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A crônica Ivan Lessa Crônica, do grego chrónos, tempo, cronicar, feito Tácito, relatar o tempo ou tempos. Por que nós, brasileiros, fizemos do gênero especialidade da casa — feito muqueca de peixe ou tutu à mineira? Eu, pela parte que me cabe — e é pouquíssima a parte que me cabe —, eu tenho minhas teoriazinhas. Primeiro lugar, porque nós trabalhamos bem com poucas armas, isto é, Euclides da Cunha à parte, nosso fôlego literário é curto. Não há nenhum demérito nisso. Se a América Latina fornece caudalosos escritores, como Vargas Llosa, Roa Bastos e Alejo Carpentier, nós, por outro lado, somos excelentes no pinga-pinga do conto: o próprio Machado de Assis, Lima Barreto, Alcântara Machado, Dalton Trevisan, Clarice Lispector, Rubem Fonseca. Segundo lugar, porque nós temos consciência da extraordinária violência com que o tempo vai levando as coisas e as gentes, daí a necessidade de registrar, de alguma forma, o que se passou e passa no âmbito pessoal e intransferível. Terceiro lugar, em conseqüência disso que acabei de falar: somos muito pessoais, vemos e vivemos muito a nossa vida e a celebramos quase que no próprio instante em que ela se passa. A crônica é a nossa autobustificação, por assim dizer. Ou, em termos da realidade atual: é a nossa autonomeação para assessor disso ou secretário daquilo outro. E em quarto e último lugar: dinheiro. Não há motivo nenhum para se ficar encabulado. Quem não escreve por dinheiro não é digno da profissão. Um romance vende cinco mil exemplares e o autor, com alguma sorte, pega o equivalente a uns tantos salários mínimos.

(Ivan Lessa) A crônica

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Crônica de Ivan Lessa, intitulada "A Crônica"

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A crnica

A crnicaIvan Lessa

Crnica, do grego chrnos, tempo, cronicar, feito Tcito, relatar o tempo ou tempos.

Por que ns, brasileiros, fizemos do gnero especialidade da casa feito muqueca de peixe ou tutu mineira?

Eu, pela parte que me cabe e pouqussima a parte que me cabe , eu tenho minhas teoriazinhas.

Primeiro lugar, porque ns trabalhamos bem com poucas armas, isto , Euclides da Cunha parte, nosso flego literrio curto.

No h nenhum demrito nisso.

Se a Amrica Latina fornece caudalosos escritores, como Vargas Llosa, Roa Bastos e Alejo Carpentier, ns, por outro lado, somos excelentes no pinga-pinga do conto: o prprio Machado de Assis, Lima Barreto, Alcntara Machado, Dalton Trevisan, Clarice Lispector, Rubem Fonseca.

Segundo lugar, porque ns temos conscincia da extraordinria violncia com que o tempo vai levando as coisas e as gentes, da a necessidade de registrar, de alguma forma, o que se passou e passa no mbito pessoal e intransfervel.

Terceiro lugar, em conseqncia disso que acabei de falar: somos muito pessoais, vemos e vivemos muito a nossa vida e a celebramos quase que no prprio instante em que ela se passa.

A crnica a nossa autobustificao, por assim dizer.

Ou, em termos da realidade atual: a nossa autonomeao para assessor disso ou secretrio daquilo outro.

E em quarto e ltimo lugar: dinheiro.

No h motivo nenhum para se ficar encabulado.

Quem no escreve por dinheiro no digno da profisso.

Um romance vende cinco mil exemplares e o autor, com alguma sorte, pega o equivalente a uns tantos salrios mnimos.

Se dividirmos tempo gasto no trabalho e na vida de estante do livro, vai dar nisso mesmo: salrio mnimo.

O cronista, por outro lado, mesmo mal pago e quando bom no esse o caso , tem uns cobres garantidos no fim do ms, se o empregador for bom pagador.

Conseqentemente: a est, viva e atuante, a crnica do cronista brasileiro.

Pouco importa que o cronista ou a cronista limite-se a relatar seu encontro no bar ou sua ida ao cabeleireiro.

Tanto faz que seja elitista ou literariamente limitador.

E da que tenha menos profundidade que mergulhadores mais audazes como Milan Kundera e Marion Zimmer Bradley?

A crnica vai registrando, o cronista vai falando sozinho diante de todo mundo.

Ivan Lessa fez parte do grupo que colaborou e que, durante muito tempo, fez sucesso no jornal "O Pasquim". Carioca, filho de Orgines Lessa e Elsie Lessa, escreve com sucesso, valendo-se de um humor cheio de ironias. Auto-asilado na Inglaterra, segundo ele por ter-se desencantado com o Brasil, trabalha na BBC de Londres. O texto acima consta do livro "Ivan v o mundo", Editora Objetiva Rio de Janeiro, 1999.