidade, bem como dis-cute oportunidades e estratgias para a conservao e o uso sustentvel da di-versidade gentica, essencial no s para a sobrevivncia da espcie humana, mas tambm dos processos ecolgicos essenciais manuteno da vida no planeta.

    A agroecologia: estratgiasde pesquisa e valores1Rubens OnOfRe nOdaRi ie Miguel PedRO gueRRa ii

    A

    Gisele HigaTexto digitadoDOI 10.1590/S0103-40142015000100010

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    A agrobiodiversidadeA agrobiodiversidade a parcela da biodiversidade constituda por um

    conjunto de organismos e ecossistemas que apresentam fortes relaes com os seres humanos, podendo ser domesticados, semidomesticados, cultivados ou manejados pelo homem. Segundo a Conveno sobre Diversidade Biolgica (CDB) a agrobiodiversidade representa uma gama praticamente inesgotvel de combinaes entre seus quatro nveis de complexidade: diversidade dentro de espcies, diversidade entre espcies, diversidade entre ecossistemas e diversidade etnocultural.2 Nesse vasto conjunto de combinaes, encontram-se componen-tes de alto interesse para o desenvolvimento socioambiental sustentvel, com foco em comunidades rurais e locais, que representam acmulos de conheci-mentos transmitidos de geraes antepassadas, muitas vezes seculares (Stella; Kageyama; Nodari, 2006).

    Essa parte da biodiversidade que serve de alimento, fonte de fibras, leos, energia, medicamentos, entre outros usos, foi reconhecida pela civilizao hu-mana em seus primrdios, quando o homem era considerado coletor-caador. O que desfrutamos hoje resultado de prticas e inovaes feitas pelos agricultores no passado, resultando na domesticao de plantas e animais. Essa expressiva diversidade gentica tem sido mantida pela conservao ex situ, em bancos de germoplasma, e principalmente pelo uso sustentvel e pela conservao in situ ou on farm, realizada principalmente pela agricultura familiar. Essas variedades conservadas localmente so consideradas reservatrios naturais de genes com potencial de uso para a produo sustentvel de alimentos, fibras e medicamen-tos, entre outros. Essa diversidade gentica, contudo, est sendo perdida em ritmo alarmante em razo, entre outros motivos, do crescimento desorganiza-do, da fragmentao dos ecossistemas naturais e da introduo de variedades exticas melhoradas e espcies exticas invasoras.

    Como medida de preveno ao risco de eroso gentica, a CDB criou um novo marco na conservao dos recursos genticos em mbito mundial. Para garantir a conservao in situ ou on farm, conclamou o mundo a dar maior importncia aos recursos genticos e, em 1996, passou diretamente a abordar questes relacionadas s praticas agrcolas tradicionais, ao uso sustentvel e conservao dos recursos genticos.

    Em razo da prtica histrica dos agricultores, a troca de sementes possi-bilitou a disseminao das espcies de plantas mais importantes para a alimen-tao. A grande diversidade gentica existente nas variedades crioulas (ou lan-draces) possibilitou que a seleo natural e a seleo praticada pelos agricultores promovessem a adaptao a distintos ambientes, mesmo distantes dos centros de domesticao. Nesses locais, propriedades caractersticas foram desenvolvidas e fixadas nos diferentes gentipos, muitas delas no encontradas em outras re-gies ou mesmo nas regies de origem. Em diferentes locais foram domesticadas diferentes espcies, e embora as prticas tenham sido semelhantes, as espcies

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    domesticadas e os seus usos foram associados aos valores culturais e aos ritos dos habitantes e comunidades daquelas regies. Assim, nesses centros a diversidade gentica resultado de fatores de natureza histrica, ecolgica, gentica e cul-tural. Configura-se, assim, um processo coevolutivo no qual a cultura humana moldou e adaptou os sistemas biolgicos, e estes moldaram a cultura (Norgaard, 1989).

    As variedades crioulas (no Brasil tambm chamadas de locais e tradicio-nais) das principais culturas e das espcies regionais subutilizadas geralmente apresentam boas qualidades nutricionais e esto bem adaptadas s condies ecolgicas locais e necessitam baixas quantidades de insumos agrcolas. Com-parativamente s variedades crioulas, as variedades modernas apresentam uma constituio nutricional mais pobre em vrios nutrientes (Davis, 2009; Davis; Epp; Riordan, 2009). Esses autores verificaram que os teores de treze nutrien-tes e da gua declinaram, comparativamente aos dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) publicados entre 1950 e 1999, para 43 cultivos, a maioria de plantas hortcolas. Esse empobrecimento nutricional foi mais expressivo para seis nutrientes (protenas, clcio, fsforo, ferro, riboflavina e cido ascrbico). Cabe destacar que essa diminuio foi de 6% para as protenas a 38% para a riboflavina. A hiptese mais provvel para explicar essas ocorrncias de que o melhoramento gentico privilegiou mais o rendimento (geralmente visando o acmulo de amido ou massa foliar), em detrimento do acmulo de outros nutrientes e vitaminas essenciais, configurando um efeito de diluio. Para o caso do brcolis, os teores mdios de clcio analisados nas variedades h-bridas modernas foram de 3,4 mg/g, valores esses expressivamente mais baixos do que aqueles observados nas variedades da dcada de 1950 (12,9 mg/g) e do ano de 1963 (9,4 mg/g). Concluram os autores que qualquer reduo nos teo- res nutricionais geralmente mais bem explicada pelas mudanas nas cultivares entre 1950 e 1999, e que realmente pode ter ocorrido uma relao inversa entre rendimento e contedo de nutrientes.

    Por que as variedades crioulas so consideradas como um recurso gentico que contm genes para a adaptao a distintos ambientes e necessidades da civi-lizao humana? Porque variedade crioula uma variedade local ou regional de domnio das comunidades indgenas, tradicionais locais ou de pequenos agricul-tores, que consiste de gentipos com uma ampla diversidade gentica, adaptados a hbitats especficos, como resultado da seleo natural combinada com a pres-so de seleo humana sobre o meio ambiente local (Stella; Kageyama; Nodari, 2006, p.54). As caractersticas das variedades crioulas permitem o seu uso poten-cial para a produo sustentvel de elementos essenciais para a humanidade, tais como alimentos, fibras e medicamentos, entre outros. E essa agrobiodiversidade tem sido obtida e mantida por populaes tradicionais (Tuxill, 2000).

    Para tornar operacional o manejo sustentvel e o melhoramento por meio do manejo e prticas participativas, a existncia de diversidade gentica impres-

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    cindvel. Da mesma forma, as mudanas climticas globais fortalecem e ampliam a necessidade de conservao e a utilizao desses recursos genticos.

    Quando se consideram as prticas agroecolgicas, a agrobiodiversidade tambm imprescindvel, pois um dos princpios ecolgicos mais importantes nos quais essas prticas se fundamentam a diversidade de espcies e a diversi-dade intraespecfica nos agroecossistemas.

    Conservao in situ ou on farmMaxted et al. (1997, p.340) definiram conservao in situ ou on farm

    como o manejo sustentvel da diversidade gentica de variedades agrcolas tra-dicionais localmente desenvolvidas, associadas a formas e parentes silvestres e desenvolvidas por agricultores dentro de um sistema de cultivo agrcola, hort-cola ou agroflorestal tradicional. Esse tipo de conservao, praticada h mil-nios pelos agricultores, fundamenta-se em um contnuo processo de evoluo e adaptao, no qual novos variantes surgem e so desafiados pela seleo natural e artificial (Stella; Kageyama; Nodari, 2006).

    H muitas razes para justificar a necessidade da conservao on farm. Brush (2000a) cita as seguintes:

    (1) elementos-chave dos recursos genticos dos cultivos no podem no ser capturados e mantidos fora da rea de cultivo;

    (2) os agroecossistemas continuam a gerar

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