Ivam Cabral

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Primeiras Obras

Text of Ivam Cabral

  • Ivam Cabral* * *

    Chove Muito l ForaUma Arquitetura para a Morte

    Grard, a TragdiaDe Quem Sois?

  • Ivam CabralColeo Primeiras Obras, 3Ivam Cabral (organizador)

    Apoio Cultural

  • Ivam Cabral* * *

    Chove Muito l ForaUma Arquitetura para a Morte

    Grard, a TragdiaDe Quem Sois?

  • 5PrefcioUma Dramaturgia para a Redeno

    erika riedel7

    Chove Muito l Fora13

    Uma Arquitetura para a Morte31

    Grard, a Tragdia41

    De Quem Sois?55

  • 7Minha primeira impresso acerca de Ivam Cabral foi a de que ele era um dos mais talen-tosos atores que eu j havia visto em cena. Isso aconteceu em 2002, durante a encenao de De Profundis. Desde ento decidi acompanhar de perto sua trajetria. Surpreendente o mnimo que eu poderia dizer desta incrvel jornada.

    Ivam muito mais do que um ator. ence-nador, criador, dramaturgo, autor. Em essncia, um homem do palco. Ler sua obra, onde quer que ela esteja, sempre um prazer. Suas pala-vras fluem com a mesma graa e naturalidade de um rio que simplesmente segue seu curso.

    Compulsivo, Ivam escreve quase na mesma proporo em que respira e sua linguagem segue a ndole de sua multiplicidade. Ele nos

    Uma dramaturgia para a redeno

    Prefcio

  • 8i v a m c a b r a l

    delicia sempre com seus escritos, que vo desde desabafos poticos publicados em seu blog at minissries de televiso. Seria preciso mais do que um livro inteiro para comentar toda a sua vasta produo. Mas quero me ater ao Ivam Ca-bral dramaturgo, que, neste livro, nos apresenta quatro de seus textos para teatro.

    Antes de comentar sobre os textos, porm, gostaria de chamar a ateno do leitor para a escolha dos temas sobres os quais Ivam escre-ve. Sempre fugindo do lugar comum, ele nos oferece neste volume a possibilidade de viajar por pocas e paisagens das mais distintas e nos brinda com personagens de intensidade mpar.

    Um dos traos marcantes em sua escrita a constatao de que a dor, inerente ao ser huma-no tanto quanto o amor, no escolhe favoritos, mas pode, a despeito de qualquer crena ou valor, irmanar a todos. Parece cruel? Mas se h crueldade na tristeza, h tambm poesia, e em sua obra Ivam no a deixa escapar.

    Numa primeira leitura, a obra que aqui nos apresenta poderia ser considerada pessimista, no entanto, h nela tambm uma perspectiva

  • 9p r i m e i r a s o b r a s

    contrria. Ainda que a solido e a incomunica-bilidade muitas vezes levem suas personagens morte, se vislumbra nelas uma esperana. E quando me refiro esperana quero falar sobre afeto, sobre amor, sobre buscar, at quando as foras permitirem, um sentido que justifique a existncia.

    Observo nesta coleo de textos que o ine-xorvel fim precedido, quase sempre, por uma busca, uma luta, s vezes at insana, por vida. Por outra vida, talvez. Por essa chama que pare-ce sempre querer escapar. Chama que deveria aquecer no o corpo, mas a alma. Chama que insiste em iluminar as entranhas.

    Este volume nos apresenta textos que fazem pensar em redeno. Mas se no h redeno possvel enquanto a chama est acesa, talvez tambm no haja quando ela se apagar. As-sim, a melancolia se enreda na trama singela e dolorida do cotidiano... Assim, cada um tenta espantar a solido que teima em se instalar ao lado, mesmo quando se est acompanhado...

    Assim, sufocam-se dores e segue a angstia de uma busca eterna. Etrea.

  • 10

    i v a m c a b r a l

    Busca que procura refgio nos afetos es-quecidos. E s encontra dor. Uma dor que se traveste de saudade de um tempo em que a feli-cidade parecia, e talvez at tenha sido, possvel.

    At que o desabafo sombrio de algum que vai morrer nos atira no rosto a verdade irrefut-vel de que s vezes as coisas no valem mesmo a pena.

    Difcil. E perturbador. Falar sobre dor e desengano sem cair na pieguice um desafio que Ivam vence com incrvel propriedade. Por isso a leitura destes textos, embora no tenham sido escritos com essa finalidade, vai atiar e assoprar as entranhas de cada leitor. E preciso estar preparado para o inevitvel, piegas ou no, aperto no corao.

    Para finalizar preciso ainda dizer que, ao longo deste livro, Ivam nos coloca como teste-munhas de que nem sempre o que transborda alivia. E eu pergunto: E se no houver alvio possvel?

    No, Ivam no vai responder. Nem eu espe-rava que o fizesse.

  • 11

    p r i m e i r a s o b r a s

    Porque, no fundo, eu e voc sabemos que talvez no haja realmente...

    erika riedel

  • 13

    Chove Muito l Fora

    What is your substance, whereof are you made,That millions of strange shadows on you tend?

    William Shakespeare

    H uma regio onde, se ela abandona o quase silncio, esse murmrio do implcito onde a

    mantinha a evidncia clssica, para recompor-se num silncio sulcado de gritos, no silncio da

    interdio, da viglia e da desforra.Michel Foucault

    Dramatis Personae

    Primeira MulherSegunda Mulher

  • 14

    i v a m c a b r a l

    VelhoProfessora de InglsHomem

    * * *

    (Noite chuvosa. No fundo do palco, uma imen-sa rvore com bolas e luzes coloridas. Uma m-sica melanclica e nostlgica invade a cena. No lado esquerdo do palco, uma imensa cadei-ra preta. Nela, a primeira mulher penteia seus cabelos, enquanto cantarola trechos de uma cano. Do lado direito, uma cadeira, tambm preta, bem menor do que a primeira)

    Segunda Mulher (Entrando) No consigo entender. Por que esta angustia? (Com dor) Por qu? Por que, meu Deus?

    Primeira Mulher (Com desdm) Voc acha que Ele poderia te ouvir?

    Segunda Mulher Ele? Quem me ouviria?

  • 15

    p r i m e i r a s o b r a s

    Primeira Mulher Esse teu Deus, a.

    (Silncio)

    Segunda Mulher Quanto tempo ainda?

    Primeira Mulher (Feliz) Meia hora!

    (Entra a Professora de Ingls. Aparenta qua-renta anos. Tem culos imensos e alguns livros embaixo do brao. Senta-se na cadeira da direi-ta do palco. Sua presena de uma solido e melancolia imensas)

    Segunda Mulher E esse tempo que no passa!

    (Silncio)

    Professora de Ingls What is your substan-ce, whereof are you made?

    (Um telefone que toca)

  • 16

    i v a m c a b r a l

    Primeira Mulher (Num sbito) No atenda!

    (O telefone continua a tocar. Nada acontece. Silncio)

    Segunda Mulher (Depois de muito tempo)Tenho medo.

    Primeira Mulher No se preocupe. Agora falta pouco.

    Segunda Mulher E por que isso acontece com a gente?

    Primeira Mulher Voc no precisa ter medo. Confie em mim e tudo vai dar certo.

    (O telefone toca mais uma vez. Agora dois to-ques apenas)

    Segunda Mulher E se forem eles?

  • 17

    p r i m e i r a s o b r a s

    (Uma msica melanclica. A segunda mulher cantarola toda a cano. A musica chega ao final. Silncio)

    Primeira Mulher Eu me lembro. Quando o telefone tocava... , eram outros tempos...

    Primeira Mulher Ento ele aparecia. Me trazia chocolates e eu ento acreditava na vida.

    (A Segunda Mulher corre ao telefone)

    Segunda Mulher (Tirando o telefone do gancho) Al... (Desesperada) No! (Desliga com fria) Malditos!

    (A Professora de Ingls gargalha enquanto fala algumas palavras ininteligveis)

    Primeira Mulher Eu disse. No adianta. Estamos sozinhas.

  • 18

    i v a m c a b r a l

    Segunda Mulher (Baixo) Eu quero morrer!

    Primeira Mulher Pare com isso! (Carinho-sa) Vem... vem... Deixe-me pente-la.

    Professora de Ingls That millions of strange shadows on you tend?

    (A mesma msica melanclica. A Segunda Mu-lher senta-se na cadeira preta vazia. A Primeira Mulher comea a acarici-la. Um Velho entra em cena e acende as luzes da enorme rvore. O Velho sai. Troves)

    Primeira Mulher No era voc que no tinha medo da chuva?

    Segunda Mulher Quando papai chegava e eu estava na rua brincando com as poas dgua... (Triste depois de um tempo) Ma-me dizia que eu parecia com os meninos da rua...

  • 19

    p r i m e i r a s o b r a s

    Primeira Mulher Mas quem apanhava era eu. Claro, eu te defendia. (Pausa) Nossa, quanta tristeza!

    Segunda Mulher Eu era feliz!

    (Mais troves. As luzes da rvore se apagam. Por alguns instantes a cena fica totalmente es-cura. A Professora de Ingls solta um profundo gemido)

    Segunda Mulher (Agarrando-se Primeira Mulher) Tenho medo!

    Professora de Ingls How long!

    Primeira Mulher Meia hora. tempo de-mais!

    Segunda Mulher Mas... e se eles no vierem?

    Primeira Mulher Voltaremos pra casa!

  • 20

    i v a m c a b r a l

    Segunda Mulher Sim. Se eles no vierem, voltaremos pra casa!

    Primeira Mulher Sabe onde fica a nossa casa?

    (Pausa longa)

    Primeira Mulher (Melanclica) . Quantas vezes no me deixaram ver a chuva. Eu chorava de medo. A solido aumentava e o tempo parecia no passar.

    (Mais uma vez o telefone toca. Cinco vezes).

    Professora de Ingls (Depois de um siln-cio) Hello... hello...

    (Uma campainha que toca)

    Segunda Mulher Sero eles?

    Primeira Mulher Espere.

  • 21

    p r i m e i r a s o b r a s

    (A Primeira Mulher sai de cena. A Professora de Ingls levanta-se e vai at o telefone)

    Primeira Mulher (Voltando) Um senhor... Quer falar com voc.

    Segunda Mulher (Com espanto) Comigo? (Pausa) O que ele quer?

    Primeira Mulher Disse que precisa te ver.

    Segunda Mulher (Pattica) E se for um deles?

    Primeira Mulher (Resoluta) No acredito.

    Segunda Mulher (Amedrontada) Mande-o embora. Diga que no estou.

    (A msica melanclica volta a tocar. A Pro-fessora de Ingls dirige-se mais uma vez sua poltrona. Cruza as pernas de maneira muito sensual)

  • 22

    i v a m c a b r a l

    Primeira Mulher Tirem essa